janeiro 27, 2016

[RESENHA] AS SOMBRAS DE LONGBOURN, DE JO BAKER

Sinopse: “Admiradora de Jane Austen, a romancista Jo Baker perguntava-se quem seriam aquelas presenças pontuais e quase inumanas que serviam à mesa ou entregavam um recado para os personagens de Orgulho e preconceito, um dos romances mais recontados em versões literárias desde a sua publicação, há duzentos anos. Por trás de cada descrição da toalete das irmãs Bennet havia certamente o trabalho de uma criada, e cada refeição servida implicava uma cozinheira, um mordomo para servi-la. Qual seria a história não contada desses personagens? As sombras de Longbourn é o romance dessas figuras invisíveis. Sob o comando da governanta e cozinheira sra. Hill, trabalham Sarah e Polly, duas jovens trazidas de um orfanato quando ainda eram crianças para trabalhar na casa. O mordomo idoso, sr. Hill, serve à mesa e divide a administração da casa com a sra. Hill. Os quatro formam um pequeno exército de empregados que labuta dezoito horas por dia para que a família Bennet goze do máximo conforto possível. A chegada de James Smith, um jovem lacaio recém-contratado, irá movimentar o andar de baixo da casa, revelando antigas tensões entre empregados e patrões. Por sua impressionante pesquisa sobre a vida cotidiana no início do século XIX, e também por impor um estilo próprio a sua narrativa, Jo Baker recebeu elogios de críticos e publicações como The New York Times, que considerou As sombras de Longbourn “excepcional: não uma sequência, mas um olhar comovente sobre o mundo de Orgulho e preconceito, só que do ponto de vista da área de serviço”. “Deliciosamente audacioso.” – New York Times Books Review”

 

As Sombras de Longbourn é um romance escrito por Jo Baker, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, baseado em Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. A história usa o clássico como plano de fundo para contar o dia a dia dos criados de Longbourn, casa da família Bennet, assim como suas paixões e desejos.

Em Orgulho e Preconceito os criados quase não aparecem. Contudo, mesmo em uma casa com poucos recursos como a dos Bennets, haviam empregados que executavam das tarefas mais simples as mais complicadas para a família; como pentear os cabelos das mulheres e recolher os penicos sujos pela manhã, por exemplo. Era um trabalho árduo e mal remunerado, mas que representava abrigo, proteção e comida para quem era pobre e sem estudo.

As Sombras de Longbourn são os criados Sr. Hill, o mordomo; a Sra. Hill, governanta e cozinheira; Sarah e Polly, criadas; e James, o lacaio e ajudante para serviços diversos. Jo Baker soube entrelaçar muito bem as duas histórias. Elas coexistem, mas são quase totalmente independentes. O livro também começa com a chegada da família Bingley, mas depois toma seu próprio rumo. As criticas sociais, feitas tão ironicamente por Jane Austen, aqui se tornam mais pesadas e tangíveis, pois tratam-se de pessoas que só existem para servirem outras; suas necessidades e anseios devem vir depois das dos seus patrões.

A criada Sarah é a personagem central da história. Ela é uma jovem órfã, acolhida pela Sra. Hill, que tem uma vida dura de trabalho pesado. É sonhadora e almeja mais do que apenas servir; tem o desejo de ser livre para viver a própria história. Fica inquieta com a chegada de James, um forasteiro que oferece os seus serviços aos Bennets e que ela tem certeza que esconde muitos segredos.

 

“‘Não sei mesmo o que pensar de você’, disse ela.

‘Por favor, não se dê ao trabalho de tentar’.

Ela girou o corpo e voltou com passos pesados para a cozinha. Ele era uma mistura tão grande e frustrante de solicitude, cortesia e incivilidade que Sarah não conseguia formar uma ideia clara a seu respeito. De uma coisa, porém, tinha certeza: ele estava mentindo. Não era o que fingia ser. Podia ter enganado todo mundo em Longbourn, mas a ela não enganava. Nem por um minuto.” (p. 60)

 

Claro que, com o passar das páginas, vemos que a inquietação de Sarah é algo mais que curiosidade. Eles vivem um romance como poucos que eu já vi. É um amor duro, árduo, assim como a vida deles.

 

“Como era possível que ela pensasse nele, e só nele, durante horas e dias a fio, que a imagem dele fosse a primeira a passar por sua mente de manhã e a última recordada em minúcias da noite, se ele – isto estava claríssimo para ela – nem tinha a menor consciência da existência dela, nunca?” (p. 96)

 

Os acontecimentos mais importantes de Orgulho e Preconceito são citados em As Sombras de Longbourn, mas de uma forma que você se sente espiando da fresta da porta, assim como os criados. Quando o Sr. Collins esteve em Longbourn pela primeira vez, Sarah pensou em lhe dizer algo que eu também pensei na minha primeira leitura do romance de Austen. Já pensaram que a Mary seria uma esposa perfeita para o Sr. Collins? Talvez pela arrogância dele, ela não tenha lhe vindo à mente como opção, mas acho os dois bem adequados um para o outro.

 

“Sarah inclinou a cabeça. Gostaria de se mostrar mais encorajadora. Pense em Mary, Sr. Collins. Essa seria a resposta mais útil e gentil a lhe dar. Em questões de interesses e temperamento, bem como de beleza, Mary e o Sr. Collins seriam um casal mais viável, mas se ele não era capaz de ver isso por conta própria, não competia a ela dizê-lo.” (p. 155)

 

O livro é dividido em três partes e uma conclusão. Nas partes um e dois, as histórias são mais próximas. Os acontecimentos mais marcantes de Orgulho e Preconceito, como já dito, estão lá. Já na parte três, a história de Baker toma rumo próprio. Inclusive, um fato interessante sobre este livro, é que quando Elizabeth viaja para Kent, em sua visita a Charlote Collins, Sarah também viaja, como sua criada pessoal. Enquanto uma recusa a um pedido de casamento bastante indelicado, a outra sofre com saudades do seu amor.

 

“Eu lhe escreveria uma carta, James. Se eu tivesse papel. Se tivesse tinta. Se tivesse um porte franco com que enviá-la. (…) Eu escreveria sobre como você me faz ser inteiramente eu mesma e ser mais real do que jamais imaginei possível. Eu lhe perguntaria se você sente a minha falta como eu sinto a sua, a ponto de no mundo todo não existir outro lugar que signifique alguma coisa para mim a não ser aquele onde você está. Eu diria que os dias que faltam para eu ver você de novo só existem para que eu passe logo por eles, são como uma conserva fria ou a faina de todos os dias, nada de bom se pode esperar deles, mas que enfim eles vão passar e eu estarei a caminho de casa para encontrar você.” (p. 269)

 

As Sombras de Longbourn é um livro intenso. Você percebe que a relação entre patrões e empregados era ao mesmo tempo íntima e distante. Os criados trabalhavam pesado para atender às mordomias de seus patrões, mas ainda assim, conseguiam ter suas vidas, seus amores, seus sonhos. Foi um livro que me surpreendeu bastante. A história é tão verossímil que tive raiva da Elizabeth e do Sr. Darcy em alguns momentos. Mas então respirei e vi que aquela era só mais uma forma de ver a história. A forma de Jo Baker; a visão dos empregados. Então entendi e aceitei a proposta do livro. Recomendo muito, especialmente para os fãs de Downton Abbey.

 

 

SOBRE A AUTORA: Jo Baker nasceu em Lancaster, Inglaterra. Estudou literatura em Oxford e é ph.D. em Literatura irlandesa pela Universidade Queen’s. Foi redatora na BBC Radio 4 e tem contos publicados em diversas coletâneas na Inglaterra e nos Estados Unidos. As Sombras de Longbourn, seu quinto romance, já foi publicado em diversos países e será adaptado para o cinema. (orelha do livro)

 

 

Título: As Sombras de Longbourn
Autora: Jo Baker
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 450

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Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas

 

janeiro 24, 2016

[RESENHA] CINCO CONTOS, DE KATHERINE MANSFIELD

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Sinopse: “Nascida em Nova Zelândia, a escritora Katherine Mansfield (1888-1923) foi uma mestra na difícil arte do conto. As narrativas reunidas neste volume são exemplo desta sua capacidade de retratar. em precisas pinceladas. personagens marcantes e concentrar o sentido de uma vida em poucas páginas. Seu talento de miniaturas permite-lhe captar e registrar com nitidez inesquecível o detalhe revelador dos momentos mais triviais da vida.”

 

 

Cinco Contos, da autora Katherine Mansfield, faz parte da Coleção Leitura, geralmente encontrada em sebos, publicada pela Editora Paz e Terra, em 1996. Integram o livro os contos Senhorita Brill, Tomada de hábito, A vida de Mãe Parker, A fuga e Je ne parle pas français.

 

Senhorita Brill já me deu uma ideia sobre o que viria depois; gostei muito e reli, antes mesmo de ler os outros. Ele conta a história de uma senhora que passa os seus domingos em uma praça, e através dela, de sua solidão, um mundo de sentimentos nos invade, como se em algum momento da vida todos fossemos um pouco como a velha senhorita Brill: um pouco atores, um pouco expectadores, nesta vida ao mesmo tempo rotineira e cheia de incertezas.

“Ah, como era fascinante! Como ela gostava daquilo! Como amava sentar ali e assistir a tudo! Era como uma peça de teatro! Era exatamente como uma peça de teatro. Quem não acreditaria que o céu, ao fundo, não era pintado?”

 

Imagine se descobrir apaixonada por um ator, assim, de repente, estando comprometida com outra pessoa! Assim é a história de Tomada de hábito, que narra a trajetória da jovem Edna, que se vê confusa entre dois cavalheiros. A partir daí só haveria um destino para a moça: ir para um convento.  

“Algo horrível tinha acontecido. Inesperadamente, no teatro, a noite passada, quando ela e Jimmy estavam sentados um ao lado do outro no balcão nobre, sem nenhum aviso prévio – na verdade, Edna tinha acabado de comer uma amêndoa coberta com chocolate e devolvera a caixa para Jimmy – ela se apaixonou por um ator. Realmente se apaixonou.”

 

A vida de Mãe Parker é um conto marcante! Retrata uma mulher de vida difícil, dura… Tão dura e tão atarefada que não havia sequer tempo ou lugar adequados para chorar os seus infortúnios! A história começa com a notícia do falecimento do neto de Mãe Parker e a partir daí conhecemos sua trajetória. 

“Não haveria um lugar onde ela pudesse se esconder e ficar consigo mesma o tempo que quisesse, sem perturbar ninguém, e sem que ninguém a importunasse? Não haveria algum lugar no mundo onde ela pudesse chorar abertamente – por fim?”

 

No conto A fuga, um casal perde o trem e tem de fazer parte da viagem em uma carruagem, para a fúria da esposa. A partir daí somos transportados para os conflitos da viagem do casal, “um retrato divertido da vida doméstica inglesa”. 

Oh, por que é que eu tenho que suportar essas coisas? Por que tinha que estar sujeita a elas? () A claridade, as moscas, enquanto ele e o chefe da estação juntavam suas cabeças sobre a tabela dos horários, tentando encontrar aquele outro trem, o qual certamente eles não conseguiriam pegar. 

 

Por fim, tendo como cenário uma pequena cafeteria, em Je ne parle pas français (eu não falo francês), um escritor narra a sua história ao ler a frase título do conto em um pedaço de papel, que o faz relembrar fatos importantes de seu passado.

“Mas, então, mais que de repente, no fim da página, escrito em tinta verde, me deparei com aquela estúpida frasezinha: Je ne parle pas français. (…) Deus do céu! Serei capaz de vivenciar sentimentos tão fortes quanto esse? Mas eu estava absolutamente inconsciente! Não possuía uma frase sequer para defini-lo! Estava arrebatado, abismado. Nem mesmo tentei, sequer da maneira mais obscura, tentar entendê-lo.”.

 

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Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

janeiro 21, 2016

[RESENHA] UM TETO TODO SEU, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “Baseado em palestras proferidas por Virginia Woolf nas faculdades de Newham e Girton em 1928, o ensaio Um teto todo seu é uma reflexão acerca das condições sociais da mulher e a sua influência na produção literária feminina. A escritora pontua em que medida a posição que a mulher ocupa na sociedade acarreta dificuldades para a expressão livre de seu pensamento, para que essa expressão seja transformada em uma escrita sem sujeição e, finalmente, para que essa escrita seja recebida com consideração, em vez da indiferença comumente reservada à escrita feminina na época. Esta edição traz, além do ensaio, uma seleção de trechos dos diários de Virginia, uma cronologia da vida e da obra da autora e um posfácio escrito pela crítica literária e colaboradora da Folha de S. Paulo Noemi Jaffe.”

 

Um Teto Todo Seu é um ensaio de Virginia Woolf, em que ela disserta sobre o tema “as mulheres e a ficção”. Esse livro é o produto das ideias para uma palestra que Woolf foi convidada a ministrar, na década de 1920, em duas faculdades inglesas exclusivas para mulheres e que muito tem ainda a nos ensinar nos dias de hoje.

A autora parte do questionamento sobre o que é necessário para que uma mulher escreva ficção. Seria, basicamente, ter um lugar sossegado para escrever e certa independência financeira; além de alguma validação social. Mas Virginia Woolf vai mais a fundo e nos permite enxergar além do óbvio para entender que a situação das mulheres pode não ser das mais favoráveis, seja em 1920 ou nos dias de hoje, ao desenvolver determinados trabalhos que não são esperados para o sexo feminino.

Em tempos de acaloradas discussões sobre a violência contra a mulher, feminicídio, desigualdade entre os sexos etc., eis que Virginia Woolf nos apresenta a “alegoria do espelho”, a fim de ilustrar o papel da mulher em relacionamentos abusivos. A mulher ao longo da história faz, na visão de Woolf, o papel de um espelho que reflete a imagem engrandecida do homem, e desta forma está sempre diminuída em comparação a ele. Infelizmente ainda vemos casos diários de assédio e violência contra a mulher, mas se informar sobre o assunto é o primeiro passo para mudar esta realidade. Muita coisa já mudou, mas ainda estamos no caminho.

 

 “As mulheres têm servido há séculos como espelhos, com poderes mágicos e deliciosos de refletir a figura do homem com o dobro do tamanho natural. Sem esse poder, provavelmente, a terra ainda seria pântanos e selvas. As glórias de todas as nossas guerras seriam desconhecidas.” (p. 54)

 

“Seja qual for o seu uso nas sociedades civilizadas, os espelhos são essenciais para todas as ações violentas e heroicas. É por isso que tanto Napoleão quanto Mussolini insistiam tão enfaticamente na inferioridade das mulheres, pois, se elas não fossem inferiores, eles deixariam de crescer. Isso explica, em parte, a necessidade que as mulheres representam para os homens. E serve para explicar como eles ficam incomodados com as críticas delas; como é impossível para elas dizerem que tal livro é ruim, tal quadro é medíocre, ou o que quer que seja, sem infligir muito mais tormento  e despertar muito mais raiva do que um homem teria causado ao fazer a mesma crítica. Pois se ela resolver falar a verdade, a figura no espelho diminuirá. Como ele continuará a fazer julgamentos, civilizar nativos, criar leis, escrever livros, vestir-se bem e discursar em banquetes, a menos que consiga ver a si mesmo no café da manhã e no jantar com pelo menos o dobro do tamanho que realmente tem?” (p. 55) 

 

O papel da mulher na ficção é também explicado pela autora, de forma que desfaz um mal entendido histórico: a mulher é personagem de destaque em inúmeras obras literárias ao longo dos anos, mas isso não quer dizer representatividade. Ela existiu, em muitos casos, pela visão de um homem. Nem sempre foi possível que uma mulher escrevesse sobre os desejos e anseios de seu sexo. Ela era o sol, a musa inspiradora para muitos autores, mas em casa ela tinha um papel muito diferente.

“É de se imaginar que ela seja da maior importância; na prática ela é completamente insignificante. Ela permeia a poesia de capa a capa; está sempre presente na história. Domina a vida de reis e conquistadores na ficção; na vida real, era escrava de qualquer garoto cujos pais lhe enfiassem um anel no dedo. Algumas palavras mais inspiradas, alguns pensamentos mais profundos da literatura vieram de seus lábios; na vida real, ela pouco conseguia ler, mal conseguia soletrar e era propriedade do marido.” (p. 67)

 

Outro argumento de destaque da autora é que se Shakespeare tivesse uma irmã igualmente (ou mais) talentosa, teria ela as mesmas condições e oportunidades que o bardo? Teria tido a mesma educação, a mesma liberdade? Teria tido tempo para ler, sem interrupções, os clássicos da literatura mundial, assim como seu irmão? Teria tido um teto todo seu para escrever? Em sua adolescência, poderia escolher não se casar com o noivo pretendido por seu pai? São questionamentos plausíveis que nos fazem refletir sobre a desigualdade entre homens e mulheres, desde os tempos mais remotos. Seria essa história comum, pelo menos em partes, ainda nos dias de hoje?

Sorte a nossa que tivemos algumas mulheres corajosas ao longo do tempo que decidiram, em épocas que não era permitido a elas decidir, escrever e buscarem ser lidas. Essas mulheres despertaram e ainda despertam em nós o desejo de ir em frente, pois se elas conseguiram em tempos mais difíceis, hoje nós podemos.

Esta edição da Editora Tordesilhas conta, ainda, com o posfácio de Noemi Jaffe, escritora e crítica literária brasileira, e de fragmentos do diário de Virginia Woolf, em que ela fala sobre a publicação de Um Teto Todo Seu. Vale a pena ter na coleção!

 

 

Título: Um Teto Todo Seu
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Bia Nunes de Sousa
Editora: Tordesilhas
Páginas: 192

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Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas, atualizada em 12/07/2018.

 

 

 

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