[RESENHA] O CAMINHO IMPERFEITO, DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

[RESENHA] O CAMINHO IMPERFEITO, DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Sinopse: “A sinistra descoberta de várias encomendas contendo partes de corpo humano num correio na Tailândia é o ponto de partida de uma longa jornada pelo país, muito além dos lugares-comuns do turismo. Todos os episódios dessa excêntrica investigação formam O caminho imperfeito e, ao mesmo tempo, constituem uma busca pelo sentido das próprias viagens, da escrita e da vida. Conhecido por seu olhar poético, aguçado e cheio de singularidade, José Luís Peixoto aqui desloca sua visão para um outro cenário, terreno fértil de novas descobertas.”

 

O interessante é que inicialmente eu pensei que a viagem seria apenas pela Tailândia. Conhecia pouca coisa sobre esse país, e o pouco que eu conhecia antes de O caminho imperfeito, de José Luís Peixoto (Dublinense, 2020), resumia-se basicamente ao estereótipo vendido pelo turismo. Era como se, fosse eu estrangeira aqui, pensasse que o Brasil é somente samba, praia e futebol. Não que seja de tudo mentira, mas sabemos que existe muito mais além disso para se conhecer. Não existe um só Brasil, como não existe uma só Tailândia, ou qualquer outro país. O que a gente sabe e vê dos lugares, aqueles os quais pertencemos ou conhecemos de passagem, depende da nossa visão de mundo. Em literatura de viagem, como no caso deste livro, depende também da visão do nosso guia.

 

Veja também: José Luís Peixoto: viagens para ler

 

O caminho imperfeito é uma viagem para a Tailândia, a Tailândia de José Luís Peixoto na companhia de seu amigo tatuador Makarov, que assina as ilustrações da publicação. Mas a viagem também passa por Portugal, Estados Unidos e, de certa forma, pela cabeça e coração de quem está lendo, mostrando alguns caminhos percorridos por quem escreveu. É estranho e pode parecer que isso que eu disse não faz o menor sentido, mas quem já leu alguma coisa do Peixoto sabe exatamente como é (se você ainda não leu, leia já). O livro é dividido em três partes, as quais dividem-se em partes menores, breves capítulos onde os destinos e as memórias — antigas e as que estão se formando na viagem — se entrelaçam.

 

“O distante perde distância quando se vai lá. Os lugares mais longínquos são aqueles onde nunca se esteve. Quando já se foi a um lugar, mesmo que seja preciso atravessar o planeta, fica a saber-se que é possível fazer esse caminho. Deixa de pertencer ao desconhecido sem detalhes, ganha formas imprevistas. Há vidas lá como há vida aqui.”

 

“O turismo é como assistir a uma telenovela numa língua que não se entende. Vê-se as personagens, os seus traços físicos, ouve-se o tom em que falam e tenta-se interpretar tudo o resto. Apanha-se um episódio aleatório, não se sabe o que aconteceu antes ou o que acontecerá depois. As certezas acerca do que se está a testemunhar variam de acordo com a confiança que cada um tenha nas suas próprias especulações.”

 

“Escrever é ouvir vozes. Escutei cada uma destas frases antes de escrevê-las. Foram escolhidas entre outras que também escutei. (…) É um trabalho de paciência. Escrever é cometer os erros certos. Não faltam perigos nesse caminho.”

Passei váááááááários dias lendo O caminho imperfeito, mas demorei de propósito! Fui parando para pensar, para pesquisar algumas coisas internet afora. Acho que também foi de propósito que demorei a escrever sobre ele. Assim, tive mais uma desculpa para pegá-lo na estante e ler um pouco mais outra vez.

 

 

Título: O caminho imperfeito

Autor: José Luís Peixoto

Ilustrações: Hugo Makarov

Editora: Dublinense

Páginas: 192

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