novembro 07, 2017

[CONTO] INCIDENTE SOBRENATURAL: A NOTÍCIA

Aquelas crônicas, escritas há algum tempo.

Detalhes de uma vida desimportante.

Exercícios de escrita.

 

crônica

crô·ni·ca

sf

1 Narração histórica pela ordem do tempo em que se deram os fatos.

2 JORN Seção em jornal ou outro periódico assinada, na qual o autor expõe suas ideias e tendências sobre arte, literatura, assuntos científicos, esporte, notas sociais, humor etc.

3 LIT Conto pequeno cuja trama é indeterminada.

4 Biografia de um rei.

5 LIT Genealogia de uma família considerada nobre.

6 HIST, LIT Exposição escrita sobre a gestão de um governante.

7 Relato dos fatos principais de uma determinada situação.

8 COLOQ Tipo de biografia falada, caracterizada pelo gênero escandaloso.

9 Conjunto de notícias, falsas ou verdadeiras, sobre alguém ou alguma coisa.

10 LIT Relato com personagens fictícios e situações que evoluem com o tempo.

ETIMOLOGIAlat chronĭca, como esp crónica

 

Fonte: http://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/cronica/

 

Não vou discutir (hoje) a linha tênue que separa a crônica do conto. Às vezes, eu abro o Word ou pego uma caneta e um papel e escrevo alguma coisa que beira a ficção, mas tem muito de realidade. Esses textos, que eu publiquei aqui no blog ou no Medium, serão reunidos em um livro, postado no Wattpad e no Luvbook. Alguns textos inéditos, como o abaixo, eu vou postando aqui como novidade.

 

Incidente Sobrenatural: A Notícia

 

Um incidente sobrenatural está alarmando a população de Patrocínio do Muriaé, cidade de 5.000 habitantes perdida no interior do interior de Minas Gerais. Trata-se de uivos que foram ouvidos por toda a cidade, na última terça-feira, pela madrugada. Em contato com esta publicação, uma escritora da cidade, que prefere não se identificar, disse o seguinte: “não há nada de sobrenatural acontecendo aqui. Aposto o quanto quiser que alguém deve estar tentando desviar o foco do lançamento do meu livro. A propósito, podemos falar do meu livro…” Infelizmente, para a autora, estamos priorizando a história do lobisomem.

Há relatos de que adolescentes estão ateando fogo nas lixeiras da cidade, em protesto ao incidente que alarmou o pacato município, mas a prefeitura já está tomando providências. Em nota, a assessoria de impressa da Secretaria de Cultura, Esporte, Lazer e Outras Coisas, disse: “É lamentável que o sentimento de desespero que vem assolando a população patrocinense venha sendo divulgado de forma tão torpe pela mídia, especialmente em ano eleitoral. Não temos lobisomens aqui, infelizmente. Entretanto, convidamos a todos para virem conhecer as nossas cachoeiras, os criadouros de peixes ornamentais…” A nota da Prefeitura Municipal de Patrocínio do Muriaé pode ser lida na íntegra no em prefs.pmpm.mg

Nossa reportagem, curiosa com a situação que acomete a cidade de Patrocínio, entrevistou um varredor de rua, que prefere também não se identificar, mas esclarece: “Não temos lobisomens aqui. Os uivos são do doido do Elias, que trabalha no cemitério. Como já tem 197 dias que não morre ninguém aqui, ele achou de ficar uivando que nem cachorro. O Padre Gregório, pai dele, ficaria muito triste com essa fofoca toda.”

Uma visinha de Elias, ao ser procurada pela nossa equipe, disse não ter nada a declarar. Contudo, recebemos um bilhete dizendo que Elias é o lobisomem de Patrocínio e que a visinha dele não é de ficar bisbilhotando, mas viu tudo. Não temos como provar a autoria do bilhete, mas suspeitamos que seja da própria visinha.

O nosso enviado especial, que decidiu ficar morando na cidade, o policial militar aposentado Sargento Carvalho, está vigilante e promete entrevistar o lobisomem assim que possível. Espera apenas o equipamento de segurança que encomendou via internet chegar. Aguardemos.

 

 

Para ler essa (ou outras histórias) em outras redes: Wattpad * Luvbook * Medium

julho 07, 2017

[CONTO] ANNE: UMA RELEITURA DE PERSUASÃO, DE JANE AUSTEN

Sinopse: Anne pertence a uma importante, porém empobrecida, família do interior de Minas Gerais. No passado, foi apaixonada por Fred, um inteligente e ambicioso rapaz de família humilde. Teria se casado com ele, mas foi persuadida por sua família e recuou do compromisso firmado anteriormente. Vários anos se passam até que um novo Fred volta ao lugar onde foi desprezado pela família Elias. Agora, ele é um homem bem sucedido, um veterinário respeitado e de boa situação financeira. “Anne” é uma releitura moderna de Persuasão, de Jane Austen: a história de um amor que precisará vencer as barreiras do orgulho e do ressentimento para ser vivido.

 

O post de hoje é um convite à leitura do meu conto, Anne. Veja o primeiro capítulo abaixo:

Anne

Capítulo 1

Minas Gerais, século XXI.

 

O Sr. Walter Elias, da fazenda Élio, em Minas Gerais, era um homem que, em momentos de ócio, não se distraía com mais nada além da leitura do livro de recortes de sua família. Ali tinha um porto seguro nos momentos difíceis e situações desagradáveis ocasionadas, em maior parte, por problemas domésticos. Os jornais antigos mostravam todos os grandes homens que tiveram a honra de carregar o sobrenome Elias.

Quando se cansava de ler sobre seus antepassados, lia fatos de sua própria história, sempre muito bem narrados pelos jornalistas em nível regional e até nacional. Eis um trecho da biografia do respeitável senhor publicada pelo jornal Estado de Minas Gerais:

 

Walter Elias, nascido em 1º de março de 1951, casou-se em 15 de julho de 19-— com Elisabeth, filha de Frederick Stevenson, distinto cavalheiro imigrante da Inglaterra. Ficou viúvo com três filhas ainda bem jovens: Elisabeth, nascida em 1º de abril de 1981; Anne, nascida em 20 de setembro de 1985; e Mariah, nascida em 19 de novembro de 1987.

 

Orgulhosamente, usando uma caneta de escrita fina e com traços delicados, escreveu, logo após a data de nascimento de Mariah: “casada em 16 de dezembro de 2009, com Carlos Musgrove Filho, herdeiro de Carlos Musgrove, distinto empresário de São Paulo”.

 

Ninguém podia dizer que o Sr. Walter, conhecido por muitos como Dr. Walter, embora nunca tenha concluído um curso universitário, não era um homem atraente. Aos sessenta e seis anos, era um senhor respeitado, que ainda atraía olhares, inclusive de mulheres mais novas, como bem gostava de observar. É bem verdade que a estima adquirida em sua comunidade se deve, além do sobrenome Elias, à lembrança que muitos ainda guardavam de sua falecida esposa, que era uma flor de candura e sabia ignorar os defeitos do marido.

Sr. Walter tão logo enviuvou, teve a valiosa ajuda de D. Glória, uma grande amiga de sua finada mulher, para o término da criação das filhas. Ela também é uma viúva e de boa família, mas, contrariando todos os mexericos e expectativas da comunidade, os dois não se casaram. Não havia necessidade, tampouco desejo da parte de Sr. Walter. Ele se considerava um bom pai e viveria o resto de sua vida em função das filhas, sobretudo da mais velha, fisicamente semelhante à mãe, mas de temperamento e caráter iguais ao seus. Mariah havia se casado na primeira boa oportunidade que teve, e Anne… Bem, Anne sempre esteve a cargo de D. Glória, sua madrinha de batismo. Embora fosse a imagem e semelhança do pai, ele não tinha paciência para os arroubos de Anne e seu diferente jeito de ser.

No momento, irritava-se facilmente com os pitacos que a filha dava em relação à situação financeira da família.

— A fazenda não produz como antes. Na verdade, não produzimos nada de relevante, não nos automatizamos e gastamos muito dinheiro com frivolidades! – Dizia Anne.

— Elisabeth é uma ótima senhora para a Fazenda Élio. Se os negócios vão mal, a culpa é da economia brasileira, que está em frangalhos! – Defendia o Sr. Walter.

— Querido pai, não podemos culpar a economia pelos gastos frequentes e as festas que vocês dão. Daqui a pouco, não teremos como pagar os salários dos empregados! A melhor saída, como eu já disse mais de uma vez, é arrendar a fazenda. Pelo menos parte dela. O Dr. Gonçalo tem algumas pessoas para nos indicar. Vamos ouvi-lo!

Dr. Walter se enfurecia toda vez que percebia que Anne tinha razão. A serenidade com a qual ela lidava com a situação o fazia quase detestá-la. Certamente não se importava em deixar a fazenda, se virava bem no meio de gente pobre, e se achava independente, pois tinha um emprego. Mas Elisabeth, pobre Elisabeth, o que seria dela, e dele próprio, não podendo mais serem os senhores da Fazenda Élio? Infelizmente não tinham saída, teriam de arrendar a fazenda. Mas seria por pouco tempo, tinha certeza. Seriam férias do campo! Enquanto isso, viveriam em uma casa não muito longe dali, uma residência mais modesta, comparada à sede da fazenda. Muito bem localizada, essa casa ficava de frente para o Paço Municipal e suas belas árvores e mesinhas de jogar xadrez.

 

***

 

— Dr. Walter, tenho os arrendatários perfeito para o senhor! – Disse o animado advogado da família, Dr. Gonçalo. – Um militar aposentado e sua esposa. Não têm filhos e desejam a calmaria do interior. Não tendo achado uma propriedade para comprar, estão dispostos a arrendar a Fazenda Élio; a área da casa grande, os estábulos e uma parte do campo onde fica o pomar. A parte agrícola, como o Sr. sabe, será arrendada para a indústria.

— E esse militar por acaso tem dinheiro? – Perguntou Sr. Walter.

— Sim, e muito! Nem quis negociar. É de família abastada, se afastou da Aeronáutica por problemas de visão, pelo o que eu pude entender. – Disse o advogado.

Sr. Walter bufou e debochou, sob o olhar de reprovação de Anne:

— Então um velho cegueta vai ser o senhor da minha fazenda?

— De maneira alguma, Dr. Walter. Ele não é cego, nem velho. Bem, deve ter a idade do senhor, talvez um pouco menos. – Dr. Gonçalo riu e logo se envergonhou com o olhar crítico de Sr. Walter. – Ele saiu da Aeronáutica porque lá não admitem pilotos com problemas de visão que podem se agravar com o tempo. E ele já tinha muitos anos de serviço, pelo que pude apurar. Ademais, o cunhado dele conhece bem a região. É um renomado veterinário, cuidará dos cavalos enquanto estiver aqui. Andrade é o sobrenome dele, mas não me recordo o nome.

Sr. Walter franziu o cenho ao perceber Anne pálida como um fantasma.

— Não conheço ninguém com esse sobrenome. – Disse Sr. Walter.

— Frederick. O nome dele é Frederick. – Respondeu Anne de forma quase inaudível.

— Ah, então vocês o conhecem? Ótimo! Vou dar andamento à papelada e em breve lhe procuro, Dr. Walter, para finalizarmos a transação e assinarmos o contrato.

Sr. Walter acompanhou o advogado até a saída e foi tratar com Elisabeth os detalhes da decoração da casa da cidade, pois vários objetos teriam de ser substituídos ou acrescentados, agora que a família Elias estava de mudança. Anne ficara jogada em sua poltrona favorita, com o pensamento apenas em uma pessoa.

— Em pouco tempo ele estará aqui novamente. Fred estará aqui.

 

Clique na imagem e ouça a playlist de “Anne” no Spotify!

 

Anne foi publicado em seis capítulos de forma semanal no Wattpad entre julho e agosto deste ano. Agora, desde o dia 22 de setembro, está disponível em e-book na Amazon, em edição revista e com um capítulo extra. Quem gosta de romance sem muitas cenas quentes, só amorzinho mesmo, está convidado a suspirar comigo!

(Avaliações e comentários são muito bem-vindos!)

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