[DIÁRIO] “A LITERATURA É UMA FORMA DE AMOR”: LYGIA FAGUNDES TELLES

[DIÁRIO] “A LITERATURA É UMA FORMA DE AMOR”: LYGIA FAGUNDES TELLES

No último dia 20 de outubro eu tive a honra e o prazer de mediar (mais uma vez) um encontro do Clube de Leitura Online, realizado pelas Bibliotecas do IF Sudeste MG Campus Muriaé em parceria com a Academia de Letras da mesma cidade (AMLE). Para a ocasião, sugeri lermos o conto A Janela, da incrível e maravilhosa escritora Lygia Fagundes Telles. O encontro foi muito legal; conversar sobre literatura, em suma, é algo que me deixa muito feliz!

Resolvi trazer aqui para o blog alguns dos slides e curiosidades sobre a autora e sobre o conto, como um registro de diário de leitura meu mesmo (adoro!) ou, quem sabe (e esta é a melhor hipótese) inspirar você a debater esta ou alguma outra obra da Lygia com seus amigos, em algum clube de leitura (online, por favor!) ou em lives nas redes sociais. Vamos espalhar literatura por aí!

 

Lygia Fagundes Telles nasceu em 1923. Advogada, romancista, contista, suas obras retratam temas universais como a morte, o amor, o medo, a loucura e o fantástico. Foi a terceira mulher a entrar na ABL (1987), onde ocupa a cadeira 16.

 

Ganhou os prêmios Jabuti, APCA, Camões, dentre muitos outros. Em 2016, pouco antes de completar 93 anos de idade, foi a primeira mulher brasileira indicada ao Nobel de Literatura. Na imagem, a edição mais recente (e linda!) de Antes do Baile Verde, coletânea de contos onde foi publicado A Janela.

 

O conto é “uma forma arrebatadora de sedução”; é preciso “seduzir o leitor em tempo mínimo”, afirma a autora. Na imagem, Lygia aos 95 anos recebendo o seu exemplar de Os Contos (maravilhoso, recomendo muito!), publicado pela Companhia das Letras (2018).

 

“A linguagem de Lygia, suas construções semânticas e sintáticas, embora bem acabadas e claras, são frequentemente elípticas. (…) Como se algo estivesse sendo dito ou estivesse sendo não dito.” (Noemi Jaffe)

 

Sobre o conto A Janela: Um homem triste, abalado psicologicamente, retorna ao quarto onde o filho dele morreu. Ele precisava ver a janela a qual a cor e o perfume das rosas acalentaram os últimos momentos de seu filho. Uma mulher bastante sedutora (presumidamente jovem, talvez prostituta) está hospedada neste quarto, onde um diálogo truncado se desenvolve entre os dois. Truncado porque ali estão duas pessoas em planos distintos de história e memória, sendo necessário, por parte do leitor, desvendar as entrelinhas da paisagem do lado de dentro desta janela.

O que mais me intrigou desde que eu li pela primeira vez A Janela, de Lygia Fagundes Telles, foi essa necessidade de ler as entrelinhas para escapar de uma leitura mais superficial. Às vezes fazemos deduções apressadas, baseadas em aparências e preconceitos. Neste conto, Lygia prova que, realmente, a literatura é uma forma de amor. Pois é preciso amar O Outro para pelo menos tentar entendê-lo em sua subjetividade.

 

Da autora, vale (também) a leitura do livro A disciplina do amor, publicado pela Companhia das Letras, de onde tirei o trecho abaixo. Neste livro, Lygia mostra “uma escrita mais livre, que despreza as fronteiras entre a ficção e a realidade, a invenção e a memória, o conto e o relato autobiográfico.”

Volto a Simone de Beauvoir e dela destaco esta frase, marco elementar desde o início da luta: “Somente o trabalho fora do lar é capaz de ajudar a plena realização psíquica e social da mulher”. Mas e a retaguarda dessa mulher que vai trabalhar fora? Como fica essa retaguarda?
A Professora Moema Toscano dá a resposta certa: “Enquanto não se superar a necessidade da empregada doméstica (como acontece nos países desenvolvidos) eu não acredito que possa haver um feminismo no Brasil.”

 

 

Lygia e Hilda Hilst (BFF, sabiam?!)

“Todo mundo fez tudo pra criar uma animosidade entre nós. Os nossos universos são parecidos, mas se expressam de modos totalmente diferentes. Por exemplo, eu nunca entendi o que quer dizer o ponto-e-vírgula. Eu perguntava pra Lygia, ela me explicava. Eu dizia: ‘Não entendo o ponto-e-vírgula’. Tanto é que nunca na minha vida eu escrevi com ponto-e-vírgula. Nunca entendi. Acho uma besteira. Pensei que não poderia escrever prosa porque não entendia o ponto-e-vírgula. Até que depois de 20 anos eu resolvi escrever. 

Eu falo tudo claro. A Lygia se encobre. Quando ela está comigo, por exemplo, a Lygia sozinha, ela é ela. Mas ela tem um certo respeito pelo outro. Eu não tenho o menor respeito. Isto não é um defeito da Lygia, é um defeito meu.
(…)

Ela sempre me disse que fica nua diante de mim. Eu também. Digo: ‘Lygia, eu estou péssima. Estou doentíssima, acho que vou morrer, venha me ver, pelo amor de Deus!’ Quero demais morrer segurando a mão da Lygia, porque sei que ela vai entender tudo na hora H. Ela vai dizer: ‘Hilda, fica calma e tal que é assim mesmo.’

A gente tem uma amizade, sei lá, pode ser até de outras vidas, embora sejamos muito diferentes. Aí Por exemplo, eu bebo muito, ela não bebe nada. Ela diz: ‘Eu vou beber um vinhozinho’. Mas eu já estou bebendo uma garrafa e vários uísques. Ela é muito ativa, é uma mulher mais velha do que eu, mas muito mais ativa. Ela vai ao Rio de Janeiro, corrige livros… Eu não quero corrigir livros nunca mais.”

Hilda Hilst sobre Lygia Fagundes Telles. Cadernos de Literatura Brasileira (n. 4), Instituto Moreira Salles. Retirado do blog trajeslunares.com

 

 

 

Outras referências usadas neste post e na apresentação para o Clube de Leitura:

CRESCENZO, Luigia de. “A Janela” e l’ambiguità del reale: invenzione e memoria nel racconto della scrittrice brasiliana Lygia Fagundes Telles. Diponível em https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/4970583.pdf Acesso em 13/08/2020.

Sobre Lygia Fagundes Telles. Instituto Moreira Salles. Disponível em https://ims.com.br/2017/06/01/sobre-lygia-fagundes-telles/ (acesso em 13/10/2020)

TELLES, Lygia Fagundes. A Disciplina do Amor. São Paulo: Companhia das Letras, 2010

WIKIPÉDIA. Lygia Fagundes Telles. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Lygia_Fagundes_Telles Acesso em 13/08/2020.

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