agosto 02, 2019

[RESENHA] AMOR E AMIZADE (& OUTRAS HISTÓRIAS), DE JANE AUSTEN

Sinopse: “Acredita-se que Amor e Amizade tenha sido uma das primeiras empreitadas de Jane Austen no que viria a ser o seu ofício. Criada quando a inglesa tinha catorze anos, esta novela é composta de cartas escritas por Laura, em que conta seus infortúnios amorosos do passado. Já nesta obra Austen brinca com os clichês das histórias de amor da época — como o amor à primeira vista — e dá um verniz de sarcasmo ao enredo de reviravoltas românticas, mostrando um humor que marcaria a sua obra dali em diante.”

 

A jovem Jane Austen já era tão divertida, irônica e com olhar profundamente apurado a respeito de sua sociedade quanto a Jane Austen madura de Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, Emma, Mansfield Park e Persuasão. A Abadia de Northanger, é importante ressaltar, embora tenha sido publicado depois da morte da autora, foi escrito entre 1798 e 1799, quando Austen tinha por volta de 23 anos.

 

“Jane Austen não foi inflamada ou inspirada, ou sequer levada a ser um gênio; ela simplesmente era um gênio. Seu fogo, o que ela tinha de fogo, começou com ela mesma; como o fogo do primeiro homem que esfregou um graveto seco em outro.” (Prefácio de G. K. Chesterton, p. 14.)

 

É interessante perceber, lendo esses escritos juvenis, que Austen já tinha o seu recorte temático bem estabelecido e o dominava muito bem desde… sempre. É preciso um olhar muito apurado para escrever romances de costumes, para retratar a sua sociedade de forma tão precisa e, no caso de Austen, levemente debochada.

Amor e Amizade & outras histórias contém as narrativas epistolares Amor e Amizade, As três irmãs e Uma coletânea de cartas. Na primeira história, acompanhamos as desventuras de Laura, narradas por ela mesma, que ironizam o comportamento feminino clichê da época, regados a muitos (muitos mesmo!) desmaios, chiliques e arroubos inconsequentes. As três irmãs, meu favorito desse volume, fala sobre um pedido de casamento nada romântico (porém muito divertido) em que o noivo propõe casamento à irmã mais velha, no entanto não se importaria em se casar com qualquer outra das irmãs mais jovens. O casamento visa primordialmente firmar laços com determinada família. Quem já leu Orgulho e Preconceito tem a impressão de estar lendo um protótipo do que seria o Sr. Collins! Aliás, é impossível não ouvir ecos dos personagens ou situações dos romances de Jane Austen nas três histórias desse volume da juvenília. É como se eles já estivessem ali naquelas cartas, esperando para tomar vida em forma de romance. A história que fecha o livro, Uma coletânea de cartas, brinca com a ideia de amor à primeira vista, exaustivamente tratada em romances como algo natural e até corriqueiro, mas que, cá entre nós, é a coisa mais difícil de acontecer na vida real.

 

“Enlouqueça com a frequência que quiser; mas não desmaie.” (de Amor e Amizade, p. 58)

 

“A felicidade perfeita não é patrimônio dos mortais, e ninguém tem o direito de esperar uma felicidade ininterrupta.” (de Uma coletânea de Cartas, p. 110)

 

“Há certa sensatez na pessoa que se apaixona à primeira vista.” (de Uma coletânea de Cartas, p. 116)

 

Amor e Amizade & outras histórias chegou para mim de presente, como mimo da caixinha de julho da TAG Curadoria, integrando um box de clássicos que ainda contém A mão e a luva, de Machado de Assis e Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare. A edição é uma gracinha, no formato de caderno moleskine (foto abaixo)! Mas se você não é assinante da TAG Experiências Literárias e deseja ler a juvenília de Jane Austen, uma edição de mesmo conteúdo já foi lançada pela L&PM Pocket (com prefácio maravilhoso de G. K. Chesterton, com trecho destacado acima). A Companhia das Letras também já lançou uma edição com vários textos da juvenília de Jane Austen e Charlotte Brontë que vale a pena conferir (links abaixo)!

 

 

 

Título: Amor e Amizade & outras histórias

Autor: Jane Austen

Prefácio: G. K. Chesterton

Tradução: Rodrigo Breunig

Editora: TAG Experiências Literárias / L&PM Pocket

Páginas: 128

 

 

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julho 24, 2019

[RESENHA] MORRESTE-ME, DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Sinopse: “”Morreste-me” foi o livro que revelou o escritor português José Luís Peixoto. Publicada em 2000, é uma obra tocante e comovente: é o relato da morte do pai, o relato do luto e, ao mesmo tempo, uma homenagem, uma memória redentora. “Um dos escritores mais dotados de seu país.” Le monde “Peixoto tem uma extraordinária forma de interpretar o mundo, expressa pelas suas escolhas certeiras de linguagem e de imagens.” Times Litterary Supplement”

 

Morreste-me, de José Luís Peixoto, é simplesmente o livro mais lindo que li na vida. Delicado e profundo é uma prosa poética sobre a perda que corrói e muda definitivamente a nossa vida: a orfandade.

 

“Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velhinho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei.” (p. 19)

 

Morreste-me é uma narrativa em quatro partes/capítulos, mas com uma única unidade temática, que é o relato da morte do pai e da morte de uma parte da existência do filho com o pai agora ausente. É um livro pequeno, mas que o leitor precisa fazer algumas pausas durante a leitura, seja para respirar fundo ou mesmo para chorar, dependendo das lembranças pessoais que podem surgir com essa leitura. É muito comovente. Nunca li algo tão sensível sobre uma parte tão cruel da minha própria vida. Morreste-me, poético desde o título, é uma leitura para quem quer entender o sentimento do filho, o lugar que resta ao filho com a morte do pai. Só quem viveu a “dor oceânica” de ver quem lhe deu a vida escapar-lhe como um sopro, como a água que escorre das mãos, sabe o quanto é difícil continuar existindo. Estaremos sempre buscando as memórias do nosso passado para não nos esquecermos quem realmente somos, isso é certo. Mas os sujeitos com quem compartilhamos essas vivências não estarão mais aqui para confirmar nossas memórias e preencher as lacunas dela. E assim será por toda a eternidade que nos resta aqui. Foi o que senti e o que recordei com essa leitura. Recomendo.

 

 

 

 

 

Título: Morreste-me

Autor: José Luís Peixoto

Editora: Dublinense

Páginas: 64

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julho 24, 2019

[RESENHA] A CRIANÇA EM RUÍNAS, DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Sinopse: “Após o sucesso de Morreste-me, José Luís Peixoto retoma o seu principal tema – o luto – com a mesma sensibilidade e grandeza na construção imagética. Transitando desde a melancolia à beleza do nascimento, do saudosismo ao cansaço, aqui encontramos “o último esconderijo da pureza”: seus versos. Livro vencedor do Prêmio da Sociedade Portuguesa de Autores.”

 

A criança em ruínas é uma leitura que retoma, de certa forma, o sentimento exposto em Morreste-me. José Luís Peixoto mais uma vez demonstra, com toda a sensibilidade que lhe rendeu diversos prêmios literários, a beleza que ocorre quando os versos encontram o sentido no simples, em exprimir a humanidade das coisas.

 

“Na hora de pôr a mesa, éramos cinco:

o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs

e eu. depois, a minha irmã mais velha

casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,

na hora de pôr a mesa, somos cinco,

menos a minha irmã mais velha que está

na casa dela, menos a minha mãe viúva. cada um

deles é um lugar vazio nesta mesa onde

como sozinho. mas irão estar sempre aqui.

na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.

enquanto um de nós estiver vivo, seremos

sempre cinco.” (p. 10)

 

“felizmente, há os versos, último esconderijo da pureza.

porque o destino são os versos e os pombos que cruzam

o céu em círculos que sempre regressam.” (p. 25)

 

“eram as estrelas, caminhante,

o mapa que não soubeste decifrar

mas vais continuar e continuar

perdido para sempre.” (p. 45)

 

“(…) o amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer. (…)” (p. 48)

 

 

Em A criança em ruínas, juntam-se ao luto as reflexões sobre a infância, o saudosismo, o amor e a dor de viver. É um livro espelho, fatalmente (ou não) o leitor se reconhecerá nos versos de Peixoto.

 

 

 

 

Título: A criança em ruínas

Autor: José Luís Peixoto

Editora: Dublinense

Páginas: 80

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