agosto 03, 2018

[CONTO] COMO UM ROMANCE DE ÉPOCA

 

Para ouvir: Bourn to touch your feelings, Scorpions.

 

 

Bianca saiu do salão de beleza com um sorriso de orelha a orelha. O cabeleireiro não entendeu muito bem a proposta do corte, mas para ela estava tudo perfeito. Bianca agora tinha o cabelo igualzinho ao de Lady Mary Crawley, de Downton Abbey.

Bibi, como era conhecida, vivia mais entre os livros do que em qualquer outra coisa, lugar ou pessoa. Carregava seus personagens favoritos na bolsa ou no celular. Todo minutinho de intervalo no trabalho era usado para ler um ou dois parágrafos. Sua autora favorita naquele momento era Julia Quinn, com seus deliciosamente açucarados romances.

— Quem me dera ser uma personagem de romance de época! — suspirava.

No século XXI seria muito difícil achar um duque, conde ou barão que fizesse dela uma senhora. Pensamento antiquado? Muitíssimo! No entanto, tudo o que Bianca queria era viver um romance como os que lia. Não se importava com títulos, desde que o cavalheiro fosse um… cavalheiro. Mas onde é que ela encontraria um homem assim?

 

***

 

Romeu estava atrasado para o trabalho. Era funcionário de uma oficina de motos há tempo suficiente para se sentir confortável como mecânico.

Nas horas vagas, era um orgulhoso colecionador de livros antigos. Tinha algumas edições de livros esgotados há anos nas livrarias. Perseguia os grandes escritores e também aqueles que descobria em sebos. Gostava de comparar as mudanças na ortografia e as traduções. Também gostava de livros com dedicatória. Esses tinham um lugar especial em sua estante, pela dupla história que continham. Era um mecânico bibliófilo, apaixonado por motos e livros. Mas lhe faltava algo…

O atraso, naquele dia, se devia às horas que havia passado em um sebo, se esquecendo do mundo além dos livros. Achou um exemplar de A Casa Soturna, versão em português de Bleak House, de Charles Dickens.

— Há anos esse livro não é reeditado! — exclamou Romeu, percebendo também que estava atrasado. — Preciso correr! — exclamou, despedindo-se do livreiro, não sem antes comprar aquele exemplar precioso.

 

***

 

Bianca estava lendo Simplesmente o Paraíso, de Julia Quinn, no caminho de volta do salão, depois do trabalho. Era confeiteira, portanto começava o dia no silêncio da madrugada e terminava quando muitos estavam ainda começando o trabalhar. Caminhava lentamente com os olhos grudados no romance entre duas pessoas que se conheciam a vida inteira.

— Seria mágico… — Bibi comentou e suspirou.

Não soube muito bem o que aconteceu em seguida, pois quando deu por si estava no chão, sua bolsa, caída, e seu cotovelo, dolorido e ralado. Ouviu Romeu se desculpar repetidamente.

— Desculpa, desculpa, desculpa… Bibi? — Ele parou de se desculpar ao perceber o novo corte de cabelo de Bianca. — Eu estava distraído com o meu A Casa Soturna.

— E eu com a Julia Quinn. Não tem problema — ela respondeu. — Pera aí, você disse A Casa Soturna? Uau, esse livro não é reeditado há anos! Vou querer emprestado, com certeza!

— De repente eu lhe empresto, Lady Mary — Romeu debochou, mas logo completou. — Ficou linda. Ainda mais, se é que isso é possível.

Bianca ficou levemente corada, como as mocinhas dos romances de época. Só que Bibi nunca ficava corada.

Um silêncio levemente constrangedor indicava que alguma coisa havia acontecido naquele encontro tão desastrado. Algo poderoso, como uma rocha que se move das profundezas ou uma folha que cai de uma árvore aparentemente sem motivo algum.

Algo mágico, como um reencontro.

Bianca percebeu isso.

Romeu, também.

 

 

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