dezembro 03, 2019

[RESENHA] A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO, DE MARTHA BATALHA

Sinopse: “Feito raro para um romance de estreia, este livro é festejado internacionalmente antes de chegar às livrarias brasileiras, com os direitos já vendidos para mais de dez editoras estrangeiras.

Rio de Janeiro, anos 1940. Guida Gusmão desaparece da casa dos pais sem deixar notícias, enquanto sua irmã Eurídice se torna uma dona de casa exemplar.
Mas nenhuma das duas parece feliz em suas escolhas.
A trajetória das irmãs Gusmão em muito se assemelha com a de inúmeras mulheres nascidas no Rio de Janeiro no começo do século XX e criadas apenas para serem boas esposas. São as nossas mães, avós e bisavós, invisíveis em maior ou menor grau, que não puderam protagonizar a própria vida, mas que agora são as personagens principais do primeiro romance de Martha Batalha.
Enquanto acompanhamos as desventuras de Guida e Eurídice, somos apresentados a uma gama de figuras fascinantes: Zélia, a vizinha fofoqueira, e seu pai Álvaro, às voltas com o mau-olhado de um poderoso feiticeiro; Filomena, ex-prostituta que cuida de crianças; Luiz, um dos primeiros milionários da República; e o solteirão Antônio, dono da papelaria da esquina e apaixonado por Eurídice.
Essas múltiplas narrativas envolvem o leitor desde a primeira página, com ritmo e estrutura sólidos.Essas múltiplas narrativas envolvem o leitor desde a primeira página, com ritmo e estrutura sólidos. Capaz de falar de temas como violência, marginalização e injustiça com humor, perspicácia e ironia, Martha Batalha é acima de tudo uma excelente contadora de histórias. Uma promessa da nova literatura brasileira que tem como principal compromisso o prazer da leitura.”

 

A vida invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha (Companhia das Letras, 2016), é um romance sobre a invisibilidade feminina, especialmente a das mulheres brancas de classe média do Rio de Janeiro dos anos 1940. É daqueles livros que, tendo oportunidade, lemos em uma única sentada, de tão gostosa — e dinâmica —, é a sua prosa.

O livro fala muito de Eurídice, — uma mulher extremamente talentosa em tudo o que se propõe a fazer, no entanto têm sem seus talentos sufocados ou postos em segundo plano em detrimento da paz conjugal e doméstica —, mas não é apenas a vida desta personagem que é invisível. Muitas outras mulheres (e especialmente elas) têm vidas invisíveis neste romance. A genialidade da escrita de Martha Batalha está em mostrar a história com os porquês de várias pessoas, como se o livro fosse um gostoso bate papo sobre o passado dos nossos vizinhos e conhecidos (incluindo a fofoqueira da rua!). Tudo isso com um narrador onisciente e “abelhudo”, bem no estilo Machado de Assis.

O outro extremo de Eurídice, sua irmã Guida, também tem sua parcela de invisibilidade na vida. Não seríamos nós, mulheres, todas, em algum momento e de certa forma invisíveis? Muitas reconhecerão a si mesmas nas páginas deste romance, ou verão suas mães, avós, tias…  a própria autora diz, na introdução, que A vida invisível de Eurídice Gusmão, a história de Eurídice e de sua irmã, Guida, é a história das avós dela, das nossas avós. É um pouco verdade, mesmo para quem não vem de família de classe média, mas teve gerações de mulheres que só puderam levar adiante o “sonho” de serem “donas” dos próprios lares.

 

“Ela sempre achou que não valia muito. Ninguém vale muito quando diz ao moço do censo que no campo profissão ele deve escrever as palavras “Do Lar”.”

 

“Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar.”

 

O que eu mais gostei no livro foi o que a narrativa chama de “a parte de Eurídice que não queria que Eurídice fosse Eurídice”, que me lembrou muito o “Anjo do Lar”, do ensaio Profissões para mulheres (1931), de Virgínia Woolf. É aquela vozinha, uma sombra que fica nos puxando para baixo, a nós mulheres principalmente, para que não sejamos nada além de belas, recatadas (mudas, na verdade) e do lar. É algo que vem da nossa sociedade, mas também de dentro de nós mesmas, com o qual temos de lutar constantemente. A parte de nós que não quer nós sejamos aquilo que somos, seja por comodismo, medo ou qualquer outra coisa.

Acho importante ressaltar que esse livro talvez não reflita a realidade das mulheres negras. Além disso, há passagens extremamente racistas no livro, mas totalmente condizentes com a sociedade brasileira da época. Os personagens negros são estereotipados não pela autora, a meu ver, e sim pelos próprios personagens ou pela trama. Quando a gente lê sobre o feminismo negro (obrigada, Djamila Ribeiro), passamos a observar a qual público determinada pauta feminista atende, pois percebemos que as lutas feministas não são as mesmas para mulheres brancas e negras. O direito de trabalhar mesmo, você acha que algum dia foi negado às mulheres negras? Isso não quer dizer, claro, que A vida invisível de Eurídice Gusmão seja um livro panfletário, mas sendo um livro basicamente sobre mulheres é inevitável que caia sobre ele a classificação de conteúdo feminista.

Eu recomendo muito, para todos os públicos, que esse livro seja lido e que a sua adaptação cinematográfica, bastante premiada e que talvez represente o Brasil no Oscar, seja capaz de fazer com que cada vez mais pessoas leiam o livro de Martha Batalha. É uma ótima leitura, em que o drama e a ironia caminham de mãos dadas e na medida certa de um ótimo livro.

 

 

 

Título: A vida invisível de Eurídice Gusmão

Autora: Martha Batalha

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 192

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