julho 10, 2019

[RESENHA] SOBRE A IMORTALIDADE DE RUI DE LEÃO, DE MACHADO DE ASSIS

Sinopse: “Quem quer viver para sempre?

Publicados pela primeira vez em 1872 e 1882, respectivamente, Rui de Leão e O imortal contam duas versões diferentes da mesma história de um homem que, após beber misteriosa poção que recebeu das mãos do sogro enfermo, descobre que não pode mais morrer. Nada poderia tê-lo preparado para isso, mas Rui de Leão não vê outra opção além de seguir em frente — e permitir que o leitor siga com ele.

A primeira publicação da Plutão Livros traz dois contos precursores da ficção científica brasileira, escritos por ninguém menos do que Machado de Assis, com prefácio de Roberto de Sousa Causo e ilustrações de Paula Cruz.”

 

Que Machado de Assis é um dos maiores escritores brasileiros (senão o maior!), todo mundo já sabe. Mas entre tantos escritos, romances, contos, crônicas, algum leitor de clássicos diria que Machado de Assis é também uma opção de leitura de ficção… científica?

Foi essa a novidade, pelo menos para os leitores não habituais de ficção científica (como eu) que a Editora Plutão trouxe no ano passado ao lançar o e-book Sobre a Imortalidade de Rui de Leão, incluindo os contos Rui de Leão e O Imortal, duas versões de uma mesma história: a de um homem que, ao beber de um elixir mágico, adquire a imortalidade.

 

“Os dois textos de Machado de Assis reunidos aqui fazem parte, evidentemente, do Período Pioneiro da FC Brasileira. Rui de Leão foi publicado originalmente em 1872 no Jornal das Famílias, e O Imortal dez anos depois, em partes, na revista A Estação.” (Prefácio de Roberto de Sousa Causo para esta edição).

 

Sobre a Imortalidade de Rui de Leão tem prefácio de Roberto de Sousa Causo, que dá um panorama bem preciso e enxuto sobre a historiografia da Ficção Científica no Brasil e sobre o nome de Machado de Assis figurar entre os nomes do Período Pioneiro deste gênero em nosso país. É muito interessante e importante conhecer os escritos, autores e temáticas que não entraram para o nosso cânone literário e perceber que a nossa literatura é ainda mais rica do que aprendemos nos bancos escolares.

Machado produziu muito e com muita qualidade. Mesmo que haja certa dificuldade para algumas pessoas em enxergá-lo como autor também de ficção científica, a ideia de ter um autor clássico vinculado a uma temática tão atraente e amplamente difundida nos nossos dias é, quem sabe, uma possibilidade a mais para apresentar esse grande autor aos jovens de hoje (ou promover uma reconciliação com os jovens do passado). Sem tanto rigor ou sem forçar a leitura imatura de certas obras do Bruxo de Cosme Velho, certamente hoje teríamos bem menos leitores, ex-alunos, sobretudo, traumatizados só de ouvir falar o nome Machado de Assis.

 

“Imagine quem puder o suplício deste homem condenado a ser imortal, a ver os mesmos dias, as mesmas comédias — este Tântalo da morte, ambicionando aquilo que os outros receiam —, pedindo ao céu como a suprema felicidade uma cova para dormir.”

 

Rui de Leão e O Imortal são ótimas leituras, apesar de eu ter me divertido mais lendo o primeiro conto. Mas não quero dar muitos detalhes, além dos que já foram expostos aqui, sobre essas histórias. Leia e descubra, encante-se (mais uma vez, se for o caso) por esse escritor tão Imortal que nunca deixará de nos surpreender.

 

 

Confira a playlist desse livro no Spotify:

 

 

 

Título: Sobre a imortalidade de Rui de Leão

Autor: Machado de Assis

Prefácio: Roberto de Sousa Causo

Ilustrações: Paula Cruz

Editora: Plutão Livros

Páginas: 76

Compre na Amazon (e-book): Sobre a imortalidade de Rui de Leão.

julho 05, 2019

[RESENHA] O SENTIDO DE UM FIM, DE JULIAN BARNES

Sinopse: “Tony Webster vive em Londres. Um dia, recebe uma pequena herança e o fragmento de um misterioso diário de um de seus melhores amigos, Adrian Finn, que cometeu suicídio aos 22 anos. A partir dessa lembrança, Webster revisita sua juventude na Inglaterra dos anos 1960 e tenta decifrar os escritos herdados, confrontando sua própria memória, a inexata versão dos fatos e o seu papel na cadeia de eventos que resultou na morte do brilhante amigo Adrian.”

 

Quão frágil pode ser a nossa memória? Essa pergunta ficou se repetindo na minha cabeça desde que cheguei à última página de O sentido de um fim, de Julian Barnes, enviado aos assinantes da TAG Curadoria no mês de junho de 2019. O livro, que teve como curador o escritor brasileiro Michel Laub, é uma leitura que prende, incomoda e nos faz criar diversas teorias sobre os personagens, suas trajetórias e as ligações que estabeleceram durante a vida.

A história gira em torno das lembranças de Tony Webster. Mas não lembranças aleatórias: a primeira ex-namorada, um inteligentíssimo amigo dos tempos de colégio — Adrian, que comete suicídio aos 22 anos, — e algumas pessoas que preenchem o espaço entre a juventude de Webster e sua maturidade, quando recebe de herança de sua ex-sogra uma pequena quantia em dinheiro e também o diário de Adrian.

Não quero dar muitos detalhes sobre o enredo, — o livro tem apenas 176 páginas — mas O sentido de um fim, em minha visão, fala não só sobre a fragilidade da memória, mas também sobre a forma estranha e incontrolável com a qual a nossa vida está ligada às pessoas com as quais tivemos um contato mais próximo ao longo da vida. Além disso, a narrativa de Julian Barnes nos faz refletir sobre como a memória, mais precisamente, as lembranças do nosso passado, podem não ser exatamente — na verdade, nunca são — iguais de pessoa para pessoa. A questão do ponto de vista é muito bem exemplificada aqui, como ressaltou Michel Laub no prefácio desta edição. O sentido de um fim segue a trilha dos narradores inconfiáveis, que nos proporcionam uma leitura com diversas camadas de interpretação.

 

O livro “O sentido de um fim” com o box e a revista literária que sempre acompanha e enriquece a leitura. No kit do mês de junho veio, ainda, um caderno para fazermos, quem sabe, o nosso próprio diário.

 

“Será que a conversa foi exatamente assim? Provavelmente não. Mas é como eu me lembro dela.” (p. 30)

 

“Eu descobri que esta pode ser uma das diferenças entre a juventude e a velhice: quando somos jovens, inventamos diferentes futuros para nós mesmos; quando somos velhos, inventamos diferentes passados para os outros.” (p. 98)

 

Ouça a playlist de O sentido de um fim no Spotify:

 

 

O sentido de um fim foi uma ótima leitura, instigante até a última página. É daqueles livros que, quanto mais lemos, maior é a vontade de continuar a ler. Depois do fim fiquei ainda muito tempo refletindo sobre o enredo e voltando em vários trechos para reler.

 

 

Título: O sentido de um fim

Autor: Julian Barnes

Tradução: Léa Viveiros de Castro

Prefácio: Michel Laub

Editora: TAG Curadoria / Rocco

Páginas: 176

julho 03, 2019

[RESENHA] TO WALK INVISIBLE, AS IRMÃS BRONTË

Sinopse: “Conheça a história extraordinária das irmãs Charlotte, Emily e Anne Brontë, que se tornaram escritoras de renome superando todos os preconceitos e restrições da sociedade de sua época.”

 

Pouco depois de começar a postar resenhas no Skoob, recebi um convite para colaborar com um site o qual eu era leitora assídua, o Escritoras Inglesas. Por lá, além de livros de literatura inglesa, sobretudo feminina, eu escrevi, também, sobre alguns filmes e séries que tratavam desse mesmo universo. Falei sobre Pride and Prejudice (1995) e Cranford, por exemplo. O Escritoras encerrou suas atividades, mas as resenhas de minha autoria podem ser lidas aqui no blog.

Estou relembrando essa trajetória porque desde que iniciei esse espaço todo meu, não mantive o hábito de falar sobre as adaptações literárias dos romances que, por si só, conquistaram e continuam conquistando pessoas como eu e você, que está lendo esse texto. A dinâmica que eu usava para escrever esse tipo de resenha, assistir duas ou três vezes ao material e depois pesquisar sobre os detalhes da produção na internet, passou a ser pouco viável para uma nova realidade que passei a ter desde 2016: a maternidade.

É evidente que, de lá para cá eu fiz e escrevi muita coisa (e a Olívia cresceu um bocado). Mas essa necessidade de fazer um longo texto sobre um filme ou série acabou se perdendo, além do fato de que existem ótimos sites especializados nesse tipo de mídia e que, no duelo entre livro e filme, o meu coração escolhe o livro sem pestanejar.

No entanto, nos últimos meses assisti a um filme que me fez ter muita vontade de escrever sobre ele para indicá-lo fortemente a quem ainda não tenha o assistido: To Walk Invisible, As Irmãs Brontë (2016). Trata-se de uma cinebiografia das irmãs mais famosas da literatura, autoras de clássicos irresistíveis e mulheres de uma fibra admirável e bastante motivadoras para nós, mesmo em pleno século XXI.

Esse filme é muito especial, pois se detém em maior parte no processo de decisão delas de escrever e publicar mostrando, em paralelo, seus dramas familares. Vemos que, mesmo entre tantas dificuldades as Brontë, talentosas desde a infância, não desistiram de seu objetivo e muito dessa persistência deve-se à autora de Jane Eyre, Charlotte Brontë.

To Walk Invisible, inclusive, é uma expressão usada por Charlotte no filme para exemplificar como elas deveriam agir para conseguirem publicar seus livros: teriam de ser quase anônimas, invisíveis. Para quem não sabe, as autoras usaram pseudônimos nas primeiras edições de seus livros, pois livros de autoria feminina não costumavam ser considerados como literatura séria na Inglaterra de 1847 (e também em outros lugares, vários anos mais tarde). Muitos nem eram considerados dignos de publicação unicamente por ter o nome de uma mulher como autora. Sendo assim, a primeira publicação das irmãs, um volume de poesias, foi assinado por Currer, Ellis e Acton Bell, respectivamente Charlotte, Emily e Anne Brontë.

É emocionante ver na tela, em interpretações tão precisas quanto temos como comparar ao que se conhece das autoras, as personalidades tão diferentes e que, percebemos, transbordaram para as páginas dos romances. Só um espírito selvagem e livre como o de Emily seria capaz de escrever algo como O morro dos ventos uivantes; Anne, tão amável e apaziguadora, em minha opinião dona de uma escrita muito limpa e precisa; e Charlotte, que em algumas falas do roteiro confunde-se com sua personagem mais célebre citada anteriormente, Jane Eyre. O filme narra, ainda, a vida de Branwell, o irmão Brontë que também fora talentoso, mas acabou se perdendo no vício do alcolismo.

Um dos momentos mais belos desse filme é quando as irmãs veem algo como três sóis brilhando alto no céu. Elas, que caminhavam acompanhadas de uma amiga (ou prima, não me detive a este detalhe), ouvem desta acompanhante que aqueles três astros brilhantes são elas próprias. Nem mais, nem menos que a outra. Três mulheres brilhantes, as irmãs Brontë.

 

 

To Walk Invisible tem roteiro e direção assinados por Sally Wainwright e está disponível no streaming Telecine Play.

Veja a ficha técnica completa do filme no site IMDb.

 

Assista ao trailer (sem legendas):

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