março 08, 2019

[DIÁRIO] O MAR E A POESIA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Sinopse: “Com seleção e apresentação de Eucanaã Ferraz, esta antologia reúne poemas lapidares de uma das vozes mais marcantes e comoventes da literatura portuguesa. O mar é um dos elementos centrais da lírica de Sophia de Mello Breyner Andresen. As “praias lisas”, a “linha imaginária” e as “ondas ordenadas”, em seus poemas, simbolizam a mais profunda beleza, um segredo íntimo, “um milagre criado só para mim”. Nas cidades, sua poesia é associada à luta: a vida, no “vaivém sem paz das ruas”, é “suja, hostil, inutilmente gasta”. A atuação de Sophia em resistência ao salazarismo se firmou não apenas em sua escrita, com caráter combativo, mas também na Assembleia Constituinte, ao se eleger deputada pelo Partido Socialista, em 1975. Esta antologia joga luz sobre a dimensão concreta e ao mesmo tempo misteriosa de uma das vozes mais cultuadas da literatura portuguesa. Seja para denunciar o mundo sombrio, seja para tratar de praias radiantes, a poeta ― com sintaxe direta e imagens surpreendentes ― alerta: “por mais bela que seja cada coisa/ Tem um monstro em si suspenso.””

 

A primeira impressão que temos ao ler as poesias de Sophia de Mello Breyner Andresen é de encantamento. Aconteceu mais de uma vez de eu interromper a leitura, fechar o livro e pensar: como é que eu nunca havia conhecido essa escritora em tantos anos de estudo e de leituras? Como ninguém nunca falou dela para mim? Hoje, depois de ter lido algumas vezes as poesias de Sophia, já não me incomoda não tê-la conhecido antes, pois nunca é tarde para se apaixonar por um novo autor e por sua obra.

 

Assista/ouça: “Um dia” (Coral e outros poemas), de Sophia de Mello Breyner Andresen:

 

Os portugueses têm uma forte ligação com o mar e a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen segue, em grande parte, essa temática. Você lê e sente o cheiro do mar, ouve o barulho das ondas… Ler Sophia é como chegar à praia depois de um grande período de ausência.

 

Mar

I

De todos os cantos do mundo

Amo com um amor mais forte e mais profundo

Aquela praia extasiada e nua,

Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II

Cheiro a terra as árvores e o vento

Que a primavera enche de perfumes

Mas neles só quero e só procuro

A selvagem exalação das ondas

Subindo para os astros como um grito puro.

 

Organizada por Eucanaã Ferraz, Coral e outros poemas (Companhia das Letras, 2018) reúne poemas escritos entre 1944 e 1997, incluindo poemas dispersos e alguns inéditos. Os principais temas são memória, morte, mar (como já dito anteriormente), beleza e mistério.

 

Terror de amar num sítio tão frágil como o mundo.

 

Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.

 

Penélope

 

Desfaço durante a noite o meu caminho.

Tudo quanto teci não é verdade,

Mas tempo, para ocupar o tempo morto,

E cada dia me afasto e cada noite me aproximo.

 

Prece

 

Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.

 

Para ti criarei um dia puro

Livre como o vento repetido

Como o florir das ondas ordenadas.

 

Quem me roubou o tempo que era um

quem me roubou o tempo que era meu

o tempo todo inteiro que sorria

onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro

e onde por si mesmo o poema se escrevia.

Setembro de 2001.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen era apaixonada pela poesia brasileira, especialmente pelos autores João Cabral de Melo Neto e Cecília Meireles (dentre outros). Foi a primeira mulher portuguesa a receber o prêmio Camões, em 1999. Além de poesia, Sophia também escreveu contos, ensaios e literatura infantil. Foi deputada na Assembleia Constituinte (1975) pelo Partido Socialista e compôs resistência à ditadura em Portugal. A escritora faleceu aos 84 anos, em 2004, na cidade de Lisboa. Este ano, 2019, marca o centenário de seu nascimento, o que, espero, traga novas edições e reedições de sua obra para o Brasil.

 

Brasil 77

Em vosso e meu coração

Manuel Bandeira

Brasil dos Bandeirantes

E das gentes emigradas

Em tuas terras distantes

As palavras portuguesas

Ficaram mais silabadas

Como se nelas houvesse

Desejo de ser cantadas

Brasil espaço e lonjura

Em nossa recordação

Mas ao Brasil que tortura

Só podemos dizer não

 

Brasil de Manuel Bandeira

Que ao franquismo disse não

E cujo verso se inscreve

Neste poema invocado

Em vosso e meu coração

Brasil de Jorge de Lima

Bruma sonho e mutação

Brasil de Murilo Mendes

Novo mundo mas romano

E o Brasil açoriano

De Cecília a tão secreta

Atlântida encoberta

Sob o véu dos olhos verdes

Brasil de Carlos Drummond

Brasil do pernambucano

João Cabral de Melo que

Deu à fala portuguesa

Novo corte e agudeza

Brasil da arquitectura

Com nitidez de coqueiro

Gente que fez da ternura

Nova forma de cultura

País da transformação

Mas ao Brasil que tortura

Só podemos dizer não

 

Brasil de D. Helder Câmara

Que nos mostra e nos ensina

A raiz de ser cristão

Brasil imensa aventura

Em nossa imaginação

Mas ao Brasil que tortura

Só podemos dizer não

 

1977

 

 

 

Título: Coral e outros poemas

Autora: Sophia de Mello Breyner Andresen

Seleção e apresentação: Eucanaã Ferraz

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 392

Compre na Amazon: Coral e outros poemas.

 

REFERÊNCIA

Poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen são publicados no Brasil. Globo News Literatura, programa exibido em 28 de abril de 2018.

 

 

fevereiro 28, 2019

[DIÁRIO] EM NÁPOLES COM ELENA FERRANTE: A AMIGA GENIAL

Sinopse: “A reclusa autora italiana que conquistou a crítica internacional tem sua série napolitana lançada no Brasil pela Biblioteca AzulAclamada pela crítica e pelo público, Elena Ferrante se tornou conhecida por escrever sobre questões íntimas com muita clareza, sem se expor para divulgar seus livros. Sua ficção parece apresentar traços autobiográficos, mas não é possível identificar os pontos comuns entre sua vida e sua obra, uma vez que a escritora se recusa a comentar sua intimidade.A Série Napolitana, formada por quatro romances, conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas. O primeiro, A amiga genial, é narrado pela personagem Elena Greco e cobre da infância aos 16 anos. As meninas se conhecem em uma vizinhança pobre de Nápoles, na década de 1950. Elena, a menina mais inteligente da turma, tem sua vida transformada quando a família do sapateiro Cerullo chega ao bairro e Raffaella, uma criança magra, mal comportada e selvagem, se torna o centro das atenções. Essa menina, tão diferente de Elena, exerce uma atração irresistível sobre ela.As duas se unem, competem, brigam, fazem planos. Em um bairro marcado pela violência, pelos gritos e agressões dos adultos e pelo o medo constante, as meninas sonham com um futuro melhor. Ir embora, conhecer o mundo, escrever livros. Os estudos parecem a melhor opção para que as duas não terminem como suas mães entristecidas pela pobreza, cansadas, cheias de filhos. No entanto, quando as duas terminam a quinta série, a família Greco decide apoiar os estudos de Elena, enquanto os Cerrulo não investem na educação de Raffaella. As duas seguem caminhos diferentes. Elena se dedica à escola e Raffaella se une ao irmão Rino para convencer seu pai a modernizar sua loja. Com a chegada da adolescência, as duas começam a chamar a atenção dos rapazes da vizinhança. Outras preocupações tornam-se parte da rotina: ser reconhecida pela beleza, conseguir um namorado, manter-se virgem até encontrar um bom candidato a marido.Mais que um romance sobre a intensidade e complexa dinâmica da amizade feminina, Ferrante aborda as mudanças na Itália no pós-guerra e as transformações pelas quais as vidas das mulheres passaram durante a segunda metade do século XX. Sua prosa clara e fluída evoca o sentimento de descoberta que povoa a infância e cria uma tensão que captura o leitor.”

 

Há até bem pouco tempo o nome Elena Ferrante não dizia muita coisa para mim. Sabia que se tratava de uma autora que eu talvez leria, talvez não, mas eu não fazia ideia da febre que envolvia essa escritora e sua tetralogia (veja a hashtag #ferrantefever), menos ainda que ela (ou talvez ele, duvido, mas há a possibilidade) era uma escritora reclusa e que já fizeram até uma “séria” investigação para saber quem é, realmente, Elena Ferrante.

 

Saiba mais: A verdade sobre o caso Elena Ferrante, por El País.

Leia também: Uma noite na praia, de Elena Ferrante.

 

Com a série da HBO, My Brilliant Friend, exibida no final do ano passado, o nome Elena Ferrante voltou a circular pela internet e eu fiquei encantada com as personagens principais, Lila e Lenu, e também por todo aquele contexto pós Segunda Guerra Mundial, em uma Nápoles não tão glamurosa quanto a que nos vem em mente quando ouvimos falar desse lugar. A tetralogia napolitana conta a história de gente comum, de uma periferia violenta de uma Itália que estava engatinhando para uma realidade mais pacífica, seja lá o que isso queira dizer na prática.

Tentei não assistir aos episódios, mas as reprises em horário vespertino quando eu estava de férias foram tentação demais para que eu pudesse resistir. Tentei não ver com tanta regularidade, deixei de ver a série após a fase da passagem da infância para a adolescência, com medo de que pudesse prejudicar a minha leitura, mas A Amiga Genial (Biblioteca Azul, 2015) prende tanto, mais tanto MESMO, que a única ressalva que eu faço para quem ainda estiver vivendo o dilema “leio primeiro ou assisto” é de que a série é muito fiel ao primeiro livro, então pode ser um incômodo (para mim, não foi) ler quase exatamente o que assistiu. É como assistir a série Pride and Prejudice (BBC 1995) e só depois ler Orgulho e Preconceito. A parte uma cena ou outra, o livro está todo ali na tela, dividido em episódios.

A Amiga Genial começa com Lenu já mais velha, recebendo a notícia de que sua amiga Lila teria simplesmente desaparecido, sem deixar qualquer vestígio de sua existência. Não havia roupas, sapatos e até as fotos em que ela figurava foram cortadas. Com raiva, Lenu decide dar o troco: Lila podia tentar, mas não ia desaparecer facilmente. Ela escreveria a história da amiga, delas duas, com todos os detalhes de que se lembrava.

 

Elisa del Genio como “Lenu” e Ludovica Nasti como “Lila” em “My Brilliant Friend” (HBO, 2018).

 

“Como sempre Lila exagerou, pensei.

Estava extrapolando o conceito de vestígio. Queria não só desaparecer, mas também apagar toda a vida que deixara para trás.

Fiquei muito irritada.

Vamos ver quem ganha desta vez, disse a mim mesma. Liguei o computador e comecei a escrever cada detalhe de nossa história, tudo o que me ficou na memória.” (p. 17)

 

A partir daí, Lenu e nós, leitores, viajamos no tempo, para a periferia de Nápoles dos anos 1950, quando ela e Lila eram crianças. Toda a história é narrada por Lenu, Elena Greco, e o primeiro livro mostra a infância e adolescência das duas.

 

“ Na época já havia algo que me impedia de abandoná-la. Não a conhecia bem, nunca tínhamos trocado uma palavra, mesmo competindo continuamente entre nós, na classe e fora dela. Mas eu sentia confusamente que, se tivesse fugido com as outras meninas, lhe teria deixado algo de meu que ela nunca mais me devolveria.” (p.26)

 

A Amiga Genial é um livro com poucos diálogos, tendo em vista o tamanho. Longe de ser cansativo, pelo contrário, por toda a leitura me senti como se estivesse ouvindo uma senhora contar suas alegrias e tristezas para mim. Elena Ferrante é extremamente detalhista, mas sua escrita é cirúrgica: embora os quatro livros da série somem mais de mil e setecentas páginas (!) até o momento (estou na metade do segundo livro) a leitura está fluindo muito bem. Falando bem claramente, estou devorando os livros e dói ter de parar de ler para fazer qualquer outra coisa.

Esse livro toca em temas bastante delicados ao público feminino, pois aqui as mulheres são protetoras e cruéis na mesma medida. Lila e Lenu são amigas, mas além do carinho e da admiração entre as duas, há uma rivalidade pesadíssima. Como o livro é narrado pela Lenu, que tem uma relação distante e de asco com a mãe dela, o “ser mulher desde pequena” é uma das nuances mais fortes dessa primeira parte da série e também o que mais me chamou a atenção, obviamente.

 

Margherita Mazzucco como “Lenu” e Gaia Girace como “Lila” em “My Brilliant Friend” (HBO, 2018).

 

“Lila é mais bonita que eu. Então eu era a segunda em tudo. E torci para que ninguém jamais percebesse.” (p. 45)

 

 

Do livro à tela, por trás das câmeras da adaptação da HBO:

 

Eu não saberia resumir essa história ou apontar tudo o que ela tem de maravilhoso com apenas uma única leitura, em um único texto. O que posso dizer é que Elena Ferrante virou quase uma obsessão literária para mim, quero ler todos os seus livros, aprender com a sua escrita limpa e profunda, e me reconhecer nos pontos fortes e nas fraquezas de suas personagens, porque isso é inevitável.

 

“ ‘Sabe o que é a plebe, Greco?’

‘Sei: a plebe, os tribunos da plebe, os Graco.’

‘A plebe é uma coisa muito feia.’

‘Sim.’

‘E se alguém quer continuar sendo plebe, ele, seus filhos e os filhos de seus filhos não serão dignos de nada. Deixe Cerullo pra lá e pense em você.’” (p. 65)

 

Resguardadas as devidas proporções entre ficção x realidade, Brasil x Itália etc., eu me vi muito em A Amiga Genial. Diria até que eu sou Lenu e tenho minha própria Lila, a quem eu amo, mas já invejei muito e ainda invejo por ela ser, para mim, perfeita em tudo. Até ler esse livro eu pensava que existia um limite rígido entre admiração e inveja, mas talvez eu tenha sido manipulada pelo maniqueísmo comum da nossa sociedade. No mais, preciso continuar em Nápoles com Elena Ferrante para saber como termina essa história.

 

“Temia que lhe acontecessem coisas, boas ou ruins, sem que eu estivesse presente. Era um temor antigo, um temor que eu nunca superara: o medo de que, perdendo partes de sua vida, a minha perdesse intensidade e centralidade.” (p. 207)

 

Um trecho de uma cena corrida, mas que eu considero como um dos mais brilhantes do livro A Amiga Genial é o que eu reproduzo abaixo. Antes de explicar o porquê, já aviso que não é spoiler o que eu vou dizer, pois é algo que o leitor vai projetando logo no começo da história e aqui, como em muitos outros livros, o conceito de spoiler é discutível. A tetralogia napolitana definitivamente não é um thriller com diversos pontos de virada etc., que teria a leitura prejudicada com revelações da trama. Ele nos tira o fôlego por outros motivos, mesmo o enredo sendo um pouco previsível em algumas partes. Enfim, quando todos pensamos que Lila é a amiga genial, pois ela é extraordinária em sua rebeldia e em sua facilidade de aprendizado, ela diz para Lenu “ei, você é minha genial”. Essa fala da Lila, quer o leitor ou Lenu aceite, quer não, mina aquela chata dicotomia boa e má, sensata e passional etc., ou até questionamentos mais simplórios que acabam por roubar a cena do que é realmente importante para a história, como em Dom Casmurro, de Machado de Assis, com o insistente questionamento Capitu traiu ou não traiu Bentinho?

Quando Lila diz que Lenu é a amiga genial a gente se dá conta de que é mesmo, aquilo é verdade. As duas são geniais, cada qual a seu modo. Se eu já não estivesse perdidamente apaixonada pela Elena Ferrante, ela me ganharia definitivamente com essa cena.

“ ‘Qualquer coisa que aconteça, continue estudando.’

‘Mais dois anos: depois pego o diploma e terminou.’

‘Não, não termine nunca: eu lhe dou dinheiro, você precisa estudar sempre.’

Dei um risinho nervoso e disse:

‘Obrigada, mas a certa altura a escola termina.’

‘Não para você: você é minha amiga genial, precisa se tornar a melhor de todos, homens e mulheres.’” (p. 312)

 

Sobre a pobreza, sobre não pertencer ou não querer pertencer ou continuar na pobreza, o trecho a seguir também é marcante:

“O que era a plebe eu soube naquele momento, e com muito mais clareza do que quando, anos antes, Oliviero me fizera aquela pergunta. A plebe éramos nós. A plebe era aquela disputa por comida misturada a vinho, aquela briga por quem era servido antes e melhor, aquele pavimento imundo sobre o qual garçons iam e vinham, aqueles brindes cada vez mais vulgares. A plebe era minha mãe, que tinha bebido e agora se deixava levar com as costas contra o ombro de meu pai, e ria de boca escancarada às alusões sexuais do comerciante de metais. Todos riam, inclusive Lila, com o ar de quem tinha um papel e o desempenharia até o fundo.” (p. 330)

 

Por hora, sigo com a leitura de A História do Novo Sobrenome, segundo livro da tetralogia, que retoma a história de onde A Amiga Genial parou, com o mesmo poder de nos prender às páginas como o seu antecessor. Na lista de desejados, alguns livros citados em A Amiga Genial: Mulherzinhas; Três homens num barco; Bruges, a morta; Os irmãos Karamazov; dentre outros títulos e autores. Leiam tudo, leiam Elena Ferrante e me chamem para um café para conversarmos sobre essa autora maravilhosa.

 

 

Veja o trailer da série My Brilliant Friend (legendado):

 

Título: A Amiga Genial

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Maurício Santana Dias

Editora: Biblioteca Azul

Páginas: 336

Compre na Amazon: A Amiga Genial.

fevereiro 21, 2019

[CONTOS] COMO UM ROMANCE DE ÉPOCA: DETALHES SOBRE OS CONTOS DO LIVRO IMPRESSO

Sinopse: “Que atire o primeiro livro aquele que nunca suspirou por uma história de amor… É simplesmente mágico e extraordinário o poder que essas histórias têm! De época, clássicas, históricas, contemporâneas… Não importa: queremos chegar às últimas páginas, quando um beijo, um pedido de casamento ou uma declaração de amor faz tudo ficar perfeito! Essa coletânea é uma singela homenagem a essas histórias capazes de nos transportar para outra realidade, arrancando de nós muitos suspiros (e algumas risadas também, por que não?). Aqui tudo será como em um romance de época: o final feliz é requisito fundamental e indispensável. A edição impressa contém o conto “Anne”, uma versão moderna de Persuasão, de Jane Austen.”

 

Há algumas semanas eu publiquei no facebook e no instagram uma série de postagens sobre os contos da coletânea Como um romance de época e outros contos. Para quem perdeu alguma coisa, ou não viu nenhuma das publicações, compilo abaixo todos os detalhes que envolveram a escrita e publicação desse livro que é um amorzinho de tão especial!

 

 

Começando pela introdução, “Uma coletânea de amores desse e de outros tempos”, o meu objetivo com essa publicação foi fazer uma espécie de homenagem às histórias de amor romântico sem erotismo. Neste livro existem fragmentos de histórias reais, de mulheres da minha família, que há muito tempo eu planejava colocar no papel.

No princípio eu não imaginava que faria outra coletânea só de contos meus depois de ter publicado “O dia em que conheci meu pai pela segunda vez”. Mas havia algumas histórias povoando a minha cabeça, pedindo para serem contadas… Alguns contos do livro foram pensados a partir de editais de antologias os quais eu não consegui cumprir o prazo. “A mil ave-marias de um casamento” é um dos exemplos dessa minha falta de planejamento para cumprir prazos curtos (na verdade, qualquer tipo de prazo rígido que envolva escrever).

Foi só quando eu vi a capa pré-pronta que a Natália Saj postou no grupo do facebook Wattpad Brasil (acho que foi esse, já não tenho certeza) que eu tive uma espécie de “estalo”. Aquela moça, de roupa antiquada, cabelo curto, chapéu, um castelo ao fundo, em uma imagem que parecia um papel de carta, daqueles que eu gostava de colecionar há alguns (vários) anos, era, com certeza, a personagem de uma história sem nome que eu tinha na cabeça. Aquela era Bianca, que se percebia, “de uma hora para outra”, apaixonada por Romeu (vou falar mais sobre eles na próxima postagem).

Inicialmente o nome do livro era, simplesmente, “Um romance de época”. O problema é que eu não sou romancista (!). Tenho mais facilidade e interesse, na escrita, por histórias curtas. Mas isso foi fácil de resolver, quando a ideia para a coletânea e quais seriam os contos já estava decidida, a Natália fez as alterações necessárias na capa e eu pude concluir as histórias com a ajuda da Débora e da Talita, minhas super-amigas-leitoras-beta, e depois da Clara e do Raphael, meus incríveis revisores. Com tudo pronto, o apoio e comentários dos leitores e influenciadores digitais me fizeram ter ainda mais vontade de ter esse livro impresso, e nessa fase o projeto gráfico da Jessica Macedo e o serviço de impressão da Lura Editorial transformaram a coletânea em um livro impresso tão lindo quanto os que ficam expostos nas melhores livrarias.

Por mais que o formato digital seja incrível e muito acessível, o escritor quer ter o seu projeto em mãos. Para quem é apaixonado por livros, o cheiro do papel e poder tocar as páginas é uma sensação insubstituível.

 

 

Como um romance de época é o conto que dá o tom da coletânea (pelo menos foi essa a minha intenção ao escrevê-lo). É uma história curta, a mais curta do livro, e a mensagem principal é a de que o amor pode estar mais perto do que se imagina. Bianca, a “moça da capa”, acaba de sair do salão de cabeleireiro com seu novo corte de cabelo inspirado na Lady Mary, de Downton Abbey, enquanto Romeu aproveita para comprar um livro raro em um sebo da cidade. São pessoas simples, ela é confeiteira e ele, mecânico de motos. O amor aos livros os une, além do fato de que já são conhecidos de longa data. Bianca (em homenagem aos romances de banca) está lendo um livro da Julia Quinn sonhando viver um romance tão doce quanto aquele. Romeu (me parece um nome mais que adequado para um mocinho, a ponto de dispensar maiores explicações) sente falta de um amor real em sua vida. Em um tropeço, uma troca de olhares diz mais do que eles precisavam para ter certeza de que algo novo estaria prestes a acontecer. “Algo poderoso, como uma folha de cai de uma árvore aparentemente sem motivo algum.” Mais clichê impossível, eu reconheço. Mas tem dias em que tudo o que precisamos é um bom clichê para encarar a vida com mais suavidade e amor.

O curioso desse conto é que ele foi submetido a um edital para publicação de contos românticos, mas foi recusado. A justificativa era de que faltavam mais indícios de um relacionamento prévio entre o casal ou algo do tipo. Eu ainda não estava muito certa sobre a coletânea, quantos contos teria, ou se ela realmente o projeto seria realizado (insegurança nível máximo!). A recusa, no entanto, me fez prosseguir com a ideia, pois eu sabia que esse conto faria total sentido para os leitores apaixonados por esse tipo de enredo que remete aos livros de época, o que talvez não fosse o caso específico daquele edital.

 

A Mil Ave-Marias de um Casamento é a primeira história que eu escrevi que não se passa no século XXI, portanto, minha primeira história “de época”. Passei a admirar ainda mais as romancistas dessa temática porque é bem difícil ambientar uma história em uma época que não vivemos, por mais que as pesquisas e as leituras que façamos ajudem um pouco. O mais gostoso de uma história de época, e isso vale para escrita ou leitura, é poder usar e abusar da cordialidade, cavalheirismo e da não possibilidade de um diálogo muito aberto entre o casal, uma vez que isso não era socialmente aceitável há algum (bastante) tempo.

“A Mil Ave-Marias de um Casamento” é outra história pensada para participar de um edital para uma coletânea de contos de época, mas eu não consegui cumprir o prazo de submissão. Como eu já era apaixonada pelo enredo mesmo antes da história estar propriamente escrita, resolvi escrevê-la mesmo depois do prazo para, talvez, publicar no meu blog ou em e-book na Amazon, caso o conto tivesse fôlego que justificasse uma publicação solo.

Depois de escrito e editado, eu já sabia que publicaria uma coletânea só de contos românticos, então ficou decidido que “A Mil Ave-Marias de um Casamento” seria uma das histórias de “Como um romance de época e outros”, até por ser a história que mais se assemelha com as narrativas do gênero romance de época.

O conto fala sobre Maria Rosa, única filha do casal Castilho, que já está passando da hora de se casar (segundo a mãe dela). Eles moram na zona rural, em um lugar bem calmo, quase escondido, mas as coisas começam a se movimentar com a chegada de um primo distante da família, vindo do Rio de Janeiro.

A Mil Ave-Marias de um casamento é uma história que tem uma leve inspiração em “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, e também em uma história real, de pessoas da minha família. Além disso, a personagem principal é leitora de folhetins e no decorrer da história está lendo “Senhora”, de José de Alencar.

 

Desde que escrevi “Anne”, que é uma fanfic (ficção de fã) de “Persuasão”, eu tive vontade de escrever mais uma versão curtinha de algum livro de Jane Austen. A escritora inglesa descreveu Emma como “linda, inteligente, e rica”. Por aqui, a mocinha também é linda e inteligente, mas é pobre. E NEGRA.

Emma tem o estilo interiorano de “Anne”, com a diferença de que a protagonista da vez é uma sitiante vendedora de queijos artesanais, seu pai é dono de um alambique e o mocinho do conto é um professor de matemática. Para quem não conhece a história original, que, aliás, eu recomendo muitíssimo, Emma é uma moça muito inteligente e casamenteira, mas que tem um pouco de dificuldade de perceber aquilo que está debaixo do próprio nariz. E isso inclui seus próprios sentimentos.

 

Noiva por correspondência é o segundo conto da coletânea em que a história não acontece nos tempos atuais. Não sei se posso usar o termo “de época”, mas aqui o romance acontece em meados do século XX.

Esse conto também teve inspirações em pessoas e fatos da minha família. Nele temos a história de Geni, que fica noiva por correspondência, tudo arranjado pelo pai dela depois de uma confusão que quase colocou a honra da moça em risco (mocinha de interior, sabe como é). “Noiva por correspondência” é uma história bem especial para mim pois, dentre outras coisas, usei elementos bíblicos do livro de “Cânticos de Salomão”, que a minha mãe gostava muito. É uma história de amores e recomeços, sobre confiar e esperar o tempo certo das coisas se acertarem.

 

“Nove entre dez suspiros com os quais Malu começava o dia eram direcionados a Colin Firth. Ele era a primeira imagem que ela via ao acordar, tendo em vista o pôster do ator como Mr. Darcy pendurado em uma moldura dourada bem em frente de sua cama.

— Ah, Colin, bom dia! — Ela dizia todas as manhãs” (p. 63)

Lembro quando a Talita me deu o primeiro feedback sobre esse conto, “Um amor como Colin Firth”, em que ela dizia que a história parecia muito, em essência, com Austenlândia. Fiquei muito feliz, porque sou fã de Austenlândia e de todas as histórias que retratam as loucuras de todas nós, fãs de Jane Austen, apaixonadas pelas adaptações, séries e filmes das obras dessa escritora inglesa maravilhosa!

Em “Um amor como Colin Firth”, Malu sonhava em conhecer um homem tão perfeito quanto o ator britânico, porque é uma verdade universalmente conhecida que todo mundo ama Colin Firth (eu devia ter colocado uma frase desse tipo no conto, mas agora já era!). Qual não foi a surpresa quando, nos corredores de sua faculdade, ela tropeça em um rapaz idêntico ao seu ator favorito! Malu não teve outra saída, se jogou nos braços do desconhecido e o beijou sem ao menos pestanejar! Quando deu por si, já tinha cometido a loucura, então saiu correndo sem dizer uma palavra sequer. A única coisa que ela sabia sobre o seu Colin Firth brasileiro e, aparentemente universitário, é que ele era um policial militar, pois estava fardado.

 

 

Namoro na pracinha  é o último conto do e-book, e penúltimo do formato impresso (que inclui Anne, publicado em e-book em 2017). Aqui o limiar entre conto e crônica é bem sutil, e a história é bem curtinha, tal como o primeiro conto do livro.

Namoro na pracinha fala sobre amor na idade madura e sobre não ter de abrir mão do amor para se realizar profissionalmente. É sobre se inspirar em eternos namorados, trazendo para a própria realidade essa inspiração.

 

FAIXA BÔNUS <3

A edição impressa de Como um romance de época e outros contos inclui Anne, um conto moderno e interiorano de Persuasão, de Jane Austen. Anne foi a minha primeira “fanfic” (ficção de fã) e desde a sua publicação, em geral tenho recebido ótimas avaliações sobre essa história.

Veja a sinopse: “Anne pertence a uma importante, porém empobrecida, família do interior de Minas Gerais. No passado, foi apaixonada por Fred, um inteligente e ambicioso rapaz de família humilde. Teria se casado com ele, mas foi persuadida por sua família e recuou do compromisso firmado anteriormente. Vários anos se passam até que um novo Fred volta ao lugar onde foi desprezado pela família Elias. Agora, ele é um homem bem sucedido, um veterinário respeitado e de boa situação financeira. “Anne” é uma releitura moderna de Persuasão, de Jane Austen: a história de um amor que precisará vencer as barreiras do orgulho e do ressentimento para ser vivido.”

Na página do livro na Amazon é possível ler algumas das resenhas que esse conto já recebeu.

 

Como um romance de época e outros contos está disponível nos formatos digital e impresso na Amazon.

 

 

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