novembro 27, 2018

[DIÁRIO DE LEITURA] O ROMANCE DOM CASMURRO, DE MACHADO DE ASSIS – EDIÇÃO CRÍTICA E COMENTADA

Sinopse: Reproduz, na atual ortografia, o célebre romance na versão de 1899, revisada pelo próprio fundador da Academia Brasileira de Letras, e a compara a outras duas edições, de 1900 e 1969, esta última organizada pela Comissão Machado de Assis. Maximiano propõe a leitura do romance como obra de ficção já na linha do realismo, procurando fazer ver que o texto, acima de tudo, retrata o ambiente e as concepções burguesas da sociedade brasileira no século XIX.

Na introdução e no registro filológico, o crítico explica minuciosamente o critério adotado na correção das falhas e erros tipográficos da edição princeps e na atualização gráfica do texto, com preservação das formas lexicais e construções sintáticas e da pontuação original.

Visando favorecer a boa leitura e a compreensão do romance, o livro traz ainda, em apêndice, uma série de informações complementares.”

 

Dom Casmurro, de Machado de Assis, é um dos meus livros favoritos da vida, daqueles que eu estou sempre relendo e recomendando a leitura. Fico eufórica a cada edição nova e a cada adaptação, releitura ou estudo desse romance, pois acredito que Machado de Assis deve ser lido não só por ser o maior escritor brasileiro de todos os tempos, mas também porque seus textos tem algo de atemporal, de fazer com que cada experiência de leitura seja única e inesquecível. Todo dia é dia de se apaixonar (mais uma vez) por Machado de Assis, eu garanto.

A Eduff, Editora da Universidade Federal Fluminense, me presenteou há algumas semanas com o livro O romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, edição crítica e comentada, com estudos bibliográficos, de Maximiano de Carvalho e Silva. O livro é uma verdadeira joia para os leitores de Dom Casmurro que desejam uma imersão maior na obra de Machado de Assis!

 

O livro “O Romance Dom Casmurro, de Machado de Assis – Edição Crítica e Comentada”.

 

Edição crítica?

De forma geral, uma edição crítica procura recuperar a forma primitiva de um texto, mostrando-o com suas características autorais primeiras, além de destacar erros de outras edições e listar as variantes textuais. É bom ressaltar que textos mais antigos sofreram mais alterações — em comparação aos textos modernos — por sucessivas edições, sobretudo de terceiros. Sendo assim, uma edição crítica tem como objetivo colocar ao alcance do leitor um texto fidedigno, o mais próximo possível daquele que o autor escreveu. A Crítica Textual é uma área interessantíssima que eu tive o prazer e a oportunidade de estudar no curso de Letras. Caso queira saber mais sobre o assunto, sugiro o material das professoras Marlene Gomes Mendes e Silvana dos Santos Ambrosoli, que usamos no CEDERJ (referência para esse parágrafo) e pode ser baixado gratuitamente clicando aqui.

 

O livro sem a proteção (jacket/ luva): um luxo!

 

São características singulares da presente edição crítica e comentada do romance Dom Casmurro, de Machado de Assis:

1) Reproduz com fidelidade, na ortografia atual, o texto da única edição em vida do autor por ele revista, datada de 1899, compara essa edição com as duas outras tiragens do ano de 1900 e com a edição da Comissão Machado de Assis em 1969.

2) Na introdução e no Registro Filológico explica minuciosamente o critério adotado na correção das falhas e erros tipográficos da edição princeps e na atualização gráfica do texto, com preservação das formas lexicais e construções sintáticas e da pontuação original.

3) Favorece a boa leitura e compreensão do romance com dados e comentários em apêndice:

* Informações referentes ao contexto histórico-cultural do Brasil do século XIX.

* Cronologia da vida e obra de Machado de Assis, em que reúne em nova apresentação dados disponíveis até agora, mencionando os estudos em que se baseiam, e acrescenta vários outros de igual importância.

* Fontes para o estudo da gênese, da fortuna crítica e da interpretação do romance, com a indicação precisa do teor das leituras que dele fizeram grandes figuras da crítica literária no Brasil e no estrangeiro.

* Proposta de leitura do romance como obra de ficção já na linha do realismo, procurando fazer ver que o romance acima de tudo retrata o ambiente e as concepções burguesas da sociedade brasileira no século XIX, e objeções com apoio em estudos críticos publicados nas últimas décadas do século XX ao que se lê nas análises do drama amoroso central por parte do ensaísta paulista Alfredo Pujol (1917) e da autora norte-americana Helen Caldwell (1960) e seus seguidores, em linhas opostas no julgamento dos personagens principais.

* Índice dos personagens, com indicações a respeito de cada um deles que permitem a qualquer momento dissipar as dúvidas do leitor.

* Extenso glossário, de mais de trinta páginas, em que estão relacionados com breves explicações todos os nomes próprios (personativos, locativos, intitulativos, históricos, mitológicos) e todas as palavras e expressões comuns que, por terem sentido diferente do usual, por serem de raro uso, ou por terem caído em desuso possam constituir-se em problemas para a exata compreensão das passagens em que se localizam.

 

Sumário do livro “O Romance Dom Casmurro, de Machado de Assis – Edição Crítica e Comentada”.

 

Detalhe do livro “O Romance Dom Casmurro, de Machado de Assis – Edição Crítica e Comentada”.

 

Detalhe da orelha do livro “O Romance Dom Casmurro, de Machado de Assis – Edição Crítica e Comentada”, com a foto e biografia do autor Maximiano de Carvalho e Silva.

 

 

Esse não é um livro para ler em uma sentada só. Maximiano de Carvalho e Silva fez um trabalho minucioso, que requer tempo para ser degustado. No entanto, é um prazer descobrir algo novo cada vez que eu abro esse livro. A edição é em capa dura e tem várias fotografias ilustrando e corroborando o estudo do autor. Como eu disse anteriormente, O romance Dom Casmurro é uma joia, leitura indispensável para os amantes de Machado de Assis, Bentinho, Escobar e, claro, de Capitu.

 

 

O romance “Dom Casmurro” de Machado de Assis – Edição crítica e comentada
Autor: Maximiano de Carvalho e Silva
Editora: Eduff
Páginas: 480

Compre no site da Eduff, basta clicar aqui!

 

novembro 23, 2018

[RESENHA] MENINOS SEM PÁTRIA, DE LUIZ PUNTEL

Sinopse: “Marcão e Ricardo vivem na pequena cidade de Canaviápolis com a mãe, que está grávida, e com o pai, que é jornalista. Durante uma partida decisiva de futebol de botão o pai dos meninos chega em casa apavorado, contando que arrombaram a redação do jornal onde trabalha. Alguns dias depois, a família começa a receber ameaças pelo telefone e na rua. O jornalista e a mulher ficam preocupados, até que um dia o pai de Marcos desaparece. Com a ajuda de freiras, eles descobrem que o pai está na Bolívia e começam então uma verdadeira jornada no exílio, passando pelo Chile e pela França. Marcão e seus irmãos vão viver as aventuras da infância e da juventude longe de casa, durante o período do regime militar no Brasil. Sob a perspectiva do garoto, os leitores das novas gerações aprenderão sobre a história recente do país neste clássico de Luiz Puntel da série Vaga-Lume.”

 

Neste instante em que os meus dedos tocam as teclas do teclado do computador para iniciar mais uma resenha, tenho ainda meus olhos marejados e a garganta em nó por finalizar a leitura de Meninos sem pátria, de Luiz Puntel, livro integrante da série que apresentou o mundo dos livros a muitos alunos de escolas públicas: a série Vagalume.

Pensando em escolas públicas, eu, que tive minha formação majoritariamente feita em escolas estaduais, uma pequena parte em Minas Gerais e o segundo segmento do ensino fundamental e todo o ensino médio no estado do Rio de Janeiro, não posso ter outra conclusão que não seja o quanto o ensino que eu tive da história do Brasil foi falho ou praticamente inexistente, em detrimento das conquistas, sobretudo europeias.

Não culpo minhas professoras ou os livros didáticos adotados por elas, tenho certeza (hoje mais do que nunca, como estudante de licenciatura) de que elas fizeram o possível dentro do programa que tinham de seguir, com os recursos disponíveis e com o tempo que dispunham para nos ensinar. Mas uma coisa é certa: eu não aprendi muita coisa sobre a história recente do Brasil na escola. Tampouco acho que os alunos de hoje (terminei o ensino médio em 2006) estejam aprendendo.

Há bastante tempo tenho consciência de que a ditadura não foi uma coisa boa. Ditaduras não são boas em época alguma, em lugar nenhum, diga-se de passagem. Mas eu sei que a ditadura aqui no Brasil matou muita gente inocente, e que a pecha de subversivo era posta em gente que, simplesmente, não tinha o corte de cabelo adequado ou andava de sapato de sem meias, por exemplo. Não era só bandido que era preso ou torturado. É um pensamento muito reducionista achar que, por não conhecer alguém que foi torturado ou que gente boa não tinha o que temer , simplesmente a ditadura não tenha sido tão ruim assim, ou talvez tenha sido apenas uma revolução com a finalidade de espantar a ameaça comunista. A prova de que não estudamos o suficiente da nossa história recente é que ainda existem pessoas com medo da ameaça comunista até hoje, em pleno 2018.

Da ditadura, em meus anos escolares ou de estudos para o vestibular, lembro apenas de alguns nomes, do AI5, algumas mortes, como a do jornalista Vladmir Herzog (citado no livro de Luiz Puntel), mas quase nada sobre as famílias dessas pessoas, do porquê do exílio e de que o exílio não era uma turnê pela Europa, não eram férias de luxo.

Meninos sem pátria, livro que acabei de ler, preencheu essa lacuna perfeitamente. Mas é ficção, você pode estar pensando aí, revirando os olhos. É ficção, mas com os pés cravadíssimos na realidade do período dos governos militares no Brasil (1964-1985). Com um adendo de luxo que os livros de história nem sempre conseguem ter: a ficção desperta a empatia, nos envolve na história de pessoas inventadas, mas que representam pessoas reais. Não a toa, terminei a leitura entre lágrimas…

O livro conta história da família de um jornalista da cidade de Canaviápolis. Um jornalista subversivo, que denunciava os abusos policiais e, por esta razão, teve seu jornal depredado e logo teve de buscar asilo político em outro país com sua família. Passaram pela Bolívia, Chile (que logo se tornaria também uma ditadura) e por fim, conseguiram alguns anos relativamente estáveis na França. Relativamente porque Zé Maria não parou de denunciar os abusos e as mortes do governo militar no exílio. Na França, ele passou a escrever para o jornal Le Monde.

 

Sendo o livro voltado para jovens, quem narra o período de fuga e medo é Marcão, o filho mais velho de Zé Maria e Tererê, irmão de Ricardo, Pablo (nascido no Chile) e de Nicole (nascida na França). E pelos olhos de um menino que teve a adolescência marcada pelo exílio, tentando entender o que era ser um menino sem pátria, vivendo entre línguas e culturas diversas de sua nativa, Meninos sem pátria é uma aprendizado fenomenal sobre a ditadura em suas 127 páginas, mais eficaz que muito manual de decoreba de nomes, datas e atos institucionais que nem sempre compreendemos quando temos a idade de Marcão e precisamos estudar e muitas vezes as informações só descem goela abaixo e viram apenas nomes esparsos em nossa memória.

Não li Meninos sem pátria na época do colégio (se eu tivesse lido uma releitura certamente me faria lembrar) apesar de ter sido uma devoradora da série Vagalume, fundamental no meu gosto pela leitura em uma época que eu tinha pouquíssimos livros em casa e que a biblioteca do Colégio Estadual Rotary era a minha principal fonte de leitura. Interessei-me pela leitura neste momento, não vou negar, após a notícia de que um colégio carioca teve o livro censurado, sob acusação, por parte dos pais dos alunos, de doutrinação comunista. Acredite: a palavra comunismo não é sequer mencionada. O livro é sobre ditadura, e ditaduras são ruins, não importa de onde venham. Ou não são? Falar sobre a ditadura é ser comunista? O que será que essas pessoas entendem por comunismo?

Talvez esses pais não tenham estudado o suficiente, ou realmente temam uma invasão comunista, do alto de seus smartphones e de suas fontes extremamente confiáveis no whatsapp.

 

“— Mas, como vocês sabem, estamos proibidos de pisar o solo brasileiro. Muitos de nós, para ser franco, acho que nunca comemoramos o 7 de Setembro. Muitos de nós temos vivido sempre fugindo de país em país, como se fossemos bandidos perigosos. Por isso, quero agradecer a Monsieur Fauré a oportunidade que ele nos deu, de aprendermos, com esta atividade, muitas coisas sobre o nosso país, sobre a nossa pátria.

Nessa hora, sem que eu pedisse, o pessoal irrompeu em uma vigorosa salva de palmas. Monsieur Fauré levantou-se e agradeceu de onde estava.

— E estamos fugindo, simplesmente porque nossos pais não concordam com o que está acontecendo no Brasil. Por isso, muitos de nós já se acostumaram à ideia de sermos chamados de meninos sem pátria. Sinceramente, nós não sabemos se vamos um dia voltar ao Brasil. Mas, se voltarmos, seja amanhã, depois, daqui a dois ou três anos, sei lá, nós somos muito gratos a vocês. Gratos pela hospitalidade, pelo carinho, pela amizade.

Nova salva de palmas espocou entre o pessoal.

— E, para terminar — eu pedia silêncio —, quero chamar aqui em cima do palco todos os brasileiros para cantarmos nosso Hino Nacional. E que este nosso canto seja não só um grito pela liberdade, para que pessoas nunca mais precisem abandonar seus países por pensarem de modo diferente, mas que seja também a maneira de expressarmos o nosso agradecimento à acolhida de vocês.

Quando terminei de falar, o pessoal já em cima do palco e o hino começando, eu não acreditava que tivesse falado tudo aquilo. Falara sem medo, sem gaguejar, com coragem, muita coragem.” (ps. 114 e 115)

 

 

Para que não fiquem dúvidas: leiam esse livro, recomendo muito. É uma leitura rápida, com um texto simples (especialmente pelo público ao qual ele é direcionado), mas nem por isso deixa de ser um grande aprendizado, uma valiosa lição, com a leveza sempre agradável que encontramos na literatura infantojuvenil.

 

Título: Meninos sem pátria

Autor: Luiz Puntel

Páginas: 128

Editora: Ática

Compre na Amazon: Meninos sem pátria.


novembro 20, 2018

[LETRAS] ÚRSULA E OUTRAS OBRAS, DE MARIA FIRMINA DOS REIS

 

Quanto mais Úrsula, melhor! A Edições Câmara, da Câmara dos Deputados, disponibiliza gratuitamente para download o livro Úrsula e outras obras, de Maria Firmina dos Reis. Integra a edição, com introdução do professor Danglei de Castro Pereira, o romance Úrsula, os contos Gupeva A Escrava, além da coletânea de poesias Cantos à beira mar. Vale muito a pena ler e conhecer Maria Firmina dos Reis e você pode começar agora, basta clicar aqui!

A Edições Câmara tem a satisfação de publicar esta coletânea com as obras de Maria Firmina dos Reis. O trabalho desta maranhense foi ignorado por mais de um século e continua pouco conhecido apesar das tentativas de resgate realizadas a partir da década de 1970.

Além de seu texto mais publicado, o romance Úrsula, incluímos o conto abolicionista A escrava e o indianista Gupeva, e sua reunião de poesias Cantos à beira-mar, todos pela sua inequívoca qualidade literária.

A importância da obra de Firmina, primeira escritora negra de que se tem notícia em nossa literatura, se deve ao pioneirismo na denúncia da opressão a negros e mulheres no Brasil do século XIX.

Antes do Navio negreirode Castro Alves, declamado pela primeira vez em 1868, Firmina já descrevia em seu livro Úrsula, de 1859, a crueldade do tráfico de pessoas sequestradas na África e transportadas nos porões dos “tumbeiros”.

Neste mesmo romance, a crítica da escritora abrange o retrato lamentável da condição feminina da época ao delinear personagens como o pai de Tancredo ou o comendador, tiranos não só de escravos, mas também de mulheres.

Maria Firmina foi uma voz profundamente legítima e dissonante que não encontrou acolhida e reconhecimento em seu tempo. Longe de fracassar, essa voz ressoa hoje cheia de significado, recriminando males que ainda assombram e permeiam nossa sociedade.

Assim,  visando  cumprir  nossa  missão  institucional  –  orientada  pela promoção  da  cidadania  e  fortalecimento  da  democracia  –,  oferecemos  a nossos leitores esta reunião de obras de Maria Firmina dos Reis, certos de que fazemos justiça a esta grande escritora rasileira incluindo-a em nossa série de clássicos.

 

 

Para quem nao abre mão do livro em papel, a Livraria da Câmara vende a edição impressa a um ótimo preço (comprei por R$ 7,00) e com frete grátis. No momento desta publicação, contudo, as vendas pela loja virtual estão suspensas.

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