Março 31, 2017

[LANÇAMENTO] BELINDA, DE MARIA EDGEWORTH

Sinopse: “Publicado pela primeira vez em 1801, Belinda é a história de Miss Portman, uma moça inteligente e charmosa em meio às tentações e perigos da elegante sociedade londrina da época. Enviada para Londres por sua tia casamenteira para encontrar um marido rico e com um título de nobreza, Belinda influencia a vida de todos aqueles os quais têm a honra de conhecê-la. Um dos romances mais instrutivos já escritos até hoje, um manual de como ser feliz em meio às frustrações da sociedade.”

 

A postagem de hoje é para que eu possa dar-lhes as boas novas: o Blog Tamires de Carvalho foi selecionado para ser parceiro da Pedrazul Editora! Com isso, teremos por aqui ainda mais novidades sobre os lançamentos da editora em primeiríssima mão! Falando em lançamento, Belinda, de Maria Edgeworth entra em pré-venda hoje! Você pode reservar o seu exemplar aqui. O livro tem quase 500 páginas, em uma edição belíssima, com ilustrações originais. Tamanho 16X23cm e tradução de Bianca Costa Sales, a mesma tradutora de Os Mistérios de Udolpho.

 

Saiba mais sobre o romance:

“Mrs. Stanhope fez de tudo até conseguir que a  dama mais elegante e influente de Londres, a notória lady Delacour, uma viscondessa, levasse sua última sobrinha solteira para passar uma temporada com ela.  A esperança da tia era que Belinda conseguisse, com o as suas demais primas, um bom e rico marido. Belinda, então, foi jogada num tumulto social e acabou se envolvendo nos conflitos familiares da aristocrática família Delacour. Enquanto a belíssima lady Delacour tenta chamar a atenção de Clarence Hervey e outros cavalheiros para si com coquetismo, vivendo uma agitada vida social, como se o mundo fosse acabar amanhã, ela enfurece lorde Delacour, causando uma tragédia. Mas a lady esconde um grande segredo. Em meio à agitada vida social, o coração da jovem Belinda é tocado por Mr. Hervey, mas ele está comprometido com outra. Resta a Belinda se casar com Mr. Vicent, o protegido dos sóbrios e racionais Percivals.

 Belinda é a história envolvente de uma jovem mulher forte, que luta para manter sua integridade, mesmo estando sob a tutela de um mau exemplo experiente na forma de uma lady elegante.”

 

 

SOBRE A AUTORA

Quando Jane Austen publicou seu primeiro romance, Razão e Sensibilidade, em 1811, não havia dúvida de que era a principal romancista da época: Maria Edgeworth (1768 – 1849). Ela não foi apenas a escritora de ficção inglesa mais admirada, mas também a melhor remunerada. Numa famosa vindicação de ficção em A Abadia de Northanger, Austen cita nomes de livros, entre eles Belinda de Edgeworth, como uma daquelas obras que provaram o poder intelectual e a sagacidade dos melhores romances.  A autora permaneceu como a maior romancista da Inglaterra até o início do século XIX.

 

Belinda é mais um título indispensável na estante dos fãs de Jane Austen. E só a editora que lançou Os Mistérios de Udolpho em português poderia presentear-nos com um lançamento desses, em uma edição primorosa!

 

Adicione Belinda à sua estante no Skoob clicando aqui.

 

URGENTE: As primeiras 100 pessoas que comprarem Belinda através do site da editora concorrerão a um exemplar de A Pequena Dorrit, de Charles Dickens, edição ilustrada originalmente. O lançamento do livro de Dickens está previsto para agosto deste ano.

agosto 14, 2016

[RESENHA] OS MISTÉRIOS DE UDOLPHO, VOL. II

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Veja a resenha de Os Mistérios de Udolpho, Vol. I aqui.

 

A situação da nossa heroína, Emily St. Aubert, não é das melhores ao final do volume I de Os Mistérios de Udolpho: Encarcerada no macabro castelo, sofre com terrores possivelmente sobrenaturais, armações por parte do Signor Montoni, que deseja a qualquer custo roubar a herança de Madame Montoni já prometida a jovem, dentre outras aflições. A tia de Emily foi aprisionada em uma parte isolada do castelo de Udolpho, sem água ou comida, em represália por não ter dado o seu dinheiro ao marido. Emily não tem certeza se sua ela está viva ou morta e sofre por se sentir cada vez mais distante de seu amado, Monsieur Valancourt.

 

Confesso que tive dúvidas se a história manteria o ritmo do volume anterior, pois muita coisa já havia acontecido. Felizmente, Ann Radcliffe possuía várias cartas ainda em sua manga, com muitos mistérios e situações para explicar.

 

Udolpho é tão macabro que qualquer barulho é considerado como algo sobrenatural, causando gritaria, confusão e, obviamente, desmaios. Emily, embora pareça uma moça frágil, precisou ter muita coragem, enfrentando os seus medos para saber da tia, além de pensar em alguma forma de escapar das garras de Montoni e seus caprichos.

 

A jovem logo descobre que Madame Montoni não está morta. Não ainda. Com ajuda de Annette, sua fiel criada, ela descobre o cativeiro da tia. Mesmo castigada e abandonada a própria sorte para morrer, Madame Montoni não satisfez os caprichos do marido, deixando todo o seu dinheiro para a sobrinha.

 

““Onde você esteve por tanto tempo?”, perguntou ela no mesmo tom. “Eu pensei que você tinha me abandonado.”

Você está mesmo viva”, disse Emily, finalmente, “ou isto é só uma aparição terrível?”, ela não recebeu resposta alguma, e novamente pegou a mão.

Isto é substância”, ela exclamou, “mas está fria… fria como mármore!” Ela a deixou cair. “Oh, se você está realmente viva, fale!”, disse Emily numa voz de desespero, “para que eu não perca os meus sentidos. Diga que você me conhece!”

Eu estou mesmo viva”, respondeu Madame Montoni, “mas, eu sinto que estou prestes a morrer”.” (p. 30)

Quando Montoni soube da morte de sua esposa, e considerou que ela havia morrido sem dar a ele a assinatura tão necessária para alcançar seus desejos, nenhum senso de decência restringiu a expressão do seu ressentimento. Emily evitou sua presença ansiosamente e ficou de vigia durante dois dias e duas noites, com poucos intervalos, ao lado do corpo de sua tia falecida.” (p. 40)

Signor Montoni vai manter Emily em Udolpho, mesmo após a morte de Madame Montoni, praticamente como uma prisioneira, pois almeja roubar-lhe todo o dinheiro.

 

““Julgando como eu”, continuou Montoni, “não posso acreditar que você vá se opor em questões que sabe não poder ganhar, ou de fato, que você queira ganhar, ou ter avareza por qualquer propriedade, quando não tem a justiça do seu lado. Contudo, eu acho que é apropriado lhe informar da alternativa. Se você tiver uma opinião justa quanto ao assunto em questão, você será levada em segurança para a França dentro de pouco tempo; mas, se for tão infeliz a ponto de ser enganada pela afirmação recente da Signora, você continuará sendo minha prisioneira até se convencer do seu erro”.

Emily disse calmamente:

Eu não sou tão ignorante, Signor, quanto às leis, neste assunto, a ponto de ser enganada por afirmações de qualquer pessoa. A lei, nesta instância presente, dá-me as propriedades em questão e a minha própria mão nunca trairá o meu direito.”” (p. 44)

““Assine os documentos”, disse Montoni, mais impacientemente do que antes.

Nunca, senhor”, respondeu Emily; “esse pedido teria provado para mim a injustiça de sua reivindicação, se eu estivesse ignorante quanto aos meus direitos”.

Montoni ficou pálido de raiva, enquanto o seu lábio tremendo e seu olhar à espreita quase a fizeram se arrepender da audácia de seu discurso.

Então, toda a minha vingança cairá sobre você”, ele exclamou, com um juramento terrível. “E não pense que ela será adiada. Nem as propriedades em Languedoc, nem as de Gasconha serão suas; você ousou questionar o meu direito. Ouse questionar o meu poder agora. Eu tenho uma punição que você não imagina; ela é terrível!”” (p. 56 e 57)

O vilão, que está sempre envolvido com alguma falcatrua para enriquecer, tem o castelo atacado por inimigos, pouco depois da morte de sua esposa. A situação, em parte, foi boa para Emily, que pôde sair um pouco de Udolpho, embora na condição de protegida do Signor. Neste ínterim, ela precisava descobrir a identidade de um dos prisioneiros do castelo, que ela acreditava esperançosamente ser o seu amado Valancourt.

 

Enquanto ela olhava, com essas emoções, para as torres do castelo, subindo sobre a floresta, por entre a qual ela serpenteava, o estranho, que ela acreditava estar preso lá, voltou à sua memória, e a ansiedade e o medo que ele fosse Valancourt passaram sobre a sua felicidade como uma nuvem. Ela relembrou cada circunstância sobre essa pessoa desconhecida desde a noite em que ela o ouviu tocar a canção de sua província natal pela primeira vez; circunstâncias que ela já havia relembrado e comparado antes, sem extrair delas nada perto de convicção, e que só a faziam acreditar que Valancourt era um prisioneiro em Udolpho. Era possível, contudo, que os homens que a conduziam pudessem dar-lhe informações sobre esse assunto; mas, temendo questioná-los imediatamente, com receio de que eles não quisessem contar nada para ela na presença dos outros, ela esperou por uma oportunidade de falar com eles separadamente.” (p. 62)

Após o conflito, Emily volta para Udolpho, pois Montoni a quer bem debaixo de seu nariz, pelo menos até conseguir todo o dinheiro da moça. Na esperança de voltar para França, a jovem fraqueja e cede às ameaças do Signor.

 

Ela foi incapaz de assiná-lo por um tempo considerável e seu coração estava dividido com interesses opostos, pois estava prestes a desistir da felicidade de todos os anos de seu futuro: a esperança que a havia sustentado durante tantos momentos de adversidade.

Após ouvir de Montoni uma recapitulação das condições da aceitação e uma demonstração de que o seu tempo era valioso, ela colocou sua mão no papel; quando o fez, caiu para trás em sua cadeira, mas, logo, recuperou-se e pediu para que ele desse ordens para a partida dela e que deixasse que Annette a acompanhasse. Montoni sorriu. “Foi preciso lhe enganar”, disse ele, “não havia outra maneira de fazer com que você agisse racionalmente; você irá, mas isto não será no presente. Primeiro eu devo garantir essas propriedades tomando posse; quando isso for feito, você poderá voltar para a França, se quiser.”” (p. 94)

O mistério sobre o tal prisioneiro é revelado, frustrando as expectativas de Emily a princípio. Contudo, o homem misterioso será a passagem da jovem de volta a França, longe do Signor Montoni e do castelo de Udolpho.

 

““Meu nome é Du Pont; eu sou da França, da Gasconha, a sua província natal, e tenho lhe admirado há muito tempo, e, por que eu deveria tentar esconder isso? Eu tenho lhe amado a muito tempo.”” (p. 104)

De volta a seu país de origem, é hora de sabermos os mistérios que envolvem outra propriedade, e que podem ter ligação direta com Emily: o Chateau-le-Blanc, antigo lar da Marquesa de Villeroi, a qual Emily guarda absurda semelhança. Haveria alguma relação entre o falecido pai de Emily e a Marquesa? Seria a mesma dama pela qual Monsieur St. Aubert sofrera em lágrimas na solidão de seu quarto, há algum tempo?

Monsieur Valancourt, antes um dedicado e amoroso cavalheiro, reencontra Emily, mas já não é o mesmo de antes. Envolvera-se com mulheres e jogatinas em Paris, tendo sua reputação jogada na lama, influenciado por amigos, na ocasião da guerra.

 

Valancourt ficou mais agitado do que antes. “Eu sou indigno de você, Emily”, disse ele, “eu sou indigno de você”; palavras que, pela maneira que foram faladas, fizeram Emily ficar mais chocada com elas do que com o seu significado.” (p. 154)

““Oh, Valancourt!”, ela exclamava, “tendo sido separados por tanto tempo… nós nos encontramos só para ficarmos infelizes… só para nos despedirmos para sempre?”” (p. 159)

O casal precisará superar alguns obstáculos e mal entendidos para, finalmente, encontrarem a felicidade juntos. Antes disso, Emily ainda terá mais alguns segredos envolvendo sua família para serem revelados.

 

Os Mistérios de Udolpho é o tipo de livro que pode assustar pelo tamanho, mas é certeza de satisfação garantida. Quando pensamos já ter acontecido de tudo nas viagens e nos castelos, algo mais, acontece e prende a nossa atenção. Os personagens secundários surpreendem e os cenários são minuciosamente retratados, o que nos permite embarcar de forma mais realista possível nos acontecimentos. Um ponto negativo, talvez, em minha opinião, seja o casal Emily e Valancourt, que não são do tipo apaixonantes. Neste volume, inclusive, achei o rapaz um tanto quanto chato. Acredito que o personagem atendia aos padrões da época da publicação (1794) e com tantas aventuras e mistérios para desvendar, o romance dos dois acabou fazendo um papel secundário na obra. Como fã de Jane Austen, foi ótimo ter lido este livro em português e o considero como uma das publicações mais importantes da Pedrazul Editora até o momento. Como foi dito na resenha do volume I, Os Mistérios de Udolpho é item indispensável na estante dos fãs de literatura inglesa, sobretudo do fãs de Jane Austen.

 

 

Título: Os Mistérios de Udolpho
Autora: Ann Radcliffe
Tradução: Bianca Costa Sales
Editora: Pedrazul
Páginas: 312

 

Compre pela Amazon: Os Mistérios De Udolpho – Vol. 2 e Os Mistérios De Udolpho – Vol. 1

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

Maio 25, 2016

[RESENHA] OS MISTÉRIOS DE UDOLPHO, VOL. I

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“Na manhã seguinte, fez um dia lindo, e Catherine se preparou para novas investidas do grupo reunido. Os Tilneys vieram buscá-la na hora combinada; e como não surgiu nenhum novo obstáculo, nenhuma recordação súbita, nenhum chamamento inesperado, nenhuma intrusão impertinente para perturbar os seus planos, minha heroína, por incrível que pareça, pôde cumprir seu compromisso, embora com o próprio herói. Decidiram passear por Beechen Cliff, a nobre colina cuja bela vegetação de arbustos suspensos fazia dela um objeto tão impressionante quando vista de Bath.

– Nunca olhei para lá – disse Catherine, ao caminharem às margens do rio sem pensar no sul da França.

– Já viajou para o exterior, então? disse Henry, um pouco surpreso.

– Ah, não! Só me refiro ao que li a respeito de lá. Sempre me faz lembrar do país pelo qual Emily e seu pai viajaram, em Os Mistérios de Udolpho. Mas o senhor nunca lê romances, não é?

Por que não?

Por que eles não são inteligentes o bastante para o senhor… Os homens leem livros melhores.

Aquele que, homem ou mulher, não sente prazer na leitura de um bom romance deve ser insuportavelmente estúpido. Li todas as obras da sra. Radcliffe, e a maioria delas com grande prazer. Quando comecei a ler Os Mistérios de Udolpho, não conseguia largá-lo; lembro-me de que o li em dois dias… de cabelos arrepiados o tempo inteiro.”

(AUSTEN, Jane. A Abadia de Northanger. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 129)

O fragmento acima é apenas uma das passagens em que Os Mistérios de Udolpho (1794), de Ann Radcliffe, é citado em A Abadia de Northanger (1818), de Jane Austen. Lembro-me de terminar a leitura do romance de Austen e ir logo pesquisar sobre Udolpho, pois ele havia não só sido muito bem recomendado pelos queridos personagens de A Abadia de Northanger, como também, obviamente, pela própria Jane Austen. O antigo desejo de ler a obra em português se tornou possível com a publicação de Os Mistérios de Udolpho pela Pedrazul Editora! Agora, todos nós podemos nos sentir como Catherine Moorland, com o coração disparado a cada página e a cada mistério!

 

A princípio, Udolpho é uma leitura que demora algumas páginas para deslanchar. Acho que isso se deve, em parte, pela ansiedade de conhecer o famoso castelo. Ficamos acostumados com Miss Moorland falando de Udolpho, mas a realidade é que demoramos um pouco para chegar lá. Quando conseguimos entrar no ritmo da história, entretanto, é impossível parar de ler! Trata-se de um romance riquíssimo em detalhes e em conteúdo, surpreendente a cada página!

 

O livro começa dando informações sobre a vida e o dia a dia da família St. Aubert. O ano é 1584 e o primeiro castelo que conhecemos é o de Monsieur St. Aubert, localizado nos agradáveis bancos do rio Garona, na província da Gasconha (p. 9). Nele, vivem Madame e Monsieur St. Aubert e também sua filha, Emily.

 

“Em pessoa, Emily lembrava sua mãe; tendo a mesma simetria elegante da forma, a mesma delicadeza das feições e os mesmos olhos azuis cheios de doçura terna. (…)

St. Aubert cultivava o discernimento dela com o cuidado mais escrupuloso. Ele a deu visão geral das ciências, e uma familiaridade exata com cada parte da literatura elegante. Ele a ensinou latim e inglês, principalmente para que ela pudesse compreender a sublimidade de seus melhores poetas. Ela descobriu em seus anos mais jovens um gosto pelas obras dos gênios; e foi o princípio de St. Aubert, assim como a sua inclinação, promover cada meio inocente de felicidade. ‘Uma mente bem informada’, ele dizia, ‘é a melhor segurança contra o contágio da insensatez e do vício. A mente vaga está sempre à procura de alívio, e pronta para mergulhar no erro, para escapar do langor da ociosidade. Carregue-a de ideias, ensine-a o prazer de pensar, e as tentações do mundo lá fora serão contrabalanceadas pelas gratificações derivadas do mundo de dentro. Pensamento e instrução são igualmente necessários à felicidade de uma vida no campo e uma vida na cidade; na primeira eles previnem as sensações inquietas da indolência, e fornecem um prazer sublime no gosto que criam pelo belo e o grandioso; na última, eles fazem a depravação ser menos um objeto de necessidade e, consequentemente, de interesse.‘” (p. 13)

 

 

Logo no início da história, Emily passa por sua primeira tragédia: a morte da mãe. Uma tristeza muito grande abateu a família St. Aubert, que já era bem pequena. Nessa ocasião, surge o primeiro mistério: Na tristeza de seu quarto, Monsieur St. Aubert buscou a imagem de uma dama, que estava guardada em uma caixa. Emily o viu observar o retrato com ternura, beijá-lo e o levar ao coração, com uma paixão tremenda. A jovem pôde observar que a mulher do retrato não era a sua mãe e ficou surpresa com tal fato. Vendo o sofrimento do pai, ela se retira silenciosamente de seu quarto e ele parece não perceber a presença da filha.

 

A saúde de Monsieur St. Aubert não estava nas melhores condições, principalmente levando em consideração o trauma recente. Seu médico lhe recomenda, então, uma viagem: o ar de Languedoc e da Provença poderiam lhe fazer retornar à sua melhor constituição. Sendo assim, ele e Emily saíram do castelo em viagem às margens do mediterrâneo, em direção à Provença.

 

Na viagem, conhecem Valancourt, que se apaixonará por Emily. A jovem, muito devido à preocupação com o estado de saúde de seu pai e também pela tristeza causada pela recente morte de sua mãe, inicialmente se mostra tímida e não dá muitos sinais de encorajamento ao rapaz. Este, contudo, parece adquirir os sentimentos mais profundos por Emily desde o momento que conhece a jovem. Mas, como cada qual tem o seu destino, Valancourt logo se despede dos St. Auberts, que prosseguem em busca do ar da Provença.

 

“Ele (M. St. Aubert) sentiu muito quando chegaram ao local onde as estradas se separavam, e seu coração se despediu mais afetuosamente dele do que é comum depois de um relacionamento tão curto. Valancourt falou muito ao lado da carruagem; pareceu que ia embora mais de uma vez, mas ainda se demorava e parecia procurar ansiosamente por assuntos para a conversa a fim de justificar sua demora. Enquanto ia, St. Aubert o observou olhar para Emily com um olho sincero e pensativo, enquanto a carruagem seguia em frente. St. Aubert, por qualquer que fosse a razão, logo em seguida olhou pela janela, e viu Valancourt em pé na beira da estrada, se apoiando sobre a sua lança com os braços cruzados, e seguindo a carruagem com os olhos. Ele acenou, e Valancourt, parecendo ter acordado de seus devaneios, retornou a saudação, e se afastou apressadamente.” (p. 42)

 

O leitor vai perceber que nem tudo serão flores e galanteios na vida da jovem Emily: seu pai morre no meio da viagem, longe de casa, na cama de estranhos que lhe permitiram a estada, pois não havia nenhum outro lugar em que ele pudesse ficar. Percebendo que seus últimos momentos estavam próximos, M. St. Aubert faz Emily lhe prometer que quando voltar para casa pegará uns papeis que estão em seu escritório, escondidos debaixo de uma tábua, e que vai queimá-los sem ver do que trata o conteúdo. Mesmo surpresa com o pedido, Emily promete ao pai que vai cumprir com o que ele pediu, de acordo com as suas orientações.

 

Órfã, Emily foi posta aos cuidados da tia, Madame Cheron. A partir daí a história, em minha opinião, deslancha. Foi nessa parte que eu já não conseguia mais sair de casa sem levar o meu Udolpho! Madame Cheron é uma mulher mesquinha e insensível desde as primeiras páginas. Não lembra em nada o irmão, inclusive justifica sua postura sugerindo que M. St. Aubert teria sido um homem fraco ao longo da vida e que lhe destinou uma tarefa muito ingrata após a morte, cuidar da sobrinha praticamente adulta.

 

Madame Cheron, ao chegar a La Valée, se irrita profundamente ao encontrar Valancourt conversando com sua sobrinha. Ela faz julgamentos precipitados sem conhecer o rapaz e o caráter de Emily, o que deixa a jovem bastante triste, contudo, preparada para o que pode vir. Sua tia é enfática, quer partir o mais rápido possível para Toulouse e a Emily só resta se despedir do castelo onde viveu com sua falecida família.

 

“E quem é este jovem aventureiro, diga-me?’, perguntou Madame Cheron, ‘e quais as intenções dele?’ Emily respondeu: ‘isso ele mesmo deve explicar, senhora, meu pai não era ignorante quanto à família dele e eu acredito que ela seja irrepreensível’. (…)

‘Eu lamento perceber, sobrinha’, disse ela, aludindo a algo que Emily havia dito sobre fisionomia, ‘que você herdou muitos dos preconceitos de seu pai, e dentre eles aquela predileção repentina pelas pessoas por causa da aparência delas. Eu posso ver que você acha que está apaixonada violentamente por aquele jovem aventureiro, após conhecê-lo por apenas alguns dias. Também havia algo tão encantadoramente romântico na maneira do encontro de vocês’.

Emily  conteve as lágrimas que caíram de seus olhos enquanto falava: ‘quando a minha conduta merecer tal severidade, senhora, você fará bem em exercê-la; até lá a justiça, senão a ternura, deveria restringi-la. Eu nunca a ofendi deliberadamente; agora que perdi meus pais a senhora é a única pessoa de quem eu posso esperar bondade. Não me faça lamentar mais do que nunca a perda desses pais.‘” (ps. 111 e 112)

 

Emily fica totalmente à mercê de Madame Cheron, de seus humores e vontades. A vida da jovem não vai ser nada fácil junto da tia, que faz o papel da típica madrasta má, embora seja irmã do pai de Emily. 

“‘Estou contente por me encontrar em minha própria casa de novo’, disse ela, jogando-se em um grande divã, ‘e por ter minha própria criadagem à minha volta. Eu odeio viajar; embora, é claro, eu devesse gostar disso, pois o que vejo lá fora sempre me deixa maravilhada, ao voltar para o meu próprio castelo. O que lhe deixou tão silenciosa, criança? O que é que está lhe incomodando agora?'” (p. 117)

 

Pouco tempo depois somos apresentados ao personagem que nos deixa de cabelos arrepiados, como disse Mr. Tilney, em A Abadia de Northanger: Signor Montoni. Sedutor e misterioso, o italiano se torna amante de Madame Cheron e para a surpresa de Emily, casa-se com sua tia de uma hora para outra, sem que ninguém além do casal soubesse dos planos de matrimônio.

“Emily mal havia entrado no vestíbulo quando observou, com surpresa, o abatimento no rosto de sua tia, e a alegria contrastante de seu vestido. ‘Então, sobrinha!‘, disse, e ela parou com algum grau de constrangimento. ‘Eu a chamei… eu… eu queria vê-la; tenho notícias para lhe dar. A partir deste momento você deve considerar o Signor Montoni seu tio, nós nos casamos esta manhã.'” (p. 138)

 

Se, até o momento, a vida de Emily não estava das mais tranquilas, embora sua tia tenha permitido o seu noivado com Valancourt, depois de descobrir um parentesco entre ele e uma (rica) conhecida sua, Madame Clairval, as coisas ficariam ainda piores. Com o casamento, todos os assuntos da agora Madame Montoni e de sua sobrinha e protegida Emily viraram assunto do Signor Montoni! Depois do casamento, ele se tornou uma pessoa impraticável e apenas a sua vontade seria levada em conta. Emily, que pouco podia decidir sobre a sua vida, agora perdera o direito a qualquer reivindicação. Madame Montoni, que inicialmente concordava com todas as opiniões do marido, sua vida se transformar em um inferno a partir do momento em que todos deixam a França e se mudam para a Itália, principalmente quando chegam ao castelo de Udolpho.

 

“Apenas algumas semanas haviam decorrido desde o casamento, quando Madame Montoni informou Emily que o Signor pretendia retornar à Itália tão logo os preparativos necessários à viagem fossem feitos. ‘Nós iremos para Veneza’, disse ela, ‘onde o Signortem uma bela mansão, e de lá para a propriedade dele na Toscana. Por que você está tão grave, criança? Você que é apaixonada pelo interior romântico e por belas vistas, sem dúvida ficará encantada com essa jornada.

‘Então eu deverei fazer parte do grupo, senhora?’, disse Emily, com surpresa e emoção extremas. ‘Certamente’, respondeu sua tia, ‘como você pode imaginar que nós a deixaríamos para trás? Mas eu vejo que você está pensando no cavalheiro; ele ainda não foi informado da viagem, creio eu, mas logo ele será. SignorMontoni foi informar Madame Clairval de nossa jornada, e dizer que não se deverá pensar mais na conexão proposta entre as famílias, de agora em diante.‘” (p. 140)

“Mas Montoni, que havia sido atraído pela aparente fortuna de Madame Cheron, agora estava severamente desapontado com a sua pobreza relativa e altamente irritado com a enganação que ela havia empregado para escondê-la, até que esconder não fosse mais necessário. Ele havia sido enganado quando pretendia ser o enganador; superado pela astúcia superior de uma mulher, cujo discernimento ele desprezava, e por quem ele havia sacrificado o seu orgulho e a sua liberdade, sem se salvar da ruína que agora pendia sobre a sua cabeça.” (p. 183)

 

Signor Montoni garantirá momentos de suspense e terror para Emily, sua tia e para nós, leitrores de Udolpho! Quando chegamos ao final do volume 1 e percebemos que ainda tem muita história e mistérios pela frente, fica impossível não partir imediatamente para a leitura do volume 2! Os Mistérios de Udolpho superaram todas as minhas expectativas, foi uma ótima leitura, que recomendo a todos, especialmente para os fãs de Jane Austen. Para estes, é item obrigatório para ter na estante!  

 

 

 

Título: Os Mistérios de Udolpho
Autora: Ann Radcliffe
Tradução: Bianca Costa Sales
Editora: Pedrazul
Páginas: 316

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

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