setembro 13, 2019

[DIÁRIO] AS PESSOAS DOS LIVROS: FERNANDA YOUNG E O SEU LEGADO

As pessoas dos livros: “Para Amanda Ayd, as palavras têm mais valor do que qualquer ação. É nas palavras que ela encontra sustento, sanidade e prazer. Depois de uma aclamada estréia na literatura, Amanda firmou-se como uma das romancistas mais promissoras de sua geração. Com ímpeto e fôlego de sobra, em apenas um ano escreveu dois novos livros, sendo todos muito bem recebidos.

Amanda trabalha obsessivamente em sua obra e acredita que a literatura é a vida aperfeiçoada, livre da banalidade. Porém, um debut glorioso pode ser uma das armadilhas mais cruéis para um artista. Quando o editor que antes a incensava rejeita o livro que ela acaba de concluir, Amanda inicia um longo processo de queda que transformará sua arte e também sua vida. Para completar, sua primeira grande decepção no mundo dos livros acontece simultaneamente à descoberta da traição do marido. Diante de tudo isso, é natural que Amanda busque mais do que nunca o auxílio das palavras em cartas e poemas escritos com os sentimentos à flor da pele.

Fernanda Young reflete sobre o universo literário e suas idiossincrasias, um ecossistema particular formado por autores, editores, leitores e críticos. Misturando narrativas que vão surgindo por dentro do enredo principal, Fernanda reproduz o calvário de uma devotada ficcionista diante da perda de controle sobre a realidade.”

 

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Eu sempre tive uma grande admiração pela Fernanda Young. Uma mulher inteligente, culta, bem sucedida em sua profissão, toda tatuada, linda, esposa, MÃE — com todas as letras maiúsculas MESMO — e tantas outras coisas que eu não saberia dizer, mas que, para mim, continuam funcionando como um pisca alerta, me dizendo que eu posso ser tudo o que eu quiser e puder ser.

Minha primeira leitura deste mês foi um livro dela, “As pessoas dos livros”. Uma leitura não linear, muito irônica, muito espelho de nós mesmos. É sobre uma escritora famosa envolvida nos dramas da recusa de um de seus originais por sua editora e por uma crise em seu casamento. No meio disso, as pessoas dos livros: autor, editor, narrador onisciente, leitor, pessoas, personagens, pessoas-personagens e muitas outras coisas. Um livro curto e uma ótima leitura para nós todos que, de certa forma, somos pessoas dos livros.

 

“Assim sendo, lá vamos nós novamente. Juntos. Palavras e leitor. Você. Livre para não gostar daquilo que lê. Livre do dever de ler-me até o fim. São sobre você todas estas páginas. Se não quiser continuar o caminho, aproveite agora, feche o livro. Saiba, porém, que preciso de você. Eu escrevi para você.” 

 

Nada que eu escreva será capaz de definir ou explicar (será que precisa?) sequer uma lasca dessa potência de mulher que nos deixou cedo demais. Sendo assim, faço aqui desse espaço uma espécie de álbum de recortes, de Fernanda, sobre Fernanda, para Fernanda Young. Seu legado é necessário e nos acompanhará para sempre. Esses dois vídeos e a última coluna que ela escreveu para o O Globo dizem muito por si só.

 

A vida acaba com a gente. Poesia e o humor salvam.”

 

*** No vídeo, fala-se do livro Pós F – para além do masculino e do feminino

 

Provocações: “Nossa convidada tem um comportamento estético e social muito exótico e diferente, o que para ela faz com que os homens sejam atraídos mais por seu lado poético, e confessa que não se sente dentro do perfil ideal de uma esposa nem de uma filha. Fernanda já fez várias tatuagens no corpo, como modo de mutilação e tentativa de se encontrar, e até chegou a pensar que a melhor coisa a ser feita era se matar, porém resistiu a essa vontade por achar anti-estético e pouco higiênico.”

 

 

A última coluna de Fernanda Young para o jornal O Globo:

Bando de cafonas

A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos — a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.

O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas.

O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade para ser respeitado.

A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Segura de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara.

Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.

(Fonte: O Globo)

agosto 30, 2019

[RESENHA] FLUSH: MEMÓRIAS DE UM CÃO, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “A obra é a biografia de um cão que mostra aventuras e mistérios da existência percebidos através dos olhos do melhor amigo do homem. O personagem central dessa história é um cocker spaniel de origem inglesa, Flush. Em pleno processo de apreensão do mundo e de si mesmo, ele ama tanto os raios de sol quanto um pedaço de rosbife, a companhia de cadelinhas malhadas assim como a companhia de seres humanos, o cheiro de campos abertos tanto quanto ruas cimentadas e o burburinho da cidade. A autora tece comentários sobre a sociedade inglesa e vitoriana e seus valores.”

 

Faz bastante tempo que eu recebi Flush: memórias de um cão, de uma troca pelo Skoob. Apesar do bilhetinho carinhoso da Araceli — que eu conservei no livro porque eu AMO dedicatórias, — o livro da escritora inglesa Virginia Woolf permaneceu na minha estante, praticamente intocado, de 2015 até alguns dias atrás. Eu poderia usar a desculpa universal de todos os leitores, a de que adquirimos muito mais livros do que conseguimos ler, para justificar essa demora em ler Flush, mas a verdade é a que eu já falei aqui em outra oportunidade: amo os ensaios de Virginia Woolf, mas seus textos ficcionais me dão um pouco de medo…

É uma bobagem, eu sei. Na verdade, é (também) um leve trauma por ter iniciado e não ter concluído Mrs. Dalloway há alguns anos (!), em uma péssima escolha que fiz em iniciar essa leitura em um momento em que eu não conseguia me concentrar o suficiente para entender as minúcias desse romance. Então Flush, e todos os outros livros de ficção de Virginia Woolf que comprei ou troquei, permaneceram parados na minha estante. Até a véspera do show da dupla Sandy e Junior em Belo Horizonte.

Essa sou eu virada de sono na rodoviária de BH, pós Sandy & Junior.

Pode parecer um rolê aleatório misturar Virginia Woolf e Sandy e Junior, mas, para mim, esse livro e essa viagem estarão para sempre conectados. Eu sempre gosto de carregar um livro na bolsa e em viagens longas essa necessidade é ainda mais urgente. Basta informar a você que lê agora — e não me segue no Instagram, — que eu viajei umas sete horas da minha casa em Patrocínio do Muriaé, Interiorzão de Minas Gerais, até Belo Horizonte, capital linda do pão de queijo, para assistir ao show da turnê Nossa História, de Sandy Junior, dupla pela qual fui fanática durante a minha infância e adolescência. Uma viagem longa, ninguém pode negar. Mas eu estava indo para um show, quem é que leva livro para a balada? Antes de dormir, envolvida com os preparativos da viagem (passar a roupa, verificar ingresso, dinheiro, documentos etc.), meu marido sugeriu que eu levasse sim, um livro, pois seria uma boa forma de economizar a bateria do celular, além de ótimo para passar o tempo na viagem de ida. Eu não tinha pensado em levar nada além da carteira e do celular, mas encarnei a Rory Gilmore e parei em frente à estante, de mãos na cintura, pensando em quem seria meu companheiro de viagem. Mesmo com a restrição de tamanho, opções não faltavam.

Pensei em levar A arte do romance, também de Virginia Woolf, mas achei que seria muito sério para uma mulher de 29 anos indo atrás de seu sonho adolescente. Outras opções não me atraíram muito até que passei os olhos pela lombada de Flush. Uma premissa tão interessante apresentada já no subtítulo, “memórias de um cão”. Uma autora de que eu gosto muito, apesar de… vocês já sabem. E o tamanho correto para preencher (sem estufar muito) a minha bolsa. Era isso, Flush era o livro ideal e foi uma leitura surpreendentemente boa!

Flush: memórias de um cão, de Virginia Woolf, foi publicado originalmente em 1933. É interessante saber que a autora escreveu esse livro no seu período de descanso, um pouco depois de ter escrito As ondas (1931). Ao ler a coletânea de cartas de amor dos poetas vitorianos Robert Browning (1812-1889) e Elizabeth Barret Browning (1806-1889), Virginia percebeu um personagem que era presença constante nessas correspondências: Flush, um cão da raça cocker spaniel, companheiro inseparável de Elizabeth. Se é verdade que as melhores ideias surgem nos momentos de descontração eu não sei, mas Virginia Woolf conseguiu escrever uma história realmente apaixonante a partir da sua leitura de férias. E com um ponto de vista bastante incomum para a sua época: o do cachorro.

Flush, é importante dizer, não é o tipo de história de cachorro como as que conhecemos nos últimos anos. Não é drama, superação ou tudo aquilo que nos faz chorar até desidratar. Aqui temos a trajetória de um ser, da infância até a maturidade, com seus sentimentos, confusões, desejos e olfato. Sim, uma vez que o protagonista é um cão e toda a história é contada do ponto de vista dele, os cheiros são praticamente um personagem a parte, impossível não imergir nesse sentido que nem sempre usamos de forma muito apurada.

É um livrinho pequeno, mas são incontáveis as tiradas irônicas, as sutilezas e os momentos de carinho, amizade — e ciúme — que vemos nessa história. Muito da correspondência entre Elizabeth e Robert estão neste livro, e é interessante imaginar como Virginia Woolf costurou as menções ao Flush nas cartas ao que ela imaginou como sendo uma biografia dele, pelo olhar do próprio. Flush certamente é mais que uma boa porta de entrada para os textos ficcionais de Virginia Woolf, é uma leitura gostosa sobre a vida e sobre todas as pequenas coisas que às vezes ignoramos.

 

“À medida que as semanas se passavam, Flush sentia, de maneira cada vez mais acentuada, que havia entre os dois uma ligação, uma proximidade desconfortável e portanto emocionante; de modo que, se o prazer dele era a dor dela, o prazer dele deixava de ser prazer para transformar-se em tripla dor. A verdade dessa afirmação era comprovada todos os dias. Alguém abria a porta e assobiava para chamá-lo. Por que não sair? Estava ávido por ar e exercício; suas patas pareciam rígidas de tanto ficar deitado no sofá. Ele nunca se acostumara completamente ao cheiro de eau-de-Cologne. Mas não — apesar de a porta continuar aberta, não abandonaria a Senhorita Barrett. Hesitava até o meio do caminho em direção à porta e então voltava ao sofá. ‘Flushie’, escreveu a Senhorita Barrett, ‘é meu amigo — meu companheiro — e me adora mais do que adora a luz do sol lá fora.’ Ela não podia sair. Estava acorrentada ao sofá. ‘Um passarinho em uma gaiola teria uma história de vida tão boa quanto a minha’, escreveu. E Flush, a quem o mundo todo se abria, escolheu privar-se de todos os cheiros de Wimpole Street para ficar ao lado dela.” (p. 39 e 40).

 

 

 

Título: Flush: memórias de um cão

Autora: Virginia Woolf

Tradução: Ana Ban

Editora: L&PM Pocket

Compre na Amazon: Flush

agosto 22, 2019

[DIÁRIO] SERTÃO, SELVA E LETRA: EUCLIDES DA CUNHA EM ATRAVESSAMENTOS, DE ANABELLE LOIVOS CONSIDERA

Sinopse: Após “Euclides da Cunha – da face de um tapuia”, biografia atualizada e acessível aos principiantes na leitura desse autor, Anabelle Loivos Considera surpreende com esta obra, conjunto de ensaios que ultrapassa os limites do discurso euclidiano.

Com profundo conhecimento do assunto, rigorosa e rica pesquisa bibliográfica e análise do interdiscurso dos textos de e sobre Euclides, o estilo de Anabelle Considera – misto de paixão pelo tema, poesia e certa dose de ironia – introduz o leitor em uma reflexão sobre a tese de Gumplowickz presente em “Os sertões”; passa pela cultura popular brasileira e a carnavalização nessa obra; envereda pela selva e na prática de uma “ecoleitura” da Amazônia euclidiana, relatando um projeto efetuado com alunos do ensino fundamental e médio, sobre a dicção ecopolítica do autor, de cujos textos brotou uma “ecopedagogia”.

Essa incursão se prolonga em “intertextos errantes” de um Euclides presente e plural; passeia pela rua do Ouvidor, em cujos cafés sempre fervilhou a resistência dos intelectuais cariocas, retomando a interessante história desse logradouro; resgata as memórias de Sinzig, franciscano alemão enviado a Canudos logo após chegar ao Brasil; desemboca na paideia euclidiana e nas releituras do sebastianismo em “Os sertões”.

Para os que se lançam ao estudo da produção literária de Euclides da Cunha, escritor tão complexo e contestador, uma leitura indispensável.”

 

Euclides da Cunha foi o autor homenageado da Flip deste ano e a Eduff, na ocasião, lançou o livro Sertão, Selva e Letra: Euclides da Cunha em Atravessamentos, de Anabelle Loivos Considera, após a mesa de debates sobre a vida e a obra do homenageado, na Casa da Literatura da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa. Eu não estive presente no evento, infelizmente, mas a Eduff (parceira linda como é) me enviou um exemplar do livro e eu preciso dizer: QUE LIVRO!

Para início de conversa, preciso admitir que Os Sertões é um desafio que eu ainda não consegui encarar. Estudei o autor e a obra, mas não desbravei ainda, como leitora, a narrativa de Euclides da Cunha sobre a rebelião de Canudos. Algumas pessoas têm certa resistência em ler livros que podem dar alguns detalhes sobre o enredo de outro livro, mas acredito que em certos casos o conceito de spoiler é irrelevante. Certas obras, sobretudo os clássicos da literatura, são mais fáceis de serem compreendidos quando bucamos textos de apoio (e também vídeos, dá uma uma olhada abaixo!).

Sertão, Selva e Letra tem sido uma leitura com menos spoilers do que inicialmente pensei e que proporciona muito mais possibilidades de interpretação do texto de Euclides da Cunha. São oito artigos que podem ser lidos da forma que o leitor achar melhor, na ordem ou alternadamente, com prefácio de Leopoldo Bernucci, da Universidade da Califórnia – Davis (ver Literatura Fundamental, vídeo abaixo) e uma espécie de posfácio da autora, intitulado Sofro de euclidianamentos…, que nos mostra brevemente o amor e a dedicação de Anabelle por Euclides da Cunha e sua obra, desde bem cedo, uma vez que a autora é, como Euclides, da cidade de Cantagalo-RJ e viveu rodeada por imagens e referências a ele.

Um capítulo particularmente importante deste livro para mim é Ecoleitura da Amazônia euclidiana: praticando “letras verdes” na sala de aula. É uma forma de ler (e ensinar) Euclides da Cunha chamando a atenção para a ecologia, os ecossistemas e a preservação do meio ambiente, dentre outros aspectos, alguns bastante pioneiros tendo em vista a época de sua primeira publicação. É um assunto sempre importante e muito atual, especialmente no contexto político atual.

Sertão, Selva e Letra é leitura para degustar, aprender e muito refletir. Uma obra indispensável tanto para quem já leu Os Sertões, quando para aqueles que ainda irão desbravar a obra desse importante escritor brasileiro.

 

 

Sobre a autora – Anabelle Loivos Considera nasceu em Cantagalo, também cidade natal de Euclides. Licenciada em Letras pela Faculdade de Filosofia Santa Doroteia, em 1994, concluiu o mestrado em Letras – Literatura Portuguesa, na UFF – Universidade Federal Fluminense, em 1999, e o doutorado também em Letras – Literatura Comparada, na mesma universidade, em 2005. É docente no ensino superior desde 2000; lecionou na Faculdade de Filosofia Santa Doroteia da Universidade Estácio de Sá e na Universidade Salgado de Oliveira, onde também ocupou o cargo de coordenadora do curso de Letras. Desde janeiro de 2007 é professora associada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Faculdade de Educação.

 

 

Sertão, selva e letra: Euclides da Cunha em atravessamentos
Autora: Anabelle Loivos Considera
Páginas: 296
Formato: 16 x 23 cm
ISBN: 978-85-228-1340-7
Editora: Eduff

Compre no site da Eduff, clicando aqui.

 

 

Para enriquecer ainda mais a leitura:

‘Os Sertões’ em 1 minuto:

 

Literatura Fundamental 20 – Os Sertões – Leopoldo Bernucci:

 

Documentário Os Sertões:

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