novembro 13, 2019

[RESENHA] PÓS-F: PARA ALÉM DO MASCULINO E DO FEMININO, DE FERNANDA YOUNG

Sinopse: “Em sua primeira obra de não ficção, Fernanda Young se insere no acalorado debate sobre o que significa ser homem e ser mulher hoje. Em textos autobiográficos, ela se revela como uma das tantas personagens femininas às quais deu voz, sempre independentes e a quem a inadequação é um sentimento intrínseco. E esse constante deslocamento faz com que Fernanda seja capaz de observar o feminino e o masculino em todas as suas potencialidades. É daí que surge o Pós-F, pós-feminismo e pós-Fernanda, um relato sincero sobre uma vida livre de estigmas calcada na sobrevivência definitiva do amor, no respeito inquestionável ao outro e na sustentação do próprio desejo. No livro, que é ilustrado com desenhos da autora, Fernanda oferece sua visão de mundo na tentativa de superar polarizações e construir algo maior, em que caibam todos os gêneros.”

 

Veja também: As pessoas dos livros: Fernanda Young e o seu legado

 

Fernanda Young é tida por muitos como uma feminista controversa. Lendo Pós-F: para além do masculino e do feminino (Ed. Leya, 2018) a gente entende bem o porquê. De começo nós percebemos que ela se incomodava profundamente com o termo feminismo, com as várias restrições que, de forma bem geral, este movimento tem, como excluir os homens do debate, por exemplo. Pós-F é também um Pós-Fernanda, uma profecia irônica que infelizmente se concretizou, com o falecimento da autora em agosto deste ano.

Eu, que gosto de ler sobre feminismo mas também busco opiniões não exatamente convergentes com o que se repete sobre esse assunto nas redes antissociais, já digo que adorei este livro. Pós-F é uma conversa sincera com uma mulher livre antes mesmo de capitalizarem essa liberdade, seja lá com qual intuito. É um livro que a gente lê em uma sentada, e logo quer ler de novo, principalmente pelas cartas e trechos de outros livros de Fernanda Young (incluindo Os Normais, em coautoria com Alexandre Machado), que ilustram bem sobre o que ela fala em cada capítulo.

Talvez os capítulos mais “problemáticos” deste livro sejam o 3 e o 5, “Porque você não experimenta seu corpo antes?” e “Tudo agora é assédio”, respectivamente. No 3 ela entra em um assunto delicado, a transsexualidade. Dentre outras coisas, ela sugere que as pessoas experimentem mais a própria sexualidade antes de partir para uma decisão precipitada, como uma cirurgia de mudança de sexo. A autora defende um maior hibridismo entre os gêneros, o fazer o que se tem vontade, sem rótulos ou necessidade de autoafirmação a todo o momento. Já no 5 ela questiona o conceito do assédio levado ao extremo, do tipo “o homem não pode falar oi que já leva pedrada”. Na verdade, ela vai um pouco mais além, ao dizer que “gostosa” não seria assédio, e sim uma tremenda falta de educação: “Acho grosseria, não gosto, não quero, e por isso posso sempre me virar e dizer: vá para puta que o pariu!”, diz.

Em ambos os capítulos, cabe concordar ou discordar, o leitor é quem sabe, obviamente (e sempre!). Fernanda Young nunca teve papas na língua (ou na ponta da caneta) e tudo o que está no livro é bem condizente com o que ela dizia e faz todo o sentido dentro de sua narrativa. No prefácio do livro ela diz: “não sou especialista em nada. Melhor, não sou especialista de coisa pronta. Procuro me aprimorar em mim, entendendo sobre mim — usando, é claro, tudo que observo nos outros”. E é bem isso mesmo. Não espere um livro que explique aqueles termos em inglês que a gente ouve pra caramba mas tem que procurar no Google a tradução ou um beabá do feminismo. Pós-F é um feminismo em essência: uma mulher livre falando para quem quiser ler.

A parte com a qual eu mais me identifiquei foi o capítulo 7, “Acho que me mato a ter que ser dona de casa”. É engraçado, mas também muito realista. Eu sou o tipo de pessoa que ama ser dona de casa, mas jamais desejo ser apenas dona de casa. A melhor lição desse trecho é: “Cada dia que passa, e há muito, sei que o melhor lugar em que posso estar é em mim. Essa é uma lição que aprendi que deixo com muito amor, neste livro, e todas as vezes em que dou entrevistas: tenham autoestima”.

O final tornou-se, nos últimos meses, melancólico para nós: Desejos para um mundo Pós-F. Dentre outras coisas, Fernanda Young desejou “Que a palavra look seja extinta do vocabulário; Que a cafonice também seja extinta; Que a ignorância, o maior problema do século XXI, também seja extinta”. Que assim seja!

 

 

Veja também: Pós-F: para além do masculino e do feminino, de Fernanda Young, é finalista do Prêmio Jabuti de 2019 na categoria crônicas.

 

 

 

Título: Pós-F: para além do masculino e do feminino

Autora: Fernanda Young

Editora: Leya

Páginas: 128

Compre na Amazon: Pós-F, Fernanda Young

 

novembro 13, 2019

[RESENHA] A INQUILINA DE WILDFELL HALL, DE ANNE BRONTË

Sinopse: “Gilbert Markham, um jovem cavalheiro agricultor, fica imediatamente interessado quando uma estranha inquilina se muda para Wildfell Hall. Mrs. Graham é jovem e bonita e sua demanda por reclusão desperta grande curiosidade entre a nobreza local. Em sua primeira visita a Wildfell Hall, Gilbert descobre que Helen é uma pintora de paisagens de grande capacidade e desconfia que ela está escondendo seu paradeiro de alguém. Seu ar de segredo desperta sua curiosidade e sua simpatia. Evitando as atenções de Eliza Millward, filha do Vigário-geral, para a qual ele até então mostrou uma preferência, Mr. Markham gasta muito do seu tempo na companhia da jovem viúva. Seus amigos, contudo, tentam desencorajar suas atenções, pois há rumores de que ela est á tendo um caso com Frederick Lawrence, seu senhorio. Depois que o vigário, Mr. Millward, acusa a viúva de conduta imprópria, Gilbert a visita, e ganha uma promessa de que ela irá revelar seu segredo. Mais tarde naquela noite, no entanto, ele ouve Mrs. Graham em uma discussão misteriosa com seu senhorio que o leva a suspeitar que os rumores sobre eles são verdadeiros. Um romance epistolar, cujo diário conta a história de Helen Graham nos últimos seis anos a partir de 1821.”

 

Anne Brontë (1820-1849) é a mais nova e, talvez, a menos badalada das irmãs Brontë (infelizmente). A escritora publicou uma coletânea de poemas e os romances Agnes Grey e A inquilina de Wildfell Hall sob o pseudônimo Acton Bell. Alguns estudiosos de literatura inglesa, sobretudo literatura escrita por mulheres, consideram este seu segundo romance, A inquilina de Wildfell Hall, como um dos primeiros romances feministas publicados — na Inglaterra, pelo menos. É um rótulo que, definitivamente, cabe ao livro, mas não acho que ele deve ser resumido apenas a isso.

Existe uma tendência a considerar como feminista toda história que fuja do estereótipo “mulherzinha” (com todas as aspas que você conseguir imaginar para este termo tão… idiota). Como se no passado não existissem “mulheres fortes”; ou como se “mulheres fortes” fosse uma coisa “de agora”, raridade nos livros “de mulherzinha” ou mesmo nos clássicos. Então, se há uma mulher decidida no romance, se ela corre atrás de seu destino, definitivamente precisamos colocá-lo na prateleira do feminismo. Como dizem por aí, errado não tá, mas acho uma restrição temática muitas vezes exagerada. E forçada.

 

Leia também: Agnes Grey, de Anne Brontë

 

A inquilina de Wildfell Hall pode ser considerado um romance feminista sim, mas ele é mais que isso. É um romance sobre escolhas, erros, amor, princípios, liberdade e generosidade. É um relato inteligente e bastante realista sobre as expectativas que podemos criar sobre alguém com quem escolhemos nos relacionar.

Quando a viúva Helen Graham muda-se com seu filho para Wildfell Hall, logo chama a atenção do povo do vilarejo, especialmente do jovem Gilbert Markham. Ela é uma pintora de hábitos modestos, bastante reclusa, mas de modos e conversa bastante agradáveis. Não demora para que Gilbert se interesse romanticamente por ela; sentimento que a viúva parece corresponder. Mas existe um mistério sobre as origens de Mrs. Graham e sua índole e não demora, também, para que os vizinhos comecem a fazer especulações (e fofocas) sobre ela.

Posso dizer que A inquilina foi o primeiro romance epistolar que eu li e não achei cansativo por ser deste formato. Quase nem dá para perceber que ele é estruturado desta forma, na verdade. Uma coisa interessante é que o narrador, ou seja, o autor das cartas, é o mocinho, Gilbert Markham. É a visão dele que temos em boa parte do romance, e que homem apaixonado ele é (até quando foi estúpido, foi um estúpido apaixonado)!

 

 

Toby Stephens como Gilbert Markham e Tara Fitzgerald como Helen Graham em “The Tenant of Wildfell Hall” (BBC 1996). Assista com legendas em português no dailymotion, clicando aqui.

 

 

“E nós perambulamos pelo jardim, conversamos sobre as flores, as árvores e o livro, e sobre outras coisas, depois. A tarde estava calorosa e agradável, assim como a minha companhia. Aos poucos, tornei-me mais terno e afetuoso do que, talvez, jamais fora antes. Ainda assim, não havia dito nada tangível, e não houve nenhuma tentativa de repulsa, até que, ao passar por uma roseira que eu havia trazido para ela semanas antes em nome da minha irmã, ela arrancou um bonito botão meio aberto e pediu para que eu levasse a Rose.

‘Não posso guardá-lo para mim?’, perguntei.

‘Não, mas aqui está outro para você.’

Em vez de pegá-lo calmamente, peguei também a mão que o oferecia e olhei em seu rosto. Ela me deixou segurá-la por um momento, e vi uma faísca de extasiado brilho em seus olhos, um fulgor de alegre exaltação em sua face. Pensei que minha hora da vitória havia chegado, mas instantaneamente uma dolorosa lembrança pareceu cruzar sua mente, uma nuvem de angústia escureceu seu semblante, uma palidez marmórea empalideceu as suas bochechas e lábios. Pareceu ter havido um momento de conflito interno, e, com esforço repentino, ela puxou a mão e recuou um passo ou dois.” (ps. 68, 69)

 

Em certo ponto do romance, quando as suspeitas sobre a má conduta de Helen atinge a todos, sem exceção. Então ela toma para si a voz da narrativa, pois é parte de seu diário que ela deposita em confiança nas mãos de Gilbert para conhecermos não só a sua parte na história, mas também a sua índole (de “mulher forte”, ahahaha não resisti).

Pense em uma mulher que sofreu, mas que sofreu MESMO nas mãos de um homem. Talvez Helen tenha sofrido ainda mais que essa mulher que você pensou. Mas pense também em uma mulher que é muito firme em seus princípios, mãe zelosa e generosa mesmo com quem, pensaríamos com egoísmo, não merece generosidade. Essa é Helen!

 

“Meu destino é como uma xícara de chá: contém uma mistura amarga que não posso esconder de mim mesma, disfarçar conforme minha vontade. Posso tentar me convencer de que a doçura a supera; posso dizer que tem um aroma agradável; tudo, menos dizer o que quero, pois ainda está lá e não me resta alternativa a não ser tomá-lo.” (p. 143)

 

A inquilina foi um livro que eu comecei a ler há meses e praticamente abandonei porque a história estava em um ritmo mais lento em relação as ultimas leituras que eu havia feito. Mas como a premissa me interessava muito e tenho algumas amigas que recomendam fervorosamente esse livro, fiquei incomodada — e envergonhada — só de pensar em não retomar a leitura. Alguns livros são ótimos, mas precisam ser lidos no momento adequado. Quando retomei esta leitura, praticamente devorei o livro! Fazia tempo que eu não me sentia tão envolvida e tão angustiada também por uma personagem literária. A inquilina é um livro que faz a gente pensar em muita coisa, conselhos que ouvíamos na juventude e ignorávamos mas que, em muitos casos, estavam absolutamente corretos. Vale a pena cada página!

 

Leia também: To Walk Invisible, as irmãs Brontë

 

 

Título: A inquilina de Wildfell Hall

Autora: Anne Brontë

Tradução: Michelle Gimenes

Editora: Pedrazul

Páginas: 372

 

Compre no site da Editora Pedrazul, clicando aqui. Disponível outras edições na Amazon.

novembro 08, 2019

[LANÇAMENTO] OS MANUSCRITOS PERDIDOS DE CHARLOTTE BRONTË, DA FARO EDITORIAL

Sinopse: Resgatado de um naufrágio e perdido por quase dois séculos, este livro tem uma história tão incrível quanto as escritas pela família Brontë.

Viajando por quase duzentos anos entre o Velho e o Novo Mundo, os manuscritos passaram por diversas mãos e sobreviveram até a um naufrágio. Mais do que os primeiros rascunhos do que viria a se tornar a obra de Charlotte, o material revela detalhes da vida de uma das famílias mais talentosas da literatura mundial.

Tudo teve início em 1810, quando Maria Branwell, que se tornaria mãe das famosas irmãs Brontë, obteve um livro, em sua terra natal. Dois anos depois, ela se mudou e o exemplar estava entre seus bens que naufragaram em um navio.

O livro foi recuperado intacto e tornou-se precioso para toda a Família Brontë, sendo não apenas uma fonte de leitura, mas também de anotação pelas irmãs Charlotte, Emily, Anne, seu irmão Branwell e seu pai, Patrick.

Em 1861, o livro foi vendido em um leilão depois da morte de toda a família. E, nos anos seguintes, passou por diversos donos, eventualmente, viajando para a América, onde permaneceu em uma coleção particular até 2015.

Comprado pela Brontë Society, descobriu-se joias literárias e históricas escondidas entre suas páginas. Isso inclui anotações, esboços e dois textos nunca publicados de Charlotte Brontë.

Mas este trabalho vai além: especialistas foram convidados a examinar os documentos e apresentam muitas reflexões, incluindo uma sobre a inspiração de Emily Brontë para um dos maiores livros da história: O morro dos ventos uivantes.”

 

A Faro Editorial está lançando Os manuscritos perdidos, de Charlotte Brontë (176 páginas), contendo textos inéditos encontrados em um livro que pertenceu à mãe da autora e recuperado, em leilão, pela Brontë Society. Pelo trecho que eu já li (e você pode ler clicando aqui) parece ser um trabalho bem rico e com muitas fotos, item fundamental na coleção de quem gosta das irmãs Brontë, especialmente de Charlotte.

Adquira o seu exemplar clicando aqui (lançamento previsto para 14/11).

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