dezembro 22, 2017

[CONTO] O NATAL EM QUE TUDO MUDOU

 

Para Lília e Maria, em memória.

 

 

Myriam era uma senhora querida por sua família e vizinhança. Por muitos anos, passara boas horas na véspera de natal fazendo rabanadas e outras delícias que ela gostava de comer e oferecer aos amigos nesta data. Não era religiosa, na verdade Myriam morreu agnóstica, mas o natal sempre fora a sua data favorita no ano inteiro. Agora ela estava morta. E seria velada na data mais especial do ano.

 

***

 

— Por Deus, quem virá neste velório em plena véspera de natal? — disse André, exaltado.

— Por acaso a dona Myriam teve culpa de falecer justo na madrugada do dia 23 para o dia 24 de dezembro? — respondeu Luíza, que ficara responsável por cuidar dos trâmites relacionados ao velório e enterro da sogra. — Você talvez não vá gostar, mas as meninas estão preparando uma pequena ceia para mais tarde.

— Vão transformar o velório da minha mãe em um circo! — disse André, mais chateado do que irritado. — Não percebem o que vocês estão fazendo?

— Meu amor, sei que este é um momento muito difícil, mas é natal. — Luíza disse, com simpatia. — Sua mãe estaria com a ceia bem adiantada neste momento.

— Mas ela está morta. Nenhuma comida ou cantoria de fim de ano podem mudar isso.

 

***

 

Como André previra, apenas o núcleo familiar mais próximo estava presente no velório. A maioria dos familiares e amigos estava viajando. Os que estavam na cidade, certamente deixariam para ir ao enterro ou talvez nem isso. Quem é que quer ir a um enterro em plena manhã do dia 25 de dezembro? Nem mesmo quem precisa ir.

Myriam era viúva, portanto seus quatro filhos e oito netos ficariam sem seu arrimo familiar. Era na casa da velha senhora que se faziam os almoços de domingo e onde se passavam todos os natais. Baixinha, com seus cabelos brancos, era tão simpática e acolhedora que nem em suas horas finais deixara de sorrir. Um câncer repentino pusera fim a sua vida, mas Myriam deixou esse mundo sorrindo. Seu corpo inerte mais parecia estar tirando um cochilo. As coroas de flores ficaram na garagem da casa. Perto do caixão, na sala, apenas seus entes queridos que se revezavam na despedida e a árvore de natal, montada por ela própria, dois meses antes do feriado. Myriam nunca se importou com o calendário oficial para montar e desmontar a árvore de natal: desempacotava o pinheiro de plástico já no começo de novembro e ia enfeitando-o até as vésperas de natal. A antecedência, dizia, era para que a sua árvore chegasse o mais perto possível da perfeição. E ela conseguia essa façanha todos os anos. Logo após o ano novo a decoração natalina era cuidadosamente desfeita e Myriam mal podia esperar para sentir o cheirinho de canela das rabanadas inundando a sua cozinha mais uma vez.

André, ao contrário de suas irmãs e de sua mãe, nunca foi uma figura muito natalina. Desde a infância sabia que era o seu pai a pessoa debaixo da fantasia do papai Noel. Foi o primeiro a desmistificar a figura do bom velhinho e também o responsável por alertar as irmãs mais novas sobre a fraude que era aquilo tudo. Gostava das comidas, isso sim. Dona Myriam sabia bem a arte das panelas. Mas para André todo aquele circo chamado natal era repugnante. Promessas vazias, muita programação ruim na TV, dinheiro gasto em presentes inúteis e em amigo ocultos… a lista era infindável. Por azar, pelo menos no que se referia ao natal, casou-se com Luíza, filha de uma grande amiga de sua mãe, herdeira indireta das panelas e do espírito natalino da falecida sogra. Luíza também tinha fascinação pelo natal. Criada em uma família católica, para ela a data é ainda mais mística do que fora para a sogra. Luíza era, nas ceias da sogra, responsável pela montagem do presépio. Sim, pois embora Dona Myriam fosse agnóstica, ela era amante das boas histórias. E amava a narrativa do nascimento do menino Jesus.

Foi uma bela ceia, aquela do ano em que faleceu Dona Myriam. Na geladeira ainda estava pregada, com um velho ima de papai Noel, a lista com os pratos planejados para serem feitos naquele ano. Não foi possível fazer tudo, obviamente. Mas a casa tinha um cheirinho acolhedor de canela enquanto a sua antiga dona repousava ali, inerte, esperando que se findassem as despedidas. Myriam amava demais o natal! E foi nesta data que tudo mudou.

 

 

Às vésperas do natal seguinte…

 

André tentava fazer um bloqueio a todos os assuntos referentes ao natal, Papai Noel, ceia, filmes temáticos e toda a extensa lista de coisas que envolvem o terrível dia 25 de dezembro (e sua véspera). Ele ia ao banco pagar uma conta, o atendente se despedia desejando-lhe um feliz natal. As lojas piscavam suas luzes coloridas e as vitrines tinham, todas elas, a arvore de plástico brilhante e chamativa. Só mais algum tempo e tudo isso terminaria. André sentia falta de Myriam e o natal, que ele já detestava, piorava ainda mais a situação. Pelo menos não teria festa em casa. Poderia passar o dia e a noite comendo uma pizza e assistindo a filmes de guerra, ou outros temas que gostasse. Nada que fosse ambientado em dezembro.

— Querido, que bom que chegou! — disse Luíza ao ver o marido entrando em casa. — Estávamos te esperando!

— Uai, você e mais quem está me esperando? — André perguntou, já temendo a resposta.

— Eu e suas irmãs. Estamos planejando a ceia deste ano. — Luíza disse, observando a reação do marido. — Precisamos da opinião de todos sobre os pratos e a decoração. A Amália sugeriu que usássemos o planejamento que a sua mãe fez para a ceia do ano passado, no entanto será necessário assistirmos a alguns tutoriais no Youtube.

André olhava para a esposa atônito. As irmãs pareciam ansiosas por uma resposta dele. Vários objetos de decoração natalina estavam espalhados pela sala, o que indicava que a ceia estava sendo planejada para ser feita em sua casa.

— Vocês estão planejando fazer uma ceia aqui, na minha casa, sem me consultar antes? — disse André, tentando conter o nervosismo. — Vocês acham mesmo que eu quero perder tempo com essas bobagens de natal? Não faz o menor sentido tudo isso, e eu sou contra fazer qualquer tipo de festa. Faz apenas um ano que a minha mãe faleceu…

— Mas, meu amor, não é uma festa. É a ceia de natal. Para ficarmos juntos nessa data. Estamos conversando agora, não havia nada planejado previamente. Estamos definindo tudo agora, queremos que você participe. Sua mãe ficaria tão feliz…

— Minha mãe está morta. E eu odeio o natal. Façam o que vocês quiserem, mas não contem comigo. — disse André.

— Nós vamos fazer nossa ceia, André. Seria muito bom se você participasse. Por nós, pelas crianças e também por você. — disse Amália, com os olhos marejados. — Mamãe ficaria orgulhosa.

André olhou para a irmã mais nova, fez menção de falar alguma coisa, mas virou as costas e saiu de casa.

 

***

 

Em poucos dias todos ficaram imersos nos preparativos da ceia de natal. Todos, menos André. Ele fez questão de trabalhar até mais tarde todos os dias que pôde, só para não participar dos preparativos. No entanto, mesmo ele tinha de reconhecer que a mãe ficaria orgulhosa do time que se uniu em prol da realização da ceia de natal daquele ano. Luíza e as cunhadas, Amália e Angélica, ficavam horas assistindo a vídeos no Youtube e anotando as melhores receitas do site Tudo Gostoso. Usando como base a lista de Myriam, elas pesquisavam as formas mais fáceis de preparo dos pratos e acabaram incluindo uma ou outra receita para incrementar a ceia. As crianças ficaram responsáveis pela decoração e os maridos de Amália e Angélica davam suporte às duas equipes, como eles gostavam de dizer. Se algo precisasse ser comprado, descascado ou se as crianças precisassem de algum apoio com a decoração, o serviço era para Luís ou Márcio. Dividiam-se entre a cozinha e a varanda, onde seria realizada a ceia. André acompanhava tudo parcialmente e a distância.

Na véspera do natal André não pôde trabalhar. Não existia um escritório sequer em todo o Brasil que estivesse funcionando normalmente naquele dia. Até o comércio começava a fechar as portas. Também pudera: era 24 de dezembro! Apenas serviços considerados indispensáveis continuavam a funcionar. André teria que ficar em casa naquele dia e no próximo.

A cozinha era um recanto mágico: embora a pia estivesse com louças sujas até o teto, os aromas presentes ali eram capazes de transportar toda a família para os natais felizes que passaram juntos. Aquela ceia tinha tudo para ser perfeita, mas faltava Myriam e sua alegria. André ficou no canto da cozinha observando tudo. O cheiro de canela das rabanadas recém-preparadas inundavam a casa e também sua memória. Se fechasse os olhos, poderia facilmente imaginar a voz de sua mãe ecoando pela casa, dando os últimos retoques para a tão aguardada ceia. Enquanto viajava em seu devaneio, ouviu alguém chamar seu nome no portão.

— André! André! — chamava Conceição.

— Bom dia, Conceição. — André respondeu. — Uai, os Correios estão funcionando hoje? Em plena véspera de natal?

Conceição sorriu.

— Na verdade estamos de folga. Vesti meu uniforme para fazer uma entrega especial. A Dona Myriam lhe enviou essa carta. — Conceição disse, com os olhos marejados.

— Que loucura é essa, Conceição? — André perguntou, o rosto levemente corado. — Nem os Correios demorariam tanto tempo para entregar uma carta!

— A entrega não foi registrada pelos Correios, André. Estou aqui atendendo a um pedido especial da minha falecida amiga. — Conceição respondeu. — Tenha um feliz natal.

André reconhece a caligrafia da mãe no envelope, mas fica hesitante quanto a abri-lo. Que loucura era aquela? Seria algum trote natalino de péssimo gosto? Colocou a carta no bolso da bermuda e saiu andando. Precisava ler o que estava escrito naquela carta, mas o faria em algum lugar neutro, e de preferência, que não tivesse exalando o aroma de canela.

 

 

Minas Gerais, a algumas semanas do natal…

Querido filho,

Quando você puder ler essa carta, eu estarei morta. Estou tão triste por falar de algo tão óbvio para você, mas ainda não concreto para mim… Estou doente e sinto que posso morrer em breve. Minha valência é que você não vai achar que estou fazendo drama, uma vez que as minhas suspeitas estarão confirmadas. Meu pai também sentiu a vida esvair-se. E ele também me escreveu uma carta. Apenas para mim. Não vejo como um privilégio e peço que você não se sinta privilegiado porque só escrevi para você. Usarei do mesmo argumento de meu pai ao se despedir de mim por meio de palavras escritas: “escrevo-lhe não por amar você mais que aos meus outros filhos. Escrevo-lhe, pois com você eu errei mais como pai.” Meu pai dizia que os filhos mais velhos precisam de alguma compensação na vida adulta, pois com eles os pais são as piores versões de si mesmos. Os filhos mais velhos são os mais cobrados e os mais responsabilizados. Peço que me desculpe, André, se fui assim com você.

Pedi a Conceição, que gentilmente aceitou essa demanda extra sem registrá-la nos Correios, que guardasse essa carta por um ano e só lhe entregasse às vésperas do natal. Além de minha amiga, ela é uma pessoa de confiança, que eu tenho certeza absoluta que cumprirá com o combinado sem ter a curiosidade de ler essas palavras que escrevi para você. Além do mais, quem melhor que uma funcionária dos Correios para entregar uma carta?

Escolhi o natal não por se a minha data favorita, mas por ser a que você mais detesta. Meu filho, me desculpe por todas as ceias de natal que eu insisti que você participasse. Nunca me fiz entender sobre a importância que essa festa teve em minha vida, mesmo sendo uma mulher agnóstica. O natal, para mim, é a celebração da família. Nada me fazia mais feliz do que ter todos vocês à mesa, comendo boa comida, fazendo planos para o ano novo que batia à porta. E o cheirinho de canela das rabanadas! Se não fosse tão estranho, usaria esse cheirinho como perfume. Para mim é ainda melhor que o cheiro do mar: acalma e faz feliz. Sinto que não vou poder passar o natal deste ano com vocês. Isso me entristece muitíssimo, você não faz ideia. Fico ainda mais triste só de imaginar que vocês não se reunirão mais em volta da mesa, em uma data como essa. Talvez a Luíza monte um presépio na casa de vocês ou as meninas façam um ou outro prato para o natal, mas tendo a pensar que a grande ceia morrerá junto comigo.

Querido André, não deixe o espírito do natal morrer! Digo isso não pensando em comida cara ou presentes, ou ainda, em religião. Você pode fazer um natal em qualquer outra data do ano, com qualquer prato ou com nenhuma comida! Celebre o dia da bandeira, o carnaval, o aniversário da cidade, o seu próprio aniversário… celebre o dia do índio, o dia do soldado, não importa. Celebre a vida! Mais do que isso: celebre a vida com a sua família. Ninguém sabe quando tudo chegará ao final. Se você desconfiar, como eu e como o meu pai antes de mim, que tudo estará acabando, mesmo assim, nada mais poderá ser feito. Nenhum plano. Só o vazio e o desejo incontrolável de ter mais alguns minutos, escrever só mais algumas linhas. Ver só mais um sorriso. Dizer só mais um “eu te amo”. Não tenho certeza de nada sobre a minha morte. Não sei se existe céu, inferno ou a escuridão eterna. Tornar-se novamente poeira das estrelas não soa muito poético para mim no momento. Minha mãe sempre dizia para não termos medo, que tudo seria como era antes de nascermos. Essa lembrança das palavras dela agora me apavora, mas em breve eu saberei da verdade. Ou não.

Querido André, despeço-me agora como uma visita faz ao ir embora da nossa casa: muito obrigada por tudo e me desculpe qualquer coisa! Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, foi um imenso prazer, para mim, dividir um planeta e uma época com você, suas irmãs, e toda a nossa família, como diria Carl Sagan. Foi uma glória, a maior de todas da minha vida, ser mãe de vocês. E avó dos lindos netos que vocês me deram. Eu não poderia desejar nada mais intenso e gratificante.

Adeus, ou até algum dia,

Mamãe (e vovó orgulhosa) Myriam.

 

 

André andou sem destino com a carta de sua mãe firmemente segura em uma das mãos, quase a amassando em seu peito diversas vezes. Como fora tolo! E por tanto tempo! Enquanto todos trabalhavam para ter a família unida na ceia de natal ele tentava sabotar o evento de todas as formas. Não participou de nada e sabia, havia decepcionado a todos. Entrou em casa e pegou a chave do carro mal sabendo o que ia fazer.

— André, podemos contar com você mais tarde? O jantar não vai demorar para ser servido, por causa das crianças menores. Você vai estar aqui? — Luíza perguntou, mas ficou sem resposta.

No carro, assim que virou a chave, André soube exatamente o que devia fazer. Ele tinha a chave da casa de seus pais, agora casa de sua irmã Amália, assim como as irmãs tinham a chave da casa dele, para o caso de alguma emergência. E a situação em que se encontrava era de emergência. Por sorte, o quartinho de bagunças continuava com as tralhas dos pais, pois nem ele, Amália ou Angélica foram capazes de se desfazerem de tudo. André conseguiria participar da ceia de natal junto a sua família.

 

***

 

A varanda estava lindamente arrumada. Toda colorida, com uma decoração caseira de aquecer o coração. As crianças haviam caprichado, especialmente na árvore de natal. Não havia um galho sequer sem enfeite, e muitos deles, André pôde perceber, foram feitos pelos pequenos. Outros, ele conhecia há décadas, pois haviam sido feitos por sua mãe. A mesa era um espetáculo a parte: a equipe de culinária havia se superado. Uma longa e enfeitada mesa havia sido posta no meio da varanda, no estilo buffet, e exalava todo o tipo de aroma afrodisíaco do natal. Ao centro, o grande chester era exposto com orgulho, perfeitamente assado, de aparência divina. Vinha seguido pela farofa, salada de feijão fradinho, arroz temperado, salada de bacalhau, creme de milho e até salpicão, que André adorava. De sobremesa, além das tradicionais rabanadas, havia panetone, frutas diversas, mousse de chocolate, mousse de maracujá, pudim, e bombons em forma de árvore de natal e gorro do Papai Noel. Além do farto jantar, alguns petiscos como pastéis e torresmos, que ele nunca havia visto nas ceias de sua mãe, mas aprovava a inclusão, estavam disponíveis para aqueles que só queriam beliscar. André estava tão deslumbrado com a mesa que ficou parado na entrada da varanda, sem ser visto por ninguém por alguns minutos, até o seu filho exclamar, surpreso:

— Mamãe! Olha, o Papai Noel veio na nossa ceia!

Todos imediatamente olharam para aquele Papai Noel, surpresos com a pessoa que vestia aquela fantasia. Seria um milagre de natal? Ninguém sabia muito bem o que dizer, mas todos ficaram profundamente emocionados.

— Ei, o senhor parece muito com o meu pai, sabia? — disse Nicholas, olhando nos olhos de do Papai Noel André.

— Ho Ho Ho! Você pode guardar um segredo, pequeno Nicholas? — perguntou o Papai Noel.

— Claro! Sou um menino muito confiável! — respondeu Nicholas, orgulhoso.

— Eu e o seu pai somos parentes bem distantes. Primos, talvez. Só agora vamos nos reencontrar, depois de muitos anos.

— Ah, que pena que ele não está aqui agora. — disse Nicholas. — Sabe, meu pai não gosta muito de natal… Acho que é porque ele sente muita falta da vovó Myriam.

— Deve ser, meu filho. Deve ser. — respondeu o Papai Noel. — Mas talvez esse ano ele comece a gostar um pouquinho do natal. Vocês fizeram tantas coisas bonitas e gostosas para a ceia! Estão todos de parabéns!

Depois de abraçar e conversar um pouquinho com cada um, e tirar várias fotos também, o Papai Noel se despediu das crianças e dos adultos.

— Ainda bem que eu lavei essa roupa. Desejei muito que você participasse e meu desejo foi atendido. Obrigada, irmão! — Angélica disse baixinho, enquanto abraçava André.

— Então foi você!

— Os milagres precisam de uma forcinha para acontecer. Esse é o espírito do natal! — respondeu Angélica.

— Estou tão feliz, você nem imagina, querido Papai Noel! — disse Luíza, orgulhosa.

— Eu também estou. Me desculpa por não ter trabalhado com vocês. Fui um tolo, mamãe me fez perceber. — disse André.

— Como é? — Luíza perguntou, surpresa.

— Mais tarde eu te explico tudo. Ah, fala pro pessoal que a louça é minha. Também prometo que lavo a varanda depois. Preciso compensar vocês.

O Papai Noel se despediu e logo André pôde estar entre seus familiares, ouvindo as animadas narrativas das crianças sobre o Papai Noel que resolveu visitá-los de última hora. Nicholas chamou o pai no canto, afastando-o de todos, e disse:

— Eu sei que foi você papai. Mas prometo não dizer nada para não estragar a magia do natal! Todos ficaram muito felizes, incluindo eu! — disse Nicholas, orgulhoso pela descoberta.

— Então esse será o nosso segredo, meu filho. — disse André, satisfeito com a sensibilidade do filho. Há muitos anos ele havia agido bem diferente.

Nada seria como antes, todos sentiriam falta dos que partiram e é assim para todas as famílias. Mas foi nesse natal que tudo mudou.

 

Crédito das imagens: unsplash.com

junho 20, 2017

[CONTO] O VELHO DIÁLOGO DE ADÃO E EVA

 

ATENÇÃO: Texto não recomendado para menores de 18 anos. Conteúdo sexual. 

 

“Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele, nem nele tocareis para que não morras.” (Gênesis 3:3)

 

Apaixonaram-se tão logo seus olhos se encontraram. O primeiro beijo confirmou o fato. Qualquer um que visse o casal pensava que eram eternos apaixonados, conhecidos de muitos anos. Era um encontro de almas, Sofia pensava. Não podia ser nada menos que isso.

Encontravam-se nos finais de semana em que ele não estava de serviço. Era um acordo implícito, mas que Sofia respeitava com o rigor de um culto religioso. Bastavam os olhos deles se encontrarem para a magiar acontecer, um sorriso espontâneo surgir.

Na noite em que se conheceram, ele a levou para casa. A vontade de ficar junto àquele homem era maior que o pânico de entrar no carro de alguém que ela mal conhecia. Antes de chegar ao destino, o carro rumou para um lugar deserto: o alto de um morro onde estava sendo construído um condomínio de luxo. Parou onde, futuramente, seria uma bela e segura portaria. Abaixo, as poucas luzes ainda acesas na cidade.

— Você pode pensar o contrário, mas eu não sei bem o que fazer. Não sou do tipo que pega carona com estranhos… Na verdade, mal vou a festas… — sentia-se idiota por tentar se explicar, mas precisava fazê-lo. O dedo indicador dele interrompeu as explicações de Sofia.

— Você é linda. Estou apaixonado por você. Tenho a impressão que estamos nos reencontrando…

Alguma coisa na cabeça de Sofia a alertava de que aquilo era exatamente o que ela gostaria de ouvir e que ele talvez soubesse disso; mas aquele homem, o cheiro dele e aquele lugar… ela queria viver aquela paixão. Depois pensaria no depois.

Beijaram-se como se o mundo estivesse prestes a acabar, como se todas as respostas e todas as perguntas estivessem nos lábios um do outro. No banco de trás do carro, embalados por Sacrifice, de Elton John, ele tomava um dos seios de Sofia com a boca, enquanto suas mãos passeavam pelo corpo da jovem. Era um homem que sabia bem o que estava fazendo, maravilhado com uma garota que parecia recém-saída de um casulo, prestes a voar com ele.

Sofia já estava nua no banco de trás do carro quando ele conseguiu afastar os lábios de seu sexo e finalmente tirar as calças. Ela, tomando o controle da situação, subira nele, surpreendendo-o. A surpresa foi dando lugar ao prazer e ao gozo. Sofia, embora não fosse mais virgem há algum tempo, teve ali seu primeiro orgasmo, com alguém que ela não conhecia muito bem, mas já amava secretamente.

— Linda! Linda! E gostosa… — ele disse ao pé do ouvido de Sofia, para então beijá-la novamente; o gosto dela ainda na boca dele. Abriu a porta do carro e saiu despido como estava, para ser banhado pela lua.

— Vem aqui, deixa eu te ver plena como você está! — Sofia saiu do carro envergonhada, mas logo estava recostada no capô, serena, com a lua banhando sua nudez.

— Eu queria congelar esse momento. Você, linda, minha… vestida apenas pela noite. — E ele ficou alguns segundos olhando aquele corpo nu, fresco, de mulher jovem, deliciosa. Em seu íntimo sabia estar brincando com fogo, mas já havia se queimado. Sentia-se mais viril com Sofia, o desejo dela o inflamava. Era a primeira vez que se sentia assim, mesmo já tendo passado dos quarenta anos.

— Acho melhor você me levar para casa agora. — disse Sofia, começando a ter vergonha de sua nudez, na rua, praticamente deitada no capô do carro.

Ele não respondeu, deu um sorrisinho e logo a estava beijando novamente. Suas mãos tinham completo controle sobre ela e eles se amaram ali mesmo, com a benção da lua.

No caminho de volta, Sofia mal ouvia o que tocava no rádio. De olhos fechados por boa parte do trajeto, ela se perguntava se algo assim realmente teria acontecido com ela. No entanto, era só abrir os olhos para ver o homem sorridente ao seu lado provando que sim. O cheiro em seu corpo e os sinais de que fora amada, também.

— Me dê o seu número, Sofia. — Ela deu, e também um longo beijo de despedida. A semana passara sem que ela tivesse notícias dele.

 

***

 

— Não esperava flores ou bombons, mas você podia ter me ligado! — ela disse em tom de brincadeira na semana seguinte, embora estivesse realmente magoada. Desculpas foram dadas e aceitas e Sofia desejou nunca mais ficar a sós com aquele homem. Entretanto, ele era presença frequente no barzinho que ela frequentava e Sofia continuava a ir lá todos os fins de semana para vê-lo. Quando ficava parada, olhando para ninguém, logo sentia a presença dele. Um passo para trás e ele logo a fisgava.

— Desculpe. Gosto de ficar perto de você, sentir o seu cheiro. Linda!

Toda vez que ela pensava em largá-lo, o mel das palavras dele faziam-na desistir. Toda vez que ela pensava em ir embora sozinha, um simples toque a lembrava que ela gostava de se sentir mulher com ele.

Sofia sempre falava mais, contava mais de sua vida, nos breves momentos em que eles apenas conversavam. Sua paixão se esquivava, ela percebia. Teciam apenas o velho diálogo de Adão e Eva, lembrara ferida, ao reler Machado de Assis.

Queria mais que sexo, embora o sexo fosse maravilhoso. Quando o cérebro de Sofia sinalizava a verdade, ela fechava os olhos e fingia não entender.

— Me faz um favor? Não diz que me ama se não for verdade.

— Eu amo você, Sofia. Sabe tatuagem? É impossível tirar. Você está tatuada aqui dentro…

Não tinha certeza se ele a compreendera, mas não quis ter o esforço de insistir na conversa. A velha impressão de que ele falava o que ela queria ouvir era evidente. Resolveu ouvir. Depois pensaria no depois.

 

***

 

Sofia vislumbrava uma família linda como as que ela sempre via em suas corridas pelo parque municipal. É certo que fazia algumas semanas que ela não corria, pois tinha muito trabalho naquela época do ano. Não reparava bem as pessoas, mas tinha a meta de um dia ser como aqueles casais que ela via rodeado de crianças, felizes nos fins de tarde.

Resolveu caminhar ao invés de correr e o pensamento de que o seu amor podia, no futuro, estar ali com ela, rodeado de crianças, aquecera seu coração. Todas aquelas famílias acabavam forçando esse pensamento. Resolveu olhar bem para as pessoas, ver se conhecia alguém. Uma visão em especial chamara-lhe a atenção. Não sabia se já o havia visto no parque, mas a visão de um casal feliz, trocando carícias, e três crianças gargalhando em um balanço deixara Sofia sem ar. Os olhos se encontraram, mas não houve sorriso. Apenas a verdade que Sofia não quis perceber.

dezembro 12, 2016

[CRÔNICA] OLÍVIA, UM TEXTO DESCRITIVO

Olívia, minha musa inspiradora, com 1 ou 2 meses.

 

Estou fazendo um curso de redação na modalidade EAD pela Universidade Federal Fluminense (UFF), intitulado “Redação Prática: comunicando ideias por escrito“. Tem sido uma ótima oportunidade para aprender e treinar essa arte trabalhosa que é a escrita. Meu primeiro exercício prático foi elaborar um texto descritivo. Alguns temas foram propostos e eu escolhi escrever sobre um ser humano que eu conhecesse bem. Como é notório, Olívia tornou-se o meu tema favorito! Confira o texto abaixo; críticas são (sempre) muito bem-vindas!

 

Olívia

Ela veio ao mundo trazida pelo sol de uma terça-feira. Antes disso, sentia-se confortável. Vivia em um lugar quente, aconchegante e seguro. Obviamente, nos últimos tempos o aconchego dava lugar a um aperto, em que mal conseguia mexer-se. Sentia a sua casa mover-se em demasia, como se não houvesse um lugar em que pudesse repousar. Ainda assim, era o melhor lugar do mundo para se viver.

Na nova casa, uma casa muito diferente daquela a qual acostumara-se, gostava de perceber tudo. Seus olhos, desde as primeiras piscadelas, eram, portanto, atentos, como se quisesse reconhecer o quanto antes aquele mundo que outrora fora apenas sons e leves movimentos. Era tanta informação! Seria capaz de aprender tudo? Teria que aprender, pois não era possível retornar à antiga casa. Fora arrancada depois de uma janela ter sido aberta, depois de haver sido forçada durante muitas horas a sair sozinha.

Tinha bom peso e medidas. Mediram-lhe toda. De uma pontinha a outra. Falaram alguma coisa sobre estar tudo bem a uma pessoa que não conhecia ainda. Ela estava deitada e adormecera antes que o médico pudesse acabar de falar. Sua pele, de aspecto aveludado e um aroma angelical, possível apenas em seres recém-chegados a este universo, era branca, mas não pálida. Parda, como dizia alguns papéis, inclusive o que serviria para o seu registro civil. Tinha cabelos. Alguns cabelos negros, assim como o de seus pais. Mas com falhas, o que, entretanto, não roubava-lhe um milímetro sequer de graciosidade. Era de uma beleza ímpar, assim como todos os bebês.

Pensava ser o mundo uma escuridão orquestrada por batidas ora regulares, ora irregulares. Sentiu-se feliz em reconhecer as mesmas batidas e uma voz, a primeira voz de que teve consciência, em um dos abraços que recebeu. Soube que era da pessoa que ainda não conhecia; aquela que adormecera em uma mesa antes que o médico conseguisse finalizar a frase. Olívia gostava de ficar naquele abraço. Foi amor à primeira percepção. Aquele abraço, colo, como diziam, dava-lhe sustento. Era um abraço com cheiro de lar.

Era uma menina, mas já havia ganhado o mundo. Tinha uma grande família e um lar acolhedor. Tinha um quarto só dela, mas dormia com o colo que tinha cheiro de lar e dava-lhe sustento, e com outra pessoa, que também tinha cheiro de lar. Começara a fazer coisas e emitir sons que alarmavam a todos, especialmente sua mãe. Soube quem era sua mãe. E também, seu pai. Um pequeno choro e já não estava mais sozinha, podia ser claro ou escuro, como em sua antiga casa.

Percebeu-se feliz, pois sua chegada iluminara a todos. Muito mais que o sol daquela manhã.

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