maio 30, 2018

[RESENHA?] DAQUI ESTOU VENDO O AMOR, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Sinopse: “A poesia amorosa de Carlos Drummond de Andrade está entre os mais altos momentos da lírica do século XX. São poucos os poetas que conseguiram falar tanto e com tanta variedade sobre as relações amorosas, os afetos, as paixões. Ao longo de sua vasta carreira, o poeta mineiro reinventou a poesia amorosa nas mais diversas modalidades e com as mais variadas dicções: do poema modernista ao soneto, da elegia à meditação. Em toda essa produção, contudo, há uma identidade permanente: a profunda compreensão do autor para as relações amorosas. Este conjunto de poemas cujo mote é a manifestação amorosa atesta a força e a atualidade do autor. Em diversos poemas publicado ao longo de sua fecunda carreira, Drummond escreveu alguns dos mais penetrantes poemas amorosos da língua portuguesa. Examinou o nascimento do sentimento amoroso, as aproximações afetivas, a sensualidade e o fim dos relacionamentos. Sempre com inteligência aguda, ironia e a suave melancolia que lhe eram características. Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é um dos mais importantes poetas brasileiros e um dos grandes nomes da poesia do século XX em qualquer idioma. Sua obra, publicada a partir de 1930 e apenas interrompida por sua morte quase sessenta anos depois, é um depoimento lírico, lúcido e poderoso sobre o amor, a política, os costumes, a família, a memória e o Brasil.”

 

Uma das melhores coisas de cursar Letras e a ênfase do curso ser Literaturas de língua portuguesa, é que você acaba inundado de livros e autores que engrossam a sua lista de leitura. Alguns autores são uma surpresa, mas outros, como Carlos Drummond de Andrade, são velhos conhecidos do ensino fundamental ou médio. Afinal, quem é que nunca leu Quadrilha?

“João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o

convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto

Fernandes

que não tinha entrado na história.”

(Quadrilha, Carlos Drummond de Andrade)

 

Sempre que estou na época de provas, um inconveniente me acomete: eu preciso ler alguma coisa, de preferência leitura rápida, e de preferência poesia. A ansiedade deve ser o motivo ou talvez a percepção de que não é adequado ou desejável embarcar em uma leitura densa ou de muitas páginas, quando existem centenas de páginas a serem revisadas.

As férias estão chegando, eu repito para mim mesma. Mas meu cérebro continua pedindo livros.

 

Quando isso acontece, embora um ou outro autor que não esteja no cânone do meu curso insista em aparecer diante dos meus olhos, só para uma leitura rápida de alguns minutos, eu procuro sempre ler algo de alguém que vai cair em alguma prova.

 

Neste fim de semana, tenho prova de Literatura Brasileira V (isso mesmo, é a quinta disciplina só de literatura brasileira). Cairão Clarice Lispector, Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade. Um deleite e, ao mesmo tempo, uma tarefa dificílima. Como não cair nas armadilhas do pedantismo da análise literária e conseguir falar um pouquinho que seja sobre esses autores? À exceção de Lispector, os outros autores vez ou outra caem no meu colo, sobretudo para me desligarem um pouco da vida. De Cecília Meireles, tenho me aguardando (ansioso) para ser lido o Romanceiro da Inconfidência, que talvez caia na prova, pois foi mencionado no material. É por isso que passei a me incomodar cada vez menos com spoilers: no curso de Letras a quantidade de obras é tão grande que você não consegue ler tudo antes de estudar os autores. É possível ter êxito na disciplina mesmo sem ter lido a obra, pois você estuda o conteúdo todo destrinchado. Mas você quer ler. Você vai querer ler. Você vai estudando e anotando para ler depois. Se tudo der certo, você vai conseguir ler depois (como uma espécie de oração).

 

Sobre esse livro específico de Drummond, Daqui estou vendo o amor, uma compilação de outras coletâneas do autor com ênfase nos textos românticos, não é uma leitura essencialmente obrigatória para mim, como estudante de Letras. Mas é uma forma rápida e de baixo custo para ler poesia. É por isso, também, que estou recomendando o livro por aqui. O que mais podemos buscar nesse nosso país caótico senão poesia? Nem que seja por um minutinho, para respirar. Depois a gente lembra da gasolina, ou da falta dela.

 

 

Para quem está estudando: às vezes, ler um livro de um autor que será cobrado em prova, ainda que esse livro não seja mencionado no material didático do seu curso, no caso, obviamente, de quem estuda Letras/Literatura/ou derivados, dá uma boa base sobre a escrita do autor, de seu estilo. De repente você (eu!) não consiga, ainda, ler A Hora da Estrela antes da prova (a quantidade de páginas desse livro engana, vai por mim), mas ler um ou dois contos de Lispector é melhor do que não ler absolutamente nada escrito por ela. Aproxime-se do autor que você está estudando. É um favor que você faz a você mesmo. E a ele.

 

Para quem não está estudando, mas precisa de uma dose de poesia: esqueça a gasolina, o Michel Temer, a Seleção Brasileira ou sei lá o que está te preocupando no momento, e leia um livro. Leia um livro de poesia. Tudo fica melhor com poesia, vou repetir isso até o meu coração parar de bater. Caso seja possível, continuarei repetindo até depois. Minha sugestão para hoje é esse livro, Daqui estou vendo o amor. Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é reconhecido internacionalmente por suas belas palavras. Sua obra é vasta, mas você pode começar a ler agora mesmo, em e-book. Se você quer uma tríade de autores de poesia para ler enquanto viver, recomendo Drummond, Cecília Meireles e Manoel de Barros. Vai por mim, você não vai se arrepender.

 

 

Título: Daqui estou vendo o amor

Autor: Carlos Drummond de Andrade

Editora: Companhia das Letras / Breve Companhia (ótimos títulos para leitura rápida)

Páginas: 82

 

Compre na Amazon: Daqui estou vendo o amor.

fevereiro 27, 2018

[LETRAS] AS LÍNGUAS DOS HOMENS

 

Há quem pense que só existe uma única língua portuguesa. Bela, perfeita e… quase inatingível.  Esta é norma culta, ou variante padrão de prestígio: a língua escrita, que usamos para entender e sermos entendidos, portanto, segue uma série de normas de padronização.

Existe outra língua, a da comunicação rápida, instantânea, adornada pelos regionalismos e pelas vivências (ou falta delas) de seus usuários. Esta é a língua falada, que, mesmo que alguns teimem em dizer que não, é tão linda quanto aquela que sai da ponta do lápis.

Uma não pode viver sem a outra, isso é fato. A língua falada ajuda a escrita a continuar viva. E a escrita permite que um maior número de pessoas possível consiga entender a língua falada. Assim são as línguas dos homens: interligadas, seguem interligando.

 

***

 

Esse pequeno texto foi uma proposta de atividade realizada para a disciplina de Português VIII (Sociolinguística), do curso de Licenciatura em Letras da UFF/CEDERJ. Saiba mais sobre Sociolinguística no blog da Parábola Editorial.

janeiro 31, 2018

[LETRAS] PRECONCEITO LINGUÍSTICO, LIVRO DE MARCOS BAGNO, COMPLETA 19 ANOS

Pouco depois da minha aprovação no vestibular para o curso de Letras da UFF/CEDERJ, meu marido, que é formado também em Letras, me presenteou com uma edição de Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno. Achei o livro interessante e a recomendação que recebi junto ao presente foi expressa: ninguém pode cursar Letras sem ler esse livro.

É impossível não se reconhecer, tanto como vítima quanto como algoz, nas páginas de Preconceito Linguístico. O livro desnuda essa face preconceituosa que o brasileiro tem e que é encoberta pela fama que temos de povo bonzinho, gente boa. Há quem reduza a obra de Marcos Bagno há mero esquerdismo, tentando desqualificar o trabalho dele que é um dos maiores linguistas do nosso país. Não vou sequer pôr em discussão o caráter de quem desqualifica uma obra ou, como no caso do autor, várias obras, sem ao menos conhecer o trabalho e, ainda, usando os termos esquerdista, petralha, mortadela etc. Não vale a pena.

Neste mês, o livro completa 19 anos desde a sua primeira publicação. E a reflexão do autor sobre o aniversário de um dos seus livros mais famosos é a que estamos longe de abandonar esse caráter preconceituoso, especialmente no que tange à língua falada. Veja o comentário de Bagno sobre o aniversário do livro, publicado em seu perfil no facebook:

“Em 1999, por instigação amorosa de Marcos Marcionilo, publiquei “Preconceito linguístico”. Em 2015 o livro mudou de editora, se transferiu para a Parábola, sempre pelas mãos generosas e competentes do mesmo Marcionilo. O livro completa, agora em janeiro, 19 anos. Desde sua primeira aparição, já foi reimpresso mais de 50 vezes e o número de exemplares vendidos supera os 300 mil. Isso poderia ser motivo de alegria, e é, mas também provoca uma inevitável reflexão sobre a realidade social monstruosa que é a do Brasil, essa imensa Bastilha continental que há séculos resiste a ser derrubada. Passados 19 anos, o preconceito linguístico continua a ser o que sempre tem sido: mais um dos diversos elementos que constituem um amplo e largo preconceito social, dirigido a todas e a todos que não fazem parte da ínfima camada dominante, essencialmente branca e masculina, e de seus micos amestrados, uma classe média que, por ser reduzida, acredita fazer parte da oligarquia, sem se dar conta de que é manipulada por ela das formas mais vis e repugnantes. Mulheres, pessoas não-brancas, homossexuais, transgêneros, indígenas, camponesas e camponeses, pobres e miseráveis, toda essa gigantesca legião de gente perseguida e humilhada, vítimas de assassinato sistemático e ininterrupto, como se não bastasse toda essa injustiça social, ainda tem que suportar o escárnio dirigido às suas línguas e aos seus modos de falar. Eu sinceramente gostaria muito que esse meu livro fosse tido como datado, que as coisas que nele vêm denunciadas descrevessem um momento histórico já distante, mas não é assim. Diante da tragédia social, política e ética que estamos vivendo, a discriminação pela linguagem continua firme e forte em sua função de aprofundar o abismo das exclusões que é constitutivo desse país triste e infeliz. Pouco a comemorar, portanto, nesse aniversário.”

 

A nova edição de Preconceito Linguístico, publicada pela Editora Parábola em 2015, é praticamente um novo livro. O texto foi radicalmente revisto, ampliado e atualizado, conforme informa o autor logo nas primeiras páginas. Além da luta por um ensino mais democrático da língua materna, Marcos Bagno abriu espaço também para questões atuais, como a nova classe média, o polêmico presidenta, O Exame Nacional do Ensino Médio, dentre outros. Além disso, alguns pontos da edição anterior, tratados superficialmente, foram melhor explicados.

Existe um mito de que a Sociolinguística quer fazer todo mundo falar errado. O conservadorismo aliado à falta de informação produz e espalha esse tipo de falácia. Recomendo que você que ainda não conhece o que é de fato a sociolinguística, passe a pesquisar mais sobre o assunto. Preconceito Linguístico é um ótimo começo.

 

“O preconceito, seja ele de que natureza for, é uma crença pessoal, uma postura individual diante do outro. Qualquer pessoa pode achar que um modo de falar é mais bonito, mais feio, mais elegante, mais rude do que outro. No entanto, quando essa postura se transforma em atitude, ela se torna discriminação e esta tem de ser alvo de denúncia e de combate. No caso da língua, é imprescindível que toda cidadã e todo cidadão que frequenta a escola (pública ou privada) receba uma educação linguística crítica e bem informada, na qual se mostre que todos os seres humanos são dotados das mesmíssimas capacidades cognitivas e que todas as línguas e variedades linguísticas são instrumentos perfeitos para dar conta de expressar e construir a experiência humana neste mundo.” (Preconceito Linguístico, Editora Parábola, 2015)

 

SOBRE O AUTOR: Marcos Bagno é professor da Universidade de Brasília. Pesquisa e atua em políticas linguísticas, na descrição do português brasileiro e em seu ensino, tanto no Brasil quanto no exterior. Publicou, entre outras obras, Gramática pedagógica do português brasileiro (Parábola Editorial, 2012). É o tradutor de alguns dos textos fundadores da sociolinguística: Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística, de U. Weinreich, W. Labov e M. Herzog (Parábola, 2006), e Padrões sociolinguísticos, de W. Labov (Parábola, 2008).

 

 

Título: Preconceito Linguístico
Autor: Marcos Bagno
Editora: Parábola
Páginas: 352

 

Compre no site da Editora Parábola, clicando aqui. Nos dias 30, 31/01 e 01/02/2018, a editora oferece 30% de desconto na compra do livro.

Tamires de Carvalho • todos os direitos reservados © 2019 • powered by WordPressDesenvolvido por