janeiro 20, 2017

[RESENHA] OS OITO PRIMOS, DE LOUISA MAY ALCOTT

Sinopse: “A história da órfã Rose que, ainda muito jovem vai morar com suas ricas tias solteironas e com seus sete primos. As adversidades as quais ela passa, o relacionamento com seu tutor, o tio Alec, e o aprendizado que a faz ver o mundo com outros olhos.”

 

Os Oito Primos foi escrito por Louisa May Alcott (1832-1888), escritora norte-americana dedicada principalmente à literatura infantojuvenil, tendo sido publicado originalmente em 1875.  No Brasil, foi publicado em e-book pela Pedrazul Editora, em dezembro de 2016, com tradução de Michelle Gimenes.

A narrativa conta a história da jovem Rose, uma órfã vivendo com várias tias a espera de seu tutor, o tio Alec, que está em viagem pelo exterior. Ela é uma criatura frágil, delicada, e, desta forma, tratada como uma um boneca de porcelana por seus familiares, que acreditam que a menina é muito doente por sua pouca disposição. Rose não conhecia o tio Alec nem os primos, desta forma, temia o encontro com eles e os rumos que sua vida tomaria com todas as mudanças prestes a acontecer.

 

“Rose, de fato, tinha alguns motivos para estar triste, pois não tinha mãe e também perdera o pai recentemente, o que deixou-a sem outro lar além desse onde passara a viver com suas tias-avós. Ela estava na casa há apenas uma semana e, embora as estimadas senhoras tentassem fazer o possível para deixá-la feliz, não haviam obtido muito sucesso, visto que Rose não era como nenhuma outra criança que elas conheciam, e as tias sentiam como se tivessem que cuidar de uma melancólica borboleta.”

 

“Minha criança, não espero que você me ame e confie em mim logo de uma vez, mas quero que acredite que colocarei todo meu coração neste novo dever; e, se eu fizer algo errado, e provavelmente farei, ninguém sofrerá mais amargamente do que eu por esse erro. É culpa minha que eu seja um estranho para você, quando o que eu quero é ser  seu melhor amigo.  Esse é um dos meus erros, e  nunca me arrependi tão profundamente quanto agora. Seu pai e eu tivemos um desentendimento uma vez, e eu pensava que nunca fosse perdoá-lo; então, me afastei por anos. Graças a Deus, fizemos as pazes na última vez que o vi e, naquela ocasião, ele me disse que, se fosse obrigado a partir, deixaria sua garotinha sob meus cuidados como símbolo de seu amor. Não posso tomar o lugar dele, mas tentarei ser um pai para você; e, se aprender a me amar a metade do que amava aquele que você perdeu, serei um homem orgulhoso e feliz. Acredita nisso e está disposta a tentar?”

 

Rose é a única garota entre os primos, o barulhento Clã de sete rapazes. Ao descobrirem que o avô era escocês, os meninos aprenderam sobre a cultura da Escócia, tudo pela glória do Clã. Após conhecê-los a resistência inicial da jovem foi se dissipando, e ela pôde ver nos meninos amigos valiosos. A partir do experimento de tio Alec, que propunha criar Rose a sua própria maneira por um ano, sem interferência das tias, a menina desabrochou, e mostrou-se tão cheia de vitalidade quanto os primos. Alec não pretendia criar Rose nos moldes de criação das meninas da época. Para ele, além de aprender tarefas domésticas, a menina também devia ser livre para brincar e aprender sobre anatomia, por exemplo. Ao término do primeiro ano, Rose poderia escolher continuar com o tio Alec ou viver com alguma das outras tias. Nesta parte, é difícil até para nós leitores esboçar uma preferência, pois cada tia uma tem uma particularidade e contribui para a formação da jovem de sua própria maneira, sempre com muito afeto.

Os Oito Primos ressalta valores familiares e de amizade dos quais estamos muito carentes na atualidade. Por exemplo, em um dos capítulos Rose promete não usar mais brincos, adorno que ela gostava muito, caso os primos concordassem em não fumar. Ou quando deixou de participar de uma festa, para que a empregada Phebe fosse em seu lugar. Pode parecer uma coisa boba, mas abrir mão de uma coisa que se quer ou goste muito não é fácil nem comum. A história de Louisa May Alcott nos deixa esse tipo de lição ao mostrar o desenvolvimento dos jovens primos e suas aventuras.

Em uma rápida pesquisa no Google, vi que existe uma continuação da história Os Oito Primos, chamada Rose in Bloom. Na continuação, acompanhamos a protagonista Rose em sua vida na sociedade. Todos os nossos queridos personagens continuam na sequência, o que me deixou bastante animada para prosseguir com a leitura. Infelizmente, Rose in Bloom não foi publicado em português ainda. Fica aqui registrado o pedido para a Pedrazul Editora trazer mais essa história para o nosso idioma.

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

https://pt.wikipedia.org/wiki/Louisa_May_Alcott

https://en.wikipedia.org/wiki/Rose_in_Bloom

 

 

Título: Os Oito Primos
Autora: Louisa May Alcott
Tradução: Michelle Gimenes
Páginas: 232
Editora: Pedrazul

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janeiro 18, 2017

[CONTO] O MATADOR NOTURNO, PARTE 1

Sinopse: “Mulheres sendo assassinadas de forma dramática e dois policiais que precisam resolver suas diferenças para solucionar o mistério do assassino que só age sob a luz da lua: o matador noturno.”

 

Capítulo 1

 

O sangue escorria ladeira abaixo, como se o ser humano inerte à beira da calçada fosse uma fonte inesgotável do líquido escuro. Uma mulher, por volta de trinta anos, pele levemente bronzeada e corpo voluptuoso, jazia enquanto a noite ainda estava longe de terminar. Na estreita rua em que ocorrera o assassinato, janelas fechadas e nenhuma movimentação. O único barulho que se ouvia era de uma goteira vinda de uma das marquises, denunciando uma chuva que caíra horas antes.

Evangeline era apenas mais uma das vítimas do Matador Noturno. Desconfiava-se de que era um homem, ainda que não houvesse provas do fato. Simplesmente corpos de mulheres do mesmo padrão estético de Evangeline eram encontrados em vielas silenciosas, no alto da madrugada, sempre pouco depois do crime, a tempo suficiente de seu sangue pintar a rua e dar um ar dramático ao acontecimento.

— Se eu pudesse dar um palpite – Rony disse timidamente –, diria que se trata de algo mais que um crime serial. Em todos os corpos, havia sinais de que existe uma mensagem prestes a ser desvendada. O assassino quer nos dizer algo, tenho certeza. Se não descobrirmos, mais mulheres serão mortas.

— Perdoe-me, meu caro Rony – o detetive Almeida disse, sorrindo –, mas você não disse nada além do que qualquer pessoa habituada a assistir filmes de suspense policial diria. Caso queira realmente ajudar, terá de decifrar o suposto enigma desse assassino.

Rony assentiu, mesmo contrariado. Trabalhava com o detetive Almeida havia poucos meses e não conseguira dar nenhuma pista importante ou concluir algum caso sem que o detetive tivesse de ajudá-lo. Na verdade, Almeida fazia quase todo o trabalho do jovem investigador. Não gostava de ter Rony como parceiro, um jovem inexperiente e trapalhão. Nunca teve vocação para professor, gostava de trabalhar com quem sabia do ofício, ou de fazer tudo sozinho. No caso das mulheres assassinadas pelo Matador Noturno, ele sabia que pegaria o homem, se é que se tratava de um. Rony não tinha a menor condição de resolver esse caso.

A perícia não dera nenhuma informação que acrescentasse algo de substancial à investigação. A morte de Evangeline fora como a das outras mulheres: cortes em artérias que proporcionassem todo o sangue a compor o cenário favorito do matador, ausência de sinais de violência sexual, falta de evidências de roubo e um souvenir colocado delicadamente sobre o peito da vítima, resguardado pela mão do cadáver. Em Evangeline, o matador deixou uma rosa vermelha. Já foram encontradas outras flores, um cartão romântico, um chaveiro de coração e uma pequena garrafa com um barquinho de papel dentro. O melhor palpite até então era de que o matador poderia ter um interesse romântico pelas vítimas ou por alguém que guardasse semelhança com elas. Sua motivação poderia ser acabar com a vida de qualquer mulher que o lembrasse de sua amada. Mas era apenas um palpite, dentre muitos que a investigação já teve.

— Por onde continuamos, detetive? – quis saber Rony.

— Continuar? Essas mortes quase não deixam rastros que nos levem ao criminoso. Na verdade, acho que a pergunta mais correta seria por onde vamos começar.

Evangeline, diferente das outras vítimas, era uma conhecida modelo fotográfica, garota-propaganda de uma famosa loja de roupas íntimas da cidade. Seu rosto e, sobretudo, seu corpo estampavam os catálogos de moda praia de vários estados e decoravam as paredes da grife Oceano. Uma pequena mudança no perfil social das mulheres assassinadas, que anteriormente era composto apenas por estudantes, vendedoras, uma costureira e uma professora de primário. Evangeline era a décima vítima. Sua morte, obviamente, causou comoção nas redes sociais, e o caso foi ficando conhecido em todo o país, o que dificultava ainda mais a investigação.

— Almeida, eu quero esse matador preso o mais rápido possível! – disse o delegado. – Até o governador já ligou querendo saber sobre o andamento da investigação.

— O governador? – perguntou Almeida, empalidecendo. – Ele não pode pensar que nos pressionando será mais rápido encontrar o assassino. Esse é o caso mais difícil em que já trabalhei, e o Rony bonitão ali não é de grande ajuda.

Rony, que ouvia atentamente o diálogo, abaixou a cabeça, levemente constrangido pela humilhação. Havia se acostumado com o tratamento pouco cortês de Almeida, mas se envergonhava com frequência com os comentários feitos publicamente sobre sua aparência ou falta de talento para a profissão. Almeida fazia questão de que todos soubessem da incompetência do jovem rapaz.

— Na verdade – disse o delegado –, o governador ligou para o prefeito e o prefeito passou lá em casa ontem à noite e comentou, enquanto jogávamos pôquer, sobre a urgência que o governador quer na resolução deste caso.

— Delegado, se me permite – arriscou Rony, sob o olhar impaciente de Almeida –, creio que estamos mais perto do suspeito do que imaginamos. É só uma questão de observar os detalhes dos crimes, sobretudo o de Evangeline.

— Obrigado, Rony. Fico feliz que esteja se esforçando neste caso – disse o delegado, mas a simpatia em sua voz não chegara aos seus olhos. Era o tipo de pessoa que sabia ser simpaticamente falsa.

— É, Rony, belo esforço, parabéns! – Ironizou Almeida.

Com as falsas congratulações, terminaram mais um expediente sem que soubessem por onde procurar pelo Matador Noturno.

 

 

Continue lendo essa história aqui.

janeiro 13, 2017

[RESENHA] DOIS IRMÃOS, DE MILTON HATOUM

Sinopse: “Onze anos depois da publicação de Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum retoma os temas do drama familiar e da casa que se desfaz. Dois irmãos é a história de como se constroem as relações de identidade e diferença numa família em crise. O enredo desta vez tem como centro a história de dois irmãos gêmeos – Yaqub e Omar – e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho. Esse menino – o filho da empregada – narra, trinta anos depois, os dramas que testemunhou calado. Buscando a identidade de seu pai entre os homens da casa, ele tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. O lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro: a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar.Prêmio Jabuti 2001 de Melhor Romance”

 

Milton Hatoum é um escritor brasileiro, nascido em Manaus-AM em 1952, descendente de libaneses e considerado um dos maiores escritores brasileiros em atividade. Seus livros foram bastante premiados, com destaque para o romance Dois Irmãos, vencedor do prêmio Jabuti no ano de 2001 e traduzido para oito idiomas. Este romance foi adaptado em série pela TV Globo, sendo transmitida atualmente.

Dois Irmãos, conta a história dos gêmeos idênticos Yaqub e Omar, este último o Caçula. Os dois possuem personalidades bem diferentes e viverão em conflito por toda a vida, muito em razão da preferência que a mãe, Zana, tem pelo Caçula, nascido quase morto devido a complicações no parto.

A narrativa é feita por Nael, filho da empregada Domingas e de um dos gêmeos, e não é nada linear. O livro foi concebido como uma espécie de relato de memórias do personagem narrador, desta forma, à medida que ele lembra ou narra certos eventos, muitas vezes nos conta o que aconteceu no passado para explicar sua narrativa. Particularmente gostei muito desse estilo de escrita, pois o autor está sempre nos surpreendendo com alguma revelação sobre os personagens. A história começa com a morte de Zana, questionando se os filhos já fizeram as pazes, e o silêncio que antecede sua morte nos mostra que não.

O primeiro capítulo mostra a volta de Yaqub para o Brasil, depois de uma temporada no Líbano. Seu retorno, conclui-se, acontece no ano de 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, pela movimentação no porto do Rio de Janeiro, “apinhado de parentes de pracinhas e oficiais que regressavam da Itália”. Posteriormente vemos o episódio que é o estopim para a viagem do gêmeo mais velho, numa tentativa de evitar um conflito maior entre os irmãos: ambos estavam apaixonados pela mesma moça, Livia, e Omar, por ciúme, dá uma garrafada no irmão, cortando-lhe a face e deixando uma cicatriz no local. Em um primeiro momento, Halim, pai dos Gêmeos, tem a ideia de enviar os dois para o Líbano, mas Zana convence-o a enviar apenas Yaqub, pois não conseguiria separar-se de Omar.

 

“Aconteceu um ano antes da Segunda Guerra, quando os gêmeos completaram treze anos de idade. Halim queria mandar os dois para o sul do Líbano. Zana relutou, e conseguiu persuadir o marido a mandar apenas Yaqub. Durante anos Omar foi tratado como filho único, único menino.”

 

O que mais preocupava Halim era a separação dos gêmeos, ‘porque nunca se sabe como vão reagir depois…’ Ele nunca deixou de pensar no reencontro dos filhos, no convívio após a longa separação.”

 

Zana tinha três filhos. Além de Yaqub e Omar, havia também Rânia. Mas Omar era o rei absoluto em seu coração. O amor dela por este filho rompia barreiras, beirava o incesto. Mimava-o e sempre o protegia como se ainda fosse aquele bebê acometido por uma pneumonia logo ao nascer. Mesmo ficando separada de Yaqub, não chegou nem perto de tratá-lo com o mesmo carinho que dispensava a Omar.

“O rosto de Zana se iluminou ao ouvir um assobio prolongado – uma senha, o sinal da chegada do outro filho. Era quase meia-noite quando o Caçula entrou na sala. Vestia calça branca de linho e camisa azul, manchada de suor no peito e nas axilas. Omar se dirigiu à mãe, abriu os braços para ela, como se fosse ele o filho ausente, e ela o recebeu com uma efusão que parecia contrariar a homenagem a Yaqub. Ficaram juntos, os braços dela enroscados no pescoço do Caçula, ambos entregues a uma cumplicidade que provocou ciúme em Yaqub e inquietação em Halim.”

 

Ela sempre achava uma maneira de justificar algum ato de Omar, colocando-o como um pobre indefeso, desprovido de capacidade para cuidar de si próprio. Yaqub apenas teve o apoio do pai e da empregada Domingas durante o tempo que viveu em Manaus.

“Não queria morrer vendo os gêmeos se odiarem como dois inimigos. Não era mãe de Caim e Abel. (…) Então que Yaqub refletisse, ele que era instruído, cheio de sabedoria. Ele que tinha realizado grandes feitos na vida. Que a perdoasse por tê-lo deixado viajar sozinho para o Líbano. Ela não deixou Omar ir embora, pensava que longe dela ele morreria.”

 

O centro da história, obviamente, são os conflitos entre os irmãos, mas há muito mais em Dois Irmãos, que também comprovam a qualidade desta história e do autor. Como exemplo, o cenário manauara que foi lindamente bem descrito; também a história de Domingas, a índia que foi adotada para servir como ajudante de Zana, mostrando a realidade de muitos indígenas que foram retirados de suas aldeias, tendo sua liberdade e cultura arrancados de si, escravizados e, no caso das mulheres, violentadas; vemos ainda o saudosismo dos imigrantes libaneses que vieram fazer a vida em uma terra tão distante e diferente como o Brasil; uma rápida menção de como era a vida no norte do país nos tempos da ditadura militar; e a mistura, a sedução e a falta de limites com os quais estamos acostumados nas relações familiares. Tudo isso o leitor verá em Dois Irmãos. É um orgulho ter um autor como Milton Hatoum em terras brasileiras e ainda em atividade. Eu e, acredito, os leitores brasileiros em geral, precisamos conhecer e prestigiar nossos autores, especialmente aqueles que estão vivos e em atividade.

 

“Naquela época, tentei, em vão, escrever outras linhas. Mas as palavras parecem esperar a morte e o esquecimento; permanecem soterradas, petrificadas, em estado latente, para depois, em lenta combustão, acenderem em nós o desejo de contar passagens que o tempo dissipou. E o tempo, que nos faz esquecer, também é cúmplice delas. Só o tempo transforma nossos sentimentos em palavras mais verdadeiras.”

 

 

Título: Dois Irmãos

Autor: Milton Hatoum

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 270

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