[RESENHA] OS MANUSCRITOS PERDIDOS DE CHARLOTTE BRONTË (E SUA FAMÍLIA)

[RESENHA] OS MANUSCRITOS PERDIDOS DE CHARLOTTE BRONTË (E SUA FAMÍLIA)

Sinopse: “Resgatado de um naufrágio e perdido por quase dois séculos, este livro tem uma história tão incrível quanto as escritas pela família Brontë. Viajando por quase duzentos anos entre o Velho e o Novo Mundo, os manuscritos passaram por diversas mãos e sobreviveram até a um naufrágio. Mais do que os primeiros rascunhos do que viria a se tornar a obra de Charlotte, o material revela detalhes da vida de uma das famílias mais talentosas da literatura mundial. Tudo teve início em 1810, quando Maria Branwell, que se tornaria mãe das famosas irmãs Brontë, obteve um livro, em sua terra natal. Dois anos depois, ela se mudou e o exemplar estava entre seus bens que naufragaram em um navio. O livro foi recuperado intacto e tornou-se precioso para toda a Família Brontë, sendo não apenas uma fonte de leitura, mas também de anotação pelas irmãs Charlotte, Emily, Anne, seu irmão Branwell e seu pai, Patrick.”

 

Estive profundamente encantada nas últimas semanas pelo livro Os manuscritos perdidos, (várias autoras — incluindo Charlotte Brontë), sobre uma das famílias mais amadas da literatura mundial, os Brontë! Aqui temos vários ensaios sobre um livro que pertenceu à Maria Branwell, mãe dos irmãos Brontë, The remains of Henry Kirke White (1810). Este exemplar sobreviveu à um acidente de navio (sem vítimas, mas com perdas de vários objetos transportados) em 1812 e passou pelas mãos de vários colecionadores, até retornar à Inglaterra, ao Brontë Parsonage Museum, em Yorkshire.

Note que eu disse “irmãos Brontë” e não “irmãs”, como comumente digo ou dizem por aí. Maria Brontë foi mãe de Maria, Elizabeth e os (mais) famosos, Charlotte, Branwell, Emily e Anne. Branwell, único filho homem desta família, também foi escritor, além de pintor, tendo pintado, inclusive, o retrato mais famoso das irmãs Brontë (veja abaixo). Não chegou a publicar nenhum livro, sua produção artística não obteve sucesso, muito devido ao vício dele em álcool e ópio. Todos os irmãos, em maior ou menor importância LITERÁRIA, são mencionados nOs manuscritos.

 

Mas, voltando ao Remains: sabe o que este livro tem de especial? A família o usava como uma lembrança de Maria, que faleceu em 1821. Sendo assim, além de seu conteúdo original, também muito amado pelos Brontë, o livro acabou se tornando um objeto com significado de união e registros de toda a família. Eles tinham o hábito de fazer anotações nas páginas do Remains, então vocês podem imaginar o tanto de material biográfico sobre os Brontës foi encontrado ali! Além disso, encontraram, também no exemplar, alguns manuscritos de Charlotte Brontë, inéditos até então!

 

“(…) os livros parecem sítios arqueológicos: as alterações realizadas por várias mãos são como camadas de depósitos — os estratos deixando ainda outra camada de resíduos históricos com as atividades dos leitores e donos atuais. Os livros não tratam ‘apenas’ de história: eles constituem e incorporam o próprio registro histórico vivo. É precisamente porque os livros têm esse poder de encapsular o passado que servem como lembrança da efemeridade do presente. Todo ‘livro velho’ é um ‘memento mori’, que sobrevive a seus antigos donos, lembrando-nos de que somos apenas os curadores temporários da história que seguramos nas mãos.”

 

Barbara Heritage no artigo A arqueologia do livro. Memento mori é uma expressão latina que significa “lembre-se da morte”; nota da tradutora Thereza Cristina Rocque da Motta

 

 

Os manuscritos traz uma reunião de cinco ensaios de especialistas sobre esse tesouro que quase afundou no mar, foi parar nos Estados Unidos e hoje está disponível para todos os leitores que admiram essa família notável. Alguns temas acabam se repetindo, mas cada artigo usa o Remains como ponto de partida para analisar algum aspecto da vida e da obra da família Brontë.

Acredito que este seja um livro para os fãs desta família de notáveis, ou aqueles que gostam de conhecer detalhes da biografia de grandes autores. Para mim, é como se eu tivesse tendo acesso aos “bastidores” da escrita de alguns dos meus romances favoritos.

 

 

O último artigo dOs manuscritos, Reinventando o céu, de Ann-Marie Richardson, traça um paralelo entre as anotações e desenhos encontrados no Remains  e os comentários de Cathy, através da descrição de Emily Brontë em O morro dos ventos uivantes. A autora também mostra como o poema Clifton Grove, de Kirke White (transcrito nOs Manuscritos), pode ter sido uma forte inspiração para a composição do único romance de Emily. O livro de Kirke White serviu como ponte entre os filhos órfãos e a mãe (e mulher, não nos esqueçamos de que o livro era de seus tempos de solteira), Maria Branwell, que quase nada deixou de registro próprio no Remains. O apego a este livro era quase como uma invocação de um fantasma. Quem já leu O morro dos ventos uivantes também vai traçar, inevitavelmente, este paralelo, especialmente depois de ler este ensaio. Na verdade, a vontade agora é de reler o romance!

 

“O que para mim não está ligado a ela? (…) e o que não faz com que eu me lembre dela? (…) [o] mundo inteiro é uma terrível coleção de lembranças de que ela existiu, e de que eu a perdi!”

 

Trecho de O morro dos ventos uivantes retirado do livro Os manuscritos perdidos.

 

 

 

Sobre os textos inéditos de Charlotte Brontë: são esboços, obviamente. Um conto e um poema. Mas dois dos ensaios dOs manuscritos dedicam-se a examiná-los com uma super lupa: Uma visita a Haworth: unindo fantasia à realidade, de Emma Butcher, que faz uma interpretação do conto inédito em que os personagens ficcionais da Cidade de Cristal (ver Juvenília de Charlotte Brontë) chegam a Haworth e encontram os moradores; e Cristais partidos: rapazes, sede de sangue e beleza, de Sarah E. Maier, que a partir das anotações e fragmentos do Remains, reexamina a juvenília de Charlotte Brontë, com foco no tema da masculinidade.

 

 

 

Sobre o exemplar, acho que as fotos dizem mais do que eu poderia expressar: lindíssimo, capa dura, um detalhe super delicado no fechamento, todo ilustrado, colorido… Enfim, foi uma espera (namorei bastante antes de comprar!) que valeu muito, fiquei realmente surpresa com a qualidade do exemplar e do conteúdo! Os artigos são bem gostosos de ler e o prefácio foi escrito pela atriz Judi Dench, presidente da Sociedade Brontë.

 

 

As irmãs mais amadas da literatura, os três sóis.

 

 

Título: Os manuscritos perdidos

Autoras: Ann Disdale, Barbara Heritage, Emma Butcher, Sarah E. Maier, Anne-Marie Richardson e Charlotte Brontë

Prefácio: Judi Dench

Tradução: Thereza Christina Rocque da Motta

Editora: Faro Editorial

Páginas: 176

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