LENDO OS CONTOS: ANTES DO BAILE VERDE, DE LYGIA FAGUNDES TELLES

LENDO OS CONTOS: ANTES DO BAILE VERDE, DE LYGIA FAGUNDES TELLES

Sinopse: Os contos completos da grande escritora Lygia Fagundes Telles são reunidos pela primeira vez em um único volume.

Lygia Fagundes Telles é considerada pela crítica uma das maiores escritoras brasileiras e, sobretudo, uma contista extraordinária. Pela primeira vez, o leitor tem acesso à mais completa antologia de contos da autora, em uma edição especial que inclui, além de suas principais coletâneas, diversos escritos esparsos, há tempos fora de catálogo. Dos primeiros contos, concebidos na juventude, até sua produção mais madura, Lygia exibe sua maestria na narrativa curta, sempre com sensibilidade e sutileza, em textos impecáveis.

“Lygia Fagundes Telles sempre teve o alto mérito de obter, no romance e no conto, a limpidez adequada a uma visão que penetra e revela, sem recurso a qualquer truque ou traço carregado, na linguagem ou na caracterização.” ― Antonio Candido

“Essas pequenas obras-primas, de tão fremente inquietação íntima e que exalam um desespero tão profundo, ganham a clássica serenidade das formas de arte definitivas.” ― Paulo Rónai”

 

Antes do baile verde é um dos melhores livros de contos que eu li na vida! O melhor de tudo: é apenas o primeiro desta coletânea de narrativas curtas de Lygia Fagundes Telles, publicada pela Companhia das Letras em 2018!

Leitura finalizada em 09/01/2021 (iniciada e pausada várias vezes em 2020, por razões diversas, nenhuma delas culpa de Lygia). Resolvi, por sugestão do meu marido, fazer um planejamento para ler um livro por mês. Janeiro de 2021 foi, portanto, o mês de terminar a leitura de Antes do baile verde, que abre o volume. Neste mês estou lendo Seminário dos ratos; em março lerei A estrutura da bolha de sabão; abril A noite mais escura e eu, maio Invenção e memória, junho Um coração ardente e julho finalizo a leitura com Contos esparços e o pósfacio da coletânia, escrito por Walnice Nogueira Galvão. Vou compartilhando minhas anotações de leitura por aqui (sem spoilers)!

Contos favoritos desse primeiro livro: Os objetos; Verde lagarto amarelo; Antes do baile verde; A caçada; A janela; Um chá bem forte e três xícaras; Venha ver o pôr do sol.

 

Os objetos

“Veja, Lorena, veja… Os objetos só têm sentido quando têm sentido, fora disso… Eles precisam ser olhados, manuseados. Como nós. Se ninguém me ama, viro uma coisa ainda mais triste do que essas, porque ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio, vazio.

É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza, o anjo sem anjo, fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito?”

 

O livro já começa nos convidando à uma reflexão profunda: os objetos são aquilo o que nós lhe atribuímos de valor. E também assim são as pessoas. Há certo delírio por parte do personagem do marido e uma espécie de confusão temporal no diálogo dele com a esposa. Ele parece resgatar alguma memória. Ela, responde ao diálogo que está acontecendo no tempo presente, como se não percebesse a profundidade das palavras dele, ou não quisesse mesmo perceber.

 

Verde lagarto amarelo

Rodolfo e seu irmão Eduardo, um homem de “cabelo louro, pele bronzeada de sol, as mãos de estátua” e olhos violeta. Eduardo era tudo o que Rodolfo não era. Certo dia, o perfeito Eduardo, o filho mais bonito e adorado pelos pais resolve fazer algo… talvez a única coisa em que Rodolfo se distinguia até então.

“Olhei sua pasta na cadeira e advinhei a surpresa. Senti meu coração se fechar como uma concha. A dor era quase física.”

 

Aqui também há a dualidade temporal entre o presente (situação em que o conto acontece, o encontro casual da visita de Eduardo ao irmão) e o passado, as lembranças do inadequado Rodolfo: o verde lagarto amarelo, com seríssimos problemas de autoestima.

 

Antes do baile verde

Um conto que trás muitas reflexões, um dos melhores do livro (talvez não por acaso o nomeie).

Carnaval. Duas mulheres, uma jovem patroa e sua empregada (preta). Lu, a empregada, quer ir embora, pois seu namorado está chegando; eles vão curtir a festa, ver os desfiles (e ele não vai gostar de atrasos, óbvio). A jovem patroa (Tatisa) quer que a empregada fique mais um pouco, ajudando na fantasia. Além disso, o pai de Tatisa está muito mal, segundo Lu ele está morrendo. Mas não passa na cabeça da jovem perder o baile verde ficando em casa. Talvez Lu estivesse errada, já aconteceu uma vez. Talvez Lu pudesse ficar velando o moribundo enquanto Tatisa curte a festa. E é isso mesmo que a jovem burguesa sugere à empregada, quase implorando.

“Há meses que venho pensando nesse baile. Ele viveu sessenta e seis anos. Não podia viver mais um dia?”

Egoísmo, relações familiares, luta de classes. Um conto magnífico.

 

A caçada

Imagine olhar para uma peça de tapeçaria e, de alguma forma, lembrar-se de um passado muito distante. Tão distante que jamais poderia ser seu.

 

A Janela

Um homem triste, abalado psicologicamente, retorna ao quarto onde o filho dele morreu. Ele precisava ver a janela a qual a cor e o perfume das rosas acalentaram os últimos momentos de seu filho. Uma mulher bastante sedutora (presumidamente jovem, talvez prostituta) está hospedada neste quarto, onde um diálogo truncado se desenvolve entre os dois. Truncado porque ali estão duas pessoas em planos distintos de história e memória, sendo necessário, por parte do leitor, desvendar as entrelinhas da paisagem do lado de dentro desta janela.

O que mais me intrigou desde que eu li pela primeira vez A Janela, de Lygia Fagundes Telles, foi essa necessidade de ler as entrelinhas para escapar de uma leitura mais superficial. Às vezes fazemos deduções apressadas, baseadas em aparências e preconceitos. Neste conto, Lygia prova que, realmente, a literatura é uma forma de amor. Pois é preciso amar O Outro para pelo menos tentar entendê-lo em sua subjetividade.

 

Um chá bem forte e três xícaras

Este conto é daqueles que, se você ler superficialmente, parece que não acontece nada demais. Parece extremamente banal, mas aqui (como em vários escritos de Lygia Fagundes Telles) você precisa ler nas entrelinhas. Relembro o que disse Noemi Jaffe:

“A linguagem de Lygia, suas construções semânticas e sintáticas, embora bem acabadas e claras, são frequentemente elípticas. (…) Como se algo estivesse sendo dito ou estivesse sendo não dito.” 

 

Venha ver o pôr do sol

Sabe quando você está lendo algo tão extraordinário que vai prendendo a respiração? Este conto!

(e mais não posso contar, para não estragar a sua experiência de leitura)

 

 

 

Título: Os contos

Autora: Lygia Fagundes Telles

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 752

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