novembro 23, 2018

[RESENHA] MENINOS SEM PÁTRIA, DE LUIZ PUNTEL

Sinopse: “Marcão e Ricardo vivem na pequena cidade de Canaviápolis com a mãe, que está grávida, e com o pai, que é jornalista. Durante uma partida decisiva de futebol de botão o pai dos meninos chega em casa apavorado, contando que arrombaram a redação do jornal onde trabalha. Alguns dias depois, a família começa a receber ameaças pelo telefone e na rua. O jornalista e a mulher ficam preocupados, até que um dia o pai de Marcos desaparece. Com a ajuda de freiras, eles descobrem que o pai está na Bolívia e começam então uma verdadeira jornada no exílio, passando pelo Chile e pela França. Marcão e seus irmãos vão viver as aventuras da infância e da juventude longe de casa, durante o período do regime militar no Brasil. Sob a perspectiva do garoto, os leitores das novas gerações aprenderão sobre a história recente do país neste clássico de Luiz Puntel da série Vaga-Lume.”

 

Neste instante em que os meus dedos tocam as teclas do teclado do computador para iniciar mais uma resenha, tenho ainda meus olhos marejados e a garganta em nó por finalizar a leitura de Meninos sem pátria, de Luiz Puntel, livro integrante da série que apresentou o mundo dos livros a muitos alunos de escolas públicas: a série Vagalume.

Pensando em escolas públicas, eu, que tive minha formação majoritariamente feita em escolas estaduais, uma pequena parte em Minas Gerais e o segundo segmento do ensino fundamental e todo o ensino médio no estado do Rio de Janeiro, não posso ter outra conclusão que não seja o quanto o ensino que eu tive da história do Brasil foi falho ou praticamente inexistente, em detrimento das conquistas, sobretudo europeias.

Não culpo minhas professoras ou os livros didáticos adotados por elas, tenho certeza (hoje mais do que nunca, como estudante de licenciatura) de que elas fizeram o possível dentro do programa que tinham de seguir, com os recursos disponíveis e com o tempo que dispunham para nos ensinar. Mas uma coisa é certa: eu não aprendi muita coisa sobre a história recente do Brasil na escola. Tampouco acho que os alunos de hoje (terminei o ensino médio em 2006) estejam aprendendo.

Há bastante tempo tenho consciência de que a ditadura não foi uma coisa boa. Ditaduras não são boas em época alguma, em lugar nenhum, diga-se de passagem. Mas eu sei que a ditadura aqui no Brasil matou muita gente inocente, e que a pecha de subversivo era posta em gente que, simplesmente, não tinha o corte de cabelo adequado ou andava de sapato de sem meias, por exemplo. Não era só bandido que era preso ou torturado. É um pensamento muito reducionista achar que, por não conhecer alguém que foi torturado ou que gente boa não tinha o que temer , simplesmente a ditadura não tenha sido tão ruim assim, ou talvez tenha sido apenas uma revolução com a finalidade de espantar a ameaça comunista. A prova de que não estudamos o suficiente da nossa história recente é que ainda existem pessoas com medo da ameaça comunista até hoje, em pleno 2018.

Da ditadura, em meus anos escolares ou de estudos para o vestibular, lembro apenas de alguns nomes, do AI5, algumas mortes, como a do jornalista Vladmir Herzog (citado no livro de Luiz Puntel), mas quase nada sobre as famílias dessas pessoas, do porquê do exílio e de que o exílio não era uma turnê pela Europa, não eram férias de luxo.

Meninos sem pátria, livro que acabei de ler, preencheu essa lacuna perfeitamente. Mas é ficção, você pode estar pensando aí, revirando os olhos. É ficção, mas com os pés cravadíssimos na realidade do período dos governos militares no Brasil (1964-1985). Com um adendo de luxo que os livros de história nem sempre conseguem ter: a ficção desperta a empatia, nos envolve na história de pessoas inventadas, mas que representam pessoas reais. Não a toa, terminei a leitura entre lágrimas…

O livro conta história da família de um jornalista da cidade de Canaviápolis. Um jornalista subversivo, que denunciava os abusos policiais e, por esta razão, teve seu jornal depredado e logo teve de buscar asilo político em outro país com sua família. Passaram pela Bolívia, Chile (que logo se tornaria também uma ditadura) e por fim, conseguiram alguns anos relativamente estáveis na França. Relativamente porque Zé Maria não parou de denunciar os abusos e as mortes do governo militar no exílio. Na França, ele passou a escrever para o jornal Le Monde.

 

Sendo o livro voltado para jovens, quem narra o período de fuga e medo é Marcão, o filho mais velho de Zé Maria e Tererê, irmão de Ricardo, Pablo (nascido no Chile) e de Nicole (nascida na França). E pelos olhos de um menino que teve a adolescência marcada pelo exílio, tentando entender o que era ser um menino sem pátria, vivendo entre línguas e culturas diversas de sua nativa, Meninos sem pátria é uma aprendizado fenomenal sobre a ditadura em suas 127 páginas, mais eficaz que muito manual de decoreba de nomes, datas e atos institucionais que nem sempre compreendemos quando temos a idade de Marcão e precisamos estudar e muitas vezes as informações só descem goela abaixo e viram apenas nomes esparsos em nossa memória.

Não li Meninos sem pátria na época do colégio (se eu tivesse lido uma releitura certamente me faria lembrar) apesar de ter sido uma devoradora da série Vagalume, fundamental no meu gosto pela leitura em uma época que eu tinha pouquíssimos livros em casa e que a biblioteca do Colégio Estadual Rotary era a minha principal fonte de leitura. Interessei-me pela leitura neste momento, não vou negar, após a notícia de que um colégio carioca teve o livro censurado, sob acusação, por parte dos pais dos alunos, de doutrinação comunista. Acredite: a palavra comunismo não é sequer mencionada. O livro é sobre ditadura, e ditaduras são ruins, não importa de onde venham. Ou não são? Falar sobre a ditadura é ser comunista? O que será que essas pessoas entendem por comunismo?

Talvez esses pais não tenham estudado o suficiente, ou realmente temam uma invasão comunista, do alto de seus smartphones e de suas fontes extremamente confiáveis no whatsapp.

 

“— Mas, como vocês sabem, estamos proibidos de pisar o solo brasileiro. Muitos de nós, para ser franco, acho que nunca comemoramos o 7 de Setembro. Muitos de nós temos vivido sempre fugindo de país em país, como se fossemos bandidos perigosos. Por isso, quero agradecer a Monsieur Fauré a oportunidade que ele nos deu, de aprendermos, com esta atividade, muitas coisas sobre o nosso país, sobre a nossa pátria.

Nessa hora, sem que eu pedisse, o pessoal irrompeu em uma vigorosa salva de palmas. Monsieur Fauré levantou-se e agradeceu de onde estava.

— E estamos fugindo, simplesmente porque nossos pais não concordam com o que está acontecendo no Brasil. Por isso, muitos de nós já se acostumaram à ideia de sermos chamados de meninos sem pátria. Sinceramente, nós não sabemos se vamos um dia voltar ao Brasil. Mas, se voltarmos, seja amanhã, depois, daqui a dois ou três anos, sei lá, nós somos muito gratos a vocês. Gratos pela hospitalidade, pelo carinho, pela amizade.

Nova salva de palmas espocou entre o pessoal.

— E, para terminar — eu pedia silêncio —, quero chamar aqui em cima do palco todos os brasileiros para cantarmos nosso Hino Nacional. E que este nosso canto seja não só um grito pela liberdade, para que pessoas nunca mais precisem abandonar seus países por pensarem de modo diferente, mas que seja também a maneira de expressarmos o nosso agradecimento à acolhida de vocês.

Quando terminei de falar, o pessoal já em cima do palco e o hino começando, eu não acreditava que tivesse falado tudo aquilo. Falara sem medo, sem gaguejar, com coragem, muita coragem.” (ps. 114 e 115)

 

 

Para que não fiquem dúvidas: leiam esse livro, recomendo muito. É uma leitura rápida, com um texto simples (especialmente pelo público ao qual ele é direcionado), mas nem por isso deixa de ser um grande aprendizado, uma valiosa lição, com a leveza sempre agradável que encontramos na literatura infantojuvenil.

 

Título: Meninos sem pátria

Autor: Luiz Puntel

Páginas: 128

Editora: Ática

Compre na Amazon: Meninos sem pátria.


novembro 20, 2018

[LETRAS] ÚRSULA E OUTRAS OBRAS, DE MARIA FIRMINA DOS REIS

 

Quanto mais Úrsula, melhor! A Edições Câmara, da Câmara dos Deputados, disponibiliza gratuitamente para download o livro Úrsula e outras obras, de Maria Firmina dos Reis. Integra a edição, com introdução do professor Danglei de Castro Pereira, o romance Úrsula, os contos Gupeva A Escrava, além da coletânea de poesias Cantos à beira mar. Vale muito a pena ler e conhecer Maria Firmina dos Reis e você pode começar agora, basta clicar aqui!

A Edições Câmara tem a satisfação de publicar esta coletânea com as obras de Maria Firmina dos Reis. O trabalho desta maranhense foi ignorado por mais de um século e continua pouco conhecido apesar das tentativas de resgate realizadas a partir da década de 1970.

Além de seu texto mais publicado, o romance Úrsula, incluímos o conto abolicionista A escrava e o indianista Gupeva, e sua reunião de poesias Cantos à beira-mar, todos pela sua inequívoca qualidade literária.

A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX.

Antes do Navio negreirode Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”.

Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres.

Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

Assim,  visando  cumprir  nossa  missão  institucional  –  orientada  pela promoção  da  cidadania  e  fortalecimento  da  democracia  –,  oferecemos  a nossos leitores esta reunião de obras de Maria Firmina dos Reis, certos de que fazemos justiça a esta grande escritora rasileira incluindo-a em nossa série de clássicos.

 

 

Para quem nao abre mão do livro em papel, a Livraria da Câmara vende a edição impressa a um ótimo preço (comprei por R$ 7,00) e com frete grátis. No momento desta publicação, contudo, as vendas pela loja virtual estão suspensas.

setembro 26, 2018

[RESENHA] EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA, DE MONTEIRO LOBATO

Sinopse: “Este livro conta a viagem que Pedrinho, Narizinho, Visconde, Quindim e Emília fazem até o País da Gramática. Lá eles aprendem a língua portuguesa de um jeito muito divertido, usando a imaginação e a criatividade. Desse modo, ficam sabendo sobre a origem e o significado das palavras e como escrevê-las corretamente, formando frases coerentes e coesas. Como o livro foi lançado pela primeira vez em 1934, muitas regras e conceitos gramaticais antigos foram atualizados e comentados.”

 

Há algumas semanas eu precisei fazer uma resenha de um livro paradidático como atividade valendo nota para o meu Estágio Supervisionado. Assim que tive ciência da proposta, logo pensei em Emília no país da gramática, de Monteiro Lobato. O livro já estava na minha estante há algum tempo, esperando ser lido mais uma vez, com atenção, para que eu pudesse falar um pouco sobre ele. O tom dessa resenha, obviamente, é um pouco mais formal do que normalmente eu escrevo por aqui, mas, ainda assim, sugiro o livro como leitura para crianças de todas as idades!

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Monteiro Lobato (1882-1948), com a publicação de Emília no país da gramática em 1934, foi pioneiro ao iniciar no Brasil um tipo de literatura que também ensina, hoje conhecida como publicação paradidática.

Procurando ter certa distância do engessamento dos livros didáticos, os livros paradidáticos ou complementares muitas vezes conseguem atingir com maior eficiência os objetivos dos livros de base. Com leveza, bom humor e linguagem um pouco mais acessível, os paradidáticos conseguem fixar conteúdos das mais diversas disciplinas na mente dos alunos.

O país da gramática visitado por Emília em 1934 já não é o mesmo em que vivemos no século XXI, no entanto, o livro ainda pode ser muito bem trabalhado em sala de aula, abordando, inclusive, temas não necessariamente ligados à análise sintática, às classes de palavras, dentre outros assuntos tratados na publicação.

A edição lançada pela editora Globo, pelo selo de publicações infantis Globinho (2009), é lindamente ilustrada por Osnei e Hector Gomez, e conta, ainda, com os comentários da professora de língua portuguesa Maria Tereza Rangel Arruda Campos. Aliado ao texto original, que funciona como um retrato histórico tanto dos aspectos da sintaxe da nossa língua, quanto de preceitos sociais alguns já ultrapassados , os comentários da professora trazem o texto de Lobato para o nosso tempo, exemplificando a evolução natural e também política da língua portuguesa.

Emília no país da gramática, portanto, apesar de à primeira vista parecer obsoleto, pode ser um fortíssimo aliado dos professores de língua portuguesa. Ao invés de negar ou tentar apagar o passado, como se tem tentado fazer com algumas obras de Monteiro Lobato, é necessário falar sobre ele, especialmente sobre o que já foi superado em suas obras, para afastar o risco de cometer os mesmos julgamentos de antes.

Tomando como exemplo o seguinte trecho do livro, o professor pode abrir uma discussão entre os alunos sobre variantes linguísticas e preconceito linguístico:

Emília encaminhou-se para o último cubículo, onde estava preso um pobre homem da roça, a fumar o seu pito.

E este pai da vida que aqui está de cócoras? — perguntou ela.

Este é o Provincianismo, que faz muita gente usar termos só conhecidos em certas partes do país, ou falar como só se fala em certos lugares. Quem diz NAVIU, MÉNINO, MECÊ, NHÔ etc. está cometendo Provincianismos.

Emília não achou que fosse caso de conservar na cadeia o pobre matuto. Alegou que ele também estava trabalhando na evolução da língua e soltou-o. — Vá passear, Seu Jeca. Muita coisa que hoje esta senhora condena vai ser lei um dia. Foi você quem inventou o VOCÊ em vez de Tu e só isso quanto não vale? Estamos livres da complicação antiga do Tuturututu. Mas não se meta a exagerar, senão volta para cá outra vez, está ouvindo?”

Comentário da edição sobre o termo Provincianismo: “O provincianismo não é mais considerado um erro, mas uma variedade da língua chamada de variedade regional. A variedade regional falada pelo caipira é tão legítima quanto todas as outras existentes na língua.” (p. 114)

Mesmo no original, Emília, ou seja, Monteiro Lobato, reconhece a evolução da língua, embora o capítulo trate o “provincianismo” como “vício de linguagem”, classificação comum naquele tempo. Na época da publicação, não havia o diálogo sobre variantes linguísticas, mas hoje temos material suficiente para que o assunto seja amplamente discutido e divulgado, evitando chavões típicos do preconceito linguístico.

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Referências Bibliográficas

AMORIM, Carmelita Minelio da Silva. ROCHA, Lucia Helena Peyroton da. ABRAÇADO, Jussara. Quem é você para falar assim? Por um ensino da língua materna que considere as diferenças. Linguística IV. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj.

FRAZÃO, Dilva. Monteiro Lobato. Disponível em < https://www.ebiografia.com/monteiro_lobato/> Acesso em 23/08/2018.

LOBATO, Monteiro. Emília no país da gramática. Ilustrações de Osnei e Hector Gomez. São Paulo: Editora Globo, 2009.

RAFAEL, Marcelo. Os paradidáticos e a literatura que transforma. Disponível em <https://blog.saraiva.com.br/os-paradidaticos-e-a-literatura-que-tambem-ensina/> Acesso em 09/08/2018.

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“Emília no país da gramática”, de Monteiro Lobato, ilustrações de Osnei e Hector Gomez e comentários de Maria Tereza Rangel Arruda Campos, publicado pela editora Globo (2009).

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