abril 08, 2019

[DIÁRIO] Cultura Negra – v. 1 – Festas, Carnavais e Patrimônios Negros

Abrangente recorte temporal e espacial, com 27 estudos que conferem visibilidade às vozes “esquecidas” e às trajetórias políticas silenciadas, revelando as múltiplas experiências socioculturais de homens e mulheres negros em seus dilemas, desafios, alegrias e dissabores cotidianos.

Em dois volumes, mostra formas variadas de viver, denunciar e enfrentar a opressão e as desigualdades raciais e de forjar laços de pertencimento e identidades ou estratégias para afirmar direitos e ampliar a cidadania antes e, sobretudo, após a abolição da escravidão. Obra que atende à reivindicação dos movimentos sociais negros do Brasil em prol do direito à memória, à história, à preservação e à valorização de seus bens culturais produzidos no contexto da diáspora.

Desde a lei 10.639, de 2003, que obriga o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, acompanha-se a revisão nos currículos escolares da valorização da história de luta dos negros no país. “Cultura negra” contribui com subsídios aos que desejam trabalhar com o tema na história e na escola. Oferece caminhos por meio de festas, carnavais, músicas, perfomances, patrimônios e trajetórias de artistas e intelectuais negros para se pensar cultura(s) negra(s) como arena de conflitos e transformação de relações de dominação, como canal de combate ao racismo e fortalecimento das identidades.

Por muitos anos estudiosos acionaram a ideia de cultura popular referindo-se às manifestações culturais e folclóricas que constituiriam a nacionalidade brasileira, quase sempre associando-a à valorização da miscigenação e à afirmação da democracia racial.

Para os autores, essas narrativas trazem armadilhas e efeitos nefastos, principalmente na negação do racismo e à invisibilização do protagonismo de pessoas negras na formação do Brasil. Este livro vai em sentido oposto: desvincula-se da ideia de cultura popular e assume a de cultura negra, como conceito dinâmico e inscrito nas práticas e experiências plurais de seus personagens.

No primeiro volume, a festa negra emerge em expressões que transformam, no tempo presente, a memória do cativeiro e a canção escrava em espetáculo, patrimônio cultural, local de conflito, de luta e afirmação da negritude.

No segundo volume, contribuindo de forma inovadora para a abertura de novos campos de investigação, as atenções são dirigidas para sujeitos sociais que, na prática, criaram novos sentidos de cultura e festas negras. Homens e mulheres, em geral esquecidos até pouco tempo, demonstram, por suas trajetórias e ação intelectual, como o campo cultural está repleto de iniciativas de combate ao racismo e de contraposições às relações de dominação, reconstruídas no pós-Abolição. Sob a ação desses sujeitos, definidos como intelectuais, os campos musical, teatral e educacional tornam-se importantes canais de afirmação de direitos e discussão das identidades negras. Mais ainda contribuem para o entendimento de uma outra história do Brasil republicano e suas lutas pela cidadania.

 

 

A Eduff me presenteou com os dois volumes da coletânea de artigos Cultura Negra, um importante apanhado histórico para que possamos repensar e atualizar as nossas leituras e também, no caso dos professores, a forma de ensinar história do Brasil,  especificamente no que concerne à valorização da luta e da cultura afro-brasileira. Apesar da lei 10.639/2003 e dos resultados que estamos tendo com as ações afirmativas, que contribuíram para o ingresso de um contingente maior de negros nas universidades brasileiras, muito do que se reproduz no dia a dia das escolas sobre o negro no Brasil continua restrito à escravidão e/ou à abolição. Tudo o mais fica esquecido, injustamente. Mesmo no dia da consciência negra, uma data que deveria fomentar discussões sobre a cultura negra e ampliar os horizontes sobre essa temática, vemos reproduzidos os mesmos discursos sobre escravidão e abolição, ignorando o protagonismo e a luta dos negros ao longo dos séculos no nosso país.

O volume 1 centra-se nas festividades e seus contextos históricos, e é dividido em 3 partes:

No primeiro volume, ganham destaque instituições e associações culturais e políticas negras dos tempos da escravidão, mas principalmente dos tempos do pós-Abolição, como as escolas de samba, congados, jongos, bois e maracatus.

Na Parte I, Festas da liberdade, são estudados os festejos e as comemorações que, com a participação direta da população negra, organizaram e celebraram as lutas da Abolição nos artigos de Martha Abreu e Hebe Mattos, Juliano Custódio Sobrinho, Luiz Gustavo Santos Cota, Renata Figueiredo Moraes. O texto de Silvia Cristina Martins de Souza, sobre o jongo nos teatros do século XIX, evidencia outros usos e trânsitos da festa negra, que podem recriar estereótipos e hierarquias raciais no mundo cultural.

Na Parte II, Carnavais e mobilização negra, os trabalhos distanciam-se da ideia de que as festas são “válvulas de escape”. As escolas de samba podem ser vistas como locais de mobilização, de combate ao racismo e de afirmação de direitos e identidades negras, conforme os artigos de Lyndon de Araújo Santos, Guilherme José Motta Faria e Eduardo Pires Nunes da Silva.

Na Parte III, Patrimônios negros, são discutidos os caminhos de transformação do legado cultural da escravidão, como irmandades, jongos, congados, festas do boi e maracatus, em patrimônios culturais reconhecidos coletivamente e nacionalmente.

Bem distantes da ideia de folclore ou de sobrevivências culturais sem sentido, os artigos da Parte III abrem um novo campo de investigação historiográfico a partir da renovação e recriação do patrimônio cultural negro. Nesta parte encontram-se os textos de Larissa Viana, Luana da Silva Oliveira, Elaine Monteiro, Álvaro Nascimento, Lívia Monteiro, Carolina de Souza Martins, Ivaldo Marciano de França Lima e Isabel Cristina Martins Guillen.

 

Cultura Negra: Volumes 1 e 2.

 

Sobre os organizadores

Robério S. Souza – Professor titular de História do Brasil da Universidade do Estado da Bahia.

Martha Abreu – Professora do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense. Autora de diversos trabalhos sobre cultura negra, patrimônio cultural e pós-abolição.

Giovana Xavier – Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, blogueira, coordenadora do Grupo Intelectuais Negras.

Eric Brasil – Professor da Unilab. Autor de “A Corte em festa: experiências negras em carnavais do Rio de Janeiro (1879-1888)”. Pesquisa experiências negras em perspectiva transacional.

Livia Monteiro – Professora no Centro Universitário Celso Lisboa. Autora de tese sobre as festas de Congada em Minas Gerais. Produtora e roteirista do documentário “Dos grilhões aos guizos: festa de maio e as narrativas do passado”.

 

 

Cultura negra – v. 1 – Festas, carnavais e patrimônios negros
Série Pesquisas, v. 6a
Autores: Martha Abreu, Giovana Xavier, Lívia Monteiro e Eric Brasil (Orgs.)
Páginas: 428
Formato: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-228-1311-7
Ano de publicação: 2018
Idioma: Português

Leia o sumário e a apresentação clicando aqui.

Compre o livro clicando aqui.

Veja também: Cultura negra – v. 2 – Trajetórias e lutas de intelectuais negros

março 29, 2019

[LANÇAMENTO] ESCRITORAS DO BRASIL: A MULHER MODERNA, DE JOSEFINA ÁLVARES DE AZEVEDO

Sinopse: “Primeiro volume da Coleção Escritoras do Brasil, A mulher moderna reúne textos de Josefina Álvares de Azevedo (1851-1913), jornalista, escritora e precursora do feminismo no Brasil.

Organizada por Maria Helena de Almeida Freitas e Mônica Almeida Rizzo Soares, a obra contém artigos da autora, originalmente publicados no periódico A família, fundado por ela em 1888, e enfeixados posteriormente no livro A mulher moderna – trabalhos de propaganda, editado no Rio de Janeiro em 1891.

A autora pugnava pela educação da mulher como ferramenta essencial para a sua emancipação. Tanto em artigos publicados no seu jornal quanto na comédia de costumes O voto feminino – de 1890 e presente no volume –, ela defendia a causa do direito da mulher ao voto.

A Coleção Escritoras do Brasil, coordenada pela Biblioteca Acadêmico Luiz Viana Filho, do Senado Federal, tem o propósito de divulgar o trabalho intelectual de escritoras de pouca presença no cânone literário nacional.”

 

O Senado Federal está organizando uma série de livros que visa resgatar a memória e a produção literária de mulheres que acabaram apagadas do cânone literário ao longo dos anos, muito em razão, obviamente, do machismo presente em nossa sociedade. O primeiro volume, A mulher moderna, de Josefina Álvares de Azevedo, já está disponível para compra ou download gratuito clicando neste link. 

 

Veja o vídeo da TV Senado sobre a Coleção Escritoras do Brasil:

 

Josefina Álvares de Azevedo (1851-1913), professora, jornalista e escritora, foi uma incansável defensora dos direitos políticos femininos no Brasil, afirmando ser a educação da mulher essencial para a sua emancipação. Fundou em 1890 a revista A Família, importante divulgador das ideias feministas. A Mulher Moderna, publicado originalmente em 1891, compõe-se de artigos publicados na Revista A Família, dedicado à defesa da emancipação feminina. Inclui a peça “O voto feminino”, escrito com o objetivo de fortalecer a luta das mulheres pelo direito de voto.

A edição impressa custa R$ 15,00 e pode ser comprada clicando aqui.

março 27, 2019

[DIÁRIO] A INCAPACIDADE DE SER VERDADEIRO, DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

 

Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.

A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo.

Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa, como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.

Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico.

Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:

“Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia”.

 

ANDRADE, Carlos Drummond de. A incapacidade de ser verdadeiro. Poesia e prosa. Rio de janeiro: Nova Aguilar, 1988.

 

Agora, ouça na interpretação incomparável de Abujamra:

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