junho 20, 2017

[CONTO] O VELHO DIÁLOGO DE ADÃO E EVA

 

ATENÇÃO: Texto não recomendado para menores de 18 anos. Conteúdo sexual. 

 

“Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele, nem nele tocareis para que não morras.” (Gênesis 3:3)

 

Apaixonaram-se tão logo seus olhos se encontraram. O primeiro beijo confirmou o fato. Qualquer um que visse o casal pensava que eram eternos apaixonados, conhecidos de muitos anos. Era um encontro de almas, Sofia pensava. Não podia ser nada menos que isso.

Encontravam-se nos finais de semana em que ele não estava de serviço. Era um acordo implícito, mas que Sofia respeitava com o rigor de um culto religioso. Bastavam os olhos deles se encontrarem para a magiar acontecer, um sorriso espontâneo surgir.

Na noite em que se conheceram, ele a levou para casa. A vontade de ficar junto àquele homem era maior que o pânico de entrar no carro de alguém que ela mal conhecia. Antes de chegar ao destino, o carro rumou para um lugar deserto: o alto de um morro onde estava sendo construído um condomínio de luxo. Parou onde, futuramente, seria uma bela e segura portaria. Abaixo, as poucas luzes ainda acesas na cidade.

— Você pode pensar o contrário, mas eu não sei bem o que fazer. Não sou do tipo que pega carona com estranhos… Na verdade, mal vou a festas… — sentia-se idiota por tentar se explicar, mas precisava fazê-lo. O dedo indicador dele interrompeu as explicações de Sofia.

— Você é linda. Estou apaixonado por você. Tenho a impressão que estamos nos reencontrando…

Alguma coisa na cabeça de Sofia a alertava de que aquilo era exatamente o que ela gostaria de ouvir e que ele talvez soubesse disso; mas aquele homem, o cheiro dele e aquele lugar… ela queria viver aquela paixão. Depois pensaria no depois.

Beijaram-se como se o mundo estivesse prestes a acabar, como se todas as respostas e todas as perguntas estivessem nos lábios um do outro. No banco de trás do carro, embalados por Sacrifice, de Elton John, ele tomava um dos seios de Sofia com a boca, enquanto suas mãos passeavam pelo corpo da jovem. Era um homem que sabia bem o que estava fazendo, maravilhado com uma garota que parecia recém-saída de um casulo, prestes a voar com ele.

Sofia já estava nua no banco de trás do carro quando ele conseguiu afastar os lábios de seu sexo e finalmente tirar as calças. Ela, tomando o controle da situação, subira nele, surpreendendo-o. A surpresa foi dando lugar ao prazer e ao gozo. Sofia, embora não fosse mais virgem há algum tempo, teve ali seu primeiro orgasmo, com alguém que ela não conhecia muito bem, mas já amava secretamente.

— Linda! Linda! E gostosa… — ele disse ao pé do ouvido de Sofia, para então beijá-la novamente; o gosto dela ainda na boca dele. Abriu a porta do carro e saiu despido como estava, para ser banhado pela lua.

— Vem aqui, deixa eu te ver plena como você está! — Sofia saiu do carro envergonhada, mas logo estava recostada no capô, serena, com a lua banhando sua nudez.

— Eu queria congelar esse momento. Você, linda, minha… vestida apenas pela noite. — E ele ficou alguns segundos olhando aquele corpo nu, fresco, de mulher jovem, deliciosa. Em seu íntimo sabia estar brincando com fogo, mas já havia se queimado. Sentia-se mais viril com Sofia, o desejo dela o inflamava. Era a primeira vez que se sentia assim, mesmo já tendo passado dos quarenta anos.

— Acho melhor você me levar para casa agora. — disse Sofia, começando a ter vergonha de sua nudez, na rua, praticamente deitada no capô do carro.

Ele não respondeu, deu um sorrisinho e logo a estava beijando novamente. Suas mãos tinham completo controle sobre ela e eles se amaram ali mesmo, com a benção da lua.

No caminho de volta, Sofia mal ouvia o que tocava no rádio. De olhos fechados por boa parte do trajeto, ela se perguntava se algo assim realmente teria acontecido com ela. No entanto, era só abrir os olhos para ver o homem sorridente ao seu lado provando que sim. O cheiro em seu corpo e os sinais de que fora amada, também.

— Me dê o seu número, Sofia. — Ela deu, e também um longo beijo de despedida. A semana passara sem que ela tivesse notícias dele.

 

***

 

— Não esperava flores ou bombons, mas você podia ter me ligado! — ela disse em tom de brincadeira na semana seguinte, embora estivesse realmente magoada. Desculpas foram dadas e aceitas e Sofia desejou nunca mais ficar a sós com aquele homem. Entretanto, ele era presença frequente no barzinho que ela frequentava e Sofia continuava a ir lá todos os fins de semana para vê-lo. Quando ficava parada, olhando para ninguém, logo sentia a presença dele. Um passo para trás e ele logo a fisgava.

— Desculpe. Gosto de ficar perto de você, sentir o seu cheiro. Linda!

Toda vez que ela pensava em largá-lo, o mel das palavras dele faziam-na desistir. Toda vez que ela pensava em ir embora sozinha, um simples toque a lembrava que ela gostava de se sentir mulher com ele.

Sofia sempre falava mais, contava mais de sua vida, nos breves momentos em que eles apenas conversavam. Sua paixão se esquivava, ela percebia. Teciam apenas o velho diálogo de Adão e Eva, lembrara ferida, ao reler Machado de Assis.

Queria mais que sexo, embora o sexo fosse maravilhoso. Quando o cérebro de Sofia sinalizava a verdade, ela fechava os olhos e fingia não entender.

— Me faz um favor? Não diz que me ama se não for verdade.

— Eu amo você, Sofia. Sabe tatuagem? É impossível tirar. Você está tatuada aqui dentro…

Não tinha certeza se ele a compreendera, mas não quis ter o esforço de insistir na conversa. A velha impressão de que ele falava o que ela queria ouvir era evidente. Resolveu ouvir. Depois pensaria no depois.

 

***

 

Sofia vislumbrava uma família linda como as que ela sempre via em suas corridas pelo parque municipal. É certo que fazia algumas semanas que ela não corria, pois tinha muito trabalho naquela época do ano. Não reparava bem as pessoas, mas tinha a meta de um dia ser como aqueles casais que ela via rodeado de crianças, felizes nos fins de tarde.

Resolveu caminhar ao invés de correr e o pensamento de que o seu amor podia, no futuro, estar ali com ela, rodeado de crianças, aquecera seu coração. Todas aquelas famílias acabavam forçando esse pensamento. Resolveu olhar bem para as pessoas, ver se conhecia alguém. Uma visão em especial chamara-lhe a atenção. Não sabia se já o havia visto no parque, mas a visão de um casal feliz, trocando carícias, e três crianças gargalhando em um balanço deixara Sofia sem ar. Os olhos se encontraram, mas não houve sorriso. Apenas a verdade que Sofia não quis perceber.

dezembro 12, 2016

[CRÔNICA] OLÍVIA, UM TEXTO DESCRITIVO

Olívia, minha musa inspiradora, com 1 ou 2 meses.

 

Estou fazendo um curso de redação na modalidade EAD pela Universidade Federal Fluminense (UFF), intitulado “Redação Prática: comunicando ideias por escrito“. Tem sido uma ótima oportunidade para aprender e treinar essa arte trabalhosa que é a escrita. Meu primeiro exercício prático foi elaborar um texto descritivo. Alguns temas foram propostos e eu escolhi escrever sobre um ser humano que eu conhecesse bem. Como é notório, Olívia tornou-se o meu tema favorito! Confira o texto abaixo; críticas são (sempre) muito bem-vindas!

 

Olívia

Ela veio ao mundo trazida pelo sol de uma terça-feira. Antes disso, sentia-se confortável. Vivia em um lugar quente, aconchegante e seguro. Obviamente, nos últimos tempos o aconchego dava lugar a um aperto, em que mal conseguia mexer-se. Sentia a sua casa mover-se em demasia, como se não houvesse um lugar em que pudesse repousar. Ainda assim, era o melhor lugar do mundo para se viver.

Na nova casa, uma casa muito diferente daquela a qual acostumara-se, gostava de perceber tudo. Seus olhos, desde as primeiras piscadelas, eram, portanto, atentos, como se quisesse reconhecer o quanto antes aquele mundo que outrora fora apenas sons e leves movimentos. Era tanta informação! Seria capaz de aprender tudo? Teria que aprender, pois não era possível retornar à antiga casa. Fora arrancada depois de uma janela ter sido aberta, depois de haver sido forçada durante muitas horas a sair sozinha.

Tinha bom peso e medidas. Mediram-lhe toda. De uma pontinha a outra. Falaram alguma coisa sobre estar tudo bem a uma pessoa que não conhecia ainda. Ela estava deitada e adormecera antes que o médico pudesse acabar de falar. Sua pele, de aspecto aveludado e um aroma angelical, possível apenas em seres recém-chegados a este universo, era branca, mas não pálida. Parda, como dizia alguns papéis, inclusive o que serviria para o seu registro civil. Tinha cabelos. Alguns cabelos negros, assim como o de seus pais. Mas com falhas, o que, entretanto, não roubava-lhe um milímetro sequer de graciosidade. Era de uma beleza ímpar, assim como todos os bebês.

Pensava ser o mundo uma escuridão orquestrada por batidas ora regulares, ora irregulares. Sentiu-se feliz em reconhecer as mesmas batidas e uma voz, a primeira voz de que teve consciência, em um dos abraços que recebeu. Soube que era da pessoa que ainda não conhecia; aquela que adormecera em uma mesa antes que o médico conseguisse finalizar a frase. Olívia gostava de ficar naquele abraço. Foi amor à primeira percepção. Aquele abraço, colo, como diziam, dava-lhe sustento. Era um abraço com cheiro de lar.

Era uma menina, mas já havia ganhado o mundo. Tinha uma grande família e um lar acolhedor. Tinha um quarto só dela, mas dormia com o colo que tinha cheiro de lar e dava-lhe sustento, e com outra pessoa, que também tinha cheiro de lar. Começara a fazer coisas e emitir sons que alarmavam a todos, especialmente sua mãe. Soube quem era sua mãe. E também, seu pai. Um pequeno choro e já não estava mais sozinha, podia ser claro ou escuro, como em sua antiga casa.

Percebeu-se feliz, pois sua chegada iluminara a todos. Muito mais que o sol daquela manhã.

outubro 28, 2016

[CRÔNICA] A COISA MAIS LINDA

É a coisa mais linda acompanhar de perto o crescimento de alguém. Não só acompanhar, mas ser fundamental para o crescimento de uma pessoa.

Após a difícil fase de recém-chegada ao planeta terra, a criança aprende muita coisa em pouquíssimo tempo. É incrível vê-la descobrir sons, sabores, sentimentos…

Na última semana a Olívia começou a almoçar. Almoça fruta, para ir treinando o paladar. Recomendação do pediatra que, estranhamente, resolvemos respeitar. Tem cinco meses e já tem preferências. Não gostou muito de banana nem de geleia de mocotó, à primeira colherada. Amou mamão e gelatina de cereja.

Ela sorri de volta quando sorrimos para ela. Quer conversar, e a gente vai confirmando tudo, imaginando um diálogo no meio daquela embolado de sons.

Ela vira de barriga para baixo e não aprendeu, ainda, a virar de volta. Recebeu, portanto, o apelido de tartaruga. Ela, é claro, morre de rir ao ser chamada assim.

A propósito, o sorriso dela é o remédio para todos os meus males. Tristeza, sono, fome, preguiça… Nada me derruba se eu a vir sorrindo.

O desenvolvimento dela é normal. Mas acho que a Olívia é especialmente inteligente. Ela chora bem pouco para tomar vacina. É forte. Não gosta de banho frio. Gosta de dormir depois do almoço. Às vezes, durante o almoço também.

Agora mesmo ela acordou, sorriu e voltou a dormir. Ela adora dormir quando está nublado.

Tudo muito normal. Mas é a coisa mais linda.

 

 

 

 

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