setembro 22, 2016

[RESENHA] DEPOIS DE VOCÊ, DE JOJO MOYES

Sinopse: “Com mais de 5 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, Como eu era antes de você conta a história do relacionamento entre Will Traynor e Louisa Clark, cujo fim trágico deixou de coração apertado os milhares de fãs da autora Jojo Moyes.Em Depois de você, Lou ainda não superou a perda de Will. Morando em um flat em Londres, ela trabalha como garçonete em um pub no aeroporto. Certo dia, após beber muito, Lou cai do terraço. O terrível acidente a obriga voltar para a casa de sua família, mas também a permite conhecer Sam Fielding, um paramédico cujo trabalho é lidar com a vida e a morte, a única pessoa que parece capaz de compreendê-la.Ao se recuperar, Lou sabe que precisa dar uma guinada na própria história e acaba entrando para um grupo de terapia de luto. Os membros compartilham sabedoria, risadas, frustrações e biscoitos horrorosos, além de a incentivarem a investir em Sam. Tudo parece começar a se encaixar, quando alguém do passado de Will surge e atrapalha os planos de Lou, levando-a a um futuro totalmente diferente”

 

 

Veja a resenha de Como eu era antes de você, aqui.

 

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Não pense muito em mim… Apenas viva bem. Apenas viva.”

Terminada a leitura de Como eu era antes de você, muitos fãs se dividiram entre saber ou não sobre o destino de Lou após os acontecimentos com o Will. Particularmente, considerei a história como acabada. Que graça teria sem o Will? Entretanto, se na vida real sempre existe um depois, por que não também na literatura?

Jojo Moyes falou, em entrevista ao blog da editora Intrínseca, sobre o livro Depois de você:

Desde o dia em que Como eu era antes de você foi publicado as pessoas me mandam e-mails e mensagens nas redes sociais para falar sobre os personagens, especialmente sobre Lou, me perguntando o que ela fez após o fim da história. Essas questões e o trabalho no roteiro do filme fizeram com que ela nunca saísse da minha cabeça como outros personagens saem, e me vi fazendo a mesma pergunta: o que ela teria feito em seguida? Louisa passou por algo grandioso, e deixei o final em aberto. Um dia acordei com uma ideia e então soube que tinha que escrever a continuação”

 

Influenciada por uma amiga, embarquei nesta leitura e tive uma grata surpresa: Depois de você é uma ótima história, capaz de emocionar sendo bastante realista.

Não espere uma Louisa Clark tranquila e com a vida bem encaminhada, seguindo em frente, apenas com boas lembranças dos momentos vividos com o Will. Ela está longe de ter superado tudo o que aconteceu. Mora em um apartamento quase sem mobília, em Londres, trabalha em uma lanchonete de aeroporto e nada mais. Sua vida é uma sucessão de dias tristes e vazios. Contudo, dois acontecimentos prometem movimentar um pouco as coisas.

A jovem sofre um pequeno acidente, e é socorrida por Sam, um paramédico que será fundamental em sua recuperação, tanto física quando emocionalmente. Ele é um personagem encantador e, por estar diariamente lidando com a morte, é capaz de entender a confusão que está a vida de Lou.

Nunca se sabe o que vai acontecer quando se cai de uma grande altura.” (p. 186)

 

O leitor, desde o começo, já percebe que haverá entre os dois um envolvimento romântico. Contudo, não vai ser nada fácil para Sam trazer Lou de volta à vida. O trauma de perder alguém ainda estava muito recente e outra pessoa do passado de Will aparece para movimentar ainda mais as coisas, a jovem Lily.

Amei um homem que me mostrara o mundo, mas que não me amara o suficiente para permanecer nele. E no momento eu estava morrendo de medo de amar alguém que retribuía meu amor, caso… caso o quê?” (p. 265)

 

Confesso que todo o contexto da história da Lily só me agradou ao final da leitura. Ela e Lou amadureceram juntas, mas a relação das duas, na maior parte do livro, ficou forçada e cansativa. Levando em consideração que Lou ainda estava emocionalmente abalada, até dá para compreender toda a dedicação e paciência que ela teve para salvar Lily de suas próprias confusões. Entretanto, talvez a história tivesse fluido melhor se menos páginas tivessem sido dedicadas a ela.

Um conjunto de personagens que rendeu boas histórias, com uma leve pitada de humor negro, é o grupo de terapia de luto que Lou passa a fazer parte após o acidente. Seus pais, pensando que ela havia tentado se matar, fazem-na participar de algumas sessões, que ajudaria superar definitivamente esse capítulo tão dramático de sua vida chamado Will. O interessante deste livro é mostrar que o luto não é uma coisa que se supera em tempo determinado. Cada pessoa encara de um jeito e o supera no seu tempo.

As pessoas se cansam do luto – comentou Natasha. – É como se tacitamente nos dessem um tempo, seis meses, talvez, e depois ficassem um pouco irritadas por você não ter ‘melhorado’. É como se estivéssemos sendo autoindulgentes ao nos prender à nossa infelicidade.” (p. 297)

 

A família de Lou continua tão maluca quanto antes, com o adendo que neste segundo livro a mãe da jovem torna-se feminista e quebra, por assim dizer, o equilíbrio familiar. Os pais de Will seguiram como indicava o final de Como eu era antes de você: separados e cada qual com a sua nova realidade.

Depois de você é uma boa leitura; Jojo Moyes não deixa nada do livro anterior sem explicação. Mesmo vivendo um drama, acompanhamos Lou em sua nova tentativa de ser feliz e, de certa forma, tudo caminha para um final feliz. Contudo, aqui também não temos um final fechado, mas um felizes da maneira que a vida permite ser possível.

Antes que eu pudesse pensar, me debrucei sobre a mesinha, estiquei o braço para alcançar sua nuca e o beijei. Ele hesitou apenas por um instante, depois se inclinou para frente e retribuiu o beijo. A certa altura, acho que alguém derrubou uma taça de vinho, mas eu não conseguia parar. Queria beijá-lo para sempre. Bloqueei todos os pensamentos sobre o que estava acontecendo, o que significava, em que outra confusão eu poderia me meter. Vamos, viva, falei para mim mesma. E o beijei até deixar a parte racional de lado e me tornar um impulso, viva apenas para fazer o que eu queria com ele.” (p. 140)

 

Como eu era antes de você é uma leitura mais marcante, mas Depois de você é uma ótima continuação. Atinge aos objetivos que se propõe e vale a pena a leitura.

 

 

Título: Depois de Você
Autora: Jojo Moyes
Tradução: Adalgisa Campos da Silva
Editora: Intrínseca
Páginas: 320

 

Compre na Amazon: Depois de Você.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

setembro 22, 2016

[RESENHA] A MARCA NA PAREDE, CONTO DE VIRGINIA WOOLF

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Virginia Woolf (1882-1941) é uma escritora bastante conhecida por romances como Mrs. Dalloway, Orlando, Rumo ao Farol, e também por seus ensaios, muitos com temática feminista. Mas uma faceta que, para muitos, ainda pode ser desconhecida, é o talento da autora também na escrita de contos. Quando a rotina fica meio apertada, mas não queremos deixar de ler alguma coisa, uma boa opção é embarcar em histórias curtas, que podem proporcionar leituras tão agradáveis quanto os grandes romances.

O título foi indicação da Francine Ramos, do blog Livro e Café, que está promovendo o Clube de Leitura de Virginia Woolf no facebook. Ainda que não tenha sido possível, para mim, acompanhar o cronograma de leituras, o Clube é uma boa dica para quem deseja conhecer mais sobre Virginia Woolf e suas obras.

A Marca na Parede foi escrito entre 1917 e 1921, período em que o mundo era palco da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Nele, a partir de uma simples marca na parede, embarcamos em uma jornada mental sobre tudo o que aquela marca poderia significar.

 

Foi em meados de janeiro deste ano que olhei pela primeira vez para cima e vi a marca na parede. Para fixar uma data é preciso lembrar o que se viu. Por isso eu penso agora no fogo; no inalterável véu de luz amarela sobre a página do meu livro; nos três crisântemos na jarra de vidro redonda na lareira. Sim, deve ter sido no inverno, e tínhamos acabado de terminar o nosso chá, pois lembro que eu estava fumando quando olhei para cima e vi a marca na parede pela primeira vez.” (p. 11)

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Além da técnica do fluxo de consciência, muito marcante nas obras da autora, também é uma felicidade ler ecos do discurso feminista tão bem elaborado e defendido na produção literária de Woolf.

 

Quão chocante, no entanto quão maravilhoso, descobrir que essas coisas verdadeiras, os almoços de domingo, os passeios de domingo, as casas de campo e as toalhas de mesa, não eram afinal tão verdadeiras assim, sendo de fato meio fantasmais, e que a danação que se abatia sobre quem não acreditava nelas era apenas um impressão de liberdade ilegítima. O que agora toma o lugar dessas coisas, pergunto-me, dessas coisas importantes e sérias? Talvez os homens, caso você seja mulher; o ponto de vista masculino que governa nossas vidas, que fixa o padrão, que estabelece a Ordem de Precedência de Whitaker, a qual desde a guerra se tornou meio fantasma, suponho eu, para muitos homens e mulheres, e que em breve, é lícito esperar, será motivo de riso na lata de lixo para onde vão os fantasmas, os bufês de mogno e as gravuras de Landseer, deuses e demônios, o Inferno e assim por diante, deixando-nos a todos uma impressão intoxicante de liberdade ilegítima – se existe liberdade…” (p. 18)

 

A Marca na Parede é um conto curto, porém muito bem escrito e trabalhado. É uma viagem na mente desta autora maravilhosa! Sim, creio que na mente dela mesmo, pois não há descrição de nomes dos personagens neste conto. Talvez seja um eu lírico, mas prefiro pensar que é a própria Virginia Woolf, em sua prosa poética. A marca na parede? Era uma coisa bastante simples. Tão simples quanto surpreendente.

Você pode encontrar este conto para leitura em coletâneas de contos da autora. As que conheço e recomendo são as edições da Cosac Naify, de contos completos ou selecionados, este último na edição portátil (de bolso), disponível em e-book e livro físico, na Amazon.

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

setembro 08, 2016

[RESENHA] MRS. DALLOWAY, FILME 1997

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Também conhecido no Brasil como Sra. Dalloway (ou, ainda, como A Última Festa), a adaptação cinematográfica do romance homônimo de Virginia Woolf tenta trazer para a tela toda a complexidade da narrativa da autora, que ficou conhecida por usar o fluxo de consciência, especialmente neste romance.

Uma história a princípio bem simples, de uma senhora envolvida nos preparativos de uma festa que dará em sua casa durante a noite. O cenário é Londres e sua alta burguesia, além de uma melancolia altamente palpável.

É impossível falar de Mrs. Dalloway, seja o romance ou a adaptação para o cinema, sem antes mencionar o famoso método narrativo o qual Virginia Woolf ficou também bastante conhecida: o fluxo de consciência.

O fluxo de consciência é um método narrativo da época modernista, em que os padrões clássicos são postos de lado e os autores exploram a interioridade dos personagens em relação ao mundo e a sociedade. Como muitos dizem, o fluxo de consciência é a literatura dentro da mente dos personagens. Em Mrs. Dalloway, a autora nos mostra o confronto entre a realidade interior de cada personagem e a realidade exterior do mundo.

Clarissa Dalloway vai dar uma festa e neste dia lembra-se de seu passado, refletindo sobre suas escolhas, acertos e possíveis erros. Na juventude, ela namora Peter Walsh e tem uma relação bastante próxima com Sally, mas casa-se com Richard Dalloway, muito por este ser uma opção que lhe garantiria maior segurança e conforto. Ela tem uma ótima vida, pertence à alta classe londrina, tem um bom marido, planeja uma festa… mas ao mesmo tempo está em desequilíbrio interiormente. O reencontro com Peter Walsh, anos depois, no dia de sua festa, acentua o seu conflito interno.

Peter também vive seu conflito, pois embora não se preocupe com as aparências, como seu antigo amor, não conseguiu superar os sentimentos do passado, sobretudo o fato de Clarissa ter se casado com Richard. Viveu sua vida sem grandes realizações, foi para a Índia, apaixonou-se por uma mulher mais nova, mas seu amor por Clarissa sempre esteve e sempre estará ali, numa parte significativa de seu coração. Sente-se insatisfeito pela pessoa que ele acha que Clarissa se tornou; fria, distante e preocupada com as opiniões da sociedade em que vive.

Richard Dalloway foi o único personagem que se manteve tal como era em sua juventude: tinha aspirações políticas e seguiu carreira. Construiu sua vida ao lado de Clarissa, com uma rotina amorosa e confortável. Sally, embora ainda com suas opiniões sobre o mundo e as pessoas, tornou-se a esposa de um industrial e mãe de cinco filhos, tendo uma rotina quase tão caseira quanto Mrs. Dalloway.

O filme também mostra as marcas da Primeira Guerra Mundial em um jovem veterano, Septimus Smith, que ficou neurótico com a morte de seu superior Evans, além das experiências que viveu nas trincheiras. Prestes a ser internado em um manicômio, ele suicida-se pulando da janela de sua casa. Sua morte é mencionada na festa de Mrs. Dalloway e deixa a anfitriã ainda mais pensativa sobre os rumos que a vida pode tomar.

O filme consegue fazer o paralelo entre passado e presente, reflexões e acontecimentos reais. Ainda assim, acredito que a leitura possa ser mais esclarecedora, sobretudo pela questão do fluxo de consciência. Para quem, como eu, ainda não leu o romance, não fica tão difícil de entender o roteiro de Eilleen Atkins, desde que o método narrativo da obra original seja lembrado.

Mrs. Dalloway pode ser cada uma de nós. Uma mulher que viveu sua juventude com toda a paixão que conseguia e que, na velhice, torna-se uma pessoa diferente, saudosa de seu passado. Sua preocupação maior é que todos se divirtam e tenham uma noite agradável em sua festa, contudo, em sua juventude, seus amigos acreditavam que ela pudesse ter um futuro bem mais promissor. Vive toda a melancolia de sua idade, mas não posso dizer que a achei uma personagem infeliz. Casou-se bem, como já dito, e vive uma rotina tranquila. Entretanto, uma parte dela questiona-se sobre como teria sido se ela tivesse escolhido outro caminho.

Assistir essa adaptação me fez pensar, assim como Clarissa, sobre o que eu era há 10 ou 15 anos e sobre o que sou hoje. Na juventude queremos ser tudo o que pudermos ser. Na vida adulta as coisas podem não ser como imaginamos. De vez em quando é bom tirar um dia para o saudosismo e Mrs. Dalloway é uma ótima pedida!

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Mrs. Dalloway

De Marleen Gorris, Inglaterra-Holanda, 1997.

Com Vanessa Redgrave (Mrs. Clarissa Dalloway), Natascha McElhone (Clarissa jovem), Michael Kitchen (Peter Walsh), Alan Cox (Peter jovem), Sarah Badel (Lady Rosseter), Lena Headey (Sally jovem), John Standing (Richard Dalloway), Robert Portal (Richard jovem), Oliver Ford Davies (Hugh Whitbread), Hal Cruttenden (Hugh jovem), Rupert Graves (Septimus Warren Smith), Amelia Bullmore (Rezia Warren Smith), Margaret Tyzack (Lady Bruton), Robert Hardy (Sir William Bradshaw), Richenda Carey (Lady Bradshaw).

 

Roteiro Eileen Atkins.

 

Baseado no romance Mrs. Dalloway, de Virginia Wolf.

 

Fotografia Sue Gibson.

 

Música Ilono Sekacz.

 

Produção First Look Pictures, Bayly/Paré, Bergen Film), BBC Films. DVD Casablanca Filmes.

 

 

Referências:

SOUSA, Simone Elizabeth. O fluxo de consciência em Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Acesso em http://cratilo.unipam.edu.br/documents/32405/38116/OFluxoDeConscienciaEmMrsDallaway.pdf

 

http://50anosdefilmes.com.br/2010/sra-dalloway-ou-a-ultima-festa-mrs-dalloway/

 

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

Compre o livro na Amazon: Mrs. Dalloway.

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