setembro 26, 2019

[RESENHA] A INGÊNUA LIBERTINA, DE COLETTE

Sinopse: “Um verdadeiro tratado sobre a liberdade, o desejo feminino, o casamento e a maternidade, A ingênua libertina foi publicado por Colette em 1909, mas sua leitura em nada nos parece datada ou antiquada. A escritora francesa consegue, com sua protagonista e com uma linguagem lírica e ao mesmo tempo sagaz, fazer um retrato vívido da condição feminina no início do século XX, tantas vezes podada pelas mãos de uma sociedade que exige tudo de mulheres, menos a independência. Nesta que é uma das obras mais espirituosas de Colette, conhecemos Minne, uma menina atrevida e irreverente que sonha em se juntar a um bando de criminosos de Paris e se aventurar pelo mundo ao lado de um grande amor. Mais tarde, já adulta e casada com um primo, mas frustrada com os rumos que sua vida tomou, ela se lança em casos extraconjugais em busca de prazer e descobertas, embora suas escapadas não saiam exatamente como o esperado. Mas, um dia, tudo parece mudar… A ingênua libertina é um romance que traz muito da biografia de sua autora, uma personalidade literária peculiar e virtuosa que desafiou as convenções da sua época e que soube ser original e popular, encantando, assim, a França e o mundo.”

 

É praticamente impossível falar sobre A ingênua libertina (1909), de Colette, sem mencionar o seu primo mais velho, o também francês Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert. Nos dois romances, temos mulheres que anseiam encontrar o êxtase: algo que faça com que elas saiam da rígida estrutura reservada às mulheres burguesas de sua época.

Em A ingênua libertina, no entanto, podemos entender esse êxtase como a satisfação sexual. Minne, a protagonista, tem plena consciência sobre o prazer que os homens conseguem alcançar, o desfalecimento do corpo ao atingir o gozo, a plena satisfação sexual. E ela quer sentir-se assim também, plena. Sexualmente falando.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, acompanhamos a Minne “moça casadoura”, uma menina extremamente mimada pela mãe, quase um bibelô de porcelana. Ela fantasia uma vida de aventuras ao ler a seção policial do jornal (escondida da mãe, é claro). Já nesta fase percebemos o quanto a beleza ao mesmo tempo pura e enigmática de Minne encanta perdidamente seu primo, Antoine. É citado, inclusive, (repetidamente) os lindos olhos escuros da moça, o que me lembrou outra personagem inesquecível do Realismo — desta vez, brasileiro — Capitu.

 

Veja também: Ela é feita de mulher, simplesmente: Editora Ímã lança A vagabunda, de Colette.

 

Na segunda parte, Minne já está casada. No entanto, parece ainda mais longe de alcançar o êxtase, mesmo acumulando alguns casos extraconjugais. É muito interessante, mesmo nos dias atuais (ou talvez principalmente), ler sobre uma mulher que quer, simplesmente, ter prazer. Minne foi educada para ser uma bela imagem, mas recusa-se a ser estática, mesmo que isso possa lhe causar alguns problemas. Ainda traçando um paralelo à Emma Bovary, Minne é mimada e egoísta, mas não conseguir vê-la como uma personagem odiosa, como a protagonista de Flaubert eventualmente é (na minha leitura da obra). Preciso ressaltar, no entanto, que não estou dizendo que um livro é melhor que o outro. Madame Bovary foi um marco na literatura mundial. Mostrou que uma sociedade de valores adoecidos pode facilmente adoecer uma pessoa. Emma, em que pese alguma antipatia de minha parte, não pode ser condenada pela ingenuidade de querer e buscar a todo custo um amor como o que ela leu nos livros. A trajetória desta personagem é o que faz o livro ser o que ele é: um clássico que merece ser lido por todos (eu quero, inclusive, ler mais uma vez).

Talvez tenha sido um acerto Colette ter eliminado o fator maternidade de seu romance — um dos motivos que justificam certo rancor por Emma Bovary é, justamente, o desprezo que ela tem pela filha, — ou provavelmente o deleite que tive com essa leitura tenha acontecido justamente pelo romance ter sido escrito por uma mulher.

 

“Enquanto fala, ele a despe. Seus beijos, o contato de seu jovem corpo vigoroso e rosado que cheira a renda de seda, o clarão de beleza misteriosa que a visita nesse momento reanimam uma vez mais, no fundo dos olhos sombrios de Minne, a espera do milagre inesperado… Porém, uma vez mais, ele sucumbe só, e Minne, ao contemplá-lo imóvel tão perto de si, mal ressuscitado de uma bem-aventurada morte, decifra no íntimo de si mesma os motivos de um ódio nascente: detesta ferozmente o êxtase dessa criança fogosa, o desmaio que ele não sabe lhe dar: ‘Esse prazer, ele o rouba de mim! É minha, é minha essa fulminação divina que o derruba em cima de mim! Eu a quero! Ou então, que ele deixe de conhecê-la por mim!…’”

 

“Perfeitamente, ela tem amantes! E é seu direito ter amantes. É o direito de toda mulher enganada pela vida.”

 

A ingênua libertina foi uma leitura excitante, nas várias acepções que essa palavra possa abarcar. Comprei o livro há algum tempo, mas iniciei essa leitura logo após assistir ao filme Colette (2018), com a atriz Keira Knightley no papel da escritora francesa. No dia seguinte, já havia terminado a leitura, buscando saber mais e ler mais de Colette, essa autora talentosa e transgressora até para os dias atuais.

 

 

 

Título: A ingênua libertina

Autora: Colette

Tradução: Rachel Jardim

Editora: Nova Fronteira

Páginas: 160

Compre na Amazon: A ingênua libertina

 

Veja o trailer de Colette abaixo:

setembro 24, 2019

[RESENHA] INTÉRPRETE DE MALES, DE JHUMPA LAHIRI

Sinopse: “Celebrando vinte anos de lançamento, Intérprete de males continua mais relevante do que nunca, abarcando todas as consequências possíveis de um mundo globalizado. Jhumpa Lahiri nos toma pela mão e, a cada história, nos apresenta a personagens que se encontram no meio do caminho de um fio condutor identitário: em meio a deslocamentos e realocações, quantas origens e culturas podem habitar uma pessoa?”

 

“Intérprete de males é a prova de que um livro merece uma alegre festa de aniversário não somente por ter testemunhado naquele momento uma condição humana significativa, mas por fazê-lo com sensibilidade, inteligência e arte refinada.” (do prefácio de Domênico Starnone)

 

Esplêndido. É o que foi, para mim, o livro Intérprete de males, de Jhumpa Lahiri (TAG/Biblioteca Azul, setembro-2019). Quem leu, sabe que o adjetivo não foi escolhido por acaso: é o que a centenária Sra. Croft acha sobre o homem ter posto uma bandeira (americana) na lua, retirado do último conto da coletânea, “O terceiro e último continente“.

Interprete de males é esplêndido por vários motivos. Seja pelos os personagens cativantes, trama envolvente ou pelos finais arrebatadores, é um livro de contos — nove, no total — em que todas as histórias são boas por uma ou outra característica. É difícil escolher um conto favorito, ou um personagem mais marcante. Desde a primeira narrativa, somos imersos no peso da intercultura: indianos ou descendentes que estão à margem do pertencimento, entre países completamente distintos, mas dos quais carregam características que formam o que eles são. Interprete de males, ganhador do Pulitzer no ano 2000, é um livro sobre imigrantes, mas não é só isso. É um livro sobre cotidiano, sobre o que nos torna aquilo que somos.

Jhumpa Lahiri é filha de indianos, nascida em Londres, naturalizada americana. Toda essa trajetória, ao meu ver, reflete em muita leveza e em muita verdade nos personagens deste livro. Mesmo nas tramas mais dramáticas, não há exagero. Todos os atos dos personagens e desfechos dos contos são extremamente convincentes. Gosto de imaginar o quanto de autobiográfico tem um livro e Intérprete de males aguça ainda mais esse tipo de curiosidade.

 

“Embora não o visse havia meses, só então senti a ausência do sr. Pirzada. Só então, erguendo meu copo de água em nome dele, foi que entendi como era sentir falta de alguém que estava a tantos quilômetros e horas de distância, assim como ele havia sentido falta da esposa e das filhas durante tantos meses.” (Quando o sr. Pirzada vinha jantar, p. 52)

 

“— Essa palavra: ‘sexy’. O que quer dizer?

(…)

— Quer dizer amar alguém que a gente não conhece.” (Sexy, p. 117)

 

“Sempre que ele desanima, digo que, se eu sobrevivi em três continentes, não há obstáculos que ele não possa superar.” (O terceiro e último continente, p. 207)

 

 

A edição da TAG teve como curadora a escritora Rupi Kaur, indiana radicada no Canadá, autora do maravilhoso Outros jeitos de usar a boca:

“Quando li Interprete de Males eu me senti vista, ouvida, entendida. Eu estava na beira da cadeira lendo cada história porque não tinha ideia do que aconteceria a seguir. Cada história tem uma reviravolta emocional e destruidora. É bem mágico. Jhumpa é maravilhosa em criar histórias lindamente dolorosas que tomam essas reviravoltas da mesma forma como acontece na vida real. Frequentemente estamos em situações em que as nossas mentes definem que os resultados vão ser de uma certa forma, mas raramente isso acontece de verdade. É assim que essas histórias fluem. Sirva uma taça de vinho e absorva cada frase.”

 

 

Kit TAG Curadoria de setembro-2019.

 

Uma coisa interessante na leitura do conto que dá nome ao livro é que ele explica não só a profissão de um dos personagens, mas, de certa forma, explica também o que faz Jhumpa Lahiri para nós leitores, especialmente os que não têm essa vivência de se estabelecer tão longe de sua cultura. Embora diferentes, os contos funcionam muito bem juntos e o título Intérprete de males acaba por traduzir e sintetizar cada um deles.

 

 

 

Título: Intérprete de males

Autora: Jhumpa Lahiri

Tradução: José Rubens Siqueira

Prefácio: Domenico Starnone

Editora: TAG/Biblioteca Azul

Páginas: 208

Ouça a playlist no Spotify clicando aqui.

 

Para comprar em outra edição, clique aqui.

 

setembro 16, 2019

[CONTO] SEGURA O MEU CORAÇÃO

O que o filme “De repente 30” e Sandy & Junior têm em comum?

 

Ela já falou mais de mil vezes que logo lavaria a louça do almoço. É óbvio, no entanto, que mãe só iria parar de mandar depois que o serviço estivesse feito.

— Já vou, mãe! Logo depois de Sandy & Junior.

Antes do seriado e da louça, precisava organizar algumas fotos novas da coleção. Não tinha jeito: qualquer recorte novo que entrasse na pasta de Iris exigia uma olhadinha rápida em todas as outras fotos da coleção. Pelo menos de uma das pastas, porque Iris já inteirava o quinto fichário de sua coleção de entrevistas, fotos e letras de músicas de Sandy & Junior.

Conseguiu uma foto da Sandy de uma entrevista muito importante. “Nunca beijei”, a cantora disse. “Graças a Deus”, Iris retrucava para o papel, “porque eu também não”.

Deu uma olhada no relógio da cozinha, verificou se a TV da sala estava na Globo, mas ainda faltavam alguns vários minutos até que “Eu acho que pirei” começasse a tocar, anunciando o seu programa favorito. O domingo não era domingo sem Sandy & Junior. Mesmo quando a família almoçava fora, em algum restaurante ou na casa de parentes, Iris pedia, gentilmente, pelo amor de tudo que é sagrado para assistir ao seriado.

— Bota no Sandy & Junior aí, não peço mais nada, prometo! Ah, pode deixar que a louça eu lavo!

Ainda em seu devaneio SandyJuníaco, Iris pensou que talvez fosse melhor adiantar a louça, conforme a mãe já havia pedido algumas centenas de vezes, lavando pelo menos os pratos e os copos. Sobraria mais tempo para dar uma voltinha de bicicleta ou ouvir música (Sandy & Junior). Tinha, também, trabalho da escola para fazer… Ainda bem que o domingo é grande, Iris pensava, e teria tempo suficiente para fazer tudo.

Começou a ensaboar um prato, dois, três… Na sua cabeça, já estava tocando “Eu acho que pirei”. Iris amava essa música! Começou a cantar em voz alta, mas percebeu algo estranho. Primeiro: ninguém havia reclamado da cantoria. Segundo… sentiu as pernas ligeiramente bambas e a sua visão ficou um pouco turva. Não tinha como ser fome, pelo amor de Deus, Iris já havia almoçado! Antes de apagar de vez, teve ainda tempo de pensar “poxa vida, nem vi Sandy & Junior…”

 

***

 

Iris acordou do que pareceu ser um sono tão longo quanto como se tivessem passado uns quinze (ou vinte) anos! Estava um pouco confusa, a visão ainda um pouco turva mas, definitivamente, IRIS NÃO ESTAVA EM CASA!

Não tinha pia cheia de louça suja. Não tinha ninguém da sua família por perto, nenhum conhecido. Levantou-se do canto onde estava e percebeu que, além de estar com outra roupa, estava em uma fila enorme e tinha muita gente cantando “Eu acho que pirei” a plenos pulmões! Apesar de um pouco assustada, Iris ficou feliz por perceber que estava em família. Só tinha fã de Sandy & Junior naquele lugar, então não tinha perigo!

Ela deve apenas… ter… caído ali… por alguma razão… desconhecida… do universo?

Interrompendo os pensamentos que não conseguiam explicar, com eficiência, o que bolinhas ela estava fazendo nessa fila com gente cantando Sandy & Junior, Iris percebeu que uma moça a olhava com bastante curiosidade. Vestia uma blusa preta escrito Sandy & Jr., toda bordada de lantejoulas, calça jeans e tênis All Star — portanto, gente de confiança, certamente uma SandyJuníaca. — Precisava fazer contato.

— Oi, meu nome é Iris.

— Talita, muito prazer.

E antes que Iris pudesse perguntar alguma coisa, emendou:

— Você está bem? Quando cheguei aqui na fila você estava roncando alto, dormindo de boca aberta! — a moça disse, mal contendo uma risada.

— Eu não ronco não, tá doida? — Iris respondeu, com o rosto em brasa de vergonha.

— Ei, tá tudo bem, colega. Muita gente veio de longe, você deve estar cansada.

— Eu nunca ronquei na vida, minha filha! — Iris se limitou a dizer.

Talita deu as costas para Iris e se afastou, decerto para não emendar a conversa produtiva que estavam tendo. Iris percebeu que ela própria também estava bem arrumada — com roupas que nunca vira, é claro — e tinha nos pés um All Star preto, esse sim era, ou devia ser, seu amigo de longa data. A questão era: a energia daquele lugar era surreal, ela já estava ficando bem animada, mas não tinha a menor ideia de como havia parado naquele lugar. Nem de como voltaria para casa.

 

***

 

— Ei, moça! — Iris cutucou Talita, que se virou lentamente.

— Olha, você estava roncando sim! Vigiei para que ninguém lhe pusesse a mão, mas não quero ficar batendo boca por besteira não. Hoje é um dia especial demais para isso, to fora de treta!

— Treta? — Iris ficou meio sem entender, mas logo fez a pergunta que estava presa em sua garganta: — Você sabe se já passou o seriado Sandy & Junior? Sabe onde tem uma TV onde eu possa assistir?

— Miga, todos os episódios de Sandy & Junior estão disponíveis na internet! — Talita respondeu, agora um pouco confusa com o comportamento de Iris. — O Canal Viva também reprisa os episódios na hora do almoço.

Pareciam estar conversando em línguas distintas. Sandy & Junior passando na TV como se não tivéssemos internet para assistir em qualquer hora ou lugar? Todos os episódios na internet?Canal Viva?

— Posso fazer uma pergunta, Talita?

— Sim, claro. — Talita respondeu, mas com algumas reservas.

— Onde a gente está? Que fila enorme é essa? Por que na minha blusa está escrito “esse turu tatuado no meu peito”?

— Você tá passando mal, colega?

Iris não respondeu. Ficou com os olhos levemente marejados, o sinal de um choro a um suspiro de irromper. Talita, percebendo que Iris estava realmente confusa, disse baixinho:

— Estamos na fila para entrar no show de Sandy e Junior, em comemoração aos trinta anos de carreira deles. Turnê Nossa História! Sua blusa tem um trecho da música “Quando você passa”.

— Ah, entendi. — Iris respondeu, sem entender nada. — Mas, espera: TRINTA ANOS?! Como?… Mas eu tenho treze e eles começaram a carreira dois anos depois de… Como eles podem ter trinta anos de carreira se eu…

— Olha… — Talita começou, — se vai mentir a idade… sugiro uns vinte e cinco… vinte e sete anos…

— Você não tá me entendendo. Eu tenho treze anos! — Iris disse, chamando a atenção de algumas pessoas que estavam por perto.

— Tá bom, colega. Muito prazer sou Monica, esposa do Junior. — Talita disse, rindo, mas a graça logo foi embora com a cara de não-sei-o-que-estou-fazendo-aqui-nem-o-que-você-está-dizendo que Iris estava fazendo. — Espera um pouco.

Disse isso e a outra parte que Iris não entendeu — e achou melhor nem perguntar, afinal, quem é Monica e que ideia é essa do Junior casado Deus-me-livre-pelo-amor-de-Deus? — e se afastou um pouco, voltando com as mãos cheias de uma comida tão cheirosa que fez seu estômago roncar!

— Toma aqui, come esse tropeiro, por minha conta! Pega esse suco também, quem sabe de barriga cheia a sua cabecinha funciona melhor? — Talita disse, e as duas caíram na risada.

 

***

 

Iris não estava entendendo nada, mas começava a não se importar com isso. Tudo indicava que estava vivendo um momento épico, em uma realidade diferente da sua é claro, mas ainda era a sua realidade. Talvez um futuro alternativo, quem sabe? Na bolsa dela tinha até carteira de motorista! Um bocado de dinheiro, graças a Deus, e um aparelho diferente. Parece uma agenda eletrônica, talvez seja uma celular super avançado, mas sem muitas teclas… Quando Iris apertou um botão lateral a tela se iluminou e mostrou a foto de uma criança, uma menina. Era extremamente parecida com ela, mas Iris tinha quase certeza de que era outra pessoa. Que loucura era aquela que estava acontecendo ela não sabia. Mas ia ficar bem atenta, vai saber se não estava em alguma pegadinha do Faustão ou coisa pior!

 

***

 

O pôr do sol começava a pintar o céu de laranja quando Iris e Talita passaram pelo portão de entrada do evento.

— Seu ingresso, por favor. — uma funcionária pediu a Iris. Talita, que já havia sido liberada, aguardava logo à frente.

Iris pegou o papel dobrado dentro da carteira e entregou para a funcionária, que verificou o código de barras impresso.

— Bom show! — a funcionária disse, como um sinal para que Iris liberasse o lugar para o próximo da fila.

— Bom show? Bom show… — Iris repetiu algumas vezes, assimilando o conteúdo daquelas duas palavras. — Eu vou ao show… EU VOU AO SHOW DE SANDY & JUNIOR!

— NÓS VAMOS, COLEGA! — Talita respondeu, cheia de animação. — Vamos ver Sandy & Junior bem de pertinho. Finalmente!

Demorou, mas Iris, Talita e milhares de pessoas viram Sandy & Junior bem de pertinho. Iris já não pensava em como voltaria para casa, talvez estivesse sonhando. A sensação era essa mesmo, de sonho. Uma viagem no tempo, quem sabe, em que ela foi jogada em algum lugar do tempo entre o futuro e o seu presente. Sandy & Junior bem ali, diferentes das fotos que Iris têm em seus álbuns, mas, ao mesmo tempo, tão eles mesmos que nada parece ter mudado. De repente nada mude na vida. De repente o que a gente ama de verdade permaneça com a gente mesmo depois de muito tempo.

Iris ouviu “Quando você passa” pela primeira vez naquela noite e pensou que essa seria sua música favorita algum dia. Talvez tenha sido, o que justificava a blusa que estava vestindo. Era a tradução daquilo que ela já sentia. Era a tradução do que muita gente que estava ali sentia, tamanha era a emoção que podia ser vista nas lágrimas de quem estava perto e nas vozes em coro que Iris ouviu.

A certa altura, Iris sentiu novamente suas pernas perderem as forças, parecia estar prestes a desmaiar. Mas desta vez, não lamentaria.

 

***

 

— Iris? Iris! Iris, você está dormindo? — Uma voz distante perguntou.

Iris abriu os olhos devagar, quase como um instinto de proteção. Sabia que havia passado por outro apagão, então sabe lá onde ela acordaria desta vez! Aos poucos a visão que teve diante de si começou a ficar mais clara e a voz que a chamava, também.

— Iris? Iris! — Sua mãe estava chamando.

— Mãe? Eu dormi? O que aconteceu? — Iris perguntou.

— Você dormiu, e estava roncando alto. — A mãe disse, sorrindo.

— Ah, mãe, você também! — Iris respondeu. — Já falei que eu não ronco!

— Tá, sei. — a mãe respondeu. — Anda, você dormiu no meio dessas fotos, corre lá para a sala.

— Ué, o que é que tem na sala? — Iris perguntou.

— Tá começando o seriado Sandy & Junior. Você não vai perder, vai?

 

Do quarto dava para ouvir, “Eu acho que pirei” estava tocando.

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