Fevereiro 27, 2018

[LETRAS] AS LÍNGUAS DOS HOMENS

 

Há quem pense que só existe uma única língua portuguesa. Bela, perfeita e… quase inatingível.  Esta é norma culta, ou variante padrão de prestígio: a língua escrita, que usamos para entender e sermos entendidos, portanto, segue uma série de normas de padronização.

Existe outra língua, a da comunicação rápida, instantânea, adornada pelos regionalismos e pelas vivências (ou falta delas) de seus usuários. Esta é a língua falada, que, mesmo que alguns teimem em dizer que não, é tão linda quanto aquela que sai da ponta do lápis.

Uma não pode viver sem a outra, isso é fato. A língua falada ajuda a escrita a continuar viva. E a escrita permite que um maior número de pessoas possível consiga entender a língua falada. Assim são as línguas dos homens: interligadas, seguem interligando.

 

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Esse pequeno texto foi uma proposta de atividade realizada para a disciplina de Português VIII (Sociolinguística), do curso de Licenciatura em Letras da UFF/CEDERJ. Saiba mais sobre Sociolinguística no blog da Parábola Editorial.

Janeiro 22, 2018

[LETRAS] EU, ESTAGIÁRIA (PARTE I)

Colégio Estadual Rotary. Itaperuna-RJ

 

No semestre passado (2017-2) eu resolvi — e a matriz curricular apontava que já estava mais do que na hora de — começar o Estágio Supervisionado do meu curso de Letras. O CEDERJ, a instituição que promove a logística (grosso modo) dos cursos de graduação a distância das Universidades públicas do estado do Rio de Janeiro, oferece quatro disciplinas obrigatórias para as licenciaturas, sob a supervisão da UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense) na maioria dos polos regionais (o meu é o de Itaperuna-RJ). Sendo assim, mesmo eu sendo aluna da UFF (Universidade Federal Fluminense), meus estágios serão regidos e avaliados pela UENF. Parece complicado, não? E é um pouco, pois o sistema é todo altamente burocrático.

Confesso que, no início do semestre, fiquei muito (muito mesmo!) confusa. O ambiente do Estágio Supervisionado I na Plataforma CEDERJ tinha tanto documento, tanta informação e tanta desinformação também… Situação normal de todo início de aprendizagem, mas para quem é aluno, o desespero toma conta! Foi só a partir das tutorias presenciais que foi possível entender um pouco melhor a proposta dessa etapa do estágio e também como visualizar as informações da Plataforma voltadas para o meu curso e Universidade. Embora as atividades sejam basicamente as mesmas, algumas Universidades têm particularidades que outras não têm. E alguns modelos de atividades precisam ter o logotipo ou o nome da universidade que o aluno está cursando.

 

A Plataforma CEDERJ.

 

Bem no comecinho assinamos, junto ao diretor da escola parceira (a que escolhemos fazer o estágio) e também da coordenadora do curso da nossa Universidade, um Termo de compromisso de estágio. Esse termo é um contrato que estabelece quais serão as atividades, carga horárias e outras informações relevantes para o estágio. O termo assinado e algumas outras documentações passam, ainda, pela Secretaria de Estado de Educação, a chamada Regional de Ensino, para que o estágio seja liberado. Afinal, o aluno da Universidade Pública investigará (obrigatoriamente) a rede pública de ensino, para que os conhecimentos gerados por ele possam ajudar a sociedade de uma forma geral. Desenvolver nossos trabalhos nas escolas públicas é uma forma de conhecer e também devolver uma parte dos recursos gastos conosco na graduação.

 

Minha carteira de estagiária, com uma foto super atual minha, #SQN

 

Com os documentos liberados pela Regional e de posse da carta de apresentação assinada pela diretora do Polo Regional UAB, no meu caso o polo CEDERJ Itaperuna, as atividades podem ser desenvolvidas diretamente na escola, conforme manda a lei.

Escolhi estagiar no Colégio Estadual Rotary, escola em que me formei (2006) e estudei muitos anos. Fiquei ligeiramente emocionada em voltar para o lugar onde fiz tantos amigos e que foi fundamental para o meu desenvolvimento como pessoa. A diretora ainda é a mesma dos meus tempos de aluna e muitos dos meus antigos professores ainda lecionam no colégio. Tirei algumas fotos, que compuseram o meu relatório final e que estão distribuídas ao longo desta postagem, como vocês podem ver. O Rotary é uma escola de bairro, de porte médio e muito aconchegante. Para uma escola estadual, do estado falido mal gerido do Rio de Janeiro, ela é muito bem cuidada e conservada. A escola passou por uma grande restauração na década de oitenta e em 2008 foram feitas outras melhorias, conforme pode ser visto abaixo.

 

 

De agosto a novembro, período em que o meu Estágio Supervisionado I foi realizado, muito material foi produzido. Meu Relatório Final de Estágio, em sua versão final final mesmo pelo amor de Jesus, ficou com cinquenta e duas páginas! Há boatos que o meu nem foi o maior de todos os relatórios, e que nos semestres seguintes outros relatórios maiores ou mais complexos virão. Mas a jornada valeu muito a pena e, eu sei, está apenas começando. O Estágio, que a grande maioria — incluindo eu — achava ser apenas uma enrolação burocrática para fazer gastar papel e gasolina, contribui e muito para que o aluno tenha certeza de sua profissão futura. Muitas pessoas dizem que a prática docente não tem nada dessa quantidade de papel absurda dos estágios e eu acredito nisso. Mas, se o processo fosse fácil, qual seria a qualidade dos professores em sala de aula? Se não desenvolvermos a capacidade de investigação e pensamento crítico durante o curso, quando isso será possível? Os alunos, especialmente os da rede pública, merecem o melhor, tendo em vista as limitações sociais que têm. Sem contar que, nós alunos, que temos o privilégio de cursar uma Universidade Federal sem nos deslocarmos diariamente e nem sair das nossas cidades no interior, precisamos sim, provar que somos aptos e capazes assim como nossos colegas da modalidade presencial. A burocracia irrita e eu me estressei bastante nesse semestre, assim como nos anteriores, e como eu sei que vou me estressar até o final. Mas, sem a danada da burocracia, como seria possível? Com ela ainda temos tanta corrupção…

 

Sala de leitura do C. E. Rotary.

 

No semestre passado fizemos duas resenhas, destaque para o texto sobre o livro A Alegria de Ensinar, que eu postei aqui no blog, pois foi uma leitura muito prazerosa. Também fizemos um clipping educacional, como uma espécie de termômetro das notícias atuais sobre a educação no Brasil; uma entrevista com um professor que esteja atuando no momento, que eu fiz via internet com a professora Julia Cecilia Neri de Assis (obrigada de novo!) e algumas atividades de observação do ambiente escolar e sobre os profissionais da escola, com o intuito de nos mostrar um panorama do que é uma organização educacional, tendo agora o olhar de futuros professores. Todas as atividades foram carimbadas, assinadas, rubricadas etc. até formarem as tais cinquenta e duas (!) páginas do Relatório Final de Estágio. Ao longo do semestre postamos essas atividades de forma individual na Plataforma, para a verificação da tutora a distância e da coordenadora de estágio.

Eu pensei que ao final do semestre eu só teria do que reclamar, mas é muito gratificante perceber que agora tenho um outro olhar sobre o Estágio Supervisionado. O processo não é perfeito, talvez ainda esteja um pouco longe do ideal. Mas é o melhor possível e nos proporciona uma bagagem incrível. No mais, deu tudo certo, fui aprovada com uma ótima nota e já estou preparada para a parte dois, que a propósito, começa já no final deste mês. Até lá!

outubro 18, 2017

[LETRAS] Só dez por cento é mentira: a verdade na poesia de Manoel de Barros

O poeta Manoel de Barros

 

Manoel de Barros (1916-2014) foi e sempre será um poeta da verdade. Da verdade da vida que teimamos em esquecer. Ele enxergava e respirava poesia em todo o lugar, em todo o momento, e talvez por isso sempre dissesse que só teve infância. A poesia não floresce em corações amargos e amargurados de jovens e adultos sempre tão ocupados.

O premiado documentário Só dez por cento é mentira (2008) mostra as várias infâncias do poeta, inclusive daquela que ele vivia no momento, a terceira infância, com pouco mais de setenta anos, até mais de oitenta. Nele, vemos alguns poemas de Barros entremeados com entrevistas de alguns leitores profundamente tocados e modificados pela poesia quase pueril do autor, além de depoimentos do próprio. A esposa de Barros diz, em entrevista, e é completamente compreensível, que mesmo àquela altura da vida, ela sentia muito ciúme do marido. Ela sabia, assim como sabem os leitores do poeta das verdades, que ele era um homem profundamente inteligente. Um tesouro que habitou a terra. Afinal, só as pessoas inteligentes conseguem ver as preciosidades da vida sem se contaminarem pelos dissabores da sociedade.

O poema  Sou um sujeito de recantos / Os desvãos me constam / Tem hora leio avencas / Tem hora, Proust / Ouço aves e beetovens / Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin / O dia vai morrer aberto em mim., relaciona-se com a vida de Manuel de Barros em resumo, conforme mostrado no belo documentário. Se é verdade que todo poema é autobiográfico, este não poderia ser menos o retrato de seu autor. Ele foi um sujeito que conseguia ler avencas e também um autor de peso, como Proust. Ouvia aves e a música clássica das abelhas. Estava aberto a tudo que era belo no universo. Só dez por cento do que escrevia era mentira. Os outros noventa, dizia ser invenção. Mas sua obra é cem por cento verdadeira, no que concerne a vida e o ser realmente humano.

 

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Esse texto foi escrito para a Avaliação a Distância (AD2) da disciplina Literatura Brasileira IV, do curso de Letras da UFF/CEDERJ. Gostei tanto do poeta que já li um de seus livros, Meu quintal é maior do que o mundoe recomendo muitíssimo  que vocês assistam o documentário abaixo. É impossível não se apaixonar pelo autor. Sua poesia e a maneira como ele enxergava a vida são contagiantes!

 

 

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