outubro 24, 2016

[RESENHA] CENAS LONDRINAS, DE VIRGINIA WOOLF

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Cenas Londrinas é um conjunto de ensaios de Virginia Woolf publicados originalmente na revista Good Housekeeping nos anos de 1931 e 1932. No Brasil, o livro foi publicado pela José Olympio Editora, como integrante da coleção Sabor Literário, que contou com títulos de Antonio Calado, Nathaniel Hawthorne, Ferreira Gullar, dentre outros. Os ensaios de Woolf contam com a apresentação do poeta Ivo Barroso.

 

São seis ensaios em que a autora nos permite passear por Londres, seus costumes, seus habitantes. É um livro bem pequeno; são 84 páginas incluindo a apresentação e a história dos ensaios. Contudo, o olhar sempre perspicaz de Virginia Woolf nos transporta para a realidade londrina de sua época.

 

Retrato de uma londrina, o último ensaio, foi o que mais me encantou. Nele, conhecemos a rotina e a vida de Mrs. Crowe, uma típica londrina retratada por uma autora que amava esta cidade.

 

“O delicioso de Londres era que sempre dava algo novo para observar, algo fresco sobre o que falar. Era preciso apenas manter os olhos abertos e sentar em sua própria poltrona das cinco às sete horas todos os dias da semana.” (p. 77)

 

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É um bom livro para aqueles que amam ou desejam conhecer um pouco mais da história e dos costumes de uma das mais importantes cidades do mundo. Não é um guia, mas um retrato inteligente e repleto de sentimento como só Virginia Woolf poderia escrever.

 

 

“Vê-se Londres como um todo – a Londres abarrotada, estriada e compacta, com suas cúpulas dominantes, suas catedrais-guardiães; suas chaminés e pináculos; seus guindastes, gasômetros; e a perpétua fumaça que nenhuma primavera ou outono consegue dissipar.” (contracapa)

 

 

 

Título: Cenas Londrinas
Autora: Virginia Woolf
Tradução: Myriam Campelo
Editora: José Olympio
Páginas: 84

 

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

setembro 22, 2016

[RESENHA] A MARCA NA PAREDE, CONTO DE VIRGINIA WOOLF

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Virginia Woolf (1882-1941) é uma escritora bastante conhecida por romances como Mrs. Dalloway, Orlando, Rumo ao Farol, e também por seus ensaios, muitos com temática feminista. Mas uma faceta que, para muitos, ainda pode ser desconhecida, é o talento da autora também na escrita de contos. Quando a rotina fica meio apertada, mas não queremos deixar de ler alguma coisa, uma boa opção é embarcar em histórias curtas, que podem proporcionar leituras tão agradáveis quanto os grandes romances.

 

O título foi indicação da Francine Ramos, do blog Livro e Café, que está promovendo o Clube de Leitura de Virginia Woolf no facebook. Ainda que não tenha sido possível, para mim, acompanhar o cronograma de leituras, o Clube é uma boa dica para quem deseja conhecer mais sobre Virginia Woolf e suas obras.

 

A Marca na Parede foi escrito entre 1917 e 1921, período em que o mundo era palco da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Nele, a partir de uma simples marca na parede, embarcamos em uma jornada mental sobre tudo o que aquela marca poderia significar.

 

Foi em meados de janeiro deste ano que olhei pela primeira vez para cima e vi a marca na parede. Para fixar uma data é preciso lembrar o que se viu. Por isso eu penso agora no fogo; no inalterável véu de luz amarela sobre a página do meu livro; nos três crisântemos na jarra de vidro redonda na lareira. Sim, deve ter sido no inverno, e tínhamos acabado de terminar o nosso chá, pois lembro que eu estava fumando quando olhei para cima e vi a marca na parede pela primeira vez.” (p. 11)

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Além da técnica do fluxo de consciência, muito marcante nas obras da autora, também é uma felicidade ler ecos do discurso feminista tão bem elaborado e defendido na produção literária de Woolf.

 

Quão chocante, no entanto quão maravilhoso, descobrir que essas coisas verdadeiras, os almoços de domingo, os passeios de domingo, as casas de campo e as toalhas de mesa, não eram afinal tão verdadeiras assim, sendo de fato meio fantasmais, e que a danação que se abatia sobre quem não acreditava nelas era apenas um impressão de liberdade ilegítima. O que agora toma o lugar dessas coisas, pergunto-me, dessas coisas importantes e sérias? Talvez os homens, caso você seja mulher; o ponto de vista masculino que governa nossas vidas, que fixa o padrão, que estabelece a Ordem de Precedência de Whitaker, a qual desde a guerra se tornou meio fantasma, suponho eu, para muitos homens e mulheres, e que em breve, é lícito esperar, será motivo de riso na lata de lixo para onde vão os fantasmas, os bufês de mogno e as gravuras de Landseer, deuses e demônios, o Inferno e assim por diante, deixando-nos a todos uma impressão intoxicante de liberdade ilegítima – se existe liberdade…” (p. 18)

A Marca na Parede é um conto curto, porém muito bem escrito e trabalhado. É uma viagem na mente desta autora maravilhosa! Sim, creio que na mente dela mesmo, pois não há descrição de nomes dos personagens neste conto. Talvez seja um eu lírico, mas prefiro pensar que é a própria Virginia Woolf, em sua prosa poética. A marca na parede? Era uma coisa bastante simples. Tão simples quanto surpreendente.

 

Você pode encontrar este conto para leitura em coletâneas de contos da autora. As que conheço e recomendo são as edições da Cosac Naify, de contos completos ou selecionados, este último na edição portátil (de bolso), disponível em e-book e livro físico, na Amazon.

 

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

setembro 08, 2016

[RESENHA] MRS. DALLOWAY, FILME 1997

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Também conhecido no Brasil como Sra. Dalloway (ou, ainda, como A Última Festa), a adaptação cinematográfica do romance homônimo de Virginia Woolf tenta trazer para a tela toda a complexidade da narrativa da autora, que ficou conhecida por usar o fluxo de consciência, especialmente neste romance.

 

Uma história a princípio bem simples, de uma senhora envolvida nos preparativos de uma festa que dará em sua casa durante a noite. O cenário é Londres e sua alta burguesia, além de uma melancolia altamente palpável.

 

É impossível falar de Mrs. Dalloway, seja o romance ou a adaptação para o cinema, sem antes mencionar o famoso método narrativo o qual Virginia Woolf ficou também bastante conhecida: o fluxo de consciência.

 

O fluxo de consciência é um método narrativo da época modernista, em que os padrões clássicos são postos de lado e os autores exploram a interioridade dos personagens em relação ao mundo e a sociedade. Como muitos dizem, o fluxo de consciência é a literatura dentro da mente dos personagens. Em Mrs. Dalloway, a autora nos mostra o confronto entre a realidade interior de cada personagem e a realidade exterior do mundo.

 

Clarissa Dalloway vai dar uma festa e neste dia lembra-se de seu passado, refletindo sobre suas escolhas, acertos e possíveis erros. Na juventude, ela namora Peter Walsh e tem uma relação bastante próxima com Sally, mas casa-se com Richard Dalloway, muito por este ser uma opção que lhe garantiria maior segurança e conforto. Ela tem uma ótima vida, pertence à alta classe londrina, tem um bom marido, planeja uma festa… mas ao mesmo tempo está em desequilíbrio interiormente. O reencontro com Peter Walsh, anos depois, no dia de sua festa, acentua o seu conflito interno.

 

Peter também vive seu conflito, pois embora não se preocupe com as aparências, como seu antigo amor, não conseguiu superar os sentimentos do passado, sobretudo o fato de Clarissa ter se casado com Richard. Viveu sua vida sem grandes realizações, foi para a Índia, apaixonou-se por uma mulher mais nova, mas seu amor por Clarissa sempre esteve e sempre estará ali, numa parte significativa de seu coração. Sente-se insatisfeito pela pessoa que ele acha que Clarissa se tornou; fria, distante e preocupada com as opiniões da sociedade em que vive.

 

Richard Dalloway foi o único personagem que se manteve tal como era em sua juventude: tinha aspirações políticas e seguiu carreira. Construiu sua vida ao lado de Clarissa, com uma rotina amorosa e confortável. Sally, embora ainda com suas opiniões sobre o mundo e as pessoas, tornou-se a esposa de um industrial e mãe de cinco filhos, tendo uma rotina quase tão caseira quanto Mrs. Dalloway.

 

O filme também mostra as marcas da Primeira Guerra Mundial em um jovem veterano, Septimus Smith, que ficou neurótico com a morte de seu superior Evans, além das experiências que viveu nas trincheiras. Prestes a ser internado em um manicômio, ele suicida-se pulando da janela de sua casa. Sua morte é mencionada na festa de Mrs. Dalloway e deixa a anfitriã ainda mais pensativa sobre os rumos que a vida pode tomar.

 

O filme consegue fazer o paralelo entre passado e presente, reflexões e acontecimentos reais. Ainda assim, acredito que a leitura possa ser mais esclarecedora, sobretudo pela questão do fluxo de consciência. Para quem, como eu, ainda não leu o romance, não fica tão difícil de entender o roteiro de Eilleen Atkins, desde que o método narrativo da obra original seja lembrado.

 

Mrs. Dalloway pode ser cada uma de nós. Uma mulher que viveu sua juventude com toda a paixão que conseguia e que, na velhice, torna-se uma pessoa diferente, saudosa de seu passado. Sua preocupação maior é que todos se divirtam e tenham uma noite agradável em sua festa, contudo, em sua juventude, seus amigos acreditavam que ela pudesse ter um futuro bem mais promissor. Vive toda a melancolia de sua idade, mas não posso dizer que a achei uma personagem infeliz. Casou-se bem, como já dito, e vive uma rotina tranquila. Entretanto, uma parte dela questiona-se sobre como teria sido se ela tivesse escolhido outro caminho.

 

Assistir essa adaptação me fez pensar, assim como Clarissa, sobre o que eu era há 10 ou 15 anos e sobre o que sou hoje. Na juventude queremos ser tudo o que pudermos ser. Na vida adulta as coisas podem não ser como imaginamos. De vez em quando é bom tirar um dia para o saudosismo e Mrs. Dalloway é uma ótima pedida!

 

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Mrs. Dalloway

De Marleen Gorris, Inglaterra-Holanda, 1997.

Com Vanessa Redgrave (Mrs. Clarissa Dalloway), Natascha McElhone (Clarissa jovem), Michael Kitchen (Peter Walsh), Alan Cox (Peter jovem), Sarah Badel (Lady Rosseter), Lena Headey (Sally jovem), John Standing (Richard Dalloway), Robert Portal (Richard jovem), Oliver Ford Davies (Hugh Whitbread), Hal Cruttenden (Hugh jovem), Rupert Graves (Septimus Warren Smith), Amelia Bullmore (Rezia Warren Smith), Margaret Tyzack (Lady Bruton), Robert Hardy (Sir William Bradshaw), Richenda Carey (Lady Bradshaw).

 

Roteiro Eileen Atkins.

 

Baseado no romance Mrs. Dalloway, de Virginia Wolf.

 

Fotografia Sue Gibson.

 

Música Ilono Sekacz.

 

Produção First Look Pictures, Bayly/Paré, Bergen Film), BBC Films. DVD Casablanca Filmes.

 

 

Referências:

SOUSA, Simone Elizabeth. O fluxo de consciência em Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Acesso em http://cratilo.unipam.edu.br/documents/32405/38116/OFluxoDeConscienciaEmMrsDallaway.pdf

 

http://50anosdefilmes.com.br/2010/sra-dalloway-ou-a-ultima-festa-mrs-dalloway/

 

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

Compre o livro na Amazon: Mrs. Dalloway.

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