novembro 25, 2019

[RESENHA] A VAGABUNDA, DE COLETTE

Sinopse: “Nesta história em que Colette mistura sua vida com a da protagonista, uma mulher acaba de se divorciar de um homem que a traía e que roubou os direitos de livros de sucesso que ela havia escrito. Sem dinheiro e rejeitada pela sociedade, ela ganha a vida nos palcos do bas-fond parisiense. É quando um “pretendente” apaixonado lhe oferece amor e luxo, com a condição que ela abandone a carreira de artista, a vida de vagabunda.”

“Um dos primeiros e melhores romances feministas de todos os tempos é uma joia rara: um grande livro que é também inspirador”
ERICA JONG

 

Leia também: A ingênuna libertina, de Colette

 

O amor nunca vem sozinho. Amar requer mais que apenas o sentimento que nos deixa de pernas bambas, coração disparado e cérebro ligeiramente ineficiente. Para as mulheres, especialmente as das primeiras décadas do século XX, essa “carga extra” do amor vinha na forma de obrigações quase sempre limitadoras: uma espécie de maternidade ampliada (a criação dos filhos e o “cuidar do marido”) além é claro, dos afazeres domésticos.

Em muitos lares do século XXI essa realidade ainda persiste. A vagabunda (Ímã Editorial, 2019), de Colette, é então um livro muito atual quando pensamos em nossas mães, tias, avós e, porque não, em nós mesmas. Em um primeiro momento, pode parecer que o grande mote do livro é “o medo de amar”. Mas logo fica claro que, quando uma mulher experimenta um relacionamento ruim, ela passa a temer não só pelo “seu coração”, mas também por sua liberdade.

A vagabunda, — uma atriz de teatro, na verdade —, é Renée, uma mulher que amargou um casamento repleto de traições e roubo de propriedade intelectual. Ela resolve sair deste relacionamento ignorando, corajosamente, a posição social que ocupava e passa a viver do próprio sustento, com uma vida muito mais modesta. No entanto, tinha, enfim, liberdade para ser o que quisesse, onde e quando quisesse. Tudo começa a mudar quando um homem rico, Max, se apaixona por ela e deseja tê-la para si como esposa, como manda o figurino das pessoas respeitáveis.

A vagabunda é quase um relato autobiográfico. Narrado em primeira pessoa, é o primeiro livro escrito por Colette após o divórcio de seu marido, que usurpava e assinava como sendo de autoria dele os famosos livros da coleção Claudine. Para quem já assistiu ao filme Colette (2018) muitas situações retratadas neste livro vão ser familiares, a começar pelas primeiras linhas: uma das últimas cenas do filme mostra Colette, interpretada pela atriz Keira Knightley, escrevendo A vagabunda, enquanto aguardava o seu momento de entrar no palco.

 

A escritora francesa Sidonie-Gabrielle Colette.

 

 

“ ‘Ela morre de tristeza… ela morreu de desgosto…’

Quando ouvir tais clichês, balance a cabeça, mas não por piedade: por ceticismo. Mulher nenhuma pode morrer de desgosto. É um animal tão firme, tão duro de matar! Acha que o sofrimento a consome? Nada. Na maioria das vezes, mesmo que nasça frágil e doentia, ela ganha nervos infatigáveis, um orgulho que não se dobra, uma capacidade de aguardar, de dissimular, que a engrandece, e um desdém por aqueles que são felizes. No sofrimento e na dissimulação ela se exercita e torna-se flexível, como em uma arriscada ginástica diária… Porque ela esbarra constantemente na mais pungente, na mais suave, na mais atraente das tentações: a de vingar-se.

Pode acontecer dela chegar — se fraca demais ou se amar demais — a matar… Ela assim pode oferecer ao assombro do mundo inteiro o exemplo dessa desconcertante resistência feminina. Ela fatigará os juízes, os submeterá à provação de intermináveis audiências, os deixará exangues, como as raposas fazem com os cães de caça inexperientes. Tenham certeza que uma longa paciência, formada por mágoas sofregamente guardadas, afinou e endureceu essa mulher de quem se diz:

— Ela é feita de aço!

Ela é feita de mulher, simplesmente. E é o que basta.” (p. 39)

 

“América do Sul! Essas três palavras provocaram em mim um deslumbramento de analfabeta, que só imagina o Novo Mundo através de uma cascata de estrelas cadentes, de flores gigantes, de pedras preciosas e de beija-flores… Brasil, Argentina… que nomes refulgentes! Margot me contou que foi levada para lá, ainda bem criança, e meu desejo maravilhado se colocou à pueril pintura que ela me fez de uma aranha com ventre prateado e de uma árvore coberta de vagalumes…

Brasil, Argentina, mas… e Max?” (p. 255)

 

 

A vagabunda foi o segundo livro que li de Colette e a sensação de “isso sim faz sentido” foi a mesma de quando li A ingênua libertina. Vou percebendo, a cada leitura de livros escritos por mulheres, o quanto campanhas como #leiamulheres são necessárias. A experiência de ler Colette, tendo lido outros autores (homens) do realismo francês é muito enriquecedora. Esqueça os castigos, divinos ou não, destinados às “mulheres ímpias” daquele tempo. Em Colette, para citar apenas e especificamente esta autora, eu li e senti uma verdade tão grande nas páginas que outros autores (homens falando de mulheres e sentimentos femininos) jamais conseguiram (ou vão conseguir) reproduzir com tanta fidelidade. É questão de vestir a mesma pele, sem idealismo exacerbado.

A vagabunda é um ótimo livro, Colette foi mestre nas descrições floreadas na medida certa e com uma narrativa que surpreende positivamente no final (pelo menos na minha humilde opinião!). A edição da Ímã Editorial, integrante da Coleção Meia Azul, tem posfácio de Débora Thomé e Carla Branco, que enriquecem a leitura, contextualizando-a. Recomendo!

 

 

 

Título: A vagabunda

Autora: Colette

Tradução: Julio Silveira

Editora: Ímã Editorial

Páginas: 284

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novembro 21, 2019

[RESENHA] LIVRE PARA VOAR: A JORNADA DE UM PAI E A LUTA PELA IGUALDADE, DE ZIAUDDIN YOUSAFZAI

Sinopse: Neste relato comovente sobre amor, paternidade e luta por direitos, Ziauddin Yousafzai, o pai da Malala, rememora sua história e sua longa batalha para que meninos e meninas tenham as mesmas oportunidades. Um livro para todos aqueles que desejam criar seus filhos num mundo mais justo e igualitário.

Ziauddin Yousafzai tem motivos de sobra para ser um pai orgulhoso: Malala sobreviveu a um atentado do Talibã, ingressou na prestigiosa Universidade de Oxford e se tornou a mais jovem vencedora do prêmio Nobel da paz e uma das principais vozes da luta pelos direitos das mulheres.
O que ele fez para criar uma menina tão extraordinária? A resposta é mais trivial do que se imagina: educou-a com amor, incentivo e gentileza ― e sobretudo com a convicção de que sua filha era digna das mesmas oportunidades que os meninos recebem.
Livre para voar é o relato inspirador de um menino gago que cresceu em uma pequena vila no Paquistão e se tornou um dos grandes ativistas pela igualdade de gênero. Exemplo para os pais que querem que seus filhos façam a diferença, Ziauddin mostra como o respeito e a educação são capazes de criar um mundo melhor para todas as crianças.”

 

Leia também: Eu sou Malala

Quando eu li Eu sou Malala, de Malala Yousafzai (Companhia das Letras, 2013), fiquei com a amarga impressão de que todos os males que a jovem ganhadora do Nobel da Paz sofreu, incluindo um atentado que quase lhe tirou a vida em 2012, era culpa da religião islâmica. Cheguei a estranhar o fato de que ela não perdeu a religiosidade, apesar de tudo. Pensei que ela devia “se livrar daquilo”, mas em sua narrativa e ações pelo mundo, Malala se manteve firme aos seus princípios. Apesar das restrições de sua cultura, apesar do extremismo do talibã.

Anos depois, no entanto, observo com mais respeito a crença de Malala. Não posso julgar a religiosidade desta menina com a minha visão ocidentalizada e que pouco conhece o islamismo. Não posso julgá-la nem mesmo em comparação a minha própria concepção de religiosidade. Mas consigo entender e admirar a jornada dessa jovem ativista pela educação que com seu pai, Ziauddin Yousafzai, ousou sonhar e lutar para que não só ela tivesse acesso à educação, mas todas as meninas pudessem ser reconhecidas e respeitadas da mesma forma que os meninos sempre foram.

Malala fala muito sobre a vida do pai em seu livro, mas em Livre para voar conhecemos um pouco mais de Ziauddin nas palavras do próprio, com a colaboração da jornalista e escritora Louise Carpenter. E se antes eu já o admirava, agora fiquei ainda mais fã de Ziauddin e quero seguir, de alguma maneira, os seus passos! Livre para voar é um livro extremamente necessário, um relato honesto de um pai que teve e têm dificuldades como todos os pais e cuidadores, mas sempre procura o caminho da compreensão e do amor para lidar com sua família.

Ziauddin percebeu desde bem jovem que as mulheres em sua cultura eram muito menosprezadas, tratadas como uma espécie de sub-criaturas que não mereciam nem registro de seus nascimentos, tamanho o infortúnio para uma família ter mais mulheres que homens, por exemplo. A própria mãe de Malala, Toor Pekai, não teve um registro formal de seu nascimento, portanto eles não podem ter certeza da idade correta que ela tem. Os pais de Malala cresceram em uma sociedade em que mulheres não podiam sequer olhar nos olhos dos homens, ou sair desacompanhadas, ou ainda comer bons pedaços de carne (os melhores eram destinados aos homens ou meninos, se houvessem), nem serem servidas. Cruel ou injusta (ou as duas coisas), era essa a sociedade em que eles cresceram. Mas Ziauddin, antes mesmo de se casar, sabia que seria diferente. Ele QUERIA ser diferente. Essa foi a chave que inspirou, inclusive, outros homens de sua própria família e continua inspirando várias pessoas mundo afora.

 

“Venho de um país onde fui servido por mulheres durante a vida inteira. Venho de uma família em que meu gênero me fazia especial. Mas eu não queria ser especial por essa razão.”

 

“Quando se defende uma mudança, essa mudança vem.”

 

“Quando penso nos feitos de Malala, penso também nas outras mulheres de minha vida a quem amei, mulheres como minha prima e minhas irmãs, que não pude proteger da crueldade e da injustiça da sociedade. Tive de presenciar a injustiça em suas vidas para prometer que minha família seguiria outro caminho. Essas outras mulheres, tias, primas de segundo grau e avós de Malala, passaram a vida sonhando os sonhos de outras pessoas e obedecendo aos desejos de outras pessoas. Penso em todo o potencial que traziam dentro de si. Mas esse potencial ficou inexplorado, subestimado, desconhecido. Ninguém queria acreditar nele.”

 

“Realmente acredito que as normas sociais são grilhões que nos escravizam. Acostumamo-nos a essa escravidão e então, quando rompemos os grilhões, a primeira sensação de liberdade pode assustar, mas, quando começamos a senti-la, percebemos na alma como é gratificante.”

 

Livre para voar é uma leitura rápida, que retoma e recorda alguns fatos sobre a família Yousafzai e seu ativismo pela educação. Desta forma, pode ser lido facilmente por aqueles que não leram Eu sou Malala (recomendo que o façam, pois também é ótimo). O título faz alusão ao que Ziauddin diz ter feito em como pai, em sua família: quebrar a tesoura. Ele diz que as meninas são como os pássaros que têm as asas cortadas tão rentes à carne que fica impossível o simples ato de voar. Tão impossível que os pássaros nesta condição logo desistem, pois “entendem” que não são capazes. Ele não queria isso para a sua filha, então “quebrou a tesoura”. Malala, assim como os irmãos, seriam livres para voar.

Um dos pontos mais interessantes desta leitura foi Ziauddin falando sobre feminismo. Hoje ele reconhece que é um ativista também pelo feminismo, essa palavra que ele conheceu apenas recentemente, mas que já estava, de certa forma, entranhada em sua luta pela educação das meninas. No entanto, esse é um assunto que a família Yousafzai não discute repetidamente em casa, não há nenhum tipo de doutrinação. Ele não diz que os meninos precisam respeitar Malala, ou que precisam agir desta ou de outra forma com a mãe deles. O feminismo da família Yousafzai está nas ações. É prática do dia a dia de Ziauddin respeitar a esposa e a filha como iguais, como tem que ser. E os meninos cresceram em meio a essa rotina, absorvendo esse comportamento. É o tipo de atitude que devemos ter, todos nós, ao invés de manter o discurso apenas da porta para fora, não acham? Não que já tenhamos falado o suficiente, mas talvez devêssemos ser mais como os Yousafzai e simplesmente viver aquilo que pregamos.

Ziauddin fala, ainda, das dificuldades que teve em ser um pai liberal no ocidente; do amor à poesia e sobre aprender a ficar nos bastidores, observando e torcendo pelos filhos em seu momento de levantar voo. Gostei de saber mais sobre Toor Pekai, “a ativista silenciosa”, neste livro. Ziauddin dedica o terceiro capítulo para falar sobre sua “esposa e melhor amiga”. Livre para voar é uma ótima leitura, um livro simplesmente inspirador!

 

 

 

Título: Livre para voar: a jornada de um pai e a luta pela igualdade

Autor: Ziauddin Yousafzai

Colaboração: Louise Carpenter

Prefácio: Malala Yousafzai

Tradução: Denise Bottmann

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 168

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novembro 21, 2019

[RESENHA] PEQUENO MANUAL ANTIRRACISTA, DE DJAMILA RIBEIRO

Sinopse: Onze lições breves para entender as origens do racismo e como combatê-lo.

Neste pequeno manual, a filósofa e ativista Djamila Ribeiro trata de temas como atualidade do racismo, negritude, branquitude, violência racial, cultura, desejos e afetos. Em onze capítulos curtos e contundentes, a autora apresenta caminhos de reflexão para aqueles que queiram aprofundar sua percepção sobre discriminações racistas estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação do estado das coisas. Já há muitos anos se solidifica a percepção de que o racismo está arraigado em nossa sociedade, criando desigualdades e abismos sociais: trata-se de um sistema de opressão que nega direitos, e não um simples ato de vontade de um sujeito. Reconhecer as raízes e o impacto do racismo pode ser paralisante. Afinal, como enfrentar um monstro desse tamanho? Djamila Ribeiro argumenta que a prática antirracista é urgente e se dá nas atitudes mais cotidianas. E mais ainda: é uma luta de todas e todos.”

 

Leia também: Quem tem medo do feminismo negro?

 

Preciso e necessário: este é o manual antirracista de Djamila Ribeiro, lançado recentemente pela Companhia das Letras. Um apanhado de ideias que nos leva a reflexão sobre o racismo, tema que ainda precisa ser muito discutido em nosso país.

Pequeno manual antirracista é bem no estilo dos livros de ensaio da escritora nigeriana Chimamanda Ngozie Adichie, Sejamos todos feministas (que inspira um dos capítulos do livro de Djamila, Sejamos todos antirracistas) e Para educar crianças feministas, um manifesto. Nas três publicações vigora o poder de comunicar com simplicidade assuntos que, em muitos casos, não paramos para pensar ou mudar nossas atitudes no dia a dia.

O forte deste livro é propor ações concretas, partindo da nossa sociedade, através da reflexão. Angela Davis bem disse: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista. É necessário ser antirracista”. É um trabalho de formiguinha, mas que começa a ter resultado quando você muda o seu vocabulário excluindo expressões racistas (cabelo ruim, mercado negro, denegrir etc.), quando não só não ri de comentários racistas, mas passa a repreender esse tipo de comportamento em seu ciclo de amizades, por exemplo. Pequeno manual antirracista é um ótimo começo para quem nunca leu nada sobre racismo, mas sabe ele existe (com força) no Brasil. Para os já iniciados em leituras do assunto, há uma lista de referências com grande variedade de autores negros para se aprofundar no tema. Além disso, para todos os públicos, traz a vantagem de ser uma leitura rápida, mas abrangente sobre antirracismo, ótima fonte de embasamento para conversar com todo mundo.

 

“O objetivo deste pequeno manual é apresentar alguns caminhos de reflexão — recuperando contribuições importantes de diversos autores e autoras sobre o tema — para quem quiser aprofundar sua percepção de discriminações estruturais e assumir a responsabilidade pela transformação de nossa sociedade. Afinal, o antirracismo é uma luta de todas e todos.” (p. 15)

 

Comprei o exemplar impresso autografado (uma promoção de pré-venda) e ele chegou justamente no Dia da Consciência Negra. Percebi, com satisfação, que seria o segundo ano consecutivo em que eu comemoraria este dia lendo um livro de Djamila Ribeiro (ano passado li Quem tem medo do feminismo negro?). Seria maravilhoso se, ao invés de compartilhar aquele vídeo antigo do Morgan Freeman, as pessoas pudessem aproveitar essa data para ler (ou ouvir/ver) autores negros e refletir sobre o racismo na sociedade brasileira, partindo de si mesmo. O Pequeno manual antirracista é uma ótima pedida (mas não espere o próximo 20 de novembro para ler este livro)!

 

 

Título: Pequeno manual antirracista

Autora: Djamila Ribeiro

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 136

Compre na Amazon: Pequeno manual antirracista.

 

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