fevereiro 04, 2020

[LISTA] SETE AUTORES FAMOSOS QUE JÁ “PARTICIPARAM” DA SÉRIE MURDOCH MYSTERIES

Murdoch Mysteries. Imagem: Divulgação CBC/ +Globosat.

 

Você conhece a série Murdoch Mysteries? A produção é canadense e é baseada nos romances da escritora Maureen Jennings (infelizmente sem tradução, ainda, para o português). No Brasil, podemos assistir aos episódios até a décima segunda temporada no canal a cabo e streaming +Globosat.

William Murdoch (Yannick Bisson) é um detetive inovador para a Toronto dos anos de 1890 (quando a série tem início). Utilizando técnicas forenses, ele resolve os casos mais complicados com a ajuda da médica legista Dra. Julia Ogden (Hélène Joy). Diferente de algumas séries policiais, Murdoch Mysteries, salvo um ou outro episódio, tem um tom bastante leve, com bastante alívio cômico. Os episódios são geralmente fechados, com duração de 30 minutos, e tratam de temas variados e progressistas, levando em consideração, é claro, o contexto da época.

Resumindo: tudo começa com um crime; mais especificamente, um assassinato. A investigação é como um quebra-cabeças instigante para Murdoch, seus companheiros de investigação e, eventualmente, personalidades da vida real que já “participaram” da série. A lista é grande e inclui nomes como Houdini, Alexander Graham Bell, Nikola Tesla… Mas como respiramos livros e literatura por aqui, vamos listar apenas os grandes autores que já “participaram” de Murdoch Mysteries. Dá uma olhada:

 

Arthur Conan Doyle (Temporada 1, Episódios 4 e 9; Temporada 6, Episódio 4)

Geraint Wyn Davies como Arthur Conan Doyle. Imagem: Divulgação CBC/ +Globosat.

O escritor mais badalado que já passou pela Station House Number 4 definitivamente é Sir Arthur Conan Doyle! E não poderia ser por menos, já que até o Inspetor Brackenreid (Thomas Craig) é fã de Sherlock Holmes. Com Doyle na delegacia, algumas investigações podem seguir um rumo diferente do racionalismo normalmente usado por Murdoch. Se você pensou em algo sobrenatural, mediúnico… acertou!

H. G. Wells (Temporada 3, Episódio 8)

Peter Mikhail é HG Wells em Murdoch Mysteries. Imagem: Divulgação CBC/+Globosat

Certo episódio, Murdoch fica impressionado ao ver, como convidado de honra na sociedade local de eugenia, o renomado autor H.G. Wells. O escritor está fazendo uma pesquisa para seu romance de ficção científica, quando uma investigação se inicia: partes de um corpo são descobertas em um lago próximo.

H. G. Wells é autor de dezenas de romances e contos, mas é mais conhecido por seus livros de ficção científica A Máquina do Tempo,A Guerra dos Mundos e O Homem Invisível.

Jack London (Temporada 5, Episódio 1)

Aaron Ashmore como Jack London. Imagem: Divulgação CBC/+Globosat

A participação de Jack London em Murdoch Mysteries acontece em um daqueles episódios em que o nosso detetive está fora de Toronto, meio deprê, precisando de consolo (sem spoilers, tá?!). Ele vai para Yukon, mas, advinha só: acontecem dois assassinatos e Murdoch não pode fazer outra coisa senão investigá-los. Com uma valiosa ajuda, é claro!

Jack London escreveu muitas histórias de aventura baseadas em suas próprias experiências nos Territórios Yukon e do Noroeste do Canadá. Suas observações formam grande parte do material de seus livros mais famosos, O chamado selvagem (1903) , O lobo do mar (1904) e Caninos brancos (1906).

Mark Twain (Temporada 9, Episódio 2)

Yannick Bisson como Detetive William Murdoch e William Shatner como o escritor Mark Twain. Imagem: Divulgação CBC/+Globosat.

Em sua passagem por Toronto, Mark Twain faz um discurso anti-imperialista que desagrada profundamente seus ouvintes. Sendo assim, alguém tenta atirar nele.

Samuel Clemons, mais conhecido por seu pseudônimo Mark Twain, foi autor de vários clássicos da literatura norte-americana, incluindo As aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn.

Lucy Maud Montgomery (Temporada 9, Episódio 12)

Alison Louder interpreta a escritora canadense Lucy Moud Montgomery em “Murdoch Mysteries”. Imagem: Divulgação CBC/+Globosat

Lucy Maud Montgomery é uma das alunas do curso de escrita criativa de George Crabtree (que é policial e escritor, nem sempre nesta ordem). Neste episódio, após ler o manuscrito de Anne de Green Gables, Crabtree sugere que Montgomery adicione cadáveres, fantasmas etc. e mude o título do livro para “Dan de Green Gables”, ou seja, trocar Anne, a protagonista, por um garoto. A autora não gosta nem um pouco das sugestões,obviamente! O desfecho dessa trama é uma gracinha, uma das participações especiais que eu mais gosto na série, e nem preciso dizer (mas digo mesmo assim) que é por motivos de Anne de Green Gables!

H. P. Lovecraft (Temporada 10, Episódio 16)

Tyler East como H P Lovecraft e Johnny Harrys como Constable Crabtree em Murdoch Mysteries. Imagem: Divulgação CBC/+Globosat.

A descoberta de um corpo e alguns esboços grotescos levam Murdoch a suspeitar de um grupo de adolescentes obcecados pela morte e cheios de insatisfações. Um jovem escritor, H. P. Lovecraft, havia se juntado a este grupo pouco antes do acontecido. Meio esquisitão, ele acaba envolvido no mistério!

Howard Phillips Lovecraft, mais conhecido como H. P. Lovecraft, foi um autor de poucos leitores em vida. Hoje, é tido como referência no gênero de ficção de terror. Veja alguns de seus livros, clicando aqui.

Helen Keller (Temporada 11, Episódio 3)

Amanda Richer como Helen Keller.

Helen Keller foi ativista política, educadora, palestrante e a primeira pessoa surdo-cega a obter um diploma de bacharelado. É muito conhecida, também, por sua autobiografia, A História da Minha Vida (1903). Em sua participação na série, ela é homenageada em um jantar totalmente sem iluminação, para que os participantes sentissem um pouco a realidade de não enchergar. O mistério começa com o sumiço de um dos participantes na ocasião.
***
E então, vamos maratonar?

 

 

Post baseado no original publicado em inglês pela CBC.

fevereiro 02, 2020

[RESENHA] SE A RUA BEALE FALASSE, DE JAMES BALDWIN

Sinopse: Lançado em 1974, o quinto romance de James Baldwin narra os esforços de Tish para provar a inocência de Fonny, seu noivo, preso injustamente. Livro que inspirou o filme homônimo dirigido por Barry Jenkins, vencedor do Oscar por Moonlight.

Tish tem dezenove anos quando descobre que está grávida de Fonny, de 22. A sólida história de amor dos dois é interrompida bruscamente quando o rapaz é acusado de ter estuprado uma porto-riquenha, embora não haja nenhuma prova que o incrimine. Convicta da honestidade do noivo, Tish mobiliza sua família e advogados na tentativa de libertá-lo da prisão.
Se a rua Beale falasse é um romance comovente que tem o Harlem da década de 1970 como pano de fundo. Ao revelar as incertezas do futuro, a trama joga luz sobre o desespero, a tristeza e a esperança trazidos a reboque de uma sentença anunciada em um país onde a discriminação racial está profundamente arraigada no cotidiano.
Esta edição tem tradução de Jorio Dauster e inclui posfácio de Márcio Macedo.”

 

Tish e Fonny estão prestes a iniciar sua vida como casal. Um feliz e apaixonado casal, com a vida inteira pela frente. No entanto, algo muito grave frusta o sonho dos dois: Fonny, um aspirante a escultor, é acusado injustamente de estuprar uma imigrante porto riquenha, e preso com poucas chances de provar sua inocência. Ele é negro e o sistema de justiça dos Estados Unidos é, além de viciado, extremamente racista. O romance de James Baldwin se passa na década de 1970, mas retrata muito bem a realidade dos nossos dias. Inclusive, não só a realidade dos Estados Unidos, mas a daqui mesmo, do Brasil (basta verificar a nossa população carcerária).

Se a rua Beale Falasse mostra então os esforços de Tish, uma garota grávida de apenas 19 anos, para tirar seu noivo da prisão. O romance é todo narrado por ela, a partir de suas lembranças, e essa escolha narrativa do autor nos presenteia com um livro extremamente delicado, embora trate de um tema tão pesado quanto o racismo e o sistema prisional falho e injusto, que rouba a vida de jovens pobres como se “a luta contra o crime” fosse, na verdade, uma guerra para encarcerar mais e mais negros. Você consegue sentir a angústia do casal e ao mesmo tempo torce para que eles possam retomar seus  doces planos de uma vida comum. O romance foi adaptado para o cinema pelo diretor Barry Jenkins (2019) e caminhou lindamente neste mesmo sentido: nos mostra a dor e o amor pelos olhos de Tish.

 

“A mesma paixão que salvou o Fonny fez com que ele se encrencasse e fosse para a cadeia. Porque, veja bem, ele havia descoberto seu centro, seu próprio centro, dentro dele: e isso era visível. Ele não era o preto de ninguém. E isso é um crime na porra deste país livre. Supõe-se que você seja o preto de alguém. E se você não for o preto de alguém, então você é um preto mau: e foi isso que os policiais decidiram quando o Fonny se mudou para downtown.”

 

“Nós não sabemos o suficiente sobre nós mesmos. Acho que é melhor saber que você não sabe, assim você pode crescer com o mistério enquanto o mistério cresce em você. Mas hoje em dia, é claro, todo mundo sabe tudo, é por isso que tantas pessoas estão perdidas.”

 

Além da história de amor interrompida pela falsa acusação de estupro, há outros temas sensíveis tratados pelo romance de Baldwin: O fanatismo religioso, o racismo entre negros de pele mais clara em relação aos retintos e a depressão masculina. Baldwin mostra as fraquezas de seus personagens quando faz com que eles falem de sua dor, deixando visível os abusos que sofreram, na prisão ou fora dela. O autor derruba muitos estereótipos com essa história, o maior deles, sem dúvida, como apontado no posfácio de Márcio Macedo, é o do homem negro “maníaco sexual”, que violenta mulheres brancas (ou de pele mais clara, como o caso da vítima de estupro, que era latina) porque seria algo de sua índole. Ainda segundo Macedo, “Se a Rua Beale falasse é uma história de amor entre pessoas comuns que tentam manter a serenidade e a esperança em uma sociedade que não oferece quase nenhum reconhecimento social ou igualdade para negros.” É isso!

Se a Rua Beale falasse é perfeito: é romântico, é doloroso. É puro blues. Um livro gigante dentro de suas pouco mais de 200 páginas.

 

“Lembre-se: foi o amor que te trouxe aqui. E se você confiou no amor até agora, não entre em pânico agora. Confie até o fim.”

 

 

 

Título: Se a Rua Beale falasse

Autor: James Baldwin

Tradução: Jorio Dauster

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 224

 

Compre na Amazon: Se a Rua Beale falasse.

 

Veja o trailer legendado de Se a Rua Beale Falasse (2019):

 

janeiro 27, 2020

[RESENHA] ADEUS, GANA, DE TAIYE SELASI

Sinopse: “Adeus, Gana é ao mesmo tempo o retrato de uma família marcada pela separação de seus caminhos e uma viagem pela importância que nossas origens têm na formação de nosso caráter.

Kweku Sai, renomado cirurgião formado nos Estados Unidos e autoexilado em Acra, capital de Gana, está morto. A notícia da morte de Kweku chega aos mais diversos cantos do mundo, aproximando os laços quase perdidos de uma família que ele abandonara anos atrás.

Costurando com maestria uma narrativa entre diferentes tempos e lugares, Taiye Selasi fala de como certas verdades são capazes de curar as feridas mais escondidas, em um romance sobre o poder de transformação que há no amor incondicional.”

 

Alguns laços são doentios, mas o que afinal somos nós, do que somos feitos, senão de um emaranhado de sentimentos herdados de nossos pais (e causados principalmente por eles)? Adeus, Gana, de Taiye Selasi (TAG/Editora Planeta – Janeiro 2020) fala desse tipo de pertencimento (ou encarceramento) de forma muito sublime. É daqueles livros que a gente termina com um nó na garganta, apesar de demorar um pouco para entrar no ritmo da história. O começo um pouco confuso a gente acaba entendendo no final: iniciamos o romance, sua primeira parte, lendo a história de um homem morto; suas lembranças em uma espécie de retrospectiva antes do momento derradeiro.

Adeus, Gana é dividido em três partes: Partido, Partida e Partir. É a história de uma família fragmentada por ações mal pensadas e palavras não ditas. Kweku está morto! A morte deste homem, que outrora abandonou esposa e filhos por não conseguir suportar uma demissão injusta, faz com que todos os que ficaram para trás revivam suas dores e cicatrizes. A família Sai está junta novamente. Para velar o corpo de Kweku, sim, mas principalmente para entender o porquê de serem como são.

O livro mergulha profundamente nas relações familiares, nas relações de amor e abandono, mas também mostra como é ser imigrante — e filho de imigrantes — em um país que despreza a sua cultura de origem. Os brilhantes africanos nos Estados Unidos, mesmo obtendo as notas mais altas na universidade, ocupando cargos de prestígio e tendo sucesso, uma hora ou outra acabam sendo menosprezados ou “colocados em seu devido lugar”. A questão maior, a que mais incomoda, é qual seria este lugar? O não pertencimento é algo latente nas páginas de Adeus, Gana. O racismo e as relações patriarcais também são temas que Selasi descreve com sua forma única — poética — de narrar essa história. Adeus, Gana é um livro de imagens, milhares delas. Um filme que se projeta em nossa mente e também no coração.

 

“Elas faziam e pensavam e amavam e buscavam e doavam. Mas, o mais perigoso, elas sonhavam.

Eram mulheres sonhadoras.

Mulheres muito perigosas.

Que olhavam para o mundo através dos olhos arregalados de sonhadores e o viam não como era, “brutal, sem sentido” etc., mas pior, como poderia ser ou poderia ainda se tornar.

Então, mulheres insasiáveis.

Mulheres impossíveis de agradar.” (p. 67)

 

 

 

Título: Adeus, Gana

Autora: Taiye Selasi

Tradução: Isadora Prospero

Editora: TAG/Planeta de Livros

Páginas: 368

Assista: “Não me pergunte de onde venho, me pergunte onde sou local”TED Talk de Taiye Selasi (com legendas em português):

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