dezembro 14, 2018

[RESENHA] ADULTA SIM, MADURA NEM SEMPRE: FRALDAS, BOLETOS E POUCO COLÁGENO, DE CAMILA FREMDER

Sinopse: A vida adulta chega de uma hora para outra e nem sempre estamos preparados para ela. E tudo bem.

Um dia você é a jovem moderna que ouve música alta e incomoda a vizinha. Num piscar de olhos é você quem está interfonando para o porteiro e reclamando, aos berros, do som da garota que mora no andar de cima. O que aconteceu? Simples: a vida adulta chegou. Quer dizer, não tem nada de simples.
Como Camila Fremder mostra neste seu novo livro, a vida adulta costuma chegar de uma hora para outra, sem avisar, sem um curso preparatório, sem nada. Ou pelo menos é assim que a gente se sente. E a consequência disso é muito estranhamento, reflexões e boas risadas.
Saem de cena as noites agitadas e os dias sem grandes preocupações, sendo substituídos por fraldas (no caso de quem tem filho), boletos e muita paranoia com a aparência. Com observações perspicazes e bom humor, Camila nos ajuda a entender e aceitar melhor essa transição. Um livro que você não vai conseguir largar. A menos que o bebê acorde ou esteja na hora de você correr para o batente.”

 

É muito estranho, mas terminei esse livro com a sensação que a Camila Fremder espiou os últimos anos da minha vida pela fresta da porta e só mudou um detalhe ou outro para compor Adulta sim, madura nem sempre: fraldas, boletos e pouco colágeno (Paralela, 2018). Não é possível que as mulheres adultas, sobretudo as com filhos, sejam tão iguais. Ou seria?

Sou muito fã do livro Como ter uma vida normal sendo louca (Agir, 2013) e neste livro solo Camila Fremder também conseguiu me arrancar boas risadas, além de me deixar pasma com o quanto temos em comum (me adiciona no zap, Camila?). Só não li o livro em uma única sentada porque precisei parar na hora do meu almoço: recebi um alerta das lojas americanas, as fraldas e os lenços umedecidos estavam em promoção! Quem é mãe sabe que promoção de fralda é uma notícia tão boa quanto ouvir que o salário caiu na conta. Neste caso, o salário conta como um aviso que você já pode ir até as lojas americanas para comprar fraldas e lenços umedecidos.

As mães de primeira viagem com filhos ainda pequenos e as gestantes vão se identificar muito com esse livro (como eu queria ter lido esse livro quando estava grávida da Olívia!), mas ele também pode ser uma ótima pedida para as mulheres que ainda não têm filhos (mas planejam no futuro), ou para as tias que em breve ganharão um sobrinho, ou ainda se você tem uma grande amiga que vai ser mamãe. Até se você não for nada disso, mas queira rir um pouco e saber como é a vida do lado de cá. Adulta sim, madura nem sempre é um livro super divertido, muito na pegada “maternidade real” e “vida real”, pois a vida adulta é mesmo cheia de medos, inseguranças, frustrações, mas é só respirar fundo e repetir “vai ficar tudo bem”, que os batimentos cardíacos logo voltam ao normal (dica da Camila).

 

“Porque ser adulto, no final das contas, é descobrir novos medos e enfrentá-los todos os dias.”

 

“Hoje já visto looks mais elaborados, mas sempre fazendo composições que são a cara da mãe moderna, como uma mancha de papaia no canto da gola alta, ou um resto de queijo branco estrategicamente grudado na alça da bolsa, onde fica evidente também a tampa da mamadeira para fora. E, para dar textura aos cabelos, nada como uma sopa de mandioquinha com espinafre. É incrível como a moda me acompanha em todos os momentos da vida.”

 

Deixando aqui o meu depoimento, porque mãe adora falar sobre a sua cria e eu não sou diferente de jeito nenhum, no trabalho eu sempre demoro algum tempo para perceber que estou com a roupa suja, por mais que eu faça tudo-o-que-tem-de-ser-feito para arrumar a Olívia para ir para a casa da avó dela ANTES de me vestir para o trabalho. De vez em quando o meu colega, meio sem jeito, fala “Tamires, tem uma coisa aí na sua blusa…”. E sabe de uma coisa, eu acho graça toda vez. É a vida que eu escolhi para mim e todo mundo — que tem filhos crescidos — diz para eu aproveitar bastante, porque essa fase é ótima.

Falando em fase ótima, ainda não stalkeei, mas acho que o filho da Camila é mais novo que a minha filha Olívia. Sabe por que eu sei? Se o Arthur tivesse a idade da Olívia, esse livro teria pelo menos um capítulo sobre desenhos e séries infantis e como essa programação torna-se mais presente na nossa vida que as produções para adultos. Um belo dia o seu filho está dormindo e você ainda está assistindo — com atenção — a algum episódio do Show da Luna (aprendo muita coisa com a Luna, não tenho vergonha em admitir). Em outro, o seu marido te chama para ver aquele episódio em que a Peppa Pig vai até o Palácio de Buckingham conhecer a Rainha Elizabeth, tentando não te dar spoilers porque ele já viu.

Mas isso tudo melhora, aos poucos a programação vai ficando mais diversa. Um dia eu estava vendo um pedacinho de Cinquenta tons de liberdade com a Olívia (por favor, leiam até o final e não chamem o Conselho Tutelar), só o comecinho, de curiosidade, e ela falou “olha o papai e a mamãe de moto na praia”. Fiquei toda inchada, porque se o Christian e Anastasia Gray são como o papai e a mamãe, ela nos tem em altíssima conta! Para que todos fiquem tranquilos, na primeira vez em que o casal ficou sozinho no quarto (eles estavam em lua de mel, como se precisassem de motivo para transar… quem leu os livros sabe do que estou falando) eu mudei de canal, porque com criança a gente tem que ter muito cuidado com o que assiste e com o que fala. Eles ouvem e repetem mesmo se você disser “merda” lá da cozinha e eles estiverem no quarto, vai por mim.

Voltando ao livro, Adulta sim, madura nem sempre: fraldas, boletos e pouco colágeno, é uma ótima leitura, com texto leve, divertido, capítulos curtos e viciantes, tudo de bom! Aproveita e compra logo dois, pois esse é um livro ótimo também para presentear!

 

 

 

Título: Adulta sim, madura nem sempre: fraldas, boletos e pouco colágeno

Autora: Camila Fremder

Editora: Paralela

Páginas: 144 (e-book)

Compre na Amazon: Adulta sim, madura nem sempre: fraldas, boletos e pouco colágeno.

dezembro 11, 2018

[RESENHA] NADA, DE CARMEN LAFORET

Sinopse: “Nada é um romance inesquecível. Escrito em 1944, quando a autora tinha apenas vinte e três anos, e vencedor da primeira edição do prêmio Nadal, é considerado uma das obras espanholas mais importantes do século XX. Sefundo Mario Vargas Llosa, é um romance composto com maestria, e, para o New York Times, ainda hoje ‘o charme peculiar do livro continua inalterado’.

A história é narrada por Andrea, uma jovem órfã que se muda para a casa da avó, em Barcelona, para cursar Letras na universidade local. Mas o cenário que encontra, logo depois da Guerra Civil Espanhola, é desolador. Os familiares, empobrecidos, amontoam-se em um casarão decadente, onde discutem ferozmente pelos motivos mais mesquinhos. E a vida universitária esconde segredos e falsas amizades. Em Nada, esses dois mundos convergem em um diálogo dramático, num texto que renovou a literatura espanhola pós-guerra.”

 

Nada, de Carmen Laforet, é um livro que fica ecoando na mente da gente por vários dias depois que fechamos a última página. Foi uma leitura tão peculiar, que no final eu não consegui saber com certeza se o livro era bom o ruim. Apenas que a temporada na Rua Aribau me marcaria para a vida inteira.

Andrea é uma jovem e humilde órfã que está de mudança para Barcelona para estudar Letras, por volta dos anos de 1940 (pós Guerra Civil Espanhola). Seria o começo de uma nova vida, na casa de sua avó, lugar de onde ela guarda boas lembranças. Todas as expectativas sobre seu novo lar, no entanto, são quebradas quando ela chega ao casarão situado na Rua Aribau: sua família está longe de ser composta por pessoas normais, o lugar é sujo e sombrio e de imediato ela percebe que não terá uma vida fácil naquele lugar. A única pessoa mais amigável da casa é a sua avó, mas Andrea não consegue estabelecer uma relação muito próxima a ela.

O romance é dividido em três partes. Na primeira, o foco é a relação de Andrea com sua tia Angústias, uma beata solteirona disposta a cuidar da sobrinha com rédeas curtas no que tange a moral e os bons costumes. Já na segunda, temos a amizade de Andrea e Ena, uma amiga de família abastada da faculdade, como plano principal. E na terceira parte, temos uma Andrea quase sendo parte das loucuras da casa da Rua Aribau, tendo completado um ano morando naquele lugar.

 

Livro “Nada”, de Carmen Laforet, Revista TAG Curadoria Novembro-2018 e Coletânea de Poesias “Rua Aribau”, organizada por Alice Sant’Ana.

 

Andrea é uma personagem muito real. Não é boa, mas também não consigo vê-la como uma pessoa ruim. Ela é como um passarinho que mesmo depois de ter a porta de sua gaiola aberta, não tem recursos suficientes para alçar voo. Em meio à loucura de seus tios e a senilidade de sua avó, ela é firme na certeza de não fazer parte daquilo, de ser lúcida e maior que aquelas pessoas que, na verdade, são apenas um reflexo em alta resolução dela própria.

A pobreza e a fome são personagens importantes neste romance, de uma forma bastante tangível, especialmente na família de Andrea. A protagonista, que recebe uma modesta pensão, decide não ajudar nas despesas da casa — portanto fica impedida de fazer suas refeições nela — mas gasta todo o dinheiro em três dias, comendo em lugares caros e, eventualmente, presenteando com flores a mãe de sua amiga Ena. Nos outros dias, Andrea sofre com uma fome angustiante, aliviada pelas refeições feitas em visitas à Ena, e pelos restos deixados por sua avó.

“Ela me fez sentir tudo o que eu não era: rica e feliz. E nunca me esqueci disso.” (p. 71)

 

“O fato é que eu me sentia mais feliz desde que me desvencilhara daquele nó das refeições familiares. Pouco importava que naquele mês eu tivesse gastado demais e o orçamento de uma peseta diária mal desse para comer: no inverno, o meio-dia é a hora mais bonita. A melhor hora para tomar sol num parque ou na praça de Catalunha. Às vezes pensava, com prazer, no que estaria acontecendo em casa. Meus ouvidos se enchiam dos gritos do papagaio e dos palavrões de Juan. Preferia flanar livremente.” (ps. 121 e 122)

 

 

Nada foi lançado em 1944 e logo recebeu o prêmio Nadal. É uma das obras mais traduzidas em língua espanhola e ganhou uma edição especial para a TAG Curadoria, sob indicação da escritora Alice Sant’Ana. A autora tinha apenas 23 anos quando concluiu esse livro, mas não teve uma produção literária muito grande apesar do estrondoso sucesso de seu romance de estreia. Carmen Laforet, pelo que consta na Revista TAG Curadoria (Novembro, 2018), vinha de um ambiente familiar tóxico e era de uma constituição psicológica frágil. Somado a isso, era extremamente insegura e autocrítica, características reforçada e alimentada por seus familiares.

“Ao vencer a primeira edição do Prêmio Nadal com ‘Nada’, Laforet ganhou a atenção do país inteiro. O sucesso, no entanto, teve um custo muito alto: sua família paterna reconheceu-se nos personagens do livro e não perdoou a exposição de suas intimidades. Seu marido, o jornalista e crítico literário Manuel Cerezales, com quem se casou em 1946, também se manteve vigilante à produção da escritora, provocando um bloqueio criativo e uma crescente insegurança e autocensura.” (Revista TAG Curadoria — Novembro, 2018 — p. 15)

 

Nada é um romance limpo, cru e ao mesmo tempo de muita sensibilidade. Depois de conhecer um pouco sobre a autora, fiquei ainda mais apegada a este livro, como se eu também tivesse uma casa da Rua Aribau a qual guardo lembranças que talvez nunca tenham existido. Aquelas pessoas, empobrecidas e enlouquecidas pela Guerra Civil guardam muito de nós mesmos, das nossas angústias, decepções e amarguras. Foi uma leitura inesquecível e o mimo do mês de novembro é o que eu mais gosto de ganhar na TAG: um segundo livro, porque livro nunca é demais! Alice Sant’Ana organizou uma coletânea de poesias chamada Rua Aribau, composta por quinze poemas e ilustrações de escritoras e artistas contemporâneas. Os versos falam sobre adaptação, viagem, decadência, solidão e inadequação. Porque a Rua Aribau também é aqui. Em qualquer lugar.

 

 

 

Título: Nada

Autora: Carmen Laforet

Tradução: Rubia Prates Goldoni

Prefácio: Mario Vargas Llosa

Editora: TAG em parceria com Alfaguara

Páginas: 280

 

Ficou interessado na TAG Experiências Literárias? Faço parte do clube curadoria, mas você pode clicar aqui e conhecer melhor as duas caixinhas, curadoria e inéditos, e ver qual se adéqua ao seu gosto e estilo!

dezembro 06, 2018

[RESENHA] A CASA DA ALEGRIA, DE EDITH WHARTON

Sinopse: “Lily Bart, a personagem principal de A Casa da Alegria, é uma mulher bonita, refinada e inteligente que vive em Nova Iorque no início do século XX e sofre as consequências da falência financeira da família. Órfã de pai e mãe ela vai morar de favor com uma tia de padrões morais rígidos. A única saída para as dificuldades de Lily é encontrar um bom casamento, pois já começam a correr boatos de que ela está passando da idade de se casar. A linda, espirituosa e sofisticada moça vive uma vida de luxo e facilidade e se conduz como se tivesse direito a tal existência, apesar de ser incapaz de pagar por ela: uma jovem muito pobre com gostos muito caros, ela precisa de um marido rico para preservar sua posição social e garantir um futuro palatável. Mas ela recusa-se a casar sem amor e tenta impor sua independência na conservadora sociedade nova-iorquina.”

 

“Para que vivemos, senão para fazer graça para os nossos vizinhos, e para rirmos deles quando for a nossa vez?” (Jane Austen, Orgulho e Preconceito)

 

A Casa da Alegria, romance de Edith Wharton publicado originalmente em 1905, conta história de Lily Bart em sua tentativa de se manter entre a alta sociedade nova-iorquina do início do século XX, embora já não tenha recursos financeiros para isso. Ela é uma jovem linda e muito bem educada, mas sua renda é composta apenas por uma modesta pensão deixada por seus pais e a caridade de uma tia levemente avarenta que a acolhe em seu lar.

O Livro da Literatura, almanaque fundamental para quem quer se inteirar sobre as principais obras do cânone da literatura mundial, coloca A Casa da Alegria como um sucessor temático de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen; Jane Eyre, de Charlotte Brontë; e de A Feira das Vaidades, de William Makepeace Thackeray; tendo como foco o romance de costumes, todos eles precedidos por Pamela, de Samuel Richardson (este último com publicação em português pela Pedrazul Editora). Em A Casa da Alegria, diferente de Austen ou Charlotte Brontë, por exemplo, em que o nosso foco acaba sendo desviado para os mocinhos e a história de amor entre os protagonistas, desde o começo temos plena consciência que o tema principal é o malabarismo de Lily Bart para continuar usufruindo dos prazeres do luxo e do divertimento que a alta sociedade usufrui e das consequências que cada um de seus atos pode acarretar em sua vida, ou melhor, em sua honra.

Lily Bart é um bibelô entre os ricos, por essa razão é sempre convidada para festas, retiros no campo, viagens internacionais etc. Apesar de oficialmente viver com a tia, a viúva sovina Mrs. Peniston, a “agenda” de Lily é tão cheia de eventos sociais que ela vive passando temporadas nas casas de um ou outro casal de amigos, como uma folha desgarrada da árvore que vai para aonde o vento soprar. Obviamente, isso tudo tem um preço para Miss Bart: apesar de não pagar pela hospitalidade ou pelas viagens, ela precisa estar sempre muito bem apresentável. E esse custo de beleza já não cabe em seu módico orçamento.

Lily sabe que precisa se casar o quanto antes, mas ela precisa analisar as opções, pois não poderia se casar com qualquer um. O desejável seria casar-se com um homem rico, mas Miss Bart não conseguiria confiar a sua felicidade facilmente a alguém por quem não estivesse, no mínimo, apaixonada (ou o inverso, por uma questão também de poder). Fica muito claro desde o começo da história que ela quer ter dinheiro, mas também quer ser feliz, quer sentir o coração palpitar, quer admirar o parceiro com o qual ela dividirá sua vida…

 

“Ah, tem uma diferença… uma garota é obrigada a se casar, já um homem pode escolher – e o encarou com um olhar crítico. – Se o seu paletó estiver um pouco velhinho, quem se importará? Isto não impedirá as pessoas de convidá-lo para jantar. Já se eu andasse malvestida ninguém iria me convidar para nada: uma mulher é convidada mais pelas suas roupas do que por ela mesma. As roupas são o cenário, a moldura, se assim preferir. Elas não garantem o sucesso, mas fazem parte. Quem quer ver uma mulher maltrapilha? É esperado que sejamos bonitas e bem-vestidas até o fim, e se não conseguimos manter tudo isso sozinha, precisamos sair em busca de um parceiro.”

 

“Na verdade não queria se casar com um homem que fosse rico apenas; no fundo ela tinha vergonha da paixão da sua mãe pelo dinheiro. Lily gostaria de se casar com um nobre inglês com ambições políticas e vastas propriedades; ou, como segunda opção, um príncipe italiano com um castelo nos montes Apeninos e um posto hereditário no Vaticano. Causas perdidas tinham um charme romântico e ela gostava de se imaginar alheia à imprensa vulgar do Quirinal, sacrificando seus prazeres em nome de uma tradição de longa data…”

 

“Dúzias de meninas bonitas e jovens tinham se casado e ela com vinte e nove anos ainda era Miss Bart. Ela estava começando a se revoltar com o destino, quando pensou em abandonar a corrida e conquistar uma vida independente. Mas que tipo de vida seria? Ela mal tinha dinheiro para pagar a conta da modista e suas dívidas de jogo e nenhum dos interesses aleatórios que ela classificava como “preferências” parecia promissor o bastante para ela viver bem na obscuridade. Ela sabia que odiava a pobreza tanto quanto sua mãe, e por conta disso pretendia lutar até o seu último suspiro contra isso, emergindo repetidas vezes acima desta maré até alcançar o ápice do sucesso que se apresentava na forma de uma superfície difícil de ser alcançada.”

 

Um tema bastante delicado tratado no romance é o de que uma mulher não pode tudo. A Casa da Alegria, segundo O Livro da Literatura, é um romance sobre as restrições econômicas e morais impostas às mulheres. Miss Bart erra (e paga caro por isso) muitas vezes ao pensar que certas atitudes bobas, como viajar sozinha em companhia de um homem, ou ser vista na companhia de um deles em horário impróprio, ou ainda pedir dicas de aplicações financeiras, podem não ser algo tão grave a ponto de por a sua reputação em risco. Ela tem a ilusão de que pode tratar de negócios com um homem sem oferecer nada em troca, como uma igual. A literatura e, principalmente, a história, mostram como sempre foi difícil para uma mulher ser tratada como igual pelo sexo oposto. Em A Casa da Alegria, além das armadilhas do sexo masculino, temos também amizades femininas bastante traiçoeiras, que não hesitam em puxar o tapete de uma querida amiga para se manterem afastadas de escândalos ou não serem protagonistas de um. Lily Bart percebe o quanto é cansativo o malabarismo para viver essa vida de luxo, mas ao mesmo tempo ela é sugada para isso, pois foi moldada desde a infância para valorizar o prazer sem esforço, o prazer pelo simples fato de ser Lily Bart, uma pessoa que deixa por onde passa um rastro de encantamento e inveja.

Lily teve seus pretendentes, mas nenhum deles fez seu coração pulsar como Lawrence Selden, um advogado que flutua bem na alta roda, mas não tem uma fortuna suficiente para encher os olhos da jovem. Neste ponto, ela lembra bastante Lady Mary Crawley, de Downton Abbey, quando havia uma possibilidade remota de Matthew não ser o herdeiro do condado (a Condessa estava grávida) e ela tinha dúvidas em se comprometer definitivamente casando-se com um simples advogado, embora estivesse perdidamente apaixonada por ele.

 

“Ela era como uma roseira rara cultivada para ser exposta, uma planta da qual cada botão tinha sido extirpado, exceto a flor principal da sua beleza.”

 

Lily Bart é uma personagem para amar e odiar, não necessariamente nessa ordem, mas talvez com a mesma intensidade. Sabe aquelas personagens que você tem vontade de chamar para uma conversa e dizer: “Meu Deus, fulana, não faz isso! Não tá vendo que você vai quebrar a cara?”. A jovem Lily é uma dessas! A Casa da Alegria é um romance para devorar e se surpreender, uma crítica social ácida com um texto de uma crueza impensável na época de Jane Austen, mas carregado com a ironia característica dela que é uma das mais adoradas dentre os ilustres predecessores de Edith Wharton.

 

 

 

Título: A Casa da Alegria

Autora: Edith Wharton

Tradução: Silvia M. C. Rezende

Editora: Pedrazul

Páginas: 300

Compre no site da Editora Pedrazul (pré-venda): A Casa da Alegria.

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