outubro 17, 2019

[RESENHA] QUESTÕES FUNDAMENTAIS DA ESCRITA CRIATIVA, DE KÁTIA REGINA SOUZA

Sinopse: “Questões Fundamentais da Escrita Criativa é uma leitura inspiradora para quem já escreve, demonstrando a partir de conversas com autores como Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Rufatto, Valesca de Assis e Carol Bensimon que as dúvidas que nos paralisam ou angustiam são também as de todos os autores, sejam eles iniciantes ou muito experientes. São conversas e profundas reflexões sobre questões tais quais “O que é um texto de qualidade?”, “Como transformar a ideia bruta em história?”, “Como funciona o processo criativo?”, “O que muda de acordo com o público-alvo?”. E, talvez a mais angustiante delas, “Como se manter criativo e evitar bloqueios?”. Entrevistas com os seguintes profissionais de Escrita Criativa: Andrea Siqueira, Caio Riter, Carol Bensimon, Celso Sisto, Edvaldo Pereira Lima, Enéias Tavares, Gabriel Mueller, Gilberto Fonseca, Ismael Caneppele, Jacira Fagundes, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luiz Ruffato, Marcelo Spalding, Márcia Ivana de Lima e Silva, Richard Serraria, Roberta Cirne, Ronald Augusto, Tiago Rech, Valesca de Assis.”

 

“Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca as ideias”. Essa frase do Pablo Neruda sempre me intrigou. Ao mesmo tempo em que a acho linda, mal consigo explicar o pânico que ela me causa enquanto escritora. Porque quem já pelo menos tentou escrever alguma coisa sabe: é muito difícil organizar as ideias e preencher “esse meio do texto”.

Quem pode escrever? O que é um texto de qualidade? Como transformar ideia bruta em história? E quanto à criação de personagens? Qual é a importância da revisão no processo de criação? Quais as principais dificuldades do processo de escrita? Essas são apenas algumas das perguntas que Kátia Regina Souza fez para diversos autores como Luiz Rufatto, Carol Bensimon e Luiz Antonio de Assis Brasil, fazendo um recorte preciso sobre as Questões fundamentais da escrita criativa, livro-reportagem publicado recentemente pela editora Metamorfose.

Kátia Regina Souza é autora também de A fantástica jornada do escritor no Brasil, ideal para quem quer começar a escrever e publicar, mas, dizendo de forma geral, não sabe como ou não conseguiu superar a síndrome do impostore dar os primeiros passos. Já nesse segundo livro, voltado para quem escreve (ou está tentando) a autora abre espaço para o diálogo sobre questões do processo de escrita muitas vezes inacessíveis aos escritores que nunca fizeram um curso de escrita criativa, por exemplo. Para quem teve pouco ou nenhum acesso a detalhes sobre como uma ideia vira texto e como um texto vira um original pronto para ser publicado, aqui vai encontrar detalhes e depoimentos bastante sinceros de quem já tem uma carreira bem sólida na escrita. Com as perguntas certas, Kátia conseguiu sintetizar as experiências de diversos escritores, de vários formatos e gêneros de publicação.

Assim como em A fantástica jornada do escritor no Brasil, Questões fundamentais da escrita criativa não é um manual didático de escrita, não ensina como ser um escritor rico e de sucesso etc. Na verdade, se você gosta mesmo de escrever, sugiro fugir desse tipo livro (ou curso ou qualquer coisa do tipo). Procure técnicas, ouça quem tem mais experiência, mas trabalhe e busque seu próprio caminho. Os livros da Kátia Regina Souza são ótimos e o que eu encontrei de mais direto sobre o ofício da escrita. Destaco dois pontos interessantes que aprendi lendo os livros dela: você é escritor mesmo que não seja um best-seller e ler e aprender, principalmente com gente pé no chão e mais experiente, nunca é demais.

 

“A fantástica jornada do escritor no Brasil” e “Questões fundamentais da escrita criativa”, livros de Kátia Regina Souza (Editora Metamorfose).

 

“Nada resta a dizer além de: trabalhe. Todos os dias, se viável. Pois é isso que você quer, não? Comece com um parágrafo por dia, somente. Encontre tempo ao voltar de ônibus para casa, quando estiver com insônia, no intervalo do emprego ou entre uma troca de fraldas e outra. Compartimentalize: se imaginar o resultado final causa angústia, pense na menor parte possível da história, a palavra. Qualquer idiota sabe anotar palavras em sequência numa folha de papel. Se você for um idiota instruído, que lê muito sobre escrita criativa, mais fácil ainda. Não tenha medo de inícios.

Então… O que continua fazendo aqui? Feche o livro (ou desligue o e-reader) e vá escrever.” (p. 162)

 

 

Questões fundamentais da escrita criativa é uma leitura bem gostosa. É como se estivéssemos na plateia de uma mesa redonda bem informal sobre escrita criativa. Vale a pena ler e ter na estante, para consultar nos momentos de desespero. Escritores vão entender o porquê.

 

 

SOBRE A AUTORA: Kátia Regina Souza é jornalista, revisora, tradutora e, há alguns anos, tenta ser escritora também. Gosta de contar boas histórias, sejam elas ficionais ou não. Portanto, escreve livros-reportagem para adultos e literatura fantástica, usualmente, para crianças. Além de Questões fundamentais da escrita criativa, é autora de O Velho Mundo (2016) e A fantástica jornada do escritor no Brasil (2017). Site: katiareginasouza.com

 

 

 

 

 

 

 

 

Título: Questões fundamentais da escrita criativa

Autora: Kátia Regina Souza

Editora: Metamorfose

Páginas: 176

Compre na Amazon: Questões fundamentais da escrita criativa.

setembro 26, 2019

[RESENHA] A INGÊNUA LIBERTINA, DE COLETTE

Sinopse: “Um verdadeiro tratado sobre a liberdade, o desejo feminino, o casamento e a maternidade, A ingênua libertina foi publicado por Colette em 1909, mas sua leitura em nada nos parece datada ou antiquada. A escritora francesa consegue, com sua protagonista e com uma linguagem lírica e ao mesmo tempo sagaz, fazer um retrato vívido da condição feminina no início do século XX, tantas vezes podada pelas mãos de uma sociedade que exige tudo de mulheres, menos a independência. Nesta que é uma das obras mais espirituosas de Colette, conhecemos Minne, uma menina atrevida e irreverente que sonha em se juntar a um bando de criminosos de Paris e se aventurar pelo mundo ao lado de um grande amor. Mais tarde, já adulta e casada com um primo, mas frustrada com os rumos que sua vida tomou, ela se lança em casos extraconjugais em busca de prazer e descobertas, embora suas escapadas não saiam exatamente como o esperado. Mas, um dia, tudo parece mudar… A ingênua libertina é um romance que traz muito da biografia de sua autora, uma personalidade literária peculiar e virtuosa que desafiou as convenções da sua época e que soube ser original e popular, encantando, assim, a França e o mundo.”

 

É praticamente impossível falar sobre A ingênua libertina (1909), de Colette, sem mencionar o seu primo mais velho, o também francês Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert. Nos dois romances, temos mulheres que anseiam encontrar o êxtase: algo que faça com que elas saiam da rígida estrutura reservada às mulheres burguesas de sua época.

Em A ingênua libertina, no entanto, podemos entender esse êxtase como a satisfação sexual. Minne, a protagonista, tem plena consciência sobre o prazer que os homens conseguem alcançar, o desfalecimento do corpo ao atingir o gozo, a plena satisfação sexual. E ela quer sentir-se assim também, plena. Sexualmente falando.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira, acompanhamos a Minne “moça casadoura”, uma menina extremamente mimada pela mãe, quase um bibelô de porcelana. Ela fantasia uma vida de aventuras ao ler a seção policial do jornal (escondida da mãe, é claro). Já nesta fase percebemos o quanto a beleza ao mesmo tempo pura e enigmática de Minne encanta perdidamente seu primo, Antoine. É citado, inclusive, (repetidamente) os lindos olhos escuros da moça, o que me lembrou outra personagem inesquecível do Realismo — desta vez, brasileiro — Capitu.

 

Veja também: Ela é feita de mulher, simplesmente: Editora Ímã lança A vagabunda, de Colette.

 

Na segunda parte, Minne já está casada. No entanto, parece ainda mais longe de alcançar o êxtase, mesmo acumulando alguns casos extraconjugais. É muito interessante, mesmo nos dias atuais (ou talvez principalmente), ler sobre uma mulher que quer, simplesmente, ter prazer. Minne foi educada para ser uma bela imagem, mas recusa-se a ser estática, mesmo que isso possa lhe causar alguns problemas. Ainda traçando um paralelo à Emma Bovary, Minne é mimada e egoísta, mas não conseguir vê-la como uma personagem odiosa, como a protagonista de Flaubert eventualmente é (na minha leitura da obra). Preciso ressaltar, no entanto, que não estou dizendo que um livro é melhor que o outro. Madame Bovary foi um marco na literatura mundial. Mostrou que uma sociedade de valores adoecidos pode facilmente adoecer uma pessoa. Emma, em que pese alguma antipatia de minha parte, não pode ser condenada pela ingenuidade de querer e buscar a todo custo um amor como o que ela leu nos livros. A trajetória desta personagem é o que faz o livro ser o que ele é: um clássico que merece ser lido por todos (eu quero, inclusive, ler mais uma vez).

Talvez tenha sido um acerto Colette ter eliminado o fator maternidade de seu romance — um dos motivos que justificam certo rancor por Emma Bovary é, justamente, o desprezo que ela tem pela filha, — ou provavelmente o deleite que tive com essa leitura tenha acontecido justamente pelo romance ter sido escrito por uma mulher.

 

“Enquanto fala, ele a despe. Seus beijos, o contato de seu jovem corpo vigoroso e rosado que cheira a renda de seda, o clarão de beleza misteriosa que a visita nesse momento reanimam uma vez mais, no fundo dos olhos sombrios de Minne, a espera do milagre inesperado… Porém, uma vez mais, ele sucumbe só, e Minne, ao contemplá-lo imóvel tão perto de si, mal ressuscitado de uma bem-aventurada morte, decifra no íntimo de si mesma os motivos de um ódio nascente: detesta ferozmente o êxtase dessa criança fogosa, o desmaio que ele não sabe lhe dar: ‘Esse prazer, ele o rouba de mim! É minha, é minha essa fulminação divina que o derruba em cima de mim! Eu a quero! Ou então, que ele deixe de conhecê-la por mim!…’”

 

“Perfeitamente, ela tem amantes! E é seu direito ter amantes. É o direito de toda mulher enganada pela vida.”

 

A ingênua libertina foi uma leitura excitante, nas várias acepções que essa palavra possa abarcar. Comprei o livro há algum tempo, mas iniciei essa leitura logo após assistir ao filme Colette (2018), com a atriz Keira Knightley no papel da escritora francesa. No dia seguinte, já havia terminado a leitura, buscando saber mais e ler mais de Colette, essa autora talentosa e transgressora até para os dias atuais.

 

 

 

Título: A ingênua libertina

Autora: Colette

Tradução: Rachel Jardim

Editora: Nova Fronteira

Páginas: 160

Compre na Amazon: A ingênua libertina

 

Veja o trailer de Colette abaixo:

setembro 24, 2019

[RESENHA] INTÉRPRETE DE MALES, DE JHUMPA LAHIRI

Sinopse: “Celebrando vinte anos de lançamento, Intérprete de males continua mais relevante do que nunca, abarcando todas as consequências possíveis de um mundo globalizado. Jhumpa Lahiri nos toma pela mão e, a cada história, nos apresenta a personagens que se encontram no meio do caminho de um fio condutor identitário: em meio a deslocamentos e realocações, quantas origens e culturas podem habitar uma pessoa?”

 

“Intérprete de males é a prova de que um livro merece uma alegre festa de aniversário não somente por ter testemunhado naquele momento uma condição humana significativa, mas por fazê-lo com sensibilidade, inteligência e arte refinada.” (do prefácio de Domênico Starnone)

 

Esplêndido. É o que foi, para mim, o livro Intérprete de males, de Jhumpa Lahiri (TAG/Biblioteca Azul, setembro-2019). Quem leu, sabe que o adjetivo não foi escolhido por acaso: é o que a centenária Sra. Croft acha sobre o homem ter posto uma bandeira (americana) na lua, retirado do último conto da coletânea, “O terceiro e último continente“.

Interprete de males é esplêndido por vários motivos. Seja pelos os personagens cativantes, trama envolvente ou pelos finais arrebatadores, é um livro de contos — nove, no total — em que todas as histórias são boas por uma ou outra característica. É difícil escolher um conto favorito, ou um personagem mais marcante. Desde a primeira narrativa, somos imersos no peso da intercultura: indianos ou descendentes que estão à margem do pertencimento, entre países completamente distintos, mas dos quais carregam características que formam o que eles são. Interprete de males, ganhador do Pulitzer no ano 2000, é um livro sobre imigrantes, mas não é só isso. É um livro sobre cotidiano, sobre o que nos torna aquilo que somos.

Jhumpa Lahiri é filha de indianos, nascida em Londres, naturalizada americana. Toda essa trajetória, ao meu ver, reflete em muita leveza e em muita verdade nos personagens deste livro. Mesmo nas tramas mais dramáticas, não há exagero. Todos os atos dos personagens e desfechos dos contos são extremamente convincentes. Gosto de imaginar o quanto de autobiográfico tem um livro e Intérprete de males aguça ainda mais esse tipo de curiosidade.

 

“Embora não o visse havia meses, só então senti a ausência do sr. Pirzada. Só então, erguendo meu copo de água em nome dele, foi que entendi como era sentir falta de alguém que estava a tantos quilômetros e horas de distância, assim como ele havia sentido falta da esposa e das filhas durante tantos meses.” (Quando o sr. Pirzada vinha jantar, p. 52)

 

“— Essa palavra: ‘sexy’. O que quer dizer?

(…)

— Quer dizer amar alguém que a gente não conhece.” (Sexy, p. 117)

 

“Sempre que ele desanima, digo que, se eu sobrevivi em três continentes, não há obstáculos que ele não possa superar.” (O terceiro e último continente, p. 207)

 

 

A edição da TAG teve como curadora a escritora Rupi Kaur, indiana radicada no Canadá, autora do maravilhoso Outros jeitos de usar a boca:

“Quando li Interprete de Males eu me senti vista, ouvida, entendida. Eu estava na beira da cadeira lendo cada história porque não tinha ideia do que aconteceria a seguir. Cada história tem uma reviravolta emocional e destruidora. É bem mágico. Jhumpa é maravilhosa em criar histórias lindamente dolorosas que tomam essas reviravoltas da mesma forma como acontece na vida real. Frequentemente estamos em situações em que as nossas mentes definem que os resultados vão ser de uma certa forma, mas raramente isso acontece de verdade. É assim que essas histórias fluem. Sirva uma taça de vinho e absorva cada frase.”

 

 

Kit TAG Curadoria de setembro-2019.

 

Uma coisa interessante na leitura do conto que dá nome ao livro é que ele explica não só a profissão de um dos personagens, mas, de certa forma, explica também o que faz Jhumpa Lahiri para nós leitores, especialmente os que não têm essa vivência de se estabelecer tão longe de sua cultura. Embora diferentes, os contos funcionam muito bem juntos e o título Intérprete de males acaba por traduzir e sintetizar cada um deles.

 

 

 

Título: Intérprete de males

Autora: Jhumpa Lahiri

Tradução: José Rubens Siqueira

Prefácio: Domenico Starnone

Editora: TAG/Biblioteca Azul

Páginas: 208

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