março 17, 2020

[RESENHA] BARTLEBY, O ESCRIVÃO: UMA HISTÓRIA DE WALL STREET, DE HERMAN MELVILLE

Sinopse: “”–Você poderia me contar qualquer coisa a seu respeito?’ –Acho melhor não.”Repetida mais de 20 vezes, a frase “Acho melhor não” é uma espécie de leitmotiv, ou fio condutor, da obra-prima de Melville. A história é contada pelo sócio de um escritório de advocacia de Nova York, que se esforça para desvendar a misteriosa e impenetrável personalidade de Bartleby, um escrivão que se recusa resolutamente a realizar qualquer tarefa, sem apresentar nenhuma justificativa para tal. O fascínio pela postura do funcionário impede o advogado de tomar medidas enérgicas e, quando finalmente decide fazê-lo, é confrontado com a mesma negativa inabalável. Por que Bartebly age como age? Por que sua austera recusa tem tamanha força? Somos, nós, incapazes de lidar com aquilo que não oferece explicações? A cada resposta evasiva de Bartleby abre-se a fresta para a entrada do insólito no cotidiano do escritório de advocacia e até da vizinhança de Wall Street. Repleto de humor e jogos de linguagem e com estilo que não dá ao leitor possibilidade alguma de abandonar o livro, o clássico de Melville oferece uma reflexão profunda sobre a natureza humana e o modo como nos relacionamos com o mundo. Escrita há mais de um século, a obra nos remete a outros escritores incontornáveis da literatura ocidental, como Kafka e Camus, que marcaram o século XX com suas narrativas sobre o absurdo que pode tomar conta da existência. A edição traz posfácio do crítico Modesto Carone e projeto gráfico que faz com que o leitor tenha que descosturar a capa e cortar, uma a uma, as páginas não refiladas do livro para desvendar a novela de Melville. Como afirma a designer Elaine Ramos, a cada página o livro dirá “Acho melhor não”, da mesma forma que o escrivão se recusa a atender aos pedidos de seu patrão.”

 

Faz tempo que o e-book Bartleby, o escrivão, de Herman Melville (Ubu, 2016) estava no meu Kindle aguardando para ser lido. Eu tinha pouco conhecimento prévio sobre essa história, mas alguns carimbos costumam acompanhar o livro nas fotos, então meu palpite inicial era de que se tratava de um conto sobre a burocracia. Eu sabia que podia ser uma narrativa com a qual eu pudesse me identificar, tendo em vista que trabalho neste tipo de serviço, como auxiliar administrativo. Mas Bartleby, livro e personagem, é muito mais denso do que toda essa minha análise inicial.

A novela é narrada em primeira pessoa por um advogado que é dono de um escritório que presta serviços de escrituração. Tempos distantes, os quais era necessário um extenuante trabalho manual para executar um serviço que hoje se faz com poucos minutos em uma máquina de Xerox. Este escritório conta com dois funcionários e um estagiário, pessoas as quais o chefe consegue manejar razoavelmente bem, cada qual dentro de seus humores e peculiaridades. No entanto, o volume de trabalho requer a contratação de mais alguém e Bartleby — o novo funcionário —, é um acréscimo diferente, um pouco complicado de se lidar. O rapaz é absolutamente estoico e, a cada ordem que recebe, repete uma espécie de refrão que leremos por toda a obra: “acho melhor não”.

Não pense que Bartleby é um preguiçoso. No início trabalhou com muito mais afinco que o necessário (e recomendado). Seu local de trabalho não era dos melhores, não tinha muita iluminação e a vista de sua mesa era um muro (sem glamour para “Wall Street” por aqui, em uma interpretação e tradução literal). Nele existe algum conflito interno (ou externo, não sabemos), que o faz se rebelar, mesmo que desta forma particular e curiosa, uma revolta pacífica ancorada em suas frequentes negativas. Com isso, Bartleby intriga (e irrita) profundamente seu chefe, além de influenciar os colegas: “Acho melhor…” vira um bordão involuntário no escritório.

Bartleby não diz tudo — na verdade, não diz nada, pois o conhecemos apenas pelo olhar do narrador —, no entanto nos mostra muitas sutilezas psicológicas e de linguagem em sua breve narrativa. Em minha experiência particular no front, entre carimbos e atendimentos, me chamou mais atenção nesta história o fato de que ninguém honestamente e sinceramente se perguntou o porquê da atitude estranha deste homem em sempre repetir “acho melhor não”. O que mais incomodava o dono do escritório era a estranha insubordinação de Bartleby, pois é certo que não sabia como lidar com ela. Deste modo, a única saída possível seria a demissão. Somos descartáveis (?).

Eu poderia dar mais alguns detalhes sobre o livro ou sobre minha longa experiência conferindo, carimbando, rubricando e protocolando coisas. Poderia. Mas acho melhor não.

 

 

 

Título: Bartleby, o escrivão: uma história de Wall Street

Autor: Herman Melville

Tradução: Irene Hirsch

Posfácio: Modesto Carone

Editora: Ubu

Páginas: 69 (no formato digital)

 

Compre na Amazon: Bartleby, o escrivão.

 

 

Leia também: Você sabe o que é o “Mal de Bartleby”?

março 16, 2020

[LANÇAMENTO] ELENA FERRANTE, UMA LONGA EXPERIÊNCIA DE AUSÊNCIA, DE FABIANE SECCHES

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O livro Elena Ferrante, uma longa experiência de ausência (2020), de Fabiane Secches, propõe uma análise detida da obra da autora italiana Elena Ferrante, pseudônimo que assina algumas das obras mais lidas e comentadas das últimas três décadas. O lançamento será no dia 02 de abril de 2020 na Livraria da Travessa de Pinheiros (Rua dos Pinheiros, 513, próxima à estação de metrô Fradique Coutinho), em São Paulo, com pré-venda online a partir de março (em breve!).

O ensaio publicado pela editora Claraboia teve início com a pesquisa de mestrado de Fabiane Secches na Universidade de São Paulo, que investigou a ambivalência em A amiga genial (2011-2014), obra mais célebre de Ferrante — também conhecida como tetralogia napolitana. O trabalho da autora foi um dos pioneiros sobre a obra de Ferrante e agora se desdobrou em uma nova obra, de natureza ensaística, dedicada não apenas a críticos e pesquisadores, mas a leitoras e leitores em geral.

O prefácio do livro foi escrito por Francesca Cricelli, doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, escritora e tradutora brasileira de Dias de abandono, segundo romance de Ferrante. O posfácio é de Maurício Santana Dias, professor de Literatura Italiana da Universidade de São Paulo e tradutor dos quatro volumes da tetralogia napolitana. Já a orelha foi escrita por Aurora Fornoni Bernardini, crítica literária, tradutora e professora nessa mesma universidade, orientadora da pesquisa de mestrado de Fabiane Secches.

Em poucos anos, a tetralogia napolitana inspirou diferentes adaptações para o teatro, ganhou uma série exibida pela HBO (a segunda temporada tem previsão de estreia para 16 de março de 2020) e moldou até mesmo o turismo na cidade de Nápoles: os lugares mencionados nos livros — direta ou indiretamente — se tornaram parte de percursos turísticos que recebe pessoas do mundo todo. Ferrante teve mais de 12 milhões de exemplares vendidos em cerca de 50 países. A comoção originou a expressão “Febre Ferrante”, criada para designar esse movimento cultural, que inspirou o documentário Ferrante Fever (2017), que recolhe depoimentos de leitores ilustres, como Elizabeth Strout, Hillary Clinton, Jonathan Franzen e Roberto Saviano. De Patti Smith a James Wood, um dos críticos literários contemporâneos mais prestigiados (principal resenhista da revista The New Yorker), passando por Michelle Obama, a tetralogia napolitana tem sido descrita por muitos como “hipnótica”.

Nesse livro, Fabiane Secches mergulha na obra de Ferrante e a examina a fundo, para além do fenômeno comercial, a partir de conceitos da teoria literária e da psicanálise, costurando essas ideias em torno da questão da ausência, que atravessa tanto os enredos dos romances de Ferrante quanto a discussão envolvendo o pseudônimo e a decisão da autora em permanecer distante dos holofotes, concedendo entrevistas apenas por escrito, por intermédio de seus editores italianos. O livro também inclui um capítulo de composição coletiva, reunindo depoimentos de leitura que examinam diferentes aspectos da obra de Ferrante.

A imagens do livro (capa e miolo), entre as quais estão os mapas de Nápoles e da Itália traçados a partir dos percursos das personagens, foram feitas pela artista plástica Talita Hoffmann, que ilustrou a capa brasileira de Sobre os ossos dos mortos, romance de Olga Tokarczuk, laureada com o prêmio Nobel de Literatura de 2018. Hoffmann também assina as ilustrações dos livros infantis de Antonio Prata, publicados pela editora Ubu.

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Selecionamos aqui alguns comentários sobre o livro de Fabiane Secches:

O livro de Fabiane Secches é um mergulho na obra de Elena Ferrante, que se tornou mundialmente reconhecida com a tetralogia napolitana: A amiga genial. A análise de Fabiane, à procura de explicações preciosas, projeta-se também nos outros romances da autora e nas várias entrevistas e artigos por ela fornecidos. Outra coisa importante dessa procura, no livro de Fabiane, são as descobertas valiosas que ela vai fazendo graças ao feliz contraponto entre literatura e psicanálise. Do “inquietante” de Freud ao embate entre Eros e Tânatos, os leitores terão ocasião — quem sabe — de desvendar alguns mistérios do lado obscuro de si. — Aurora Fornoni Bernardini, professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo, tradutora e crítica literária, é orientadora de Fabiane Secches.

Elena Ferrante: Uma longa experiência de ausência já é um marco para os estudos da literatura contemporânea — não somente italiana, mas ocidental —, pois se lança com profundidade e integridade pelos meandros periféricos do sucesso editorial, por muito tempo às margens dos estudos acadêmicos. — Francesca Cricelli, tradutora do romance Dias de abandono, de Elena Ferrante, publicado no Brasil pelo selo Biblioteca Azul (Globo Livros), e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo.

Este livro de Fabiane Secches se recusa a cair nestas armadilhas disjuntivas do “ou… ou” e, a meu ver, retorna ao cerne daquilo que vai sendo encenado dentro e fora das narrativas de Elena Ferrante, em especial as que compõem a tetralogia napolitana. Partindo do conceito psicanalítico de ambivalência e incorporando a ele o neologismo ferrantiano da “desmarginação”, o roteiro de leitura que a autora nos propõe parte de uma abordagem cerrada do texto, de seus mecanismos internos, para chegar a um mosaico de imagens, ideias, problemas e aporias com os quais nós, leitores de Ferrante, somos implacavelmente confrontados. — Maurício Santana Dias, tradutor da tetralogia napolitana, de Elena Ferrante, e professor de Literatura Italiana da Universidade de São Paulo.

Se Elena Ferrante provocou estremecimentos ao chegar no Brasil, agora, o primoroso trabalho de Fabiane Secches ressalta aspectos menos óbvios que as leituras devoradoras de primeira viagem não puderam ver. Sem descuidar da profundidade e paixão, como Ferrante nos pede. — Ana Rüsche, escritora, crítica literária, doutora em Letras pela Universidade de São Paulo.

 

Fabiane Secches nasceu em Minas Gerais e vive em São Paulo. Seus textos sobre literatura, cinema e psicanálise já foram publicados pelos jornais Folha de S. Paulo e O Globo, pelas revistas Cult e Quatro Cinco Um, entre outros. Em 2019, Fabiane concluiu seu mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo, título obtido com um dos trabalhos acadêmicos pioneiros sobre a obra de Elena Ferrante, tornando-se uma referência na área.

Atualmente, Fabiane Secches é doutoranda em Teoria Literária e Teoria Comparada também na Universidade de São Paulo e coordena um grupo de estudos dedicado à obra de Elena Ferrante e a algumas de suas principais referências literárias (Jane Austen, Elsa Morante, Louisa May Alcott, Gustave Flaubert, entre outros), entre outras atividades relacionadas à literatura.

Elena Ferrante: uma longa experiência de ausência é o seu primeiro livro.

Crédito da fotografia: Fábio Audi

 

A ILUSTRADORA

Talita Hoffmann nasceu em Porto Alegre e vive em São Paulo. Entre outros trabalhos, ilustrou a capa brasileira de Sobre os ossos dos mortos (editora Todavia), de Olga Tokarczuk, laureada com o Nobel de Literatura de 2018, e os livros infantis de Antonio Prata, publicados pela editora Ubu. Atualmente, é colaboradora da revista Quatro Cinco Um, entre outros veículos, e, depois de uma formação em design gráfico, estuda artes visuais na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com habilitação em pintura.

 

A EDITORA

Fundada em 2019 pela jornalista e editora Tainã Bispo, com ampla experiência no mercado editorial, a editora Claraboia é uma editora independente localizada em São Paulo. O livro Elena Ferrante: uma longa experiência de ausência, de Fabiane Secches, é a segunda publicação da casa. A primeira obra foi um livro coletivo, publicado pós-eleições presidenciais de 2018, com participação de Antonio Prata, Vera Iaconelli, Leonardo Sakamoto, entre outros.

Twitter: twitter.com/claraboialivros

Instagram: instagram.com/editoraclaraboia

Facebook: facebook.com/editoraclaraboia

 

 

Fonte das informações: https://www.febreferrante.com.br/

 

Onde comprar: Amazon

março 09, 2020

[RESENHA] PASTA SENZA VINO, DE EDUARDO KRAUSE

Sinopse: “Na Florença dos anos 60, o jovem Antonello Bianchi é um italiano indolente, machista e metido a conquistador. Sua única ocupação é atrair clientes para o restaurante em que trabalha (ou para si, quando for una bella donna). Essa vida de aventuras amorosas sofre uma virada quando ele conhece uma turista carioca, que o leva a atravessar o oceano para compreender o próprio coração. Em tom leve e envolvente, Eduardo Krause apresenta um romance com sabor e graça, os ingredientes da boa literatura.”

 

Não leia se estiver com fome. Quando comprar este livro, compre, também, uma garrafa do melhor vinho, o seu favorito. Pronto! Assim você já pode ser deliciar com Pasta Senza Vino, de Eduardo Krause (Terceiro Selo, 2014).

Ao provar as primeiras páginas você será transportado (em maior parte) para as décadas de 1960 e comecinho de 1970, numa ponte irresistível entre Itália e Brasil. Adianto que leva pouco tempo até estarmos irremediavelmente apaixonados por Antonello, o charmoso protagonista e narrador deste romance.

Eu li Pasta Senza Vino em um único dia. O plano era ler só um pouquinho numa sexta-feira e terminar no final de semana, mas estrutura estilo folhetim — com ganchos irresistíveis entre um capítulo e outro —, tornou impossível que eu me afastasse por muito tempo deste livro. Foi como se eu estivesse embevecida por todos aqueles aromas que emanavam das páginas. E, é claro, pelo vinho!

Tony trabalha em um restaurante; sua atividade principal é conquistar clientes e assim manter o estabelecimento sempre cheio. Obviamente, esse é um ofício bastante estratégico para um conquistador profissional como ele, que está sempre dando uma escapadinha do trabalho para se encontrar com uma bella donna. A arte da conquista, entretanto, não é a única que ele domina: a culinária italiana, que ele traz de berço, é algo extremamente importante tanto na vida do protagonista, quanto para o livro. Na verdade, a culinária, ou seja, o gesto de amor em preparar ou sugerir uma boa comida para alguém é, certamente, uma espécie de coprotagonista de Pasta Senza Vino.

Antonello está “de boas” conquistando clientes para o Giubbe Rosse e bellas donnas para si próprio (não necessariamente nesta ordem), quando conhece uma brasileira. Aline viaja de férias para Florença e acaba se envolvendo com Tony, mas não cai na lábia do italiano tão fácil quanto ele está acostumado. Os dois se apaixonam, é claro, mas (não tive como fugir do clichê) há um oceano que os separa… A partir daí, Tony empreende uma viagem (em vários sentidos) em busca do amor, da realização profissional e, o mais importante: em busca de conhecer a si mesmo.

 

“Pasta senza vino è come um bacio senza amore. Massa sem vinho é como um beijo sem amor.”

 

Confesso que o adjetivo “machista”, designado a Antonello na sinopse, em um primeiro momento quase me desestimulou a ler. Pensei que o personagem seria alguém muito difícil de gostar, um embuste de marca maior, na pior acepção que este termo tem atualmente. Mas Tony me ganhou logo nas primeiras páginas e tudo o que eu consegui pensar dele é que sim, ele é aquele machista clássico (anos 1960, galera), mas é tão divertido e o romance é tão gostoso de ler, com tanta riqueza de sabores, lugares, referências literárias, musicais, cinéfilas… Fiquei com vergonha pela resistência inicial que tive por uma única palavra. Logo eu, que tenho histórico em gostar, NA FICÇÃO, de homens não muito certinhos (Capitão Rodrigo, Kurt Seyit, Nino Sarratore etc.). Literariamente falando, esses personagens são muito mais interessantes!

Pasta Senza Vino é um romance sensacional. Bem escrito, bem dosado (é divertido, tem romance, tem drama, tem realismo), é uma ótima pedida para qualquer hora do dia. Só recomendo (mais uma vez, sinceramente) que você não esteja com fome ao ler este livro. E, ah: vinho sempre!

 

 

 

Título: Pasta Senza Vino

Autor: Eduardo Krause

Editora: Terceiro Selo (Dublinense)

Páginas: 288

Compre na Amazon (E-book no Kindle Unlimited) clicando aqui, ou diretamente na Livraria Dublinense.

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