novembro 13, 2019

[RESENHA] A INQUILINA DE WILDFELL HALL, DE ANNE BRONTË

Sinopse: “Gilbert Markham, um jovem cavalheiro agricultor, fica imediatamente interessado quando uma estranha inquilina se muda para Wildfell Hall. Mrs. Graham é jovem e bonita e sua demanda por reclusão desperta grande curiosidade entre a nobreza local. Em sua primeira visita a Wildfell Hall, Gilbert descobre que Helen é uma pintora de paisagens de grande capacidade e desconfia que ela está escondendo seu paradeiro de alguém. Seu ar de segredo desperta sua curiosidade e sua simpatia. Evitando as atenções de Eliza Millward, filha do Vigário-geral, para a qual ele até então mostrou uma preferência, Mr. Markham gasta muito do seu tempo na companhia da jovem viúva. Seus amigos, contudo, tentam desencorajar suas atenções, pois há rumores de que ela est á tendo um caso com Frederick Lawrence, seu senhorio. Depois que o vigário, Mr. Millward, acusa a viúva de conduta imprópria, Gilbert a visita, e ganha uma promessa de que ela irá revelar seu segredo. Mais tarde naquela noite, no entanto, ele ouve Mrs. Graham em uma discussão misteriosa com seu senhorio que o leva a suspeitar que os rumores sobre eles são verdadeiros. Um romance epistolar, cujo diário conta a história de Helen Graham nos últimos seis anos a partir de 1821.”

 

Anne Brontë (1820-1849) é a mais nova e, talvez, a menos badalada das irmãs Brontë (infelizmente). A escritora publicou uma coletânea de poemas e os romances Agnes Grey e A inquilina de Wildfell Hall sob o pseudônimo Acton Bell. Alguns estudiosos de literatura inglesa, sobretudo literatura escrita por mulheres, consideram este seu segundo romance, A inquilina de Wildfell Hall, como um dos primeiros romances feministas publicados — na Inglaterra, pelo menos. É um rótulo que, definitivamente, cabe ao livro, mas não acho que ele deve ser resumido apenas a isso.

Existe uma tendência a considerar como feminista toda história que fuja do estereótipo “mulherzinha” (com todas as aspas que você conseguir imaginar para este termo tão… idiota). Como se no passado não existissem “mulheres fortes”; ou como se “mulheres fortes” fosse uma coisa “de agora”, raridade nos livros “de mulherzinha” ou mesmo nos clássicos. Então, se há uma mulher decidida no romance, se ela corre atrás de seu destino, definitivamente precisamos colocá-lo na prateleira do feminismo. Como dizem por aí, errado não tá, mas acho uma restrição temática muitas vezes exagerada. E forçada.

 

Leia também: Agnes Grey, de Anne Brontë

 

A inquilina de Wildfell Hall pode ser considerado um romance feminista sim, mas ele é mais que isso. É um romance sobre escolhas, erros, amor, princípios, liberdade e generosidade. É um relato inteligente e bastante realista sobre as expectativas que podemos criar sobre alguém com quem escolhemos nos relacionar.

Quando a viúva Helen Graham muda-se com seu filho para Wildfell Hall, logo chama a atenção do povo do vilarejo, especialmente do jovem Gilbert Markham. Ela é uma pintora de hábitos modestos, bastante reclusa, mas de modos e conversa bastante agradáveis. Não demora para que Gilbert se interesse romanticamente por ela; sentimento que a viúva parece corresponder. Mas existe um mistério sobre as origens de Mrs. Graham e sua índole e não demora, também, para que os vizinhos comecem a fazer especulações (e fofocas) sobre ela.

Posso dizer que A inquilina foi o primeiro romance epistolar que eu li e não achei cansativo por ser deste formato. Quase nem dá para perceber que ele é estruturado desta forma, na verdade. Uma coisa interessante é que o narrador, ou seja, o autor das cartas, é o mocinho, Gilbert Markham. É a visão dele que temos em boa parte do romance, e que homem apaixonado ele é (até quando foi estúpido, foi um estúpido apaixonado)!

 

 

Toby Stephens como Gilbert Markham e Tara Fitzgerald como Helen Graham em “The Tenant of Wildfell Hall” (BBC 1996). Assista com legendas em português no dailymotion, clicando aqui.

 

 

“E nós perambulamos pelo jardim, conversamos sobre as flores, as árvores e o livro, e sobre outras coisas, depois. A tarde estava calorosa e agradável, assim como a minha companhia. Aos poucos, tornei-me mais terno e afetuoso do que, talvez, jamais fora antes. Ainda assim, não havia dito nada tangível, e não houve nenhuma tentativa de repulsa, até que, ao passar por uma roseira que eu havia trazido para ela semanas antes em nome da minha irmã, ela arrancou um bonito botão meio aberto e pediu para que eu levasse a Rose.

‘Não posso guardá-lo para mim?’, perguntei.

‘Não, mas aqui está outro para você.’

Em vez de pegá-lo calmamente, peguei também a mão que o oferecia e olhei em seu rosto. Ela me deixou segurá-la por um momento, e vi uma faísca de extasiado brilho em seus olhos, um fulgor de alegre exaltação em sua face. Pensei que minha hora da vitória havia chegado, mas instantaneamente uma dolorosa lembrança pareceu cruzar sua mente, uma nuvem de angústia escureceu seu semblante, uma palidez marmórea empalideceu as suas bochechas e lábios. Pareceu ter havido um momento de conflito interno, e, com esforço repentino, ela puxou a mão e recuou um passo ou dois.” (ps. 68, 69)

 

Em certo ponto do romance, quando as suspeitas sobre a má conduta de Helen atinge a todos, sem exceção. Então ela toma para si a voz da narrativa, pois é parte de seu diário que ela deposita em confiança nas mãos de Gilbert para conhecermos não só a sua parte na história, mas também a sua índole (de “mulher forte”, ahahaha não resisti).

Pense em uma mulher que sofreu, mas que sofreu MESMO nas mãos de um homem. Talvez Helen tenha sofrido ainda mais que essa mulher que você pensou. Mas pense também em uma mulher que é muito firme em seus princípios, mãe zelosa e generosa mesmo com quem, pensaríamos com egoísmo, não merece generosidade. Essa é Helen!

 

“Meu destino é como uma xícara de chá: contém uma mistura amarga que não posso esconder de mim mesma, disfarçar conforme minha vontade. Posso tentar me convencer de que a doçura a supera; posso dizer que tem um aroma agradável; tudo, menos dizer o que quero, pois ainda está lá e não me resta alternativa a não ser tomá-lo.” (p. 143)

 

A inquilina foi um livro que eu comecei a ler há meses e praticamente abandonei porque a história estava em um ritmo mais lento em relação as ultimas leituras que eu havia feito. Mas como a premissa me interessava muito e tenho algumas amigas que recomendam fervorosamente esse livro, fiquei incomodada — e envergonhada — só de pensar em não retomar a leitura. Alguns livros são ótimos, mas precisam ser lidos no momento adequado. Quando retomei esta leitura, praticamente devorei o livro! Fazia tempo que eu não me sentia tão envolvida e tão angustiada também por uma personagem literária. A inquilina é um livro que faz a gente pensar em muita coisa, conselhos que ouvíamos na juventude e ignorávamos mas que, em muitos casos, estavam absolutamente corretos. Vale a pena cada página!

 

Leia também: To Walk Invisible, as irmãs Brontë

 

 

Título: A inquilina de Wildfell Hall

Autora: Anne Brontë

Tradução: Michelle Gimenes

Editora: Pedrazul

Páginas: 372

 

Compre no site da Editora Pedrazul, clicando aqui. Disponível outras edições na Amazon.

novembro 08, 2019

[LANÇAMENTO] OS MANUSCRITOS PERDIDOS DE CHARLOTTE BRONTË, DA FARO EDITORIAL

Sinopse: Resgatado de um naufrágio e perdido por quase dois séculos, este livro tem uma história tão incrível quanto as escritas pela família Brontë.

Viajando por quase duzentos anos entre o Velho e o Novo Mundo, os manuscritos passaram por diversas mãos e sobreviveram até a um naufrágio. Mais do que os primeiros rascunhos do que viria a se tornar a obra de Charlotte, o material revela detalhes da vida de uma das famílias mais talentosas da literatura mundial.

Tudo teve início em 1810, quando Maria Branwell, que se tornaria mãe das famosas irmãs Brontë, obteve um livro, em sua terra natal. Dois anos depois, ela se mudou e o exemplar estava entre seus bens que naufragaram em um navio.

O livro foi recuperado intacto e tornou-se precioso para toda a Família Brontë, sendo não apenas uma fonte de leitura, mas também de anotação pelas irmãs Charlotte, Emily, Anne, seu irmão Branwell e seu pai, Patrick.

Em 1861, o livro foi vendido em um leilão depois da morte de toda a família. E, nos anos seguintes, passou por diversos donos, eventualmente, viajando para a América, onde permaneceu em uma coleção particular até 2015.

Comprado pela Brontë Society, descobriu-se joias literárias e históricas escondidas entre suas páginas. Isso inclui anotações, esboços e dois textos nunca publicados de Charlotte Brontë.

Mas este trabalho vai além: especialistas foram convidados a examinar os documentos e apresentam muitas reflexões, incluindo uma sobre a inspiração de Emily Brontë para um dos maiores livros da história: O morro dos ventos uivantes.”

 

A Faro Editorial está lançando Os manuscritos perdidos, de Charlotte Brontë (176 páginas), contendo textos inéditos encontrados em um livro que pertenceu à mãe da autora e recuperado, em leilão, pela Brontë Society. Pelo trecho que eu já li (e você pode ler clicando aqui) parece ser um trabalho bem rico e com muitas fotos, item fundamental na coleção de quem gosta das irmãs Brontë, especialmente de Charlotte.

Adquira o seu exemplar clicando aqui (lançamento previsto para 14/11).

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novembro 07, 2019

[RESENHA] HEROÍNAS NEGRAS BRASILEIRAS EM 15 CORDÉIS, DE JARID ARRAES

Sinopse: “Desde 2012, a autora Jarid Arraes tem se dedicado a desvendar a história das mulheres negras que fizeram a História do Brasil. E não bastava conhecer essas histórias, era preciso torná-las acessíveis e fazer com que suas vozes fossem ouvidas. Para isso, Jarid usou a linguagem poética tipicamente brasileira da literatura de cordel. E vendeu milhares de seus cordéis pelo Brasil, alertando para a importância da multiplicidade de vozes e oferecendo exemplos de diversidade para as mulheres atuais. Neste livro, reunimos 15 dessas histórias, que ganharam uma nova versão da autora e a beleza das ilustrações de Gabriela Pires. Conheça a história de: Antonieta de Barros Aqualtune Carolina Maria de Jesus Dandara dos Palmares Esperança Garcia Eva Maria do Bonsucesso Laudelina de Campos Luísa Mahin Maria Felipa Maria Firmina dos Reis Mariana Crioula Na Agontimé Tereza de Benguela Tia Ciata Zacimba Gaba.”

 

Leia também: Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro

 

Puxe aí na memória: quantas mulheres você se lembra de ter estudado nas aulas de História e Literatura? Elas ocupavam um papel de destaque na narrativa? Quantas delas eram negras? Talvez eu esteja enganada, mas acho que você não deve ter conseguido lembrar nem de meia dúzia de mulheres. Talvez o número seja ainda menor em se tratando de mulheres negras.

Mas elas existem, elas existiram e fazem parte da nossa história. Jarid Arraes reuniu quinze dessas mulheres notáveis no livro Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis, publicado pela Pólen Livros (2017). Eu queria poder dizer que já conhecia, de antemão, todas as mulheres retratadas neste livro, mas não é verdade. Nunca soube da existência de grande parte delas até ler este livro. Algumas, como as escritoras Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus eu conheço pela minha busca particular em ler autoras relegadas do cânone literário. Nos tempos de escola, nunca as estudei. Na faculdade de Letras, mesmo a minha habilitação sendo português e literaturas de língua portuguesa, pouco vi sobre as duas.

Nosso país ainda tem muita dificuldade em aceitar o próprio povo, aceitar e entender a própria história. Por isso, livros como este de Jarid Arraes são extremamente importantes. Aqui volto à fala de Chimamanda Ngozi Adichie, sobre os perigos da história única (ASSISTA!). Citando apenas um exemplo, enquanto continuarmos a reproduzir a narrativa única do eurocentrismo, os povos outrora escravizados continuarão sendo vistos — e estudados — de maneira enviesada, pela narrativa única de quem os escravizou. Isso, nos dias atuais, resulta em uma grande violência: a reprodução sistemática de um sistema racista e excludente para os negros.

 

“Na história do Brasil

Nas escolas ensinada

Aprendemos a mentira

Que nos é sempre contada

Sobre o povo negro e índio

Sobre a gente escravizada.

 

Nos contaram que escravos

Não lutavam nem tentavam

Conquistar a liberdade

Que eles tanto almejavam

E por isso que passivos

Os escravos se encontravam

 

Ô mentira catimboza

Me dá nojo de pensar

Pois o povo negro tinha

Muita força pra juntar

E com grande inteligência

Se uniam pra lutar. (…)”

(Trecho do cordel Tereza de Benguela, p. 137)

 

Heroínas negras brasileiras é alem de um trabalho riquíssimo de resgate histórico, um livro delicioso de ler. São cordéis, então a musicalidade salta das páginas, é contagiante. Para quem não está familiarizado com esse gênero textual — que também devia ser mais trabalhado e visto nas escolas por ser uma das expressões mais populares da nossa literatura —, saiba que no cordel os textos são escritos de forma rimada, alguns originados de relatos orais que depois são impressos em folhetos. São ilustrados por meio de xilogravura (presente na capa deste livro e também em seu interior) e podem ser declamados pelos cordelistas com acompanhamento de viola e pandeiro. O nome “cordel” remonta às origens deste trabalho, em Portugal, em que os folhetos eram expostos para venda em cordas ou barbantes (veja mais aqui).

Após essa leitura, eu só posso desejar que você leia, conheça e compartilhe essas histórias. Precisamos resgatar essas personagens reais e mostrá-las, principalmente, para as nossas crianças para que elas saibam que todas as narrativas são importantes e que sempre devemos buscar a diversidade. Obrigada, Jarid Arraes, por este livro tão necessário!

 

 

 

 

Título: Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

Autora: Jarid Arraes

Editora: Pólen Livros

Páginas: 176

 

Compre na Amazon: Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis

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