janeiro 21, 2016

[RESENHA] UM TETO TODO SEU, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “Baseado em palestras proferidas por Virginia Woolf nas faculdades de Newham e Girton em 1928, o ensaio Um teto todo seu é uma reflexão acerca das condições sociais da mulher e a sua influência na produção literária feminina. A escritora pontua em que medida a posição que a mulher ocupa na sociedade acarreta dificuldades para a expressão livre de seu pensamento, para que essa expressão seja transformada em uma escrita sem sujeição e, finalmente, para que essa escrita seja recebida com consideração, em vez da indiferença comumente reservada à escrita feminina na época. Esta edição traz, além do ensaio, uma seleção de trechos dos diários de Virginia, uma cronologia da vida e da obra da autora e um posfácio escrito pela crítica literária e colaboradora da Folha de S. Paulo Noemi Jaffe.”

 

Um Teto Todo Seu é um ensaio de Virginia Woolf, em que ela disserta sobre o tema “as mulheres e a ficção”. Esse livro é o produto das ideias para uma palestra que Woolf foi convidada a ministrar, na década de 1920, em duas faculdades inglesas exclusivas para mulheres e que muito tem ainda a nos ensinar nos dias de hoje.

A autora parte do questionamento sobre o que é necessário para que uma mulher escreva ficção. Seria, basicamente, ter um lugar sossegado para escrever e certa independência financeira; além de alguma validação social. Mas Virginia Woolf vai mais a fundo e nos permite enxergar além do óbvio para entender que a situação das mulheres pode não ser das mais favoráveis, seja em 1920 ou nos dias de hoje, ao desenvolver determinados trabalhos que não são esperados para o sexo feminino.

Em tempos de acaloradas discussões sobre a violência contra a mulher, feminicídio, desigualdade entre os sexos etc., eis que Virginia Woolf nos apresenta a “alegoria do espelho”, a fim de ilustrar o papel da mulher em relacionamentos abusivos. A mulher ao longo da história faz, na visão de Woolf, o papel de um espelho que reflete a imagem engrandecida do homem, e desta forma está sempre diminuída em comparação a ele. Infelizmente ainda vemos casos diários de assédio e violência contra a mulher, mas se informar sobre o assunto é o primeiro passo para mudar esta realidade. Muita coisa já mudou, mas ainda estamos no caminho.

 

 “As mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro do tamanho natural. Sem esse poder, provavelmente, a terra ainda seria pântanos e selvas. As glórias de todas as nossas guerras seriam desconhecidas.” (p. 54)

 

“Seja qual for o seu uso nas sociedades civilizadas, os espelhos são essenciais para todas as ações violentas e heroicas. É por isso que tanto Napoleão quanto Mussolini insistiam tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, se elas não fossem inferiores, eles deixariam de crescer. Isso explica, em parte, a necessidade que as mulheres representam para os homens. E serve para explicar como eles ficam incomodados com as críticas delas; como é impossível para elas dizerem que tal livro é ruim, tal quadro é medíocre, ou o que quer que seja, sem infligir muito mais tormento  e despertar muito mais raiva do que um homem teria causado ao fazer a mesma crítica. Pois se ela resolver falar a verdade, a figura no espelho diminuirá. Como ele continuará a fazer julgamentos, civilizar nativos, criar leis, escrever livros, vestir-se bem e discursar em banquetes, a menos que consiga ver a si mesmo no café da manhã e no jantar com pelo menos o dobro do tamanho que realmente tem?” (p. 55) 

 

O papel da mulher na ficção é também explicado pela autora, de forma que desfaz um mal entendido histórico: a mulher é personagem de destaque em inúmeras obras literárias ao longo dos anos, mas isso não quer dizer representatividade. Ela existiu, em muitos casos, pela visão de um homem. Nem sempre foi possível que uma mulher escrevesse sobre os desejos e anseios de seu sexo. Ela era o sol, a musa inspiradora para muitos autores, mas em casa ela tinha um papel muito diferente.

“É de se imaginar que ela seja da maior importância; na prática ela é completamente insignificante. Ela permeia a poesia de capa a capa; está sempre presente na história. Domina a vida de reis e conquistadores na ficção; na vida real, era escrava de qualquer garoto cujos pais lhe enfiassem um anel no dedo. Algumas palavras mais inspiradas, alguns pensamentos mais profundos da literatura vieram de seus lábios; na vida real, ela pouco conseguia ler, mal conseguia soletrar e era propriedade do marido.” (p. 67)

 

Outro argumento de destaque da autora é que se Shakespeare tivesse uma irmã igualmente (ou mais) talentosa, teria ela as mesmas condições e oportunidades que o bardo? Teria tido a mesma educação, a mesma liberdade? Teria tido tempo para ler, sem interrupções, os clássicos da literatura mundial, assim como seu irmão? Teria tido um teto todo seu para escrever? Em sua adolescência, poderia escolher não se casar com o noivo pretendido por seu pai? São questionamentos plausíveis que nos fazem refletir sobre a desigualdade entre homens e mulheres, desde os tempos mais remotos. Seria essa história comum, pelo menos em partes, ainda nos dias de hoje?

Sorte a nossa que tivemos algumas mulheres corajosas ao longo do tempo que decidiram, em épocas que não era permitido a elas decidir, escrever e buscarem ser lidas. Essas mulheres despertaram e ainda despertam em nós o desejo de ir em frente, pois se elas conseguiram em tempos mais difíceis, hoje nós podemos.

Esta edição da Editora Tordesilhas conta, ainda, com o posfácio de Noemi Jaffe, escritora e crítica literária brasileira, e de fragmentos do diário de Virginia Woolf, em que ela fala sobre a publicação de Um Teto Todo Seu. Vale a pena ter na coleção!

 

 

Título: Um Teto Todo Seu
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Bia Nunes de Sousa
Editora: Tordesilhas
Páginas: 192

Compre na Amazon: Um Teto Todo Seu.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas, atualizada em 12/07/2018.

 

 

 

janeiro 18, 2016

[RESENHA] O SOL E O PEIXE, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “Aquários recortados na uniforme escuridão encerram regiões de imortalidade, mundos de luz solar constante onde não há chuva nem nuvens. Seus habitantes fazem, sem parar, evoluções cuja complexidade, por não ter nenhuma razão, parece ainda mais sublime. Exércitos azuis e prateados, mantendo uma distância perfeita apesar de serem rápidos como flecha, disparam primeiro para um lado, depois para o outro. A disciplina é perfeita, o controle, absoluto; a razão, nenhuma. A mais majestosa das evoluções humanas parece fraca e incerta comparada com a dos peixes.” É Virginia Woolf, em “O sol e o peixe”, ensaio que dá título à presente coletânea, na qual se reúnem nove de suas prosas mais poéticas. Nelas, Virginia contrasta a visão de um eclipse total do sol com a dos peixes num aquário de Londres; discorre sobre Montaigne e sobre a paixão da leitura; relembra, em traços delicados e comoventes, a convivência com o pai; teoriza sobre a nascente arte do cinema e sobre as relações entre a literatura e a pintura; enaltece as paradoxais vantagens de se ficar doente; celebra as belezas naturais de Sussex e as delícias urbanas de uma caminhada fortuita por Londres. Eis aqui Virginia, em toda a força poética de sua prosa.”

 

O Sol e o Peixe é um livro com ensaios de Virginia Woolf, selecionados e traduzidos por Tomaz Tadeu, publicado pela editora Autêntica no ano de 2015.

Os ensaios estão divididos em três temas: A vida e a arte; A rua e a casa; e O olho e a mente. O trabalho de seleção foi muitíssimo bem feito, e nós podemos verificar tal fato, pois, ao contrário de muitos livros de ensaios, esse tem certa continuidade. Você sente um ensaio levando ao outro e os finais vão justificando os que vieram primeiro, o que tornou a leitura muito agradável. A autora, que dispensa comentários, transmite em suas palavras tanto sentimento falando sobre situações em que, supostamente, não há nenhum lirismo, que acaba por abrir os nossos olhos para a poesia do dia a dia.

Sobre o subtítulo, Prosas poéticas, o tradutor explica que, com exceção dos ensaios sobre Montaigne e sobre a leitura, o que temos em O Sol e o Peixe “talvez pudessem ser considerados como pertencendo ao gênero que os franceses chamam de ‘poema em prosa’ e que teve vários praticantes ilustres como Mallarmé e Boudelaire, para não falar de Valéry. Por não se inserirem na mesma tradição, prefiro vê-los como ‘prosas poéticas’” (p.8)

Todos os ensaios são ótimos, mas elegi três como os meus favoritos. São os três que compõem A vida e a arte: Montaigne; Memórias de uma filha; e A paixão da leitura.

Falando sobre os Ensaios, de Michel de Montaigne, Virgínia Woolf nos ensina a melhor maneira de escrever:

“Todos os extremos são perigosos. É melhor ficar no meio da estrada, nas trilhas costumeiras, por mais lamacentas que sejam. Ao escrever, escolha as palavras comuns; evite a rapsódia e a eloquência – mas, é verdade, a poesia é deliciosa; a melhor prosa é aquela que está mais plena de poesia.” (p. 18)

 

Em Memórias de uma filha me tocou a forma com que a autora fala sobre o seu pai. Apesar da relação complicada que tiveram, ela o descreve com muita delicadeza.

Sobre A paixão da leitura, ela diz o que todos nós, pelo menos uma vez na vida, tivemos vontade de falar para os que não entendem (ou não querem entender) o amor que temos aos livros e à leitura:

“Assim, pois, quando os falsos moralistas nos perguntam o que ganhamos quando os nossos olhos percorrem essa pilha de páginas impressas, podemos responder que estamos fazendo nossa parte como leitores no processo de colocar obras-primas no mundo. Estamos fazendo nossa parte na tarefa criativa – estamos estimulando, encorajando, rejeitando, mostrando nossa aprovação ou desaprovação; e estamos, assim, testando e incentivando o escritor. Esta é uma das razões para se ler livros – estamos ajudando a trazer bons livros ao mundo e tornar os ruins impossíveis. Mas essa não é a real razão. A real razão continua inescrutável – a leitura nos dá prazer. É um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Mas ele é suficiente.” (p. 39)

 

O Sol e o Peixe é uma leitura muito prazerosa, de uma autora incrível, com ensaios selecionados de forma muito criteriosa pelo seu tradutor, enfim, é leitura mais que recomendada!

 

 

 

Título: O Sol e o Peixe: Prosas Poéticas
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Tomaz Tadeu
Editora: Autêntica
Páginas: 112

Compre na Amazon: O Sol e o Peixe.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas, atualizada em 12/07/2018.

 

 

 

janeiro 14, 2016

[RESENHA] VÁ, COLOQUE UM VIGIA, DE HARPER LEE

Sinopse: “A continuação de O sol é para todos, um dois maiores clássicos da literatura mundial Jean Louise Finch, mais conhecida como Scout, a heroína inesquecível de O sol é para todos, está de volta à sua pequena cidade natal, Maycomb, no Alabama, para visitar o pai, Atticus. Vinte anos se passaram. Estamos em meados dos anos 1950, no começo dos debates sobre segregação, e os Estados Unidos estão divididos em torno de questões raciais. Confrontada com a comunidade que a criou, mas da qual estava afastada desde sua mudança para Nova York, Jean Louise passa a ver sua família e amigos sob nova perspectiva e se espanta com inconsistências referentes à ética e a pensamentos nos âmbitos político, social e familiar.”

 

Há muito tempo ouço o nome da escritora Harper Lee com curiosidade, pois é dela o romance O Sol é para todos, ganhador do Prêmio Pulitzer de ficção em 1961, além de grande Best-seller. Em 2015, participei da leitura conjunta encabeçada pelo blog Literature-se, usando a hashtag #LendoHarperLee, e mal pude acompanhar o cronograma! A história me fisgou de tal maneira que terminei antes do previsto, como muitos outros participantes. Graças ao #LendoHarperLee eu finalmente embarquei naquela que foi uma das minhas melhores leituras de 2015! Obrigada, Mel Ferraz!

Um tempo depois eu soube que a continuação de O Sol é para todos seria publicada. Mas Vá, coloque um vigia não é bem uma sequência… A história por trás da publicação deste segundo livro é um pouco mais complicada e obscura. Ao que consta, Vá, coloque um vigia seria a história original, mas o editor de Harper Lee pediu que a história fosse abrandada, o que a fez reescrever o romance sob a ótica da personagem Jean Louise, a Scout, quando criança, narrando outros eventos. Esses eventos acabam por explicar o enredo de Vá, coloque um vigia, que ficou esquecido no fundo da gaveta por muitos anos. Há pouco tempo o manuscrito deste livro foi encontrado e a autora permitiu a sua publicação. Como Harper Lee, já em idade avançada, vive reclusa em um asilo, muitas versões sobre a publicação de seu segundo livro pipocaram na internet, então é difícil saber o que é verdade ou não. Motivada pela leitura de O Sol é para todos, e também pela polêmica em torno de Vá, coloque um vigia, resolvi comprar o livro na pré-venda, embora tenha demorado dois meses para embarcar nesta nova leitura.

Vá, coloque um vigia foi publicado aqui no Brasil pela José Olympio Editora, pouco depois do lançamento nos EUA e em vários outros países. Enquanto esperava pela tradução, a internet (ou seria a minha curiosidade?) me brindou com todo o tipo de spoilers de leitores decepcionados com o livro e até soube de livrarias que estavam devolvendo o dinheiro de quem comprou na pré-venda! Comprei com medo de ler e por isso acabei demorando para ver eu mesma do que se tratava. Confesso que perdi tempo à toa: a leitura foi boa, rápida, mas não chega nem perto de O Sol é para todos.

A história narra a viagem de férias em que Jean Louise Finch, a nossa pequena travessa Scout, vai para a casa de seu pai, Atticus Finch. O que seria algo não só normal como eventual torna-se uma jornada de autoconhecimento para a protagonista. Nesta viagem ela passa por situações que põem em xeque tudo aquilo que ela pensou saber sobre o seu pai. O livro fala daquilo que sentimos quando percebemos que um ente querido é tão humano quanto nós; que também tem defeitos. Paralela à história com Atticus, acompanhamos seu romance com Hank, cria de Maycomb, com quem ela mantém um noivado a distância, muito por medo de voltar a sua cidade natal, pois ela não se sente uma mulher do lugar. Jean Louise adulta é tão desajustada quanto foi na infância.

 

“Minha tia é uma estranha hostil, minha Calpúrnia não quer saber de mim, Hank enlouqueceu e Atticus… Tem alguma coisa errada comigo, o problema é comigo. Tem que ser, porque todas essas pessoas não podem ter mudado assim. Por que eles não ficam de cabelo em pé? Como podem acreditar piamente em tudo o que ouvem na igreja e depois dizer o que dizem, e ouvir o que ouvem e não vomitar? Eu pensei que fosse cristã, mas não sou. Sou outra coisa, e não sei o quê. Tudo o que eu sei sobre o que é certo ou errado aprendi com essas pessoas… essas mesmas pessoas. Portanto, o problema sou eu, não eles. Alguma coisa aconteceu comigo.”

 

Como eu disse anteriormente, é uma boa leitura. Recomendo para aqueles que leram e gostaram de O Sol é para todos, mas com ressalvas. Não espere a mesma qualidade e o mesmo fascínio com essa história, mas algumas horas de bom entretenimento de volta à velha Maycomb estão garantidas!

 

 

 

Título: Vá, coloque um vigia
Autora: Harper Lee
Tradução: Beatriz Horta
Editora: José Olympio
Páginas: 252

 

Compre pela Amazon:

O sol é para todos
Vá, Coloque Um Vigia

 

 

Referências:

Harper Lee, autora de “O Sol é para todos”, publica o primeiro livro em 55 anos

‘Vá, Coloque um Vigia’, o livro inédito de Harper Lee

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