janeiro 18, 2016

[RESENHA] O SOL E O PEIXE, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “Aquários recortados na uniforme escuridão encerram regiões de imortalidade, mundos de luz solar constante onde não há chuva nem nuvens. Seus habitantes fazem, sem parar, evoluções cuja complexidade, por não ter nenhuma razão, parece ainda mais sublime. Exércitos azuis e prateados, mantendo uma distância perfeita apesar de serem rápidos como flecha, disparam primeiro para um lado, depois para o outro. A disciplina é perfeita, o controle, absoluto; a razão, nenhuma. A mais majestosa das evoluções humanas parece fraca e incerta comparada com a dos peixes.” É Virginia Woolf, em “O sol e o peixe”, ensaio que dá título à presente coletânea, na qual se reúnem nove de suas prosas mais poéticas. Nelas, Virginia contrasta a visão de um eclipse total do sol com a dos peixes num aquário de Londres; discorre sobre Montaigne e sobre a paixão da leitura; relembra, em traços delicados e comoventes, a convivência com o pai; teoriza sobre a nascente arte do cinema e sobre as relações entre a literatura e a pintura; enaltece as paradoxais vantagens de se ficar doente; celebra as belezas naturais de Sussex e as delícias urbanas de uma caminhada fortuita por Londres. Eis aqui Virginia, em toda a força poética de sua prosa.”

 

O Sol e o Peixe é um livro com ensaios de Virginia Woolf, selecionados e traduzidos por Tomaz Tadeu, publicado pela editora Autêntica no ano de 2015.

Os ensaios estão divididos em três temas: A vida e a arte; A rua e a casa; e O olho e a mente. O trabalho de seleção foi muitíssimo bem feito, e nós podemos verificar tal fato, pois, ao contrário de muitos livros de ensaios, esse tem certa continuidade. Você sente um ensaio levando ao outro e os finais vão justificando os que vieram primeiro, o que tornou a leitura muito agradável. A autora, que dispensa comentários, transmite em suas palavras tanto sentimento falando sobre situações em que, supostamente, não há nenhum lirismo, que acaba por abrir os nossos olhos para a poesia do dia a dia.

Sobre o subtítulo, Prosas poéticas, o tradutor explica que, com exceção dos ensaios sobre Montaigne e sobre a leitura, o que temos em O Sol e o Peixe “talvez pudessem ser considerados como pertencendo ao gênero que os franceses chamam de ‘poema em prosa’ e que teve vários praticantes ilustres como Mallarmé e Boudelaire, para não falar de Valéry. Por não se inserirem na mesma tradição, prefiro vê-los como ‘prosas poéticas’” (p.8)

Todos os ensaios são ótimos, mas elegi três como os meus favoritos. São os três que compõem A vida e a arte: Montaigne; Memórias de uma filha; e A paixão da leitura.

Falando sobre os Ensaios, de Michel de Montaigne, Virgínia Woolf nos ensina a melhor maneira de escrever:

“Todos os extremos são perigosos. É melhor ficar no meio da estrada, nas trilhas costumeiras, por mais lamacentas que sejam. Ao escrever, escolha as palavras comuns; evite a rapsódia e a eloquência – mas, é verdade, a poesia é deliciosa; a melhor prosa é aquela que está mais plena de poesia.” (p. 18)

 

Em Memórias de uma filha me tocou a forma com que a autora fala sobre o seu pai. Apesar da relação complicada que tiveram, ela o descreve com muita delicadeza.

Sobre A paixão da leitura, ela diz o que todos nós, pelo menos uma vez na vida, tivemos vontade de falar para os que não entendem (ou não querem entender) o amor que temos aos livros e à leitura:

“Assim, pois, quando os falsos moralistas nos perguntam o que ganhamos quando os nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer bons livros ao mundo e tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente.” (p. 39)

 

O Sol e o Peixe é uma leitura muito prazerosa, de uma autora incrível, com ensaios selecionados de forma muito criteriosa pelo seu tradutor, enfim, é leitura mais que recomendada!

 

 

 

Título: O Sol e o Peixe: Prosas Poéticas
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Tomaz Tadeu
Editora: Autêntica
Páginas: 112

Compre na Amazon: O Sol e o Peixe.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas, atualizada em 12/07/2018.

 

 

 



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