julho 17, 2019

[RESENHA] O VÉU ERGUIDO, DE GEORGE ELIOT

Sinopse: “Publicada no mesmo ano do seu primeiro romance, Adam Bede, esta novela exibe algumas das virtudes que tornariam George Eliot famosa – rigor enérgico, introspecção, forte caracterização psicológica e moralização idealista. No entanto, esta obra é singular em comparação aos demais trabalhos da autora: foi a única em que usou uma narrativa em primeira pessoa e escreveu a respeito do sobrenatural, expoente do realismo que foi. A novela pertence à tradição vitoriana de histórias de terror, como Frankenstein (Mary Shelley) e O Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde (O médico e monstro, de Robert Louis Stevenson). Latimer, de natureza sensível e pouco prática, dono de uma beleza feminina, é o filho mais novo de um banqueiro e vive à sombra do irmão mais velho, o exuberante Alfred. Aos 16 anos é mandado para Genebra para completar sua educação, que fazia parte de um roteiro pré-determinado da vida de rico que levaria, com o irmão no comando dos negócios. Latimer adoece,a estadia na Suíça é interrompida, e sua vida sofre uma reviravolta quando, convalescendo, ele começa a ter visões do futuro. Incapacitado, confuso, frágil, ainda assim Latimer tenta subverter seu destino vividamente vislumbrado.”

 

George Eliot (1819-1880) — pseudônimo de Mary Anne Evans, que optou por assinar suas obras no masculino para ser levada a sério,é uma autora inglesa muito prestigiada, mas infelizmente boa parte de seus livros não são reeditados há muito tempo no Brasil. Uma de suas histórias mais aclamadas, Midlemarch, está entre os maiores romances do século XIX e também na lista da BBC entre as 100 obras literárias que mudaram (ou ajudaram a moldar) o mundo. A autora é, portanto, leitura indispensável para literatos de plantão, especialmente para quem gosta de literatura inglesa.

 

Leia também: As escritoras que tiveram de usar pseudônimos masculinos – e agora serão lidas com seus nomes verdadeiros, da BBC Brasil.

 

No caso de alguma impossibilidade de começar pelos romances, O véu erguido é uma boa forma de conhecer a escrita de George Eliot. Trata-se de uma novela narrada em primeira pessoa, uma história de leitura bastante fluida e com elementos de terror e sobrenatural. Começamos pelo final, o qual o protagonista sabe que vai morrer, pois já teve uma visão deste momento. Sendo assim, ele relembra e conta a sua história, ou a parte mais significativa dela até o seu momento derradeiro.

Latimer é o filho mais novo de um banqueiro, mas não recebe muita atenção do pai no que se refere a sua formação como homem da sociedade. É um rapaz de constituição frágil, traços delicados e atormentado por visões — daí, talvez, o título do livro, a capacidade do protagonista de enxergar claramente o que está à frente, — o oposto de seu irmão mais velho, Alfred, um viril exemplar do sexo forte, o herdeiro perfeito.

Tudo muda quando Alfred morre e Latimer acaba assumindo o lugar de herdeiro, mesmo com seu jeito peculiar de ser. Inclusive, o jovem casa-se com a noiva do irmão, por quem era apaixonado e já tinha previsto que iria se casar. Bertha, a noiva, é alguém que desafia a capacidade de Latimer de estar sempre um passo a frente, de manter o véu erguido.

 

 

“O medo do veneno não pode contra a sensação da sede.” (p. 46)

 

“Não importa o quão vazio esteja o ádito, conquanto seja espesso o véu.” (p. 60)

 

O véu erguido foi uma grata surpresa, pois eu tinha uma ideia tola de que ler George Eliot seria difícil, mesmo tendo lido vários autores da época dela. Essa novela não tem nada de difícil e foi uma ótima leitura! Destaco o trabalho da editora Grua em publicar novelas de grandes autores, histórias não muito conhecidas no Brasil ou nunca antes publicadas em português, com qualidade e preço acessível. O véu erguido, ressalto mais uma vez, é um ótimo começo para conhecer uma das maiores autoras que a Inglaterra já teve.

 

 

 

Título: O véu erguido

Autor: George Eliot

Tradução: Lilian Jenkino

Editora: Grua Livros

Páginas: 88

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julho 15, 2019

[RESENHA] PAIXÕES, DE ROSA MONTERO

Sinopse: “Paixões é fruto de uma série de artigos sobre como esse sentimento uniu grandes personagens da política e das artes, publicada no jornal espanhol El País. Para realizar a tarefa, Rosa Montero embrenhou-se em um universo de relacionamentos marcantes, diferentes entre si, mas que merecem ser reunidos por terem, todos, marcado a história.”

 

Leia também: A louca da casa e A ridícula ideia de nunca mais te ver, ambos de Rosa Montero.

 

Paixões é o terceiro livro que leio da Rosa Montero e uma coisa fica bem clara, para mim, com a experiência dessa e das leituras anteriores: qualquer assunto tratado por essa autora é ampliado de uma forma bastante envolvente em um panorama histórico e social. Paixões é uma leitura rica, muito bem embasada, que abrange personagens de várias épocas e que parece uma conversa entre amigos, tão fácil é a prosa de Montero. Não à toa, a escritora e jornalista espanhola é colunista exclusiva do jornal El País desde o final da década de setenta.

A coletânea têm dezoito artigos sobre casais ilustres, alguns bastante conhecidos do grande público, outros nem tanto. São eles os duques de Windsor; Leon e Sônia Tolstoi; Joana, a Louca, e Felipe, o Belo; Oscar Wilde e lorde Alfred Douglas; Liz Taylor e Richard Burton; Evita e Juan Perón; Robert Louis Stevenson e Fanny Vandegrift; Arthur Rimbaud e Paul Verlaine; Marco Antônio e Cleópatra; Dashiell Hammett e Lillian Hellman; Hernán Cortés e Malinche; Rainha Vitória e príncipe Albert; John Lennon e Yoko Ono; Mariano José de Larra e Dolores Armijo; Lewis Carroll e Alice Liddell; Amedeo Modigliani e Jeanne Hébuterne; Os Bórgia e Elisabeth da Áustria (Sissi) e Imprerador Francisco José.

Paixões é uma leitura muito prazerosa, mas que expõe o amargor da necessidade humana de amar, ou melhor, de estar envolvido pelo sentimento frenético da paixão. Para algumas pessoas, viver plenamente uma paixão rende algum tempo de uma felicidade inebriante; já outros nem essa dádiva conseguem viver. Paixões é um livro para quem gosta de histórias de amor, mas não exatamente o amor dos filmes, que terminam no felizes para sempre. Rosa Montero vai além e mostra o depois, até o fim.

 

 

 

Título: Paixões: amores e desamores que mudaram a história

Autora: Rosa Montero

Tradução: Maria Alzira Brum Lemos e Ari Roitman

Editora: Pocket Ouro

Páginas: 224

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julho 12, 2019

[RESENHA] A VISITA DE JOÃO GILBERTO AOS NOVOS BAIANOS, DE SÉRGIO RODRIGUES

Sinopse: “Neste originalíssimo livro de contos, o premiado autor do romance O drible e de Viva a língua brasileira! brinca com coisa séria. Depois de presenciar um encontro mitológico no céu da MPB, o leitor vai para a cama com Machado de Assis e acompanha um desfile de histórias cheias de graça, prosa afiada, erudição literária e cultura pop.

Nos contos de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, o prazer de contar histórias sobre histórias é o antídoto à alardeada perda de potência da literatura em nosso tempo. Assim, a história do mundo pode caber em treze tweets, tornamo-nos cúmplices de uma farsa erótica ambientada na Vila Rica dos inconfidentes e espiamos pela fechadura a intimidade de um famoso personagem machadiano.
No conto que abre e nomeia o livro, fantasia pop inspirada no encontro real entre o gênio da bossa nova e os jovens hippies liderados por Moraes Moreira, vislumbra-se uma síntese da contribuição original que a arte brasileira pode dar ao mundo: metade precisão rigorosa, metade delírio e festa. Os mesmos ingredientes podem ser encontrados na prosa entre o culto e o popular que anima um livro dividido em três partes, como um LP impossível.
No Lado A ficam as narrativas mais clássicas. O Lado B é dedicado aos fragmentos de um experimentalismo que examina com humor ferino, mas sem perder a ternura, os cacos restantes das velhas catedrais literárias e suas vaidades autorais na era da internet. Fecha o volume a deliciosa novela “Jules Rimet, meu amor”, publicada em 2014 como e-book.”

 

Eu pensei em muitas formas de iniciar essa resenha. Mas sempre acabava encurralada pela questão fundamental da existência desse blog (olha o drama!): indicar bons livros, mas sem prejudicar a experiência de leitura ou tornar nulo o fator surpresa das narrativas. Muitas sinopses (infelizmente) já fazem esse trabalho, mas o leitor tem sempre a opção de pular esse parágrafo — que, por aqui, sempre é bem sinalizado, — e ler apenas as impressões e sensações que esta resenhista teve com a leitura.

Pois bem, agora me sinto mais confortável em dizer que não vou dar muitos detalhes sobre os textos que compõem A visita de João Gilberto aos Novos Baianos, de Sérgio Rodrigues, publicado recentemente pela Companhia das Letras. Não seria justo! Esse livro é tão bom, mas tão bom, que o melhor que eu posso dizer é que você pare agora tudo o que está fazendo e leia-este-livro! Não vou ficar chateada, pode clicar aqui e comprar agora mesmo (a versão em e-book tem a vantagem de poder começar imediatamente a leitura).

Se você permaneceu mais um pouco (obrigada), enquanto o e-book carrega no seu Kindle, no app do celular ou no navegador da internet mesmo, vou dizer mais o seguinte: eu li (e reli) o e-book de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos e ainda é difícil saber qual dos três lados desse disco-livro é o meu favorito. As faixas-capítulos A fruta por dentro e Conselhos literários fundamentais estão entre as que mais gostei, mas Jules Rimet, meu amor é de uma perfeição que faz querer voltar a agulha para o início do discoA visita de João Gilberto aos Novos Baianos é o tipo de livro que faz o leitor ter saudade, ter vontade de regressar e dar aquela espiadinha, uma relida em uma ou outra parte mais bacana. Nas vezes em que eu fiz isso, confesso, acabei lendo o livro inteiro novamente quase que em uma só sentada.

 

“O roubo da Jules Rimet revela tanto sobre o Brasil quanto a conquista da Jules Rimet. Inferno e céu. Uma coisa precisa da outra, do contrário a imagem do país fica incompleta. Aqui a gente vive no inferno e no céu ao mesmo tempo. E como menos com mais dá menos, fica matematicamente provado que não temos salvação!”

 

Do autor eu havia lido apenas Viva a língua brasileira, que eu amei, mas em nada é semelhante a esse livro de agora. A visita de João Gilberto aos Novos Baianos é conto, novela, crônica, divagação metalinguística e mais um monte de coisa que eu não vou saber explicar. Só sei dizer que é um livro maravilhoso, principalmente se você curte uma prosa mais enxuta, inteligente e tipicamente brasileira. Sem exagero, um dos melhores livros que li nos últimos tempos.

 

 

 

 

Título: A visita de João Gilberto aos Novos Baianos

Autor: Sérgio Rodrigues

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 144

Compre na Amazon: A visita de João Gilberto aos Novos Baianos

 

 

 

Faixa bônus (por minha conta) – Chega de Saudade, de João Gilberto, falecido no dia 06 de julho de 2019:

 

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