agosto 07, 2019

[LANÇAMENTO] CHAMA E CINZAS, DE CAROLINA NABUCO

Sinopse: Em Chama e cinzas, Carolina Nabuco mais uma vez faz um retrato da posição da mulher burguesa, agora no final da primeira metade do século XX, apresentando os valores e os tabus que orientavam o lugar social da mulher, mas trazendo também uma nova voz feminina que parece emergir desse contexto. Há, com isso, um distanciamento significativo de A sucessora, seu romance anterior, uma vez que naquela obra a protagonista Marina teme não ser a mulher ideal, enquanto Nica, a nova protagonista, deseja compreender por que tem sido essa mulher.

O livro conta a história de Nica Galhardo, a mais despachada das quatro filhas de Álvaro, viúvo falido, com um fraco para jogos de azar, que organiza noites de carteado em seu casarão na Praia do Flamengo, no Rio de Janeiro. Os eventos são disputadíssimos e frequentados por personalidades da sociedade carioca dos anos 1940, como ministros de Estado e o poderoso banqueiro Nestor Rabelo, o amigo que de fato sustenta a casa. O patriarca da família mantém um diálogo aberto com as jovens, que não o chamam de pai, mas de Álvaro, algo incomum naqueles tempos.

Após uma profunda decepção amorosa, Nica, em atitude bastante ousada para uma jovem da época, decide casar-se com Rabelo, o homem que ela tanto admira. Mas um casamento bem-sucedido bastará para fazê-la sentir-se completa?

Publicado originalmente em 1947, treze anos após o sucesso de A sucessora, Chama e cinzas está fora das livrarias desde o início dos anos 1980. Recebeu o Prêmio de Romance da Academia Brasileira de Letras e anos depois inspirou a telenovela Bambolê, exibida pela Rede Globo entre 1987 e 1988.”

 

A editora Instante está lançando Chama e Cinzas, de Carolina Nabuco, autora também de A Sucessora. Não consigo nem explicar o quanto eu fico feliz ao ver que, finalmente, as grandes escritoras da nossa literatura estão ganhando novas edições de seus livros, além do devido destaque. A (segunda) boa notícia é que Chamas e Cinzas já está em pré-venda com 10% de desconto e frete grátis! Aproveite e já compre o seu exemplar, clicando aqui.Leia um trecho do livro clicando aqui.

 

 

ELOGIOS
“Poucos escritores brasileiros sabem, tão bem como Dona Carolina, incorporar o leitor aos seus cenários, fazendo-o circular entre as personagens e participar de suas vidas e emoções cotidianas. […] Simplesmente magistral!” – Manoel Carlos, escritor e autor de novelas

“Carolina Nabuco brilhantemente projeta a voz feminina em uma época na qual não havia ouvidos para ela. Embora Nica ainda não seja completamente a mulher disposta a contrariar os papéis patriarcais dominantes, a escrita feminina de Nabuco, agora mais questionadora, retrata, na década de 1940, como o espaço doméstico, a esfera íntima, torna-se simbólica do funcionamento de uma sociedade guiada pelo olhar masculino, sendo uma espécie de exílio para a mulher, impedindo, por um tempo, a percepção de sua real condição.” – Regina Braz Rocha, mestra e doutora em Linguística e Estudos da Linguagem.

 

SOBRE A AUTORA
Carolina Nabuco nasceu no Rio de Janeiro, em 1890. Passou a adolescência nos Estados Unidos, onde o pai, o estadista e abolicionista Joaquim Nabuco, era embaixador do Brasil. Tornou-se importante escritora já ao publicar seu primeiro livro: a biografia de seu pai, em 1928, obra que no ano seguinte receberia o Prêmio de Ensaio da Academia Brasileira de Letras.

Apesar da educação recebida no exterior, possuía um espírito altamente brasileiro. Atuou como escritora e tradutora e levou uma vida discreta. Não se casou nem teve filhos.

Além de A vida de Joaquim Nabuco e de Chama e cinzas (1947), é também autora, entre outros livros, de A sucessora (romance, 1934), Visão dos Estados Unidos (viagem, 1953), Santa Catarina de Sena (biografia, 1957), A vida de Virgílio de Melo Franco (biografia, 1962), Retrato dos Estados Unidos à luz da sua literatura (crítica literária, 1967), O ladrão de guarda-chuva e dez outras histórias (coletânea de contos, 1969) e Oito décadas (memórias, 1973).\

Em 1978, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Quatro anos depois, em agosto de 1981, faleceu em decorrência de um ataque cardíaco, aos 91 anos, em sua casa na rua Marquês de Olinda, no Rio de Janeiro.

 

 

Título: Chama e Cinzas
Autora: Carolina Nabuco
Editora: Instante
ISBN: 978-85-52994-13-8
Formato: 13,5 cm x 20,5 cm
Número de páginas: 248
Edição: 1a
Ano de lançamento: 2019

agosto 06, 2019

[RESENHA] O OLHO MAIS AZUL, DE TONI MORRISON

Sinopse: “Como aceitar sua identidade num mundo que não parece ter sido feito para você? Todas as noites Pecola Breedlove reza para ter olhos azuis. Zombada pelas outras crianças por sua pele negra e seu cabelo crespo, a menina anseia por se encaixar no padrão de beleza da sociedade americana dos anos 1940: quer ser branca e loira, assim como a atriz mirim Shirley Temple. No entanto, à medida que cresce seu delirante e inconsciente desejo de aceitação, Pecola se vê presa a uma realidade cada vez mais violenta. Primeiro romance de Toni Morrison, vencedora do Nobel de Literatura de 1993, O olho mais azul é uma poderosa reflexão sobre raça, desigualdade e o peso esmagador da história.”

 

Ninguém que tenha o mínimo de sensibilidade vira a última página de O olho mais azul, de Toni Morrison, sendo a mesma pessoa de antes desta leitura. Tendo a pensar que, mesmo entre os mais insensíveis, pode haver certo incômodo com as situações vividas pelos personagens deste livro, especialmente se compararmos ao que vivemos hoje, no Brasil e no mundo, em matéria de racismo estrutural.

O olho mais azul é um livro essencialmente humano e isso foi o que considero como o mais marcante nessa leitura. As pessoas são boas e ruins — não necessariamente o tempo todo ou nesta ordem, umas mais outras menos — assim como são as pessoas da vida real. Pecola Breedlove é, sem dúvidas, a personagem que (mais) sofre todo tipo de violência e por quem temos a maior compaixão, especialmente por seu desejo de ter olhos azuis e ser, finalmente notada (e amada), mas em cada um dos personagens que compõem a teia dessa história percebemos os efeitos da exclusão, da violência e do sofrimento na vida de uma pessoa negra.

Pecola Breedlove sonha, deseja, pede a Deus olhos azuis. Isso, por si só, já é uma tragédia emocional (e social) de cortar o coração (o nosso e o dela). Mas o livro, com seus capítulos aparentemente avulsos, aborda, de forma bem clara e cirúrgica, como era ser negro nos Estados Unidos da década de 1940. Mais do que isso, Toni Morrison — primeira escritora negra a ganhar o Nobel de Literatura, em 1993 — mostra como ainda é ser negro em vários outros lugares, em várias outras épocas. Inclusive a que estamos vivendo agora.

O olho mais azul é um livro triste, difícil, mas que pode ser também inspirador. Há verdades que não podem ficar para sempre debaixo do tapete e quanto mais tomamos ciência e consciência de atitudes racistas, de realidades racistas, de coisas que acontecem mesmos nos dias atuais, temos mais chances de conquistar uma sociedade realmente justa e igualitária.

O olho mais azul foi o livro de março da TAG Curadoria, indicado por Djamila Ribeiro, autora do maravilhoso Quem tem medo do feminismo negro?  

***

Eu sempre escrevo grande parte de uma resenha em um dia para só depois aparar algumas arestas, escrever mais um pouco e então publicar a versão final aqui no site. Hoje, ao revisitar esse meu pequeno texto sobre O olho mais azul para fazer algumas alterações e finalizá-lo, fui surpreendida com a notícia do falecimento de Toni Morrison, após uma breve doença. Hoje, dia 6 de agosto de 2019, recebemos a notícia de que Toni Morrison partiu para eternidade. Mas ficam seus escritos. Fica o seu legado de luta e a inspiração por tudo o que ela representa.

 

No discurso que proferiu ao receber o Nobel, Morrison disse: “Nós morremos. Esse pode ser o significado da vida. Mas nós fazemos linguagem. Essa pode ser a medida de nossas vidas.”

(Fonte: Companhia das Letras. Foto: Timothy Greenfield-Sanders)

 

Destaco, abaixo, alguns trechos marcantes de O olho mais azul:

 

“Se tivesse outra aparência, se fosse bonita, talvez Cholly fosse diferente, e a sra. Breedlove também. Talvez eles dissessem: ‘Ora, vejam que olhos bonitos os da Pecola. Não devemos fazer coisas ruins na frente desses olhos bonitos.’” (p. 56)

 

“Em algum ponto entre a retina e o objeto, entre a visão e a vista, os olhos recuam, hesitam, pairam. Em algum ponto fixo no tempo e no espaço, ele sente que não precisa desperdiçar o esforço de um olhar. Não a vê, porque, para ele, não há nada a ver. Como é que um comerciante branco, imigrante, de 52 anos, com gosto de batatas e cerveja na boca, a mente adestrada na Virgem Maria de olhos meigos, a sensibilidade embotada por uma permanente consciência de perda, pode ver uma menina negra? Nada em sua vida nunca sequer sugeriu que a proeza fosse possível, que dirá desejável ou necessária.” (p. 58)

 

“Imaginou como seria o amor. Como é que os adultos agem quando se amam? Comem peixe juntos? Veio-lhe aos olhos a imagem de Cholly e da sra. Breedlove na cama. Ele fazendo ruídos como se sentisse dor, como se alguma coisa o segurasse pela garganta e não soltasse. Terríveis como eram, esses sons só não eram tão maus quanto a ausência de som da mãe. Era como se ela nem estivesse lá.  Talvez o amor fosse aquilo. Sons estrangulados e silêncio.” (p. 67)

 

“Entraram devagar na vida pela porta dos fundos. Transformaram-se. Todo mundo podia lhes dar ordens. As mulheres brancas diziam ‘Faça isso’. As crianças brancas diziam ‘Me dá aquilo’. Os homens brancos diziam ‘Venha cá’. Os homens negros diziam ‘Deita’. As únicas pessoas de quem não precisavam receber ordens eram as crianças e as outras mulheres negras. Mas elas pegaram tudo isso e recriaram à sua própria imagem. Administravam a casa dos brancos, e sabiam disso. Quando os brancos espancavam os seus homens, elas limpavam o sangue e iam para casa receber os maus-tratos da vítima. Batiam nos filhos com uma mão e com a outra roubavam para eles. As mãos que cortavam árvores também cortavam cordões umbilicais; as mãos que torciam o pescoço de galinhas e abatiam porcos também cuidavam de violetas africanas até que florissem; os braços que carregavam feixes, fardos e sacos também embalavam bebês. Elas moldavam biscoitos farinhentos em ovais de inocência — e amortalhavam os mortos. Aravam o dia inteiro e iam para casa se aninhar  sob os membros de seus homens. As pernas que cavalgavam o dorso de uma mula eram as mesmas que cavalgavam os quadris de seus homens. E a diferença era toda diferença do mundo.” (p. 145)

 

“O amor nunca é melhor que o amante. Quem é mau, ama com maldade, o violento ama com violência, o fraco ama com fraqueza, gente estúpida ama com estupidez, e o amor de um homem livre nunca é seguro. Não há dádiva para o ser amado. Só o amante possui a dádiva do amor. O ser amado é espoliado, neutralizado, congelado no fulgor do olho interior do amante.” (p. 212)

 

 

 

 

Título: O olho mais azul

Autora: Toni Morrison

Tradução: Manoel Paulo Ferreira

Prefácio de Djamila Ribeiro e posfácio da autora.

Editora: TAG Curadoria / Companhia das Letras

Páginas: 226

 

agosto 06, 2019

[LETRAS] Indizível, imperceptível e ininteligível: o sujeito contemporâneo e seus arquivos, de Bethania Mariani, Carla Barbosa Moreira, Juciele Pereira Dias e Maurício Beck (Orgs.)

Os autores dos textos desta obra desenvolvem pesquisas em diferentes teorias de linguagem relacionadas à temática do indizível, do ininteligível e do imperceptível. Abordado em jornada do Laboratório Arquivos do Sujeito (LAS) da UFF com objetivo de propiciar um espaço de interlocução com professores de outras instituições, o tema teve como escopo de reflexão o quadro teórico da Análise de Discurso Francesa em interface com a História das Ideias Linguísticas, a Teoria da Enunciação, a Filosofia da Linguagem, a Sociolinguística e a Psicanálise Lacaniana.

A partir da consolidação do aporte teórico das áreas citadas, os pesquisadores, com a sugestiva proposta de discussão sobre o indizível, o ininteligível e o imperceptível, incitaram questionamentos voltados para as posições do sujeito no contemporâneo, partindo das discursividades que os representam e os diferentes modos como eles se representam, se significam.

Nesse sentido, tomam o real como espaço de desestabilização da(s) língua(s), da história e do sujeito. Real como registro do impossível no campo da linguagem, da percepção e da compreensão – (in)dizível, (im)perceptível e (in)inteligível -, sempre em tensão com a produção de sentidos que vão constituir – e se constituir pelas – zonas de memória.

 

Os artigos e respectivos autores são os seguintes:

Seção “Indizível”:

“Uma alegria indizível”, de Ana Paula El-Jaick;

“(In)dizível, in(dizível), in(visível): linguística, análise de discurso, psicanálise”, de Bethania Mariani;

“O cálice indizível e a demanda nas vozes das ruas-redes sociais”, de Juciele Pereira Dias;

“O que se pode dizer do indizível?”, de Lauro José Siqueira Baldini.

Seção “Ininteligível”:

“O ininteligível ou sobre o (im)possível nas aulas de língua portuguesa”, de Carla Barbosa Moreira;

“Pelo território de Ártemis: do inteligível nas fronteiras difusas do mesmo e do outro”, de José Simão da Silva Sobrinho;

“Enunciar o ininteligível”, de Luiz Francisco Dias;

“Que língua é essa? Incertezas e indefinições na delimitação das línguas”, de Xoán Carlos Lagares.

Seção “Imperceptível”:

“Cinema, memória e favelas: uma pedagogia da realidade em dois momentos”, de Lucia M. A. Ferreira;

“Imagem-tempo e o espectro do irrealizado: o descortinar do imperceptível”, de Maurício Beck;

“Fazer jornalismo, fazer história? Os 45 anos de “Veja”, o discurso jornalístico, o (im)perceptível”, de Silmara Dela Silva;

“O significante em metáfora no movimento metonímico da falta”, de Suzy Lagazzi.

 

 

Leia o sumário e a apresentação clicando aqui.

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