novembro 27, 2019

[CONTO] EMMA (#JANEAUSTENFANFIC)

 

Para ouvir: Passion rules the game, Scorpions.

 

Emma era uma jovem linda, inteligente e muito trabalhadeira. Passava boa parte de seu tempo cuidando do pequeno sítio que pertencia a ela e a seu pai, fazendo queijos artesanais e doces para venda. Era conhecida pelo talento culinário, mas também por outra habilidade que não se furtava em mencionar: a de casamenteira.

De fato, uma proeza recente realizada por Emma no campo matrimonial foi conseguir casar sua antiga babá com o dono do maior supermercado da cidade. Engana-se quem pensa que apenas os queijos e os doces são negociados por Emma, por assim dizer. Ela identifica e junta os pares mais adequados, com muito respeito, é claro, mas sem a menor cerimônia. Quanto a si, rejeita a ideia de casar. Tem tudo o que precisa no sítio e é perfeitamente feliz.

O sítio dos pica-paus, lar de Emma e de seu pai, seu Quirino, é um lugar bastante movimentado. Seja pelos quitutes de Emma ou pela cachaça produzida por seu pai, não passa meio dia sem que apareça um visitante. Uma dessas presenças constantes é George, amigo de longa data de Emma.

— Cheguei em boa hora? — George perguntou a Emma, já desconfiando da resposta.

— Tarde demais para o almoço, mas cedo o suficiente para o lanche. Ou para a janta — Emma respondeu, tirando sarro do amigo. — Pensei que não viria mais hoje.

— Estou atarefado com as aulas, nada importante — George respondeu. — Não é muito fácil fazer adolescentes entenderem certos conteúdos de matemática. Eles precisam ver a aplicação prática da coisa, caso contrário nem perdem o precioso tempo comigo…

— Uai, “a aplicação prática da coisa” é conseguir passar no vestibular, não é? — Emma perguntou.

— Essa é uma das aplicações. Mas não pode e nem deve ser a única — George respondeu, pegando um naco de queijo colocado na mesa por Emma.

— Receita nova! Queijo temperado, para aperitivo — Emma estava orgulhosa.

— Perfeito! Pode deixar mais um pedaço aqui — George exclamou com a boca cheia.

— Você vem aqui só para atrasar o meu serviço e comer minhas receitas, não é verdade? — Emma questionou, mal contendo uma risada.

— Sou sua cobaia. Você devia me pagar um salário por esse serviço — rebateu, por fim, com uma piscadela.

 

***

 

A comunidade que cercava o sítio era pequena e bem unida. Qualquer um que chegasse ou saísse era notícia para alguns dias. Assim aconteceu quando chegou uma sobrinha de Tânia, a antiga babá de Emma. Estando pela primeira vez na região, a passeio, Renata causou um burburinho pelas propriedades, despertando a curiosidade de todos.

— Você já conheceu a sobrinha da Tânia, Emma? — perguntou George.

— Ainda não. Por quê? Você já conheceu? — Emma perguntou.

— Não, ainda não.

— Talvez eu devesse ir até a casa dela, para conhecer essa moça — Emma refletiu.

— Se você quiser, posso ir com você — George ofereceu, finalizando seu gole de café.

— Por quê? Você está curioso? — Emma quis saber.

— Você tá muito perguntadeira hoje, Emma. — George riu. — Só estou te oferecendo companhia.

— Tudo bem. Certo. Talvez eu vá amanhã, depois do almoço — Emma complementou.

— Ih, não posso amanhã.

— Tudo bem, vou sozinha então — Emma disse e sorriu.

 

Ela precisava conhecer a recém-chegada, mas não conseguiria analisá-la sob os olhares de George. Ele logo faria alguma piada sobre ela ser casamenteira, como ele sempre dizia aos quatro ventos, e Emma não precisava de uma má impressão de Renata logo de cara.

A casa de Tânia não era muito distante da sua, então a moça foi de bicicleta. Na garupa, uma cesta com alguns queijos e doces, como boas-vindas à moça.

— Espero não ter chegado em má hora — Emma cumprimentou Tânia com um abraço carinhoso. — Trouxe algumas coisas para o lanche!

— Emma, deixa eu te apresentar a sobrinha do Aloísio, ou melhor, minha sobrinha — Tânia pediu, olhando para a bela jovem sentada no canto da cozinha. — Renata, essa é Emma, a moça que eu te falei. Fui babá dela por muitos anos, desde que ela era uma menininha.

— Estava ansiosa para te conhecer, Emma — Renata afirmou, parecendo sincera. — Por aqui todos falam muito de você e das coisas que você faz.

Emma já ia responder, quando ouviu uma voz conhecida.

— Disseram que ela é uma casamenteira também? — George perguntou, sob o riso de Tânia e o olhar desafiador de Emma.

— Sim, eu já soube. Ela juntou o meu tio e a Tânia — Renata respondeu. — Obrigada por isso, Emma. Meu tio era um chato solitário. Agora ele é só um… chato. — Todos riram.

— Pensei que você tinha um compromisso, George — Emma comentou, com seu olhar inquisidor direcionado ao amigo.

— E eu tenho. Só passei aqui rapidinho — ele respondeu a Emma, logo voltando sua atenção à visitante. — É um prazer conhecê-la, Renata. Aqui todos gostamos muito do seu tio e da sua tia. Espero que suas férias sejam agradáveis.

— Esse é o professor de matemática mais educado da região — Emma completou, falando baixinho.

— E não é que sou mesmo?! — George sorriu satisfeito.

Ele e Emma tinham um modo peculiar de se alfinetarem e permanecerem amigos. Era a convivência de longos anos, ele sempre respondia quando alguém dizia que os dois ainda acabariam no altar. Mas George sabia que Emma estava longe de se casar com qualquer um, assim como ele. Talvez os dois seguiriam solteiros e amigos até o fim de seus dias.

Enquanto George refletia, Emma já havia colocado Renata debaixo do braço e levado a moça para o terreiro. Uma amizade instantânea aconteceu entre as duas e Emma decidiu, em pouco tempo de observação, que talvez pudesse guiar a amiga em suas relações na comunidade, a qual ela própria conhecia muito bem.

Vendo a Emma assim tão alegre pelo campo, eu tenho a impressão que ela só cresceu, mas continua uma menininha. Você não acha, George? — Tânia perguntou, pegando o professor de surpresa.

— A Emma é como um raio de sol. Ela ilumina qualquer lugar só de passar por ele — George respondeu, olhando para Emma, que conversava alegremente com Renata. — Sempre achei que ela era a menina mais bonita da região. É natural que ela tenha se tornado a mulher mais linda também.

Tânia ouvia atentamente os elogios de George. Por fim, disse:

— Qualquer um que ouvisse a nossa conversa diria se tratar de um homem apaixonado descrevendo a mulher dos sonhos, uma musa inspiradora.

— Ainda bem que essa conversa ficará apenas entre nós dois — George respondeu, com um tímido sorriso. — Preciso ir. Até mais, Tânia.

 

***

 

Renata era presença constante no sítio dos pica-paus. Seu Quirino, Emma e também George se acostumaram a contar com a presença agradável da jovem em todo fim de tarde. Emma, além de uma amiga, tinha uma nova cobaia para seus queijos e doces, já que desconfiava da opinião quase sempre positiva de George e do Seu Quirino.

— O Seu Quirino já te contou sobre a história do nome da Emma, Renata? — George perguntou, segurando para não rir.

— Ninguém se interessa por essa história. Meu nome é Emma e pronto. Não é tão engraçado quanto ele faz parecer, Renata — Emma respondeu, tentando desconversar.

— O que não é engraçado, Emma? — Seu Quirino questionou, chegando para tomar seu café da tarde.

— Eu estava falando sobre a história do nome da Emma, Seu Quirino — George respondeu.

— Ah, sim. Não é tão engraçado quando lembro que a mãe dela ficou quase um mês brava comigo. — Seu Quirino parecia saudoso. — Mas é uma história e tanto!

Emma fora vencida. A história de seu nome seria contada mais uma vez.

— Emma ia se chamar Carolina — seu Quirino começou a contar. — A mãe dela gostava muito de uma escritora que tinha esse nome. Eu nunca fui muito de ler, mas a mãe dela gostava.

“Quando Emma nasceu e já estava tudo bem, eu precisei ir ao cartório, para fazer o registro, tudo certinho. Eu estava muito feliz, muito mesmo. Ela era um bebezinho lindo, se parecia muito com a mãe.”

Seu Quirino sorriu para Emma, que tomou uma das mãos do pai e a beijou.

— Então, chegando ao cartório, o Belisário, que fazia os registros, estava vendo uma enciclopédia de animais. Havia um muito bonito, desses que não temos por aqui. Ficamos conversando sobre ele e, então, quando foi o momento de registrar a menina e o Belisário me perguntou o nome, eu só consegui dizer: Emma.

Seu Quirino terminou a história sem nenhum comentário jocoso, como era de costume ao contar essa história, e um silêncio constrangedor ocupou a cozinha. Ninguém queria rir depois de ele ter lembrado com tanto carinho da falecida esposa. Emma, pela primeira vez, não ficou irritada ao ouvir a história do seu nome.

— É um lindo nome, Seu Quirino — George afirmou. — Tenho certeza que a mãe da Emma passou a amar esse nome em pouco tempo.

— Não é um nome comum como o meu, por exemplo — disse Renata. — Já fiz uma prova em uma sala que só tinha Renatas. Foi um pavor.

Todos riram, inclusive seu Quirino, que logo pediu desculpas, pois precisava terminar um serviço no alambique.

— Emma, me desculpa! — George pediu com sinceridade. — Não sabia que seu pai ia ficar tão mexido, ele sempre brinca com essa história.

— Não tem problema, George, sei que você não fez por mal — Emma respondeu. — Meu pai anda meio triste. Talvez eu devesse arrumar uma esposa para ele.

Mais um silêncio constrangedor na cozinha.

— Que isso, gente. Eu só estava brincando! — Emma riu, e logo todos a acompanharam. — Se bem que não seria uma má ideia… Meu pai já é viúvo há tempo demais…

 

***

 

Algum tempo depois da chegada de Renata e de suas visitas constantes ao sítio de Emma, outra figura passou a ser presença cativa nas tardes do lugar: Elton, o novo gerente do banco. Inicialmente interessado em visitar o alambique, o rapaz continuou indo ao sítio dia após dia, sendo tão simpático com as moças, quanto podia ser.

— Imagina se eu consigo juntar o Elton e a Renata?! — Emma se questionava, já pensando em alguma maneira de unir o casal.

Acontece que Renata tinha alguém por quem era apaixonada há algum tempo. Talvez não tivesse futuro, já que ela estava no interior há semanas, e Márcio não havia procurado por ela. No coração da moça, no entanto, existia uma fagulha de esperança sobre esse amor.

Ignorando qualquer outro romance de Renata e tendo se certificado que Elton estava solteiro, Emma começou a encorajar um romance entre os dois. Não precisava ser um casamento propriamente dito. Sendo o casal ainda jovem, Emma ficaria satisfeita em ser o cupido do namoro. Iria com calma, para não assustar Renata ou Elton.

Elton, que já não precisava de desculpas para ir até o sítio, passou a levar presentes para Emma e Renata, além de tocar violão e ler trechos de jornal em voz alta, rindo das notícias ruins que não poderiam abalar a felicidade deles ali naquele lugar idilicamente remoto, como gostava de dizer. Cada dia ele inventava algo diferente para entreter as moças, queria ser a fonte de cada sorriso das duas.

George, por sua vez, diminuiu suas idas ao sítio. Já não conseguia ter uma conversa normal com Emma há dias, pois se Elton estivesse por perto, era impossível para alguém menos expansivo completar uma simples frase. Algo no bancário desagradava profundamente o professor de matemática. Ele só não conseguia perceber o que era.

 

— George, poxa, você tem vindo pouco aqui — Emma reclamou. — Aconteceu alguma coisa?

— Nada de mais. Apenas muito trabalho — George respondeu.

— Muito trabalho? Bote uma calculadora nas mãos dos seus alunos e venha se divertir conosco! — Elton debochou.

— Muito engraçado, bancário — George respondeu. — Já pensou em entrar para a televisão ou começar um canal de humor no YouTube?

— Ah, deixa disso, não se zangue — Elton respondeu. — Venha, venha provar mais uma delícia preparada pelas mãos dessa deusa do ébano que vocês chamam simplesmente de Emma.

George olhou de Elton para Emma e de Emma novamente para Elton, mas não conseguiu dizer nada. “Deusa do ébano?” Eles já tinham esse nível de intimidade? Julgava que a amiga merecia algo melhor, mas talvez não tivesse direito de julgar ou pensar nada neste sentido. Simplesmente virou as costas e foi embora.

Emma se entristeceu com a reação exagerada de George. Que Elton tinha modos meio impertinentes, ela começava a perceber. Mas o que havia de tão errado para fazer o amigo ir embora tão de repente? Ser chamada de deusa do ébano era um exagero até para uma pessoa vaidosa como ela, mas Elton não fazia por mal. Queria agradá-la por causa de Renata, Emma tinha certeza.

 

— Emma, vamos lá no pomar para tirar aquelas fotos? — Renata chamou, percebendo o desânimo da amiga. — Elton, você quer ir também?

— Claro, vamos todos! — Elton ofereceu os dois braços às moças, e assim saíram os três da cozinha.

A seção de fotos era planejada por Elton, tendo Renata como modelo e Emma, fotógrafa. A queijeira conseguiu flashes muito bons da amiga, e Elton fez questão de tirar algumas fotos com Renata, ao estilo romântico. Emma se animou com a proximidade entre os dois e estava certa que era só uma questão de tempo para o casal se acertar. Renata parecia se divertir bastante com Elton, e ele, por sua vez, fazia de tudo para agradá-la.

— As fotos ficaram ótimas, Emma! — Elton afirmou. — Dignas de um profissional! Você devia emoldurar algumas, Renata. Perfeito, tudo perfeito!

As amigas riram da reação exagerada de Elton. Talvez George tivesse um pouco de razão. O bancário tinha um pezinho nas artes cômicas.

 

***

 

O mês de maio havia chegado, e com ele a temporada de festas e bingos na capela da comunidade rural, da qual o sítio dos pica-paus fazia parte. Era uma espécie de aquecimento para outra temporada de festas tipicamente rurais: as festas juninas.

Várias barraquinhas foram montadas no pátio da igreja, e cada família contribuiu com pratos variados. Tinha bolo, broa, caldo de pinto, chocolate quente, salsichão, pamonha… Faltava apenas Emma chegar com seus queijos e doces preparados especialmente para a ocasião.

George começou a ficar preocupado com a demora da moça, que era sempre uma das primeiras nas festas da comunidade.

Naquela noite, a caminhonete do sítio não funcionava de jeito nenhum. Emma pensou em ligar para George ou Renata, mas, como sempre, seu celular estava descarregado. Todavia desconfiava que ninguém ficaria com celular nas mãos durante uma festa boa daquelas. Quando ela pensou em pegar a bicicleta para ir até a igreja pedir ajuda, eis que Elton surgiu, pronto para transferir a carga para o seu próprio carro.

— Não sei o que eu faria se você não tivesse chegado, Elton! — Emma exclamou em agradecimento. — Já estava saindo de bicicleta para pedir ajuda na festa. Ia ligar para o George, mas estou sem celular.

— Devia ter pensado primeiro em mim. Não vê, Emma? Eu estou sempre aqui por você. — Elton disse e ficou olhando para Emma, como se aguardando uma resposta.

— Agradeço a sua amizade, Elton — Emma respondeu, um pouco constrangida. — Vamos logo? Meu pai já saiu, e todos devem estar esperando a minha parte das comidas.

— Pensei em aproveitarmos esse tempo a sós — Elton comentou, se aproximando de Emma, que logo recuou.

— Que conversa torta é essa? Não tem nada para aproveitar aqui, não. O que você está pensando?

— Não precisa fazer charminho, minha deusa do ébano — Elton disse e sorriu, mais para ele mesmo do que para Emma. — Eu já caí na sua rede.

— Não sou sua “deusa de ébano” e nem joguei rede nenhuma. Sou sitiante, não pescadora. — Ela riu, nervosa. — Alguma coisa está errada aqui, e eu quero que você vá embora da minha propriedade.

— Você não pode estar falando sério, Emma. — Elton fingiu impaciência. — Pensa bem, somos um belo par. Comigo ao seu lado, esse sítio vai prosperar. Então poderíamos até viver em uma cidade mais culta, menos rural. Seu pai já está velho, isso aqui — ele olhou em volta da casa — em breve vai acabar.

Emma olhava para Elton com fúria. Não conseguia responder aos disparates dele, pois eram muitos. Havia se enganado como nunca. Conseguiu apenas dizer, por fim:

— Pensei que você estivesse interessado na Renata.

Elton soltou uma gargalhada exagerada e encostou no carro enguiçado, fingindo mal se aguentar em pé. Vendo que Emma permanecia como estátua no mesmo lugar, sem esboçar qualquer reação diferente de desprezo, ele emendou:

— Eu e aquela Zé Ninguém? Tudo bem, ela é sobrinha do dono do mercadinho da cidade. Mas quem é ela? Quem são os pais dela? Eu estou muito acima daquela garota.

— Ela é uma ótima garota — Emma respondeu. — E, pelo que eu saiba, você não é rico. Nenhum de nós é. Somos todos Zé Ninguém, como você disse.

— Você tem essas terras — ele retrucou, com olhar malicioso. — É a única moça daqui com a qual eu aceitaria me casar.

— E quem disse que eu quero me casar, e ainda mais com você? — Emma perguntou, altiva.

— Você não é a que casa todo mundo? — Elton riu. — Com certeza tá precisando de um homem de verdade para te colocar nos trilhos. Até agora nenhum se prontificou, mas eu estou aqui.

Antes mesmo que Elton pudesse encostar em um único fio do cabelo de Emma, George, que havia chegado há pouco, partiu para cima dele, o empurrando contra o carro e derrubando o bancário no chão.

— Chegou o professorzinho para salvar a donzela? — Elton perguntou, ainda no chão.

— Você está muito enganado sobre essa mulher que você chama simplesmente de donzela — George disse, olhando rapidamente para Emma. — Mas resolvi intervir para que você possa se machucar o mínimo possível.

— Vai me chamar pra briga? — Elton perguntou, batendo a poeira das calças. — Muito antiquado até para um sujeitinho brega como você.

— Você sabia que a Emma consegue acertar um alvo a vários metros de distância? — George perguntou. — Um estilingue ou uma espingarda nas mãos dela nunca desperdiçaram munição para atingir alguma coisa.

— Eu posso chamar a polícia — Elton disse.

— Quem você acha que vai te achar mais rápido?

— O Elton já estava de saída, não estava? — Emma perguntou, com ênfase na última palavra.

O jovem bancário saiu, levantando poeira do chão do sítio dos pica-paus. Em pouco tempo, não havia nem sinal do carro dele na estrada, e Emma pôde respirar aliviada.

— Obrigada, George. Eu não teria escapado fácil se você não estivesse aqui — Emma disse.

— Não pense mais nele. Ele não merece você — George respondeu. Emma ia dizer alguma coisa, mas logo chegou um carro enviado por seu pai para finalmente levar os quitutes do sítio para a festa.

 

***

 

No dia seguinte, Emma precisava contar tudo para Renata. Sentia-se péssima por ter encorajado a amiga a se envolver com uma pessoa tão odiosa quanto o Elton. Ela devia ter desconfiado dos modos exagerados dele, mas fora muito boba e vaidosa ao pensar que as pessoas podiam ser como marionetes nas mãos dela, ainda que por uma boa causa… Estava decidido, Emma não seria mais casamenteira. Tânia seria seu último legado.

Renata, ao contrário do que Emma previra, não ficou tão abalada com o desprezo de Elton por ela. O que mais a assustou foi a atitude do rapaz com a amiga. Emma, de consoladora, passou a consolada, e no final tudo acabou bem.

— Sabe, Emma, eu não havia lhe dito, mas estou prestes a voltar para casa — Renata disse. — O tempo que eu passei aqui foi muito bom, mas existe algo ainda melhor me esperando por lá.

— Pensei que você tivesse a intenção de ficar conosco… — Emma segurou as mãos da amiga. — O que aconteceu? Não gostou da vida na roça?

— A vida aqui é maravilhosa, nunca vou esquecer desse tempo com vocês, e logo vou voltar — Renata respondeu. — Mas alguém de quem eu gosto muito mostrou que também tem sentimentos por mim. Por isso também preciso voltar.

— Você está apaixonada? — Emma perguntou, surpresa.

— Sim! — Renata estava feliz.

— Então só posso desejar que você seja muito feliz. Mas eu vou sentir muito a sua falta.

— Eu também, amiga. Fico triste que, justamente agora que estou indo embora, e todo esse drama com o Elton aconteceu, o George não estará aqui com você.

— O que você disse? — Emma perguntou, atônita.

— Você não sabia? — Renata pareceu envergonhada. — A Tânia disse que o George está planejando ir embora. Quer tentar fazer um mestrado, dar uma guinada na vida dele.

— Eu não sabia. Ele não me disse nada — Emma falou, cabisbaixa.

 

Renata foi embora poucos dias depois, e Emma tornou-se solitária. A mesa do café da tarde já não era tão barulhenta quanto há pouco tempo. Ela sentia saudades, sobretudo de George, presença constante em sua vida até então. Todos já sabiam dos seus planos de ir embora para São Paulo, e ele nunca mais voltou ao sítio depois da noite da festa. Um sempre estava onde o outro era ausente, e, assim, foram se distanciando cada dia mais.

Surgiram boatos que ele havia conhecido alguém, por isso estava de mudança para São Paulo. Emma não imaginava como, pois não sabia de ninguém de fora pelas redondezas, e George há séculos não saía do lado dela. No entanto, como podia ter certeza? Além disso, seu orgulho a impedia de procurá-lo, embora fosse justamente isso que mais desejava.

Seu Quirino percebia a inquietação da filha, mas preferia não se meter nos assuntos dela. Apenas fez George prometer que iria até o sítio para se despedir dele e de Emma quando fosse embora. George havia dito que iria, e o velho Quirino confiava na palavra do professor.

Certa tarde, quando o café já estava descendo pelo coador de pano, Emma ouviu três leves batidas na porta da cozinha.

— Cheguei em boa hora? — George perguntou.

— Tarde demais para o almoço, mas cedo o suficiente para o lanche. Ou para a janta — Emma respondeu, olhando nos olhos dele.

— Seu pai me fez prometer que eu viria me despedir.

Emma deu as costas para George e começou a arrumar a cozinha. Como poderia se despedir dele? A verdade se colocava diante dela como um tufão de vento cortante. Como se ela desavisadamente tivesse aberto a janela do seu coração bem na hora da tempestade.

Emma o amava, e agora ele ia embora.

— Faz tanto tempo que não venho aqui, acho que devo ter emagrecido — George continuou, tentando quebrar o silêncio.

— Você não precisava ter vindo se despedir — Emma disse, ainda de costas. — Não precisava ter dado ouvidos ao meu pai.

— Eu vim porque eu queria ver você — George respondeu.

— Mas eu preferia que você não tivesse vindo — Emma se virou. George estava mais perto do que ela supunha.

— Por quê? Você quer que eu vá embora? — questionou, mas não esperou a resposta. — Eu pensei que você poderia estar sofrendo por causa daquele imbecil do Elton e quis te dar um tempo para respirar. Eu nunca quis me afastar de você, Emma.

— Sofrendo? Por causa do Elton? Por que eu estaria sofrendo pelo Elton? Nem lembro que aquele maluco existe.

— Então o problema sou eu. Por alguma razão você não me quer mais aqui — George concluiu, já se preparando para sair.

— Eu preferia que você não tivesse vindo — Emma admitiu — porque eu nunca imaginei que precisasse me despedir de você. Eu não sei fazer isso. Eu não quero fazer isso. Eu não entendo por que você precisa ir embora e me deixar aqui, quando tudo o que eu queria é que você ficasse aqui comigo. Aí você vem com essa história de Elton, e eu não entendo mais nada.

— Eu julguei que você gostasse dele. Ele estava sempre aqui, vocês se divertiam juntos… — George disse.

— Eu queria juntar ele e a Renata. Mas a Renata gosta de outra pessoa, lá da cidade dela, e o Elton, você já sabe.

Os dois ficaram alguns instantes em silêncio. Pela primeira vez em anos, pareciam não saber o que dizer. Emma se encostou na pia, cabisbaixa, e então George foi até ela, mantendo uma pequena distância entre os dois.

— Não sei se você percebeu, mas eu nunca disse que ia embora — George argumentou, e Emma levantou os olhos para encará-lo. — Eu disse que pensava em ir embora, caso as coisas aqui não funcionassem para mim. Talvez um mestrado em São Paulo. Eu não queria estar em um lugar onde você existisse e não fosse minha.

— E eu não queria ficar aqui sem você — Emma respondeu.

Seu Quirino estava chegando para o café quando viu Emma e George finalmente se acertando na cozinha de casa. Graças a Deus!, pensou. Já não aguentava mais ver Emma pelos cantos e sabia que tinha feito a coisa certa ao procurar George e dar a ele um ultimato. Talvez o velho alambiqueiro tomasse para si o cargo de anjo casamenteiro.

 

— E agora, como será? — Emma perguntou, o rosto coladinho ao de George, que a envolvia em um abraço.

— Talvez eu não cobre mais para ser sua cobaia, embora precise ter um pouco de atenção com a comilança, já que vou ser presença ainda mais constante nessa casa — George respondeu.

— Muito romântico — Emma brincou, mas logo admitiu: — Senti muito a sua falta.

Eu amo você. Sempre amei — ele disse, selando o momento com o beijo apaixonado que guardara há anos para o seu amor.

Conto integrante da coletânea Como um romance de época e outros contos.


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