dezembro 22, 2017

[CONTO] O NATAL EM QUE TUDO MUDOU

 

Para Lília e Maria, em memória.

 

 

Myriam era uma senhora querida por sua família e vizinhança. Por muitos anos, passara boas horas na véspera de natal fazendo rabanadas e outras delícias que ela gostava de comer e oferecer aos amigos nesta data. Não era religiosa, na verdade Myriam morreu agnóstica, mas o natal sempre fora a sua data favorita no ano inteiro. Agora ela estava morta. E seria velada na data mais especial do ano.

 

***

 

— Por Deus, quem virá neste velório em plena véspera de natal? — disse André, exaltado.

— Por acaso a dona Myriam teve culpa de falecer justo na madrugada do dia 23 para o dia 24 de dezembro? — respondeu Luíza, que ficara responsável por cuidar dos trâmites relacionados ao velório e enterro da sogra. — Você talvez não vá gostar, mas as meninas estão preparando uma pequena ceia para mais tarde.

— Vão transformar o velório da minha mãe em um circo! — disse André, mais chateado do que irritado. — Não percebem o que vocês estão fazendo?

— Meu amor, sei que este é um momento muito difícil, mas é natal. — Luíza disse, com simpatia. — Sua mãe estaria com a ceia bem adiantada neste momento.

— Mas ela está morta. Nenhuma comida ou cantoria de fim de ano podem mudar isso.

 

***

 

Como André previra, apenas o núcleo familiar mais próximo estava presente no velório. A maioria dos familiares e amigos estava viajando. Os que estavam na cidade, certamente deixariam para ir ao enterro ou talvez nem isso. Quem é que quer ir a um enterro em plena manhã do dia 25 de dezembro? Nem mesmo quem precisa ir.

Myriam era viúva, portanto seus quatro filhos e oito netos ficariam sem seu arrimo familiar. Era na casa da velha senhora que se faziam os almoços de domingo e onde se passavam todos os natais. Baixinha, com seus cabelos brancos, era tão simpática e acolhedora que nem em suas horas finais deixara de sorrir. Um câncer repentino pusera fim a sua vida, mas Myriam deixou esse mundo sorrindo. Seu corpo inerte mais parecia estar tirando um cochilo. As coroas de flores ficaram na garagem da casa. Perto do caixão, na sala, apenas seus entes queridos que se revezavam na despedida e a árvore de natal, montada por ela própria, dois meses antes do feriado. Myriam nunca se importou com o calendário oficial para montar e desmontar a árvore de natal: desempacotava o pinheiro de plástico já no começo de novembro e ia enfeitando-o até as vésperas de natal. A antecedência, dizia, era para que a sua árvore chegasse o mais perto possível da perfeição. E ela conseguia essa façanha todos os anos. Logo após o ano novo a decoração natalina era cuidadosamente desfeita e Myriam mal podia esperar para sentir o cheirinho de canela das rabanadas inundando a sua cozinha mais uma vez.

André, ao contrário de suas irmãs e de sua mãe, nunca foi uma figura muito natalina. Desde a infância sabia que era o seu pai a pessoa debaixo da fantasia do papai Noel. Foi o primeiro a desmistificar a figura do bom velhinho e também o responsável por alertar as irmãs mais novas sobre a fraude que era aquilo tudo. Gostava das comidas, isso sim. Dona Myriam sabia bem a arte das panelas. Mas para André todo aquele circo chamado natal era repugnante. Promessas vazias, muita programação ruim na TV, dinheiro gasto em presentes inúteis e em amigo ocultos… a lista era infindável. Por azar, pelo menos no que se referia ao natal, casou-se com Luíza, filha de uma grande amiga de sua mãe, herdeira indireta das panelas e do espírito natalino da falecida sogra. Luíza também tinha fascinação pelo natal. Criada em uma família católica, para ela a data é ainda mais mística do que fora para a sogra. Luíza era, nas ceias da sogra, responsável pela montagem do presépio. Sim, pois embora Dona Myriam fosse agnóstica, ela era amante das boas histórias. E amava a narrativa do nascimento do menino Jesus.

Foi uma bela ceia, aquela do ano em que faleceu Dona Myriam. Na geladeira ainda estava pregada, com um velho ima de papai Noel, a lista com os pratos planejados para serem feitos naquele ano. Não foi possível fazer tudo, obviamente. Mas a casa tinha um cheirinho acolhedor de canela enquanto a sua antiga dona repousava ali, inerte, esperando que se findassem as despedidas. Myriam amava demais o natal! E foi nesta data que tudo mudou.

 

 

Às vésperas do natal seguinte…

 

André tentava fazer um bloqueio a todos os assuntos referentes ao natal, Papai Noel, ceia, filmes temáticos e toda a extensa lista de coisas que envolvem o terrível dia 25 de dezembro (e sua véspera). Ele ia ao banco pagar uma conta, o atendente se despedia desejando-lhe um feliz natal. As lojas piscavam suas luzes coloridas e as vitrines tinham, todas elas, a arvore de plástico brilhante e chamativa. Só mais algum tempo e tudo isso terminaria. André sentia falta de Myriam e o natal, que ele já detestava, piorava ainda mais a situação. Pelo menos não teria festa em casa. Poderia passar o dia e a noite comendo uma pizza e assistindo a filmes de guerra, ou outros temas que gostasse. Nada que fosse ambientado em dezembro.

— Querido, que bom que chegou! — disse Luíza ao ver o marido entrando em casa. — Estávamos te esperando!

— Uai, você e mais quem está me esperando? — André perguntou, já temendo a resposta.

— Eu e suas irmãs. Estamos planejando a ceia deste ano. — Luíza disse, observando a reação do marido. — Precisamos da opinião de todos sobre os pratos e a decoração. A Amália sugeriu que usássemos o planejamento que a sua mãe fez para a ceia do ano passado, no entanto será necessário assistirmos a alguns tutoriais no Youtube.

André olhava para a esposa atônito. As irmãs pareciam ansiosas por uma resposta dele. Vários objetos de decoração natalina estavam espalhados pela sala, o que indicava que a ceia estava sendo planejada para ser feita em sua casa.

— Vocês estão planejando fazer uma ceia aqui, na minha casa, sem me consultar antes? — disse André, tentando conter o nervosismo. — Vocês acham mesmo que eu quero perder tempo com essas bobagens de natal? Não faz o menor sentido tudo isso, e eu sou contra fazer qualquer tipo de festa. Faz apenas um ano que a minha mãe faleceu…

— Mas, meu amor, não é uma festa. É a ceia de natal. Para ficarmos juntos nessa data. Estamos conversando agora, não havia nada planejado previamente. Estamos definindo tudo agora, queremos que você participe. Sua mãe ficaria tão feliz…

— Minha mãe está morta. E eu odeio o natal. Façam o que vocês quiserem, mas não contem comigo. — disse André.

— Nós vamos fazer nossa ceia, André. Seria muito bom se você participasse. Por nós, pelas crianças e também por você. — disse Amália, com os olhos marejados. — Mamãe ficaria orgulhosa.

André olhou para a irmã mais nova, fez menção de falar alguma coisa, mas virou as costas e saiu de casa.

 

***

 

Em poucos dias todos ficaram imersos nos preparativos da ceia de natal. Todos, menos André. Ele fez questão de trabalhar até mais tarde todos os dias que pôde, só para não participar dos preparativos. No entanto, mesmo ele tinha de reconhecer que a mãe ficaria orgulhosa do time que se uniu em prol da realização da ceia de natal daquele ano. Luíza e as cunhadas, Amália e Amaranta, ficavam horas assistindo a vídeos no Youtube e anotando as melhores receitas do site Tudo Gostoso. Usando como base a lista de Myriam, elas pesquisavam as formas mais fáceis de preparo dos pratos e acabaram incluindo uma ou outra receita para incrementar a ceia. As crianças ficaram responsáveis pela decoração e os maridos de Amália e Amaranta davam suporte às duas equipes, como eles gostavam de dizer. Se algo precisasse ser comprado, descascado ou se as crianças precisassem de algum apoio com a decoração, o serviço era para Luís ou Márcio. Dividiam-se entre a cozinha e a varanda, onde seria realizada a ceia. André acompanhava tudo parcialmente e a distância.

Na véspera do natal André não pôde trabalhar. Não existia um escritório sequer em todo o Brasil que estivesse funcionando normalmente naquele dia. Até o comércio começava a fechar as portas. Também pudera: era 24 de dezembro! Apenas serviços considerados indispensáveis continuavam a funcionar. André teria que ficar em casa naquele dia e no próximo.

A cozinha era um recanto mágico: embora a pia estivesse com louças sujas até o teto, os aromas presentes ali eram capazes de transportar toda a família para os natais felizes que passaram juntos. Aquela ceia tinha tudo para ser perfeita, mas faltava Myriam e sua alegria. André ficou no canto da cozinha observando tudo. O cheiro de canela das rabanadas recém-preparadas inundavam a casa e também sua memória. Se fechasse os olhos, poderia facilmente imaginar a voz de sua mãe ecoando pela casa, dando os últimos retoques para a tão aguardada ceia. Enquanto viajava em seu devaneio, ouviu alguém chamar seu nome no portão.

— André! André! — chamava Conceição.

— Bom dia, Conceição. — André respondeu. — Uai, os Correios estão funcionando hoje? Em plena véspera de natal?

Conceição sorriu.

— Na verdade estamos de folga. Vesti meu uniforme para fazer uma entrega especial. A Dona Myriam lhe enviou essa carta. — Conceição disse, com os olhos marejados.

— Que loucura é essa, Conceição? — André perguntou, o rosto levemente corado. — Nem os Correios demorariam tanto tempo para entregar uma carta!

— A entrega não foi registrada pelos Correios, André. Estou aqui atendendo a um pedido especial da minha falecida amiga. — Conceição respondeu. — Tenha um feliz natal.

André reconhece a caligrafia da mãe no envelope, mas fica hesitante quanto a abri-lo. Que loucura era aquela? Seria algum trote natalino de péssimo gosto? Colocou a carta no bolso da bermuda e saiu andando. Precisava ler o que estava escrito naquela carta, mas o faria em algum lugar neutro, e de preferência, que não tivesse exalando o aroma de canela.

 

 

Minas Gerais, a algumas semanas do natal…

Querido filho,

Quando você puder ler essa carta, eu estarei morta. Estou tão triste por falar de algo tão óbvio para você, mas ainda não concreto para mim… Estou doente e sinto que posso morrer em breve. Minha valência é que você não vai achar que estou fazendo drama, uma vez que as minhas suspeitas estarão confirmadas. Meu pai também sentiu a vida esvair-se. E ele também me escreveu uma carta. Apenas para mim. Não vejo como um privilégio e peço que você não se sinta privilegiado porque só escrevi para você. Usarei do mesmo argumento de meu pai ao se despedir de mim por meio de palavras escritas: “escrevo-lhe não por amar você mais que aos meus outros filhos. Escrevo-lhe, pois com você eu errei mais como pai.” Meu pai dizia que os filhos mais velhos precisam de alguma compensação na vida adulta, pois com eles os pais são as piores versões de si mesmos. Os filhos mais velhos são os mais cobrados e os mais responsabilizados. Peço que me desculpe, André, se fui assim com você.

Pedi a Conceição, que gentilmente aceitou essa demanda extra sem registrá-la nos Correios, que guardasse essa carta por um ano e só lhe entregasse às vésperas do natal. Além de minha amiga, ela é uma pessoa de confiança, que eu tenho certeza absoluta que cumprirá com o combinado sem ter a curiosidade de ler essas palavras que escrevi para você. Além do mais, quem melhor que uma funcionária dos Correios para entregar uma carta?

Escolhi o natal não por se a minha data favorita, mas por ser a que você mais detesta. Meu filho, me desculpe por todas as ceias de natal que eu insisti que você participasse. Nunca me fiz entender sobre a importância que essa festa teve em minha vida, mesmo sendo uma mulher agnóstica. O natal, para mim, é a celebração da família. Nada me fazia mais feliz do que ter todos vocês à mesa, comendo boa comida, fazendo planos para o ano novo que batia à porta. E o cheirinho de canela das rabanadas! Se não fosse tão estranho, usaria esse cheirinho como perfume. Para mim é ainda melhor que o cheiro do mar: acalma e faz feliz. Sinto que não vou poder passar o natal deste ano com vocês. Isso me entristece muitíssimo, você não faz ideia. Fico ainda mais triste só de imaginar que vocês não se reunirão mais em volta da mesa, em uma data como essa. Talvez a Luíza monte um presépio na casa de vocês ou as meninas façam um ou outro prato para o natal, mas tendo a pensar que a grande ceia morrerá junto comigo.

Querido André, não deixe o espírito do natal morrer! Digo isso não pensando em comida cara ou presentes, ou ainda, em religião. Você pode fazer um natal em qualquer outra data do ano, com qualquer prato ou com nenhuma comida! Celebre o dia da bandeira, o carnaval, o aniversário da cidade, o seu próprio aniversário… celebre o dia do índio, o dia do soldado, não importa. Celebre a vida! Mais do que isso: celebre a vida com a sua família. Ninguém sabe quando tudo chegará ao final. Se você desconfiar, como eu e como o meu pai antes de mim, que tudo estará acabando, mesmo assim, nada mais poderá ser feito. Nenhum plano. Só o vazio e o desejo incontrolável de ter mais alguns minutos, escrever só mais algumas linhas. Ver só mais um sorriso. Dizer só mais um “eu te amo”. Não tenho certeza de nada sobre a minha morte. Não sei se existe céu, inferno ou a escuridão eterna. Tornar-se novamente poeira das estrelas não soa muito poético para mim no momento. Minha mãe sempre dizia para não termos medo, que tudo seria como era antes de nascermos. Essa lembrança das palavras dela agora me apavora, mas em breve eu saberei da verdade. Ou não.

Querido André, despeço-me agora como uma visita faz ao ir embora da nossa casa: muito obrigada por tudo e me desculpe qualquer coisa! Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, foi um imenso prazer, para mim, dividir um planeta e uma época com você, suas irmãs, e toda a nossa família, como diria Carl Sagan. Foi uma glória, a maior de todas da minha vida, ser mãe de vocês. E avó dos lindos netos que vocês me deram. Eu não poderia desejar nada mais intenso e gratificante.

Adeus, ou até algum dia,

Mamãe (e vovó orgulhosa) Myriam.

 

 

André andou sem destino com a carta de sua mãe firmemente segura em uma das mãos, quase a amassando em seu peito diversas vezes. Como fora tolo! E por tanto tempo! Enquanto todos trabalhavam para ter a família unida na ceia de natal ele tentava sabotar o evento de todas as formas. Não participou de nada e sabia, havia decepcionado a todos. Entrou em casa e pegou a chave do carro mal sabendo o que ia fazer.

— André, podemos contar com você mais tarde? O jantar não vai demorar para ser servido, por causa das crianças menores. Você vai estar aqui? — Luíza perguntou, mas ficou sem resposta.

No carro, assim que virou a chave, André soube exatamente o que devia fazer. Ele tinha a chave da casa de seus pais, agora casa de sua irmã Amália, assim como as irmãs tinham a chave da casa dele, para o caso de alguma emergência. E a situação em que se encontrava era de emergência. Por sorte, o quartinho de bagunças continuava com as tralhas dos pais, pois nem ele, Amália ou Amaranta foram capazes de se desfazerem de tudo. André conseguiria participar da ceia de natal junto a sua família.

 

***

 

A varanda estava lindamente arrumada. Toda colorida, com uma decoração caseira de aquecer o coração. As crianças haviam caprichado, especialmente na árvore de natal. Não havia um galho sequer sem enfeite, e muitos deles, André pôde perceber, foram feitos pelos pequenos. Outros, ele conhecia há décadas, pois haviam sido feitos por sua mãe. A mesa era um espetáculo a parte: a equipe de culinária havia se superado. Uma longa e enfeitada mesa havia sido posta no meio da varanda, no estilo buffet, e exalava todo o tipo de aroma afrodisíaco do natal. Ao centro, o grande chester era exposto com orgulho, perfeitamente assado, de aparência divina. Vinha seguido pela farofa, salada de feijão fradinho, arroz temperado, salada de bacalhau, creme de milho e até salpicão, que André adorava. De sobremesa, além das tradicionais rabanadas, havia panetone, frutas diversas, mousse de chocolate, mousse de maracujá, pudim, e bombons em forma de árvore de natal e gorro do Papai Noel. Além do farto jantar, alguns petiscos como pastéis e torresmos, que ele nunca havia visto nas ceias de sua mãe, mas aprovava a inclusão, estavam disponíveis para aqueles que só queriam beliscar. André estava tão deslumbrado com a mesa que ficou parado na entrada da varanda, sem ser visto por ninguém por alguns minutos, até o seu filho exclamar, surpreso:

— Mamãe! Olha, o Papai Noel veio na nossa ceia!

Todos imediatamente olharam para aquele Papai Noel, surpresos com a pessoa que vestia aquela fantasia. Seria um milagre de natal? Ninguém sabia muito bem o que dizer, mas todos ficaram profundamente emocionados.

— Ei, o senhor parece muito com o meu pai, sabia? — disse Nicholas, olhando nos olhos de do Papai Noel André.

— Ho Ho Ho! Você pode guardar um segredo, pequeno Nicholas? — perguntou o Papai Noel.

— Claro! Sou um menino muito confiável! — respondeu Nicholas, orgulhoso.

— Eu e o seu pai somos parentes bem distantes. Primos, talvez. Só agora vamos nos reencontrar, depois de muitos anos.

— Ah, que pena que ele não está aqui agora. — disse Nicholas. — Sabe, meu pai não gosta muito de natal… Acho que é porque ele sente muita falta da vovó Myriam.

— Deve ser, meu filho. Deve ser. — respondeu o Papai Noel. — Mas talvez esse ano ele comece a gostar um pouquinho do natal. Vocês fizeram tantas coisas bonitas e gostosas para a ceia! Estão todos de parabéns!

Depois de abraçar e conversar um pouquinho com cada um, e tirar várias fotos também, o Papai Noel se despediu das crianças e dos adultos.

— Ainda bem que eu lavei essa roupa. Desejei muito que você participasse e meu desejo foi atendido. Obrigada, irmão! — Amaranta disse baixinho, enquanto abraçava André.

— Então foi você!

— Os milagres precisam de uma forcinha para acontecer. Esse é o espírito do natal! — respondeu Amaranta.

— Estou tão feliz, você nem imagina, querido Papai Noel! — disse Luíza, orgulhosa.

— Eu também estou. Me desculpa por não ter trabalhado com vocês. Fui um tolo, mamãe me fez perceber. — disse André.

— Como é? — Luíza perguntou, surpresa.

— Mais tarde eu te explico tudo. Ah, fala pro pessoal que a louça é minha. Também prometo que lavo a varanda depois. Preciso compensar vocês.

O Papai Noel se despediu e logo André pôde estar entre seus familiares, ouvindo as animadas narrativas das crianças sobre o Papai Noel que resolveu visitá-los de última hora. Nicholas chamou o pai no canto, afastando-o de todos, e disse:

— Eu sei que foi você papai. Mas prometo não dizer nada para não estragar a magia do natal! Todos ficaram muito felizes, incluindo eu! — disse Nicholas, orgulhoso pela descoberta.

— Então esse será o nosso segredo, meu filho. — disse André, satisfeito com a sensibilidade do filho. Há muitos anos ele havia agido bem diferente.

Nada seria como antes, todos sentiriam falta dos que partiram e é assim para todas as famílias. Mas foi nesse natal que tudo mudou.

 

 

Crédito das imagens: unsplash.com

dezembro 04, 2017

[CONTO] CAPÍTULO EXTRA DE O MATADOR NOTURNO

 

Pensando em transformar O Matador Noturno em e-book para a Amazon, eu escrevi, há algum tempo, um capítulo extra para a história. O conto tinha alguns furos e uma questão mal explicada, que eu só consegui desenvolver depois de finalizar a história no Wattpad. Eu escrevia os capítulos semanalmente e os postava quase imediatamente após escrever, fazendo só uma revisão simples. Foi uma experiência muito bacana, mas também desesperadora em partes. Histórias policiais são uma delícia de escrever, mas requerem o triplo de atenção para ficarem convincentes. Mesmo que o intuito, como o que eu tive ao escrever O Matador Noturno, seja apenas divertir e entreter.

O Matador Noturno passou pela revisão da Clara Taveira e do Raphael Pellegrini, do Capitu Já Leu, e ganhou algumas modificações sutis no enredo, além do capítulo extra. Eu resolvi não comercializá-lo, mantendo-o, assim, para leitura gratuita no Wattpad.

 

Para ler o primeiro capítulo postado aqui no blog, clique aqui.

Para ler a história completa no Wattpad, clique aqui.

 

Essa sou eu encarnando o Almeida.

 

Capítulo Extra – O Matador Noturno

 

Algumas semanas antes, na noite da morte de Bicalho…

 

Deise sabia que não era uma boa ideia ir até a delegacia. Mas ela precisava falar com Bicalho. Falar a sós. Desde o rompimento deles e desde a morte de Evangeline, ela não teve sequer um minuto em que pudesse conversar com ele às claras. Ainda guardava a chave do escritório do delegado em sua bolsa e sabia que ele costumava passar as horas que não queria ficar em casa com Patrícia na própria delegacia. Bicalho era um garotão privilegiado. Sempre conseguiu o que queria, na hora que precisava. Tinha dinheiro sem precisar batalhar por ele e poder sem merecê-lo. Qualquer investigador que precisasse fazer hora extra sabia que o delegado fazia do escritório o quintal de sua casa. Ironicamente, ou não, a delegacia era o lugar mais seguro para conversas, encontros e falcatruas. Mas apenas suas mulheres tinham a chave da porta.

Inspiração. Respiração. O cérebro de Deise sofreria uma pane assim que os olhos dela cruzassem com os de Bicalho. Não conseguia pensar direito perto dele. Duas batidas de leve na porta. Discretamente enfiar a chave na fechadura e entrar no escritório. Todos os passos de Deise haviam sido ensaiados.

— Boa noite – Deise falou com sua voz aveludada. Bicalho demorou a levantar o olhar da gaveta. Olhou para Deise um tanto surpreso. A barba estava por fazer e a roupa levemente desalinhada. Ouvia música clássica, como sempre fazia.

— O que você quer aqui? Não lembrava de que ainda tinha a chave do meu escritório – Bicalho respondeu, tentando não ser muito rude e falhando neste propósito.

— Quero conversar com você. Faz tanto tempo que não conversamos a sós – Ela disse docemente, aproximando-se da mesa.

— Que conversa é essa, Deise? Não tenho mais paciência para charminho seu, não… e você não deveria mais vir até aqui em horários impróprios ou usar essa chave – Bicalho disse, apontando distraidamente para a mão de Deise, que guardava a chave como um bem valioso.

— O que é isso, Bicalho? Esqueceu de tudo, esqueceu quem eu sou? Não lembra mais de nós dois? – Deise sussurrou e tocou levemente as mãos do delegado, a grande e imponente mesa do escritório os separando – Quero saber como você está. Sinto sua falta. Estou disposta a esquecer o seu deslize com a modelo. Poderíamos continuar de onde paramos.

Deise pronunciou cada frase como se estivesse fazendo uma prece. Não lhe agradava nem um pouco a ideia de se humilhar, mas por Bicalho… pelo delegado, ela faria coisas inexplicáveis sem ao menos pestanejar. Deu a volta na mesa e sentou nela, bem em frente a Bicalho, esperando que eles voltassem a ser os amantes que sempre foram.

Bicalho deu um sorrisinho irônico, acariciou o rosto de Deise, trazendo-a até si para beijá-la. A mulher estava ali, praticamente entregue a ele, que não resistiu e falou ao pé do ouvido:

— Você não vale um real velho e furado.

Respirou e se recostou em sua cadeira, os olhos brilhando em deboche da cena patética protagonizada pela antiga amante.

— Você não tem o direito de falar assim comigo. Eu não sou um chiclete que você pode jogar fora quando bem entender. Nós tínhamos uma relação, e você jogou tudo fora por uma vagabunda de biquíni – respondeu Deise, ainda sentada no mesmo lugar.

— Deise, querida, não venha bancar a mulher traída e ofendida. Preciso te lembrar de que você também é casada? Que a sacanagenzinha que a gente fazia ocasionalmente já deu o que tinha que dar? Você frequenta a minha casa e eu frequento a sua, mas parece que eu sou mais amigo do seu marido que você é da minha esposa. Você fantasia demais! Pinte um quadro, faça um curso de culinária ou escreva um romancezinho fuleiro desses que você gosta de ler.

Deise olhou para o lado, a gaveta aberta tinha uma foto de Evangeline.

— Nem morta essa mulher vai sair do meu caminho? Quantas mais você vai ter até perceber que sou eu a certa para você? – perguntou Deise.

— Não seja patética, Deise. É isso o que você é: patética – disse Bicalho, rindo. – Não me crie problemas. Você sabe, sou um fotógrafo e um saudosista. Tenho lembranças nossas lá em casa.

— Você é um nojento. A pessoa mais repugnante que eu já tive o desprazer de conhecer – disse Deise, entredentes. – Eu também tenho lembranças suas, de momentos que eu não participei, mas que você e o Vitório parecem ter se divertido muito.

Todo o bom humor que Bicalho ostentara até então se esvaiu com a fala de Deise.

— É bom ter cuidado com o que diz, Deise. Você pode não ver o nascer do sol se achar que sabe demais.

— E seria bom se você soubesse escolher as suas mulheres, Bicalho. Nem todas são como a Patrícia. Ou essa defunta aí da gaveta – disse Deise, fazendo menção de se retirar do escritório.

— Nossa conversa ainda não terminou, Deise.

— Não mesmo, delegado. Não mesmo.

 

***

 

Deise saíra arrasada da delegacia, não pensava que poderia chegar tão longe por causa de Bicalho. Tudo de ruim em sua vida era por causa dele! Ele era a razão de todos os seus problemas, de todas as suas confusões. Procuraria Patrícia para conversarem e dormiria na casa dela. Precisava estar na companhia de alguém, e a amiga era a sua melhor opção no momento.

— Deise! O que você faz aqui tão tarde? – perguntou Patrícia.

— Preciso de um lugar para dormir, briguei com o Vitório — respondeu Deise.

— Tudo bem, entre. Preciso mesmo falar com você – Patrícia disse, olhando no fundo dos olhos da amiga.

A casa de Patrícia e Bicalho era lindíssima. Eles eram um casal peculiar, embora fizessem questão de manter as aparências. Havia bastante tempo que dormiam em quartos separados. As duas foram até o quarto onde dormia o delegado.

— O que você está querendo, Patrícia? – Deise perguntou, tentando parecer interessada.

— Quero te mostrar uma coisa – respondeu Patrícia.

Patrícia pegou uma bela caixa de madeira, trancada com um cadeado. As duas sentaram na cama, com o objeto entre elas.

— O que tem nesta caixa? – Deise perguntou, embora temesse a resposta.

— Preciosidades do nosso bem mais precioso – Patrícia disse, sorrindo. Não tendo uma resposta de Deise, emendou – Bicalho.

— Não estou entendendo, Patrícia. Acho melhor dormirmos, já está tarde – Deise tentou se esquivar.

— Bicalho troca ocasionalmente o cadeado desta caixa. É um baú de carvalho, o famoso pau de dar em doido, já ouviu falar? É uma madeira muito resistente. Não é inquebrável, mas é muito resistente.

— Você já viu o conteúdo dessa caixa? – perguntou Deise.

— Sim.

— E o que tem nela? – Deise precisava saber.

— Fotos. Sabe, desde que o Bicalho fez um curso de fotografia, ele adora registrar tudo. Mas aqui, nessa caixa, ele guarda as fotos mais delicadas e raras para ele. Você é uma das musas, achei que gostaria de saber. Está no hall das exclusivas, junto a mim e a modelo que morreu – disse Patrícia, calmamente.

— Há quanto tempo você sabe? – perguntou Deise.

— Eu vou te dizer. Mas antes receba os meus parabéns por não tentar justificar o injustificável. Bicalho faria isso, se estivesse em seu lugar. Os homens são assim.

— Há quanto tempo você sabe? – insistiu Deise.

— O que eu posso dizer? Eu sei os segredos do meu marido. Acaso você sabe os do seu?

Deise não respondeu. Colocou sua bolsa em cima da cama e a abriu.

— Já que estamos compartilhando segredos, e tendo a pensar que já compartilhamos segredos demais, quero te mostrar duas coisas – disse Deise.

— Sim, o que é? – perguntou Patrícia.

Deise mostrou a cópia da chave do escritório de Bicalho a Patrícia e a colocou ao lado da caixa. Depois, fez o mesmo movimento, mas com uma pistola e um silenciador.

novembro 07, 2017

[CONTO] INCIDENTE SOBRENATURAL: A NOTÍCIA

Aquelas crônicas, escritas há algum tempo.

Detalhes de uma vida desimportante.

Exercícios de escrita.

 

 

crônica

crô·ni·ca

sf

1 Narração histórica pela ordem do tempo em que se deram os fatos.

2 JORN Seção em jornal ou outro periódico assinada, na qual o autor expõe suas ideias e tendências sobre arte, literatura, assuntos científicos, esporte, notas sociais, humor etc.

3 LIT Conto pequeno cuja trama é indeterminada.

4 Biografia de um rei.

5 LIT Genealogia de uma família considerada nobre.

6 HIST, LIT Exposição escrita sobre a gestão de um governante.

7 Relato dos fatos principais de uma determinada situação.

8 COLOQ Tipo de biografia falada, caracterizada pelo gênero escandaloso.

9 Conjunto de notícias, falsas ou verdadeiras, sobre alguém ou alguma coisa.

10 LIT Relato com personagens fictícios e situações que evoluem com o tempo.

ETIMOLOGIAlat chronĭca, como esp crónica

 

Fonte: http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/cronica/

 

Não vou discutir (hoje) a linha tênue que separa a crônica do conto. Às vezes, eu abro o Word ou pego uma caneta e um papel e escrevo alguma coisa que beira a ficção, mas tem muito de realidade. Esses textos, que eu publiquei aqui no blog ou no Medium, serão reunidos em um livro, postado no Wattpad e no Luvbook. Alguns textos inéditos, como o abaixo, eu vou postando aqui como novidade.

 

Incidente Sobrenatural: A Notícia

 

Um incidente sobrenatural está alarmando a população de Patrocínio do Muriaé, cidade de 5.000 habitantes perdida no interior do interior de Minas Gerais. Trata-se de uivos que foram ouvidos por toda a cidade, na última terça-feira, pela madrugada. Em contato com esta publicação, uma escritora da cidade, que prefere não se identificar, disse o seguinte: “não há nada de sobrenatural acontecendo aqui. Aposto o quanto quiser que alguém deve estar tentando desviar o foco do lançamento do meu livro. A propósito, podemos falar do meu livro…” Infelizmente, para a autora, estamos priorizando a história do lobisomem.

Há relatos de que adolescentes estão ateando fogo nas lixeiras da cidade, em protesto ao incidente que alarmou o pacato município, mas a prefeitura já está tomando providências. Em nota, a assessoria de impressa da Secretaria de Cultura, Esporte, Lazer e Outras Coisas, disse: “É lamentável que o sentimento de desespero que vem assolando a população patrocinense venha sendo divulgado de forma tão torpe pela mídia, especialmente em ano eleitoral. Não temos lobisomens aqui, infelizmente. Entretanto, convidamos a todos para virem conhecer as nossas cachoeiras, os criadouros de peixes ornamentais…” A nota da Prefeitura Municipal de Patrocínio do Muriaé pode ser lida na íntegra no em prefs.pmpm.mg

Nossa reportagem, curiosa com a situação que acomete a cidade de Patrocínio, entrevistou um varredor de rua, que prefere também não se identificar, mas esclarece: “Não temos lobisomens aqui. Os uivos são do doido do Elias, que trabalha no cemitério. Como já tem 197 dias que não morre ninguém aqui, ele achou de ficar uivando que nem cachorro. O Padre Gregório, pai dele, ficaria muito triste com essa fofoca toda.”

Uma visinha de Elias, ao ser procurada pela nossa equipe, disse não ter nada a declarar. Contudo, recebemos um bilhete dizendo que Elias é o lobisomem de Patrocínio e que a visinha dele não é de ficar bisbilhotando, mas viu tudo. Não temos como provar a autoria do bilhete, mas suspeitamos que seja da própria visinha.

O nosso enviado especial, que decidiu ficar morando na cidade, o policial militar aposentado Sargento Carvalho, está vigilante e promete entrevistar o lobisomem assim que possível. Espera apenas o equipamento de segurança que encomendou via internet chegar. Aguardemos.

 

 

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