maio 06, 2019

[RESENHA] EU SOU MALALA, DE MALALA YOUSAFZAI

Sinopse: “Quando o Talibã tomou controle do vale do Swat, uma menina levantou a voz. Malala Yousafzai recusou-se a permanecer em silêncio e lutou pelo seu direito à educação. Mas em 9 de outubro de 2012, uma terça-feira, ela quase pagou o preço com a vida. Malala foi atingida na cabeça por um tiro à queima-roupa dentro do ônibus no qual voltava da escola. Poucos acreditaram que ela sobreviveria. Mas a recuperação milagrosa de Malala a levou em uma viagem extraordinária de um vale remoto no norte do Paquistão para as salas das Nações Unidas em Nova York. Aos dezesseis anos, ela se tornou um símbolo global de protesto pacífico e a candidata mais jovem da história a receber o Prêmio Nobel da Paz. Eu sou Malala é a história de uma família exilada pelo terrorismo global, da luta pelo direito à educação feminina e dos obstáculos à valorização da mulher em uma sociedade que valoriza filhos homens. O livro acompanha a infância da garota no Paquistão, os primeiros anos de vida escolar, as asperezas da vida numa região marcada pela desigualdade social, as belezas do deserto e as trevas da vida sob o Talibã. Escrito em parceria com a jornalista britânica Christina Lamb, este livro é uma janela para a singularidade poderosa de uma menina cheia de brio e talento, mas também para um universo religioso e cultural cheio de interdições e particularidades, muitas vezes incompreendido pelo Ocidente. “Sentar numa cadeira, ler meus livros rodeada pelos meus amigos é um direito meu”, ela diz numa das últimas passagens do livro. A história de Malala renova a crença na capacidade de uma pessoa de inspirar e modificar o mundo.”

 

Esta resenha foi publicada originalmente no dia 21 de janeiro de 2016 no site Minas Nerds, de minha autoria com edição e revisão de Camila Fernandes. Em tempos como os que estamos vivendo, acho importante e extremamente necessário fazer reverberar vozes que transmitem esperança, vozes de luta pela paz e por uma educação para todos.

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Malala foi baleada pelo Talibã em nove de outubro de 2012, quando voltava da escola no vale do Swat, Paquistão. Na época, tinha 14 anos e muitos sonhos. Felizmente, o Talibã não conseguiu matar nem a menina nem seus sonhos; pelo contrário, fez com que eles tomassem uma dimensão global. No livro Eu Sou Malala: A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2013, Malala conta a sua história a partir da pergunta feita pelo terrorista que a baleou: quem é Malala?

A jovem foi perseguida pelo Talibã por ser a menina que queria estudar e também porque seu pai era um grande defensor e ativista pela educação para todas as crianças. Os terroristas queriam manter as mulheres em burcas e dentro de suas casas. Segundo a crença local, aos 14 anos uma moça já é considerada adulta.

Os pais de Malala têm um bom relacionamento, baseado em amor e respeito. O pai, Ziauddin Yusafzai, é um personagem chave na vida da jovem e em sua história como ativista pela educação. Diferente de boa parte dos homens da região, como ela mesma conta, seu pai não despreza as mulheres e não as considera inferiores. Sempre tratou a esposa com respeito e não se indignou quando Malala nasceu, como normalmente acontece no nascimento de meninas. Pelo contrário, ficou muito feliz com o nascimento da filha. Pode parecer que, em boa parte do livro, a história que estamos lendo é a do pai de Malala, e não a dela. Contudo, levando com consideração que aquela é uma sociedade bastante excludente para as mulheres, saber sobre o pai dela é fundamental para entender quem é Malala.

 

“No dia em que nasci, as pessoas da nossa aldeia tiveram pena de minha mãe, e ninguém deu os parabéns a meu pai. (…) Nasci menina num lugar onde rifles são disparados em comemoração a um filho, ao passo que as filhas são escondidas atrás de cortinas, sendo seu papel na vida apenas fazer comida e procriar.”

 

A mãe, Tor Pekai Yousafzai, começou a estudar aos seis anos, mas não prosseguiu com os estudos. Gostava da escola, mas considerava um desperdício estudar para depois ficar restrita ao espaço doméstico e ao cuidado dos filhos. Acabou continuando analfabeta e se arrependeria de ter largado os estudos depois de se casar com Ziauddin, muito inteligente e grande amante de poesia. Contudo, tanto Malala quanto o seu pai enfatizam que Tor tem um outro tipo de inteligência, voltada para relacionamentos e pessoas. Seu marido constantemente lhe pede conselhos e valoriza muito a sua opinião.

 

“Enquanto os homens e os meninos podem andar livremente pela cidade, minha mãe não tinha autorização para sair de casa sem que um parente do sexo masculino a acompanhasse, mesmo que esse parente fosse um garotinho de cinco anos de idade. É a tradição.”

 

Malala conta que sob o regime do General Zia, a partir de 1947, a situação das mulheres no Paquistão ficou ainda mais complicada. Antes disso, as questões se baseavam em restringir a mulher ao espaço doméstico, sem condições de igualdade com os homens, mas com um mínimo de respeito. Depois, a forte islamização do Paquistão, em oposição ao laicismo, reduziu quase a nada o valor das mulheres. Malala conta que o testemunho de uma mulher equivalia à metade do testemunho de um homem, por exemplo. As mulheres não conseguiam fazer nada sem a autorização de um homem.

A leitura de Eu Sou Malala também nos permite conhecer, com uma visão regionalizada, o início das tensões causadas pelos terroristas, assunto muito em voga em razão dos últimos ataques promovidos pelo ISIS. Por meio da experiência de Ziauddin, que se aprofundou nos estudos do islã quando jovem, tornando-se quase um fanático, entendemos como é feita a doutrinação dos meninos e quais governos financiaram e fortaleceram as ditaduras daquelas áreas, em especial do Paquistão e Afeganistão. Felizmente, o pai de Malala encontrou um bom lugar entre dois extremos, o secularismo socialista e o islã militante.

Malala tem muito orgulho de sua terra e de seus costumes, mas não fecha os olhos para as injustiças cometidas contra as mulheres, justificadas pela tradição. Ela conta casos de machismo envolvendo pessoas próximas e também do estranhamento causado por sua personalidade e criação. Ela sempre foi protegida pelo pai, mas muitas outras meninas não. Ziauddin, como educador e dono da escola onde Malala estudava, não só acreditava na educação como elemento fundamental para a transformação da realidade das pessoas no Paquistão, como defendia o direito da filha batalhar por um futuro diferente daquele sacramentado para as mulheres e meninos pobres do vale do Swat.

 

“Eu lia livros como Ana Karênina, de Leon Tolstói, e os romances de Jane Austen. Confiava nas palavras de meu pai: Malala é livre como um pássaro. Quando ouvia as histórias sobre as atrocidades que aconteciam no Afeganistão, eu celebrava o Swat. Aqui uma menina pode ir à escola, eu dizia. Mas o Talibã estava logo ali, na esquina, e era pachtum* como nós. Para mim, o vale era um lugar ensolarado. Não pude ver as nuvens se juntando atrás das montanhas. Meu pai costumava falar: Vou proteger sua liberdade, Malala. Pode continuar sonhando.”

 

“Em fins de 2008, cerca de quatrocentas escolas haviam sido destruídas pelo Talibã.”

 

“Papai argumentava que a única coisa que sempre quis foi criar uma escola para ensinar as crianças. Não nos restara alternativa, a não ser o envolvimento em política e em campanhas pela educação. Minha única ambição, ele dizia, é educar meus filhos e minha nação até onde eu for capaz. Mas, quando metade dos nossos líderes mente e a outra metade negocia com o Talibã, não há outra saída. Temos de nos manifestar.”

 

Malala reafirma sua fé no islã em várias passagens do livro. Explica que o Corão não diz que as mulheres devem andar de burca ou deixar de receber educação, por exemplo. Pelo contrário, segundo o seu entendimento da religião, todas as criaturas devem buscar o conhecimento. O Talibã seria um grupo que interpreta o islã de forma errada, assim como vários grupos fundamentalistas de várias religiões ao redor do mundo. Isso, pessoalmente, me entristece. O fato de livros tidos como sagrados, escritos há milênios, servirem de norma de conduta para pessoas que vivem hoje é absurdo. Creio que seria uma boa ideia o lançamento de uma edição revista e atualizada dos livros sagrados para que se eliminasse, de uma vez por todas, a possibilidade de má interpretação das escrituras, que agride e mata tanta gente ao redor do mundo.

Malala, felizmente, fez e faz a sua parte, lutando para que o direito pela educação seja garantido também às meninas. Foi enriquecedor conhecer uma realidade tão diferente da nossa pelos olhos de uma mulher. Obrigada, Malala, por contar a sua história.

 

*Pachtum ou pastó é um grupo etnolinguístico que habita algumas regiões do Afeganistão do Paquistão.

 

 

 

Título: Eu Sou Malala: A história da garota que defendeu o direito à educação e foi baleada pelo Talibã

Autoras: Malala Yousafzai e Cristina Lamb

Tradução: George Schlesinger, Luciano Vieira Machado, Denise Bottmann e Caroline Chang

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 360

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abril 16, 2019

[DIÁRIO] Quer que eu leia com você? – Refletindo sobre as práticas e os espaços de leitura para a educação infantil

Sinopse: Este livro contribui para estimular o debate, a reflexão e a criação de novas metodologias para incrementar a leitura e a contação de histórias, inclusive com o envolvimento e a participação ativa das crianças. Apresenta experiências desenvolvidas na Biblioteca Flor de Papel da UFF, um espaço de mediação dedicado a incentivar as crianças da educação infantil a terem contato com a literatura e demais gêneros textuais, buscando trabalhar o gosto e a prática cotidiana da leitura. Uma obra de grande interesse para pais, professores, bibliotecários e todos os que se interessam pelo desenvolvimento das práticas de leitura infantil.” 

 

Um grande pedagogo, reconhecido internacionalmente, uma vez disse que “antes da leitura da palavra impressa, o indivíduo lê o mundo”. Acertou quem reconheceu nesta frase as palavras de Paulo Freire! Deste modo, engana-se quem pensa que o hábito de leitura só precisa ser incentivado com a criança já mais velha, quase beirando a adolescência. O próprio conceito de leitura, segundo Eni Orlandi, é polissêmico, ou seja, há muitos sentidos, embora apenas um deles geralmente seja mais lembrado ou valorizado: o de alfabetização. Saber decodificar sílabas, reconhecer palavras escritas, no entanto é diferente de saber ler. Mais ainda: esse conhecimento não é condição suficiente para que haja gosto pela leitura.

O livro Quer que eu leia com você? – Refletindo sobre as práticas e os espaços de leitura para educação infantil, das autoras Luciana Esmeralda Ostetto, Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque, Ninfa Parreiras e Raquel Polycarpo da Silva, apesar de breve (menos de 100 páginas) é uma ótima leitura inclusive para a família, pois contém um apanhado teórico e de experiências práticas para incentivar a leitura na infância, antes mesmo da alfabetização (bem antes). Se você é professor (a), trabalha com educação infantil e quer incentivar a leitura, ou é bibliotecário (a) e quer organizar um espaço que acolha pequenos leitores, não tem erro: esse livro é o que você precisa para começar! Partindo da experiência da Biblioteca Flor de Papel, da UFF, encontram-se aqui indicações de leitura e organização do espaço, dentre várias outras informações valiosas que contribuem como um sólido embasamento para que a leitura seja incentivada desde os primeiros meses de vida da criança.

 

“Por isso, principalmente em nossos tempos em que a tecnologia vai cada vez mais ganhando espaço e diminuindo a interação social tão necessária para nossa formação (…) faz-se necessário contar muitas, muitas, muitas histórias para que não se perca a capacidade de ouvir o outro, de imaginar nossos próprios cenários e personagens e de exercer nossa criatividade.”

 

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Sobre as autoras:

Ninfa Parreiras é mestre em literatura pela USP e graduada em letras e psicologia pela PUC-RJ. É também professora de literatura, psicanalista e escritora de obras literárias e de ensaios. Trabalha com literatura para instituições como FNLIJ, Estação das Letras, Casa da Leitura no Rio de Janeiro, além de ser curadora de eventos literários, consultora de programas de leitura.

Luciana Esmeralda Ostetto é doutora em educação pela Unicamp, professora da Faculdade de Educação da UFF, autora de diversos livros sobre educação infantil.

Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque é psicóloga, especialista em literatura infantojuvenil e leitura, pesquisadora do Instituto Interdisciplinar de Leitura/Cátedra Unesco de Leitura/PUC-Rio, autora de livros de literatura infantil, contadora de história do Grupo Confabulando.

Rachel Polycarpo da Silva é mestre em ciência da informação, bibliotecária da Biblioteca Flor de Papel da UFF, desde 2011, tendo idealizado e organizado as mesas-redondas Bibliotecas na Educação Infantil, de 2012 a 2015.

 

 

Quer que eu leia com você? – Refletindo sobre as práticas e os espaços de leitura para a
educação infantil
Série Nova Biblioteca, v. 1
Autoras: Luciana Esmeralda Ostetto, Maria Clara Cavalcanti de Albuquerque, Ninfa Parreiras e Rachel Polycarpo da Silva
Páginas: 75
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-228-1191-5
Eduff (2017)

Leia a apresentação e introdução deste livro clicando aqui.

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Leia também: Oxford e Harvard amam Paulo Freire.

abril 12, 2019

[RESENHA] SOBREVIVENDO NO INFERNO, DOS RACIONAIS MC’S

Sinopse: A principal obra do maior grupo de rap do Brasil agora publicada em livro, contundente como sempre e atual como nunca. Leitura obrigatória do vestibular da Unicamp.

Na virada para os anos 1990, os Racionais MC’s emergiram como um dos mais importantes acontecimentos da cultura brasileira. Incensado pela crítica, o disco Sobrevivendo no inferno vendeu mais de um milhão e meio de cópias.
Agora publicados em livro, precedidos por um texto de apresentação e intermeados por fotos clássicas e inéditas, os raps dos Racionais são a imagem mais bem-acabada de uma sociedade que se tornou humanamente inviável, e uma tentativa radical, esteticamente brilhante, de sobreviver a ela.”

 

Eu estou sempre entrando no site da Amazon atrás de ofertas. Em uma dessas visitas de rotina, vi que o e-book de Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s (Companhia das Letras, 2018) estava com um ótimo preço e atendia perfeitamente a uma atividade acadêmica que eu precisava fazer: uma proposta de projeto pedagógico para o meu estágio supervisionado. Minha turma base é de 3º. ano do ensino médio, e o Sobrevivendo no Inferno há pouco tempo tornou-se leitura obrigatória no vestibular da Unicamp. Sendo assim, eu havia encontrado o livro perfeito, com uma temática pertinente e atual. Só precisava, então, pôr a mão na massa.

Meu projeto, falando brevemente, consiste em trabalhar pelo menos três músicas do Sobrevivendo no Inferno, conjugando leitura e audição das músicas, pois originalmente, para quem não sabe, Sobrevivendo no Inferno é um álbum musical. Batizei o projeto de Racionais na Roda, como uma forma de colocar os alunos como protagonistas (racionais) na interpretação dos textos (nada de respostas prontas por aqui). Em algumas andanças pela internet, vi que muita gente não entendeu muito bem a proposta do livro, achou incompleto, ou “só com as músicas”. É importante ressaltar que a Unicamp colocou o livro Sobrevivendo no Inferno em sua lista de leituras obrigatórias na categoria poesia. E o livro é basicamente isso mesmo, poesia (as letras das músicas) precedida por um artigo muito bem escrito de Acauam Silvério de Oliveira, intitulado O evangelho marginal dos Racionais MC’s. Esse texto de abertura é muito bom para quem não conhece em profundidade a trajetória do grupo de hip-hop brasileiro.

Em sala de aula, a abrangência de assuntos que podem ser trabalhados a partir do livro e do álbum Sobrevivendo no Inferno é enorme. Como indicação simplesmente de leitura, o pulo do gato, que me fez ter uma percepção muito melhor sobre as letras e a realidade retratada pelos Racionais MC’s é ler o artigo e, depois, acompanhar a leitura com o áudio das músicas, que estão disponíveis gratuitamente no Spotify ou no Youtube.Vai por mim, a poesia declamada oferece uma oportunidade de compreensão muito maior que apenas passar o olho pelos versos, como muitas vezes a pressa nos obriga a fazer. É como eu sempre digo, e repito também para mim: poesia é para ler com calma, paciência.

A temática dos poemas/músicas não poderia ser mais atual em relação ao momento que estamos vivendo em nosso país, onde o racismo ainda impera e a cultura afro-brasileira continuamente é posta de lado, como se não tivesse relevância. Conhecer e valorizar a cultura negra e a cultura de periferia é fundamental para entender a nossa sociedade e por um basta em tanta violência. Precisamos dar voz e fazer ecoar as vozes daqueles que estão na linha de frente e, repetidamente, acabam pagando com a própria vida por este ciclo de desigualdade e abandono social.

 

Leitura recomendada: Entenda por que Racionais é leitura obrigatória no vestibular (Revista Galileu)

 

Assista: Roda Viva entrevista Mano Brown, dos Racionais MC’s (2007)

 

 

Título: Sobrevivendo no Inferno

Autor: Racionais MC’s

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 160

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