julho 05, 2019

[RESENHA] O SENTIDO DE UM FIM, DE JULIAN BARNES

Sinopse: “Tony Webster vive em Londres. Um dia, recebe uma pequena herança e o fragmento de um misterioso diário de um de seus melhores amigos, Adrian Finn, que cometeu suicídio aos 22 anos. A partir dessa lembrança, Webster revisita sua juventude na Inglaterra dos anos 1960 e tenta decifrar os escritos herdados, confrontando sua própria memória, a inexata versão dos fatos e o seu papel na cadeia de eventos que resultou na morte do brilhante amigo Adrian.”

 

Quão frágil pode ser a nossa memória? Essa pergunta ficou se repetindo na minha cabeça desde que cheguei à última página de O sentido de um fim, de Julian Barnes, enviado aos assinantes da TAG Curadoria no mês de junho de 2019. O livro, que teve como curador o escritor brasileiro Michel Laub, é uma leitura que prende, incomoda e nos faz criar diversas teorias sobre os personagens, suas trajetórias e as ligações que estabeleceram durante a vida.

A história gira em torno das lembranças de Tony Webster. Mas não lembranças aleatórias: a primeira ex-namorada, um inteligentíssimo amigo dos tempos de colégio — Adrian, que comete suicídio aos 22 anos, — e algumas pessoas que preenchem o espaço entre a juventude de Webster e sua maturidade, quando recebe de herança de sua ex-sogra uma pequena quantia em dinheiro e também o diário de Adrian.

Não quero dar muitos detalhes sobre o enredo, — o livro tem apenas 176 páginas — mas O sentido de um fim, em minha visão, fala não só sobre a fragilidade da memória, mas também sobre a forma estranha e incontrolável com a qual a nossa vida está ligada às pessoas com as quais tivemos um contato mais próximo ao longo da vida. Além disso, a narrativa de Julian Barnes nos faz refletir sobre como a memória, mais precisamente, as lembranças do nosso passado, podem não ser exatamente — na verdade, nunca são — iguais de pessoa para pessoa. A questão do ponto de vista é muito bem exemplificada aqui, como ressaltou Michel Laub no prefácio desta edição. O sentido de um fim segue a trilha dos narradores inconfiáveis, que nos proporcionam uma leitura com diversas camadas de interpretação.

 

O livro “O sentido de um fim” com o box e a revista literária que sempre acompanha e enriquece a leitura. No kit do mês de junho veio, ainda, um caderno para fazermos, quem sabe, o nosso próprio diário.

 

“Será que a conversa foi exatamente assim? Provavelmente não. Mas é como eu me lembro dela.” (p. 30)

 

“Eu descobri que esta pode ser uma das diferenças entre a juventude e a velhice: quando somos jovens, inventamos diferentes futuros para nós mesmos; quando somos velhos, inventamos diferentes passados para os outros.” (p. 98)

 

Ouça a playlist de O sentido de um fim no Spotify:

 

 

O sentido de um fim foi uma ótima leitura, instigante até a última página. É daqueles livros que, quanto mais lemos, maior é a vontade de continuar a ler. Depois do fim fiquei ainda muito tempo refletindo sobre o enredo e voltando em vários trechos para reler.

 

 

Título: O sentido de um fim

Autor: Julian Barnes

Tradução: Léa Viveiros de Castro

Prefácio: Michel Laub

Editora: TAG Curadoria / Rocco

Páginas: 176

 

 

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julho 03, 2019

[RESENHA] TO WALK INVISIBLE, AS IRMÃS BRONTË

Sinopse: “Conheça a história extraordinária das irmãs Charlotte, Emily e Anne Brontë, que se tornaram escritoras de renome superando todos os preconceitos e restrições da sociedade de sua época.”

 

Pouco depois de começar a postar resenhas no Skoob, recebi um convite para colaborar com um site o qual eu era leitora assídua, o Escritoras Inglesas. Por lá, além de livros de literatura inglesa, sobretudo feminina, eu escrevi, também, sobre alguns filmes e séries que tratavam desse mesmo universo. Falei sobre Pride and Prejudice (1995) e Cranford, por exemplo. O Escritoras encerrou suas atividades, mas as resenhas de minha autoria podem ser lidas aqui no blog.

Estou relembrando essa trajetória porque desde que iniciei esse espaço todo meu, não mantive o hábito de falar sobre as adaptações literárias dos romances que, por si só, conquistaram e continuam conquistando pessoas como eu e você, que está lendo esse texto. A dinâmica que eu usava para escrever esse tipo de resenha, assistir duas ou três vezes ao material e depois pesquisar sobre os detalhes da produção na internet, passou a ser pouco viável para uma nova realidade que passei a ter desde 2016: a maternidade.

É evidente que, de lá para cá eu fiz e escrevi muita coisa (e a Olívia cresceu um bocado). Mas essa necessidade de fazer um longo texto sobre um filme ou série acabou se perdendo, além do fato de que existem ótimos sites especializados nesse tipo de mídia e que, no duelo entre livro e filme, o meu coração escolhe o livro sem pestanejar.

No entanto, nos últimos meses assisti a um filme que me fez ter muita vontade de escrever sobre ele para indicá-lo fortemente a quem ainda não tenha o assistido: To Walk Invisible, As Irmãs Brontë (2016). Trata-se de uma cinebiografia das irmãs mais famosas da literatura, autoras de clássicos irresistíveis e mulheres de uma fibra admirável e bastante motivadoras para nós, mesmo em pleno século XXI.

Esse filme é muito especial, pois se detém em maior parte no processo de decisão delas de escrever e publicar mostrando, em paralelo, seus dramas familares. Vemos que, mesmo entre tantas dificuldades as Brontë, talentosas desde a infância, não desistiram de seu objetivo e muito dessa persistência deve-se à autora de Jane Eyre, Charlotte Brontë.

To Walk Invisible, inclusive, é uma expressão usada por Charlotte no filme para exemplificar como elas deveriam agir para conseguirem publicar seus livros: teriam de ser quase anônimas, invisíveis. Para quem não sabe, as autoras usaram pseudônimos nas primeiras edições de seus livros, pois livros de autoria feminina não costumavam ser considerados como literatura séria na Inglaterra de 1847 (e também em outros lugares, vários anos mais tarde). Muitos nem eram considerados dignos de publicação unicamente por ter o nome de uma mulher como autora. Sendo assim, a primeira publicação das irmãs, um volume de poesias, foi assinado por Currer, Ellis e Acton Bell, respectivamente Charlotte, Emily e Anne Brontë.

É emocionante ver na tela, em interpretações tão precisas quanto temos como comparar ao que se conhece das autoras, as personalidades tão diferentes e que, percebemos, transbordaram para as páginas dos romances. Só um espírito selvagem e livre como o de Emily seria capaz de escrever algo como O morro dos ventos uivantes; Anne, tão amável e apaziguadora, em minha opinião dona de uma escrita muito limpa e precisa; e Charlotte, que em algumas falas do roteiro confunde-se com sua personagem mais célebre citada anteriormente, Jane Eyre. O filme narra, ainda, a vida de Branwell, o irmão Brontë que também fora talentoso, mas acabou se perdendo no vício do alcolismo.

Um dos momentos mais belos desse filme é quando as irmãs veem algo como três sóis brilhando alto no céu. Elas, que caminhavam acompanhadas de uma amiga (ou prima, não me detive a este detalhe), ouvem desta acompanhante que aqueles três astros brilhantes são elas próprias. Nem mais, nem menos que a outra. Três mulheres brilhantes, as irmãs Brontë.

 

 

To Walk Invisible tem roteiro e direção assinados por Sally Wainwright e está disponível no streaming Telecine Play.

Veja a ficha técnica completa do filme no site IMDb.

 

Assista ao trailer (sem legendas):

julho 01, 2019

[RESENHA] A RIDÍCULA IDEIA DE NUNCA MAIS TE VER, DE ROSA MONTERO

Sinopse: “Um livro sobre o luto e suas consequências, que navega com maestria entre a ficção e a memória. Quando Rosa Montero leu o impressionante diário (incluído como apêndice neste livro) que Marie Curie escreveu após a morte de seu marido, ela sentiu que a história dessa mulher fascinante guardava uma triste sintonia com a sua própria: Pablo Lizcano, seu companheiro durante 21 anos, morrera havia pouco depois de enfrentar um câncer. As consequências dessa perda geraram este livro vertiginoso e tocante a respeito da morte, mas sobretudo dos laços que nos unem ao extremo da vida.”

 

A ridícula ideia de nunca mais te ver, de Rosa Montero (Todavia, 2019) é um livro estupendo. Já conhecia a autora pelo A Louca da Casamas, mesmo se não conhecesse, ficaria tentada a ler esse livro apenas e justamente pelo título. Não é mesmo ridícula a ideia de nunca mais ver alguém que amamos?

Rosa Montero, que passou pelo luto com a perda de seu marido — se é que a gente pode guardar esse sentimento em uma caixinha e considerá-lo terminado depois de algum tempo, dizendo que passou — percebe, ao ler o breve diário escrito por Marie Curie durante o primeiro ano da perda de seu amado Pierre, que existe uma força estranha que nos reduz ao mesmo nível de dor, de selvageria, e de incompreensão quando o assunto é a morte de alguém com quem compartilhamos a vida.

 

“Sempre, nunca, palavras absolutas que não podemos compreender, sendo como somos: pequenas criaturas presas em nosso breve tempo. Você nunca brincou, na infância, de tentar imaginar a eternidade? O infinito que se desenrola à sua frente como uma vertiginosa e interminável fita azul? A primeira coisa que te derruba no luto: a incapacidade de pensar nele e admiti-lo. A ideia simplesmente não entra na sua cabeça. Como é possível que não esteja mais? Aquela pessoa que ocupava tanto espaço no mundo, onde foi que se meteu? O cérebro não consegue entender que tenha desaparecido para sempre. E que diabos é sempre? É um conceito anti-humano. Quero dizer, que foge à nossa possibilidade de entendimento. Como assim não vou vê-lo nunca mais? Nem hoje, nem amanhã, nem depois, nem daqui a um ano? É uma realidade inconcebível que a mente rejeita: não vou vê-lo nunca mais é uma piada sem graça, uma ideia ridícula.” (p. 23)

 

No trecho acima, Rosa Montero diz tudo o que eu já senti — e ainda sinto — com o luto. É um absurdo perder alguém, e é absurdo porque você nunca vai deixar de sentir essa perda. Geralmente, para quem está de fora, funciona da seguinte forma: acontece um falecimento, prestam-se os pêsames aos familiares e, depois de alguns dias é vida que segue. Mas te garanto e tenho experiência nesse assunto: quando a perda é sua, não funciona assim. A dor não passa, você só se acostuma a viver com ela e a não ter acessos frequentes de fúria (ou choro). Uma parte de você estará ausente pela eternidade do tempo que lhe resta de vida. As pessoas apenas superam a parte mais difícil do luto, seja mudando de casa, fazendo alguma atividade nova, escrevendo um livro ou gravando uma música, enfim, existem mil formas. Mas, ainda assim, é triste perceber que a imagem nítida do rosto daquela pessoa está se perdendo na sua mente, ou que as roupas rapidamente perdem o cheiro ou, ainda, perceber que não se fala com naturalidade de quem já se foi. Fica um buraco, que a gente cada dia precisa contornar.

Mas esse não é um livro exclusivamente sobre a morte, apesar de ser essa a sua essência. Esse é um livro que fala sobre a extraordinária vida de Marie Curie, mas não como uma biografia comum, e sim da forma intertextual, dinâmica e envolvente de Montero, que também dá detalhes de sua própria vida e de sua perda. A autora, que deu sua interpretação pessoal sobre vários dos fatos tratados no livro, mas também apresentou as fontes biográficas consultadas em seu processo de escrita, adicionou, inevitavelmente, alguns volumes a mais em minha lista de leitura. Achei bacana o trecho em que ela menciona outra grande escritora, Carmen Laforet. Adoro livros (e autores) que indicam outros livros!

 

 

A ridícula ideia de nunca mais te ver é uma leitura imperdível. É como ter uma conversa franca sobre a vida, as pessoas e sobre o funcionamento do mundo (leia-se sociedade). Isso, claro, de uma forma que ora faz rir, ora causa comoção. É leve, apesar de tudo. Achei muito interessante, também, as várias fotografias que ilustram os capítulos e as hashtags, tão incorporadas ao nosso dia a dia com as redes sociais, e que Rosa Montero distribuiu ao longo de todo o livro. O fim é angustiantemente belo com o diário de Marie Curie. “Ainda terei coragem para escrever?”, ela se pergunta. Aparentemente, não teve ou não precisou. Devia ter encontrado, naquele momento, seu modo de superar a parte mais difícil.

 

 

 

Título: A ridícula ideia de nunca mais te ver

Autora: Rosa Montero

Tradução: Mariana Sanchez

Editora: Todavia

Páginas: 208

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