fevereiro 18, 2020

[RESENHA] A FILHA PERDIDA, DE ELENA FERRANTE

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Sinopse: Da autora de A amiga genial e História do novo sobrenome, um romance feminino e arrebatador.

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” Com essa afirmação ao mesmo tempo simples e desconcertante Elena Ferrante logo alerta os leitores: preparem-se, pois verdades dolorosas estão prestes a ser reveladas.

Lançado originalmente em 2006 e ainda inédito no Brasil, o terceiro romance da autora que se consagrou por sua série napolitana acompanha os sentimentos conflitantes de uma professora universitária de meia-idade, Leda, que, aliviada depois de as filhas já crescidas se mudarem para o Canadá com o pai, decide tirar férias no litoral sul da Itália. Logo nos primeiros dias na praia, ela volta toda a sua atenção para uma ruidosa família de napolitanos, em especial para Nina, a jovem mãe de uma menininha chamada Elena que sempre está acompanhada de sua boneca. Cercada pelos parentes autoritários e imersa nos cuidados com a filha, Nina parece perfeitamente à vontade no papel de mãe e faz Leda se lembrar de si mesma quando jovem e cheia de expectativas. A aproximação das duas, no entanto, desencadeia em Leda uma enxurrada de lembranças da própria vida — e de segredos que ela nunca conseguiu revelar a ninguém.

No estilo inconfundível que a tornou conhecida no mundo todo, Elena Ferrante parte de elementos simples para construir uma narrativa poderosa sobre a maternidade e as consequências que a família pode ter na vida de diferentes gerações de mulheres.

Elena Ferrante se tornou especialmente conhecida pela série napolitana, cujos dois primeiros volumes, A amiga genial e História do novo sobrenome, já foram publicados com grande sucesso no Brasil.”

 

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Certo verão, Leda resolve juntar seus livros e passar alguns dias no litoral. A professora universitária aluga uma casa e vai, sozinha, em uma viagem que acaba não sendo exatamente um descanso, mas aquilo que chamamos de “uma jornada de autoconhecimento”. Uma família barulhenta, tipicamente napolitana, faz com que ela se lembre dela própria, em outras fases de sua vida. Especialmente mãe e filha, que destoam do restante do grupo: Nina e Elena. Leda acaba se envolvendo com essas pessoas ao encontrar a menina, Elena, que havia se perdido na praia. A maternidade é o grande mote deste livro, mas ao estilo Elena Ferrante: um mergulho profundo nas verdades inconvenientes de se dizer em voz alta, inconveniente talvez até de se pensar.

A filha perdida é, assim, como uma “espiral da maternidade”: o que de início parece apenas mais um caso de uma criança que se perde na praia, acaba sendo facilmente interpretado como uma série de filhas que se perderam ao longo da vida, por razões diversas. Leda, por exemplo, recorda-se bastante de seu papel como mãe, inclusive também sofreu a vertigem tresloucada de perder uma de suas filhas na praia; e se recorda da própria mãe e de como era ser apenas filha. Elena, a criança, perde a boneca com a qual tenta reproduzir a relação que tem com a própria mãe, boneca esta que Leda acabou guardando consigo e, por alguma razão, demora para conseguir pensar em devolver para a garota. Nina é uma mãezona, pelo menos tenta ser, mas parece isolada em meio aos parentes de seu marido. São mulheres, meninas, lembranças diversas,  unidas em uma característica: todas foram ou estão, física ou psicologicamente, perdidas.

O livro foi lançado originalmente em 2006, portanto, antes da tetralogia napolitana. Lendo os dois (tratando a tetralogia como uma única e grande história), percebem-se alguns ecos entre os romances, e isso não só em relação aos nomes de algumas personagens, mas em situações de enredo mesmo. É interessante perceber (ou supor) que Elena Ferrante talvez tenha tido a necessidade de expandir algumas histórias, tratando-as com mais profundidade na tetralogia. De qualquer maneira, são livros diferentes, com possibilidades de interpretação — e identificação —, também distintas. Eu recomendo todos!

A filha perdida foi o livro que eu levei na bolsa nas férias de fim de ano. Achei interessante a ideia de estar na praia, assim como Leda estava e me deixei levar por alguns pensamentos da protagonista. Não foram poucas as vezes em que levantei os olhos do livro e pensei que as pessoas barulhentas que nos cercavam eram semelhantes aos napolitanos do livro; recordei como era ser apenas filha; como era a minha mãe; pensei em como tenho sido como mãe… daí por diante. Depois da tetralogia, esse foi o livro da Elena Ferrante de que mais gostei. Por ser curtinho e praticamente impossível de largar, terminei ainda no começo da viagem. Dividi a leitura com o meu marido, que nunca tinha lido nada da Ferrante, apesar deste ser um nome falado quase diariamente em nossa casa. “Ela é realmente muito, muito boa”, foi o que ele disse ao virar a última página.

 

 

“As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender.” (p. 6)

 

 

 

 

Título: A filha perdida

Autora: Elena Ferrante

Tradução: Marcello Lino

Editora: Intrínseca

Páginas: 176

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fevereiro 13, 2020

[RESENHA] AS ALEGRIAS DA MATERNIDADE, DE BUCHI EMECHETA

Sinopse: “Nnu Ego, filha de um grande líder africano, é enviada como esposa para um homem na capital da Nigéria. Determinada a realizar o sonho de ser mãe e, assim, tornar-se uma “mulher completa”, submete-se a condições de vida precárias e enfrenta praticamente sozinha a tarefa de educar e sustentar os filhos. Entre a lavoura e a cidade, entre as tradições dos igbos e a influência dos colonizadores, ela luta pela integridade da família e pela manutenção dos valores de seu povo.”

 

Ser mãe dói. Talvez seja por isso que se repita tanto que “ser mãe é padecer no paraíso”. Para algumas, talvez, seja padecer… e só. Bom, eu posso estar exagerando de propósito ao “esquecer” os momentos de amor e felicidade, mas a felicidade de uma mãe nunca é tranquila. Nosso trabalho nunca está acabado, nunca é perfeito. É frustrante. É lindo também, único. Mas vai ser sempre frustrante.

Talvez por isso, por ser mãe, eu já havia percebido a ironia no título do livro de Buchi Emecheta antes mesmo de saber mais detalhes sobre o romance. As alegrias da maternidade, publicado originalmente em 1979 e um recorte sobre a vida das mulheres da Nigéria colonial, é nada mais que um romance sobre ser mãe, em maior ou menor escala de sofrimento. Não por acaso Emecheta dedica o volume “Para todas as mães”.

A mãe deste livro, Nnu Ego, é filha de um grande líder do vilarejo de Ibuza, uma mulher típica de seu tempo, profundamente ligada aos costumes do povo igbo. Para realizar o grande desejo de sua vida, ser mãe, ela suporta todo tipo de dificuldades e privações em Lagos, capital da Nigéria (de população majoritariamente iorubá), com um marido horrível (em vários sentidos), distante de sua família e de seus costumes. Nnu Ego traz ao mundo muitos filhos, é uma mulher extremamente abençoada neste sentido. Mas precisa lutar com todas as suas forças para que eles tenham comida na mesa e possam ser pessoas honestas, bem criadas. Esforço e responsabilidade dos quais seu marido, Nnaife Owulum, se esquiva quase sempre sem a menor cerimônia.

 

“‘Deus , quando você irá criar uma mulher que se sinta satisfeita com sua própria pessoa, um ser humano pleno, não o apêndice de alguém?’, orava ela em desespero. ‘Afinal, nasci sozinha e sozinha hei de morrer. O que ganhei com tudo isso? Sim, tenho muitos filhos, mas com que vou alimentá-los? Com minha vida. Tenho que trabalhar até o osso para tomar conta deles, tenho que dar-lhes meu tudo. E se eu tiver a sorte de morrer em paz, tenho que dar-lhes minha alma. Eles adorarão meu espírito morto para que zele por eles: ele será considerado um bom espírito enquanto eles tiverem fartura de inhame e de filhos na família, mas, se por acaso alguma coisa der errado, se uma jovem esposa deixar de conceber ou se houver escassez, meu espírito morto será culpado.Quando ficarei livre?’” (p. 257)

 

“Alguns pais, em especial os que têm muitos filhos de diferentes esposas, podem rejeitar um mau filho, um amo pode rejeitar um criado perverso, uma esposa pode chegar ao ponto de abandonar um mau marido, mas uma mãe nunca, nunca pode rejeitar seu filho. Se ele for condenado, ela será condenada ao lado dele…” (p. 295)

 

As alegrias da maternidade é um livro com uma prosa muito fácil de ler, a história é muito boa, nos prende até a última página. Além do tema principal da maternidade — que para mim teve mais apelo —, há outros traços da cultura nigeriana do início do século XX são interessantes de ler e de comparar com a nossa realidade aqui no Brasil (daquela época e, porque não, de agora): conflitos e preconceito entre etnias; racismo; a sociedade patriarcal que rege as relações; as mulheres que se viram para viver no caos sendo subjugadas a todo o momento; os efeitos da colonização pela ótica dos colonizados; questionamentos de quem participou da Segunda Guerra Mundial, mas não na condição de “protagonista”, e sim de “coro” ou “quorum” para as “grandes potências” e mais alguma coisa que eu talvez tenha deixado passar aqui, seja por esquecimento ou por não querer dar muito spoiler do livro. Nós precisamos ler mais literatura africana para entendermos a nós mesmos não só como povo descendente (boa parte da população negra no Brasil veio de terras iorubás), mas também como povo colonizado. Vai por mim: você não vai se arrepender dessa viagem histórica e cultural.

 

“Somos como irmãs numa peregrinação. Por que não ajudaríamos uma à outra?” (p. 75) 

 

Minha experiência de leitura foi enriquecida com o audiolivro disponibilizado gratuitamente pela editora Dublinense no Spotify e em várias outras plataformas. Fui caminhando pela narrativa de Emecheta ora pelo áudio, ora pelo livro, e tive momentos de mesclar os dois recursos. Minha dificuldade de concentração em audiolivros foi superada, pelo menos em As alegrias da maternidade. Foi uma leitura ímpar, recomendo enormemente!

 

“Pode ser que você tenha razão de novo, esposa mais velha. Só que quanto mais eu penso no assunto, mais me dou conta de que nós, mulheres, fixamos modelos impossíveis para nós mesmas. Que tornamos a vida intolerável umas para as outras. Não consigo corresponder a nossos modelos, esposa mais velha. Por isso preciso criar os meus próprios.” (p. 234)

 

 

 

Título: As Alegrias da Maternidade

Autora: Buchi Emecheta

Tradução: Heloisa Jahn

Editora: TAG Curadoria / Dublinense

Páginas: 320

 

Compre na Amazon: As alegrias da maternidade.

fevereiro 04, 2020

[LISTA] SETE AUTORES FAMOSOS QUE JÁ “PARTICIPARAM” DA SÉRIE MURDOCH MYSTERIES

Murdoch Mysteries. Imagem: Divulgação CBC/ +Globosat.

 

Você conhece a série Murdoch Mysteries? A produção é canadense e é baseada nos romances da escritora Maureen Jennings (infelizmente sem tradução, ainda, para o português). No Brasil, podemos assistir aos episódios até a décima segunda temporada no canal a cabo e streaming +Globosat.

William Murdoch (Yannick Bisson) é um detetive inovador para a Toronto dos anos de 1890 (quando a série tem início). Utilizando técnicas forenses, ele resolve os casos mais complicados com a ajuda da médica legista Dra. Julia Ogden (Hélène Joy). Diferente de algumas séries policiais, Murdoch Mysteries, salvo um ou outro episódio, tem um tom bastante leve, com bastante alívio cômico. Os episódios são geralmente fechados, com duração de 30 minutos, e tratam de temas variados e progressistas, levando em consideração, é claro, o contexto da época.

Resumindo: tudo começa com um crime; mais especificamente, um assassinato. A investigação é como um quebra-cabeças instigante para Murdoch, seus companheiros de investigação e, eventualmente, personalidades da vida real que já “participaram” da série. A lista é grande e inclui nomes como Houdini, Alexander Graham Bell, Nikola Tesla… Mas como respiramos livros e literatura por aqui, vamos listar apenas os grandes autores que já “participaram” de Murdoch Mysteries. Dá uma olhada:

 

Arthur Conan Doyle (Temporada 1, Episódios 4 e 9; Temporada 6, Episódio 4)

Geraint Wyn Davies como Arthur Conan Doyle. Imagem: Divulgação CBC/ +Globosat.

O escritor mais badalado que já passou pela Station House Number 4 definitivamente é Sir Arthur Conan Doyle! E não poderia ser por menos, já que até o Inspetor Brackenreid (Thomas Craig) é fã de Sherlock Holmes. Com Doyle na delegacia, algumas investigações podem seguir um rumo diferente do racionalismo normalmente usado por Murdoch. Se você pensou em algo sobrenatural, mediúnico… acertou!

H. G. Wells (Temporada 3, Episódio 8)

Peter Mikhail é HG Wells em Murdoch Mysteries. Imagem: Divulgação CBC/+Globosat

Certo episódio, Murdoch fica impressionado ao ver, como convidado de honra na sociedade local de eugenia, o renomado autor H.G. Wells. O escritor está fazendo uma pesquisa para seu romance de ficção científica, quando uma investigação se inicia: partes de um corpo são descobertas em um lago próximo.

H. G. Wells é autor de dezenas de romances e contos, mas é mais conhecido por seus livros de ficção científica A Máquina do Tempo,A Guerra dos Mundos e O Homem Invisível.

Jack London (Temporada 5, Episódio 1)

Aaron Ashmore como Jack London. Imagem: Divulgação CBC/+Globosat

A participação de Jack London em Murdoch Mysteries acontece em um daqueles episódios em que o nosso detetive está fora de Toronto, meio deprê, precisando de consolo (sem spoilers, tá?!). Ele vai para Yukon, mas, advinha só: acontecem dois assassinatos e Murdoch não pode fazer outra coisa senão investigá-los. Com uma valiosa ajuda, é claro!

Jack London escreveu muitas histórias de aventura baseadas em suas próprias experiências nos Territórios Yukon e do Noroeste do Canadá. Suas observações formam grande parte do material de seus livros mais famosos, O chamado selvagem (1903) , O lobo do mar (1904) e Caninos brancos (1906).

Mark Twain (Temporada 9, Episódio 2)

Yannick Bisson como Detetive William Murdoch e William Shatner como o escritor Mark Twain. Imagem: Divulgação CBC/+Globosat.

Em sua passagem por Toronto, Mark Twain faz um discurso anti-imperialista que desagrada profundamente seus ouvintes. Sendo assim, alguém tenta atirar nele.

Samuel Clemons, mais conhecido por seu pseudônimo Mark Twain, foi autor de vários clássicos da literatura norte-americana, incluindo As aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn.

Lucy Maud Montgomery (Temporada 9, Episódio 12)

Alison Louder interpreta a escritora canadense Lucy Moud Montgomery em “Murdoch Mysteries”. Imagem: Divulgação CBC/+Globosat

Lucy Maud Montgomery é uma das alunas do curso de escrita criativa de George Crabtree (que é policial e escritor, nem sempre nesta ordem). Neste episódio, após ler o manuscrito de Anne de Green Gables, Crabtree sugere que Montgomery adicione cadáveres, fantasmas etc. e mude o título do livro para “Dan de Green Gables”, ou seja, trocar Anne, a protagonista, por um garoto. A autora não gosta nem um pouco das sugestões,obviamente! O desfecho dessa trama é uma gracinha, uma das participações especiais que eu mais gosto na série, e nem preciso dizer (mas digo mesmo assim) que é por motivos de Anne de Green Gables!

H. P. Lovecraft (Temporada 10, Episódio 16)

Tyler East como H P Lovecraft e Johnny Harrys como Constable Crabtree em Murdoch Mysteries. Imagem: Divulgação CBC/+Globosat.

A descoberta de um corpo e alguns esboços grotescos levam Murdoch a suspeitar de um grupo de adolescentes obcecados pela morte e cheios de insatisfações. Um jovem escritor, H. P. Lovecraft, havia se juntado a este grupo pouco antes do acontecido. Meio esquisitão, ele acaba envolvido no mistério!

Howard Phillips Lovecraft, mais conhecido como H. P. Lovecraft, foi um autor de poucos leitores em vida. Hoje, é tido como referência no gênero de ficção de terror. Veja alguns de seus livros, clicando aqui.

Helen Keller (Temporada 11, Episódio 3)

Amanda Richer como Helen Keller.

Helen Keller foi ativista política, educadora, palestrante e a primeira pessoa surdo-cega a obter um diploma de bacharelado. É muito conhecida, também, por sua autobiografia, A História da Minha Vida (1903). Em sua participação na série, ela é homenageada em um jantar totalmente sem iluminação, para que os participantes sentissem um pouco a realidade de não enchergar. O mistério começa com o sumiço de um dos participantes na ocasião.
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E então, vamos maratonar?

 

 

Post baseado no original publicado em inglês pela CBC.

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