fevereiro 02, 2020

[RESENHA] SE A RUA BEALE FALASSE, DE JAMES BALDWIN

Sinopse: Lançado em 1974, o quinto romance de James Baldwin narra os esforços de Tish para provar a inocência de Fonny, seu noivo, preso injustamente. Livro que inspirou o filme homônimo dirigido por Barry Jenkins, vencedor do Oscar por Moonlight.

Tish tem dezenove anos quando descobre que está grávida de Fonny, de 22. A sólida história de amor dos dois é interrompida bruscamente quando o rapaz é acusado de ter estuprado uma porto-riquenha, embora não haja nenhuma prova que o incrimine. Convicta da honestidade do noivo, Tish mobiliza sua família e advogados na tentativa de libertá-lo da prisão.
Se a rua Beale falasse é um romance comovente que tem o Harlem da década de 1970 como pano de fundo. Ao revelar as incertezas do futuro, a trama joga luz sobre o desespero, a tristeza e a esperança trazidos a reboque de uma sentença anunciada em um país onde a discriminação racial está profundamente arraigada no cotidiano.
Esta edição tem tradução de Jorio Dauster e inclui posfácio de Márcio Macedo.”

 

Tish e Fonny estão prestes a iniciar sua vida como casal. Um feliz e apaixonado casal, com a vida inteira pela frente. No entanto, algo muito grave frusta o sonho dos dois: Fonny, um aspirante a escultor, é acusado injustamente de estuprar uma imigrante porto riquenha, e preso com poucas chances de provar sua inocência. Ele é negro e o sistema de justiça dos Estados Unidos é, além de viciado, extremamente racista. O romance de James Baldwin se passa na década de 1970, mas retrata muito bem a realidade dos nossos dias. Inclusive, não só a realidade dos Estados Unidos, mas a daqui mesmo, do Brasil (basta verificar a nossa população carcerária).

Se a rua Beale Falasse mostra então os esforços de Tish, uma garota grávida de apenas 19 anos, para tirar seu noivo da prisão. O romance é todo narrado por ela, a partir de suas lembranças, e essa escolha narrativa do autor nos presenteia com um livro extremamente delicado, embora trate de um tema tão pesado quanto o racismo e o sistema prisional falho e injusto, que rouba a vida de jovens pobres como se “a luta contra o crime” fosse, na verdade, uma guerra para encarcerar mais e mais negros. Você consegue sentir a angústia do casal e ao mesmo tempo torce para que eles possam retomar seus  doces planos de uma vida comum. O romance foi adaptado para o cinema pelo diretor Barry Jenkins (2019) e caminhou lindamente neste mesmo sentido: nos mostra a dor e o amor pelos olhos de Tish.

 

“A mesma paixão que salvou o Fonny fez com que ele se encrencasse e fosse para a cadeia. Porque, veja bem, ele havia descoberto seu centro, seu próprio centro, dentro dele: e isso era visível. Ele não era o preto de ninguém. E isso é um crime na porra deste país livre. Supõe-se que você seja o preto de alguém. E se você não for o preto de alguém, então você é um preto mau: e foi isso que os policiais decidiram quando o Fonny se mudou para downtown.”

 

“Nós não sabemos o suficiente sobre nós mesmos. Acho que é melhor saber que você não sabe, assim você pode crescer com o mistério enquanto o mistério cresce em você. Mas hoje em dia, é claro, todo mundo sabe tudo, é por isso que tantas pessoas estão perdidas.”

 

Além da história de amor interrompida pela falsa acusação de estupro, há outros temas sensíveis tratados pelo romance de Baldwin: O fanatismo religioso, o racismo entre negros de pele mais clara em relação aos retintos e a depressão masculina. Baldwin mostra as fraquezas de seus personagens quando faz com que eles falem de sua dor, deixando visível os abusos que sofreram, na prisão ou fora dela. O autor derruba muitos estereótipos com essa história, o maior deles, sem dúvida, como apontado no posfácio de Márcio Macedo, é o do homem negro “maníaco sexual”, que violenta mulheres brancas (ou de pele mais clara, como o caso da vítima de estupro, que era latina) porque seria algo de sua índole. Ainda segundo Macedo, “Se a Rua Beale falasse é uma história de amor entre pessoas comuns que tentam manter a serenidade e a esperança em uma sociedade que não oferece quase nenhum reconhecimento social ou igualdade para negros.” É isso!

Se a Rua Beale falasse é perfeito: é romântico, é doloroso. É puro blues. Um livro gigante dentro de suas pouco mais de 200 páginas.

 

“Lembre-se: foi o amor que te trouxe aqui. E se você confiou no amor até agora, não entre em pânico agora. Confie até o fim.”

 

 

 

Título: Se a Rua Beale falasse

Autor: James Baldwin

Tradução: Jorio Dauster

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 224

 

Compre na Amazon: Se a Rua Beale falasse.

 

Veja o trailer legendado de Se a Rua Beale Falasse (2019):

 

janeiro 27, 2020

[RESENHA] ADEUS, GANA, DE TAIYE SELASI

Sinopse: “Adeus, Gana é ao mesmo tempo o retrato de uma família marcada pela separação de seus caminhos e uma viagem pela importância que nossas origens têm na formação de nosso caráter.

Kweku Sai, renomado cirurgião formado nos Estados Unidos e autoexilado em Acra, capital de Gana, está morto. A notícia da morte de Kweku chega aos mais diversos cantos do mundo, aproximando os laços quase perdidos de uma família que ele abandonara anos atrás.

Costurando com maestria uma narrativa entre diferentes tempos e lugares, Taiye Selasi fala de como certas verdades são capazes de curar as feridas mais escondidas, em um romance sobre o poder de transformação que há no amor incondicional.”

 

Alguns laços são doentios, mas o que afinal somos nós, do que somos feitos, senão de um emaranhado de sentimentos herdados de nossos pais (e causados principalmente por eles)? Adeus, Gana, de Taiye Selasi (TAG/Editora Planeta – Janeiro 2020) fala desse tipo de pertencimento (ou encarceramento) de forma muito sublime. É daqueles livros que a gente termina com um nó na garganta, apesar de demorar um pouco para entrar no ritmo da história. O começo um pouco confuso a gente acaba entendendo no final: iniciamos o romance, sua primeira parte, lendo a história de um homem morto; suas lembranças em uma espécie de retrospectiva antes do momento derradeiro.

Adeus, Gana é dividido em três partes: Partido, Partida e Partir. É a história de uma família fragmentada por ações mal pensadas e palavras não ditas. Kweku está morto! A morte deste homem, que outrora abandonou esposa e filhos por não conseguir suportar uma demissão injusta, faz com que todos os que ficaram para trás revivam suas dores e cicatrizes. A família Sai está junta novamente. Para velar o corpo de Kweku, sim, mas principalmente para entender o porquê de serem como são.

O livro mergulha profundamente nas relações familiares, nas relações de amor e abandono, mas também mostra como é ser imigrante — e filho de imigrantes — em um país que despreza a sua cultura de origem. Os brilhantes africanos nos Estados Unidos, mesmo obtendo as notas mais altas na universidade, ocupando cargos de prestígio e tendo sucesso, uma hora ou outra acabam sendo menosprezados ou “colocados em seu devido lugar”. A questão maior, a que mais incomoda, é qual seria este lugar? O não pertencimento é algo latente nas páginas de Adeus, Gana. O racismo e as relações patriarcais também são temas que Selasi descreve com sua forma única — poética — de narrar essa história. Adeus, Gana é um livro de imagens, milhares delas. Um filme que se projeta em nossa mente e também no coração.

 

“Elas faziam e pensavam e amavam e buscavam e doavam. Mas, o mais perigoso, elas sonhavam.

Eram mulheres sonhadoras.

Mulheres muito perigosas.

Que olhavam para o mundo através dos olhos arregalados de sonhadores e o viam não como era, “brutal, sem sentido” etc., mas pior, como poderia ser ou poderia ainda se tornar.

Então, mulheres insasiáveis.

Mulheres impossíveis de agradar.” (p. 67)

 

 

 

Título: Adeus, Gana

Autora: Taiye Selasi

Tradução: Isadora Prospero

Editora: TAG/Planeta de Livros

Páginas: 368

Assista: “Não me pergunte de onde venho, me pergunte onde sou local”TED Talk de Taiye Selasi (com legendas em português):

janeiro 21, 2020

[RESENHA] FRANTUMAGLIA: UM RETRATO ESCRITO DE ELENA FERRANTE

Sinopse: Cartas, entrevistas e trechos inéditos oferecem visão única de uma das maiores escritoras da atualidade.

Elena Ferrante, voz extraordinária que provocou grande comoção na literatura contemporânea, tornou-se um fenômeno mundial. O sucesso de crítica e de público se reflete em artigos publicados em importantes jornais e revistas, como The New York Times, The New Yorker e The Paris Review. Ao longo das últimas duas décadas, o “mistério Ferrante” habita a imprensa e a mente dos leitores, mas, afinal, quem é essa escritora?

Nas páginas de Frantumaglia, a própria Elena Ferrante explica sua escolha de permanecer afastada da mídia, permitindo que seus livros tenham vidas autônomas. Defende que é preciso se proteger não só da lógica do mercado, mas também da espetacularização do autor em prol da literatura, e assim partilha pensamentos e preocupações à medida que suas obras são adaptadas para o cinema e para a TV.

Diante das alegrias e dificuldades da escrita, conta a origem e a importância da frantumaglia para seu processo criativo, termo do dialeto napolitano que sempre ouvira da mãe e, dentre os muitos sentidos, seria uma instável paisagem mental, destroços infinitos que se revelam como a verdadeira e única interioridade do eu; partilha ainda a angústia de criar uma história e descobrir que não é boa o suficiente, e destaca a importância do universo pessoal para o processo criativo. Nas trocas de correspondência, nos bilhetes e nas entrevistas, a autora contempla a relação com a psicanálise, as cidades onde morou, a maternidade, o feminismo e a infância, aspectos fundamentais à produção de suas obras.

Frantumaglia é um autorretrato vibrante e íntimo de uma escritora que incorpora a paixão pela literatura. Em páginas reveladoras, traça, de maneira inédita, os vívidos caminhos percorridos por Elena Ferrante na construção de sua força narrativa.”

 

 

Leia outros textos sobre livros de Elena Ferrante clicando aqui.

 

Frantumaglia foi o primeiro livro que li neste ano, ainda extasiada por ter lido em 2019 todos os romances de Elena Ferrante lançados em português (até o momento). Foi uma boa escolha, ter lido a ficção dela primeiro, pois Frantumaglia retoma e discute vários aspectos desses livros, além de traçar um retrato da autora.

Este foi um dos poucos livros de “autoensaio”, se é que posso nomeá-lo assim de forma geral, que me fez ficar por dias e dias pensando não só em Elena Ferrante e como ela é maravilhosa, mas também no que eu faço ou penso fazer quando digo que escrevo e divulgo literatura. Elena Ferrante, para quem ainda não leu (L E I A  A G O R A  M E S M O), tem esse poder de nos mostrar aquilo que não entendemos sobre nós mesmos. O modo como ela lida com a própria escolha de não aparecer, de ser “o nome que assina os livros e só”, é inspirador quando penso no tempo precioso que passamos nos “divulgando” nas redes sociais. Será que isso é realmente importante? Isso é divulgar literatura? Será que o prazer da leitura não fica perdido no meio desses algoritmos todos que lutamos para entender e desses seguidores que lutamos para conseguir? Mesmo com a fama enorme que a escritora italiana alcançou, ela ainda prefere a paz de poder escrever sempre e de publicar quando o texto lhe parece adequado para isso. Qualquer pessoa que leia Frantumaglia vai entender e respeitar essa escolha de Ferrante de falar através de seus livros, sem ter de ser o escritor-personagem que a nossa sociedade cismou que precisa e exige (e algumas editoras também). A autora, entretanto, deixa bem claro que essa foi uma escolha dela, para ela que tivesse mais liberdade para escrever. Não que esse seja o único caminho possível para se fazer literatura, mas foi o melhor caminho para E L A. Se Ferrante tivesse de dar as caras e mostrar quem é a mulher por traz do pseudônimo (sim, neste livro — e em todos os outros — fica bem claro que Elena Ferrante é uma mulher), ela não publicaria mais nada.

Eu fechei o livro e fiquei pensando como uma senhora lá da Itália pôde falar tanto comigo, me dar conselhos que eu nem sabia que precisava. Cá pra nós, passei muito tempo tentando ser uma “blogueira literária”, daquelas com parcerias com mil editoras e autores, mas eu nem tenho esse perfil. Obviamente não sou contra parcerias, mas não funciona para mim se eu tiver de ler algo que não quero ou tenha um prazo rígido para ler um livro e fazer resenha dele. Nada deve comprometer o meu (o seu, o nosso!) prazer em ler. Eu tenho esse blog e uma estante cheia de livros. Não preciso sofrer por nada além de não ter tempo para ler e reler todos o livros que eu já tenho. [Fim do parágrafo de divagação]

Frantumaglia é um verdadeiro presente para os leitores de Elena Ferrante. Tive pena por todas as entrevistas em que os jornalistas direcionaram as perguntas para a questão da “verdadeira identidade” da autora. Certamente perderam a oportunidade de perguntar algo mais relevante. Gostei de saber sobre as escritoras que ela gosta (e que vou ler), dentre elas a nossa Clarice Lispector. Não sei vocês, mas eu não preciso de uma foto de Elena Ferrante. Eu já sei quem ela é. Ferrante está em seus livros e ainda nos deu uma bela fotografia sua chamada Frantumaglia.

 

“Minha mãe me deixou um vocábulo do seu dialeto que ela usava para dizer como se sentia quando era puxada para um lado e para o outro por impressões contraditórias que a dilaceravam. Dizia que tinha dentro de si uma ‘frantumaglia’. A frantumaglia a deprimia. Às vezes, causava-lhe tonteira, um gosto de ferro na boca. Era a palavra para um mal-estar que não podia ser definido de outra maneira, remetia a um monte de coisas heterogêneas na cabeça, detritos em uma água lamacenta do cérebro. A frantumaglia era misteriosa, causava atos misteriosos, estava na raiz de todos os sofrimentos que não podiam ser atribuídos a uma razão única e evidente. A frantumaglia, quando minha mãe não era mais jovem, a acordava no meio da noite, a induzia a falar sozinha e, depois, a se envegonhar do que fizera, sugeria alguns temas indecifráveis cantados a meia voz e que logo se extinguiam em um suspiro, empunhava-a para fora de casa de repente, abandonando o fogão aceso, o molho queimando na panela. Muitas vezes, também a fazia chorar, e essa palavra ficou na minha mente desde a infância para definir, sobretudo, os choros imprevistos e sem um motivo consciente. Lágrimas de frantumaglia.” (p. 105,106)

 

“O nome Elena Ferrante começa e acaba nas páginas de cada um dos seus livros. Veio com a escrita, ela deu-lhe uma identidade. Pode definir-se? Quem é Elena Ferrante, escritora?

Elena Ferrante? Treze letras, nem mais nem menos. A sua definição está toda contida nelas.” (p. 231 – em resposta à Isabel Lucas)

 

“Os autores, como tal, moram em seus livros. Ali se mostram com a máxima vontade. E os bons leitores sempre souberam disso.” (p. 353)

 

 

 

Título: Frantumaglia: Os caminhos de uma escritora

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Marcello Lino

Editora: Intrínseca

Páginas: 416

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