novembro 11, 2016

[RESENHA] A LOUCA DA CASA, DE ROSA MONTERO

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A Louca da Casa, da escritora espanhola Rosa Montero, foi o livro que a TAG – Experiências Literárias enviou aos seus associados em outubro, por indicação da também escritora, Carola Saavedra. É o tipo de livro que, superficialmente, não nos diz nada sobre o seu assunto. O leitor olha para a capa, título, informações da orelha e contracapa e, ainda assim, fica meio perdido. Com a curiosidade aguçada, priorizei a leitura e o resultado foi surpreendentemente encantador.

 

(Aqui faço um parêntese para informar que não sou o tipo de associada que, a partir das dicas que a TAG dá na revista e nas redes sociais, fica vasculhando a internet para descobrir o livro do mês seguinte. Gosto da surpresa.)

 

 

Rosa Montero é uma das maiores escritoras espanholas da atualidade. Nascida em Madri, trabalhou por anos como jornalista, recebendo os prêmios Manuel Del Arco de Entrevistas, o Prêmio Nacional de Periodismo e o Prêmio de La Asociación de La Prensa de Madri durante sua vida profissional. Hoje, é colunista exclusiva do El País.

Como escritora, publicou 14 livros, entre eles 12 romances, que foram traduzidos para mais de vinte línguas, como os premiados Te tratarei como uma rainha, Lágrimas na chuva, Instruções para salvar o mundo, Histórias de mulheres, A história do rei transparente e Paixões.” (orelha do livro)

 

A Louca da Casa é uma mistura de ensaio e autobiografia romanceada. Nele, Montero fala sobre a arte e o ofício da escrita, apresentando fatos de sua vida e também de escritores famosos, como Goethe, Tolstoi, Calvino, George Eliot, dentre outros. Sobre os outros escritores, a autora garante que foi fiel aos registros escritos de suas biografias, mas em relação a ela a coisa muda de figura: algumas histórias apresentam mais de uma versão, todas igualmente interessantes e plausíveis. Alguns fatos podem ser verdade, ou não.

 

 

Tudo o que conto neste livro sobre outros livros ou outras pessoas é verdade, quer dizer, responde a uma verdade oficial documentalmente verificável. Mas receio que não possa garantir o mesmo sobre o que se refere à minha própria vida. Porque toda autobiografia é ficcional, e toda ficção, autobiográfica, como dizia Barthes.” (post scriptum)

 

O livro, cujo título a autora escolheu devido a uma referência que Santa Teresa de Jesus costumava fazer com a imaginação, é uma leitura para aqueles que gostam de livros, de saber sobre os autores, mas, acima de tudo, é uma livro para quem ama escrever.

 

 

(…) nós inventamos nossas lembranças, o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas.” (p. 8)

“Falar de literatura, então, é falar da vida; da própria vida e da vida dos outros, da felicidade e da dor. É também falar do amor, porque a paixão é o maior invento das nossas existências inventadas, a sombra de uma sombra, a pessoa adormecida que sonha que está sonhando.” (p. 11)

“A realidade não passa de uma tradução redutora da enormidade do mundo, e o louco é aquele que não se adapta a essa linguagem.” (p. 122)

 

Dois, dos dezenove capítulos deste livro foram os meus favoritos. O treze, que fala sobre as mulheres, e o dezesseis, que fala sobre as mulheres dos escritores. Nunca tinha parado para pensar que existe a figura da esposa do escritor, a protetora, revisora, guardiã do criador de histórias, mas, por outro lado, quase nada é comentado e divulgado sobre os maridos das escritoras. Não no mesmo sentido. A autora fala sobre Sonia Tolstoi, que eu já sabia ser quem transcrevia e revisava os romances do marido, mas, no entanto, não imaginava os dissabores de sua vida junto a Liev. As observações de Rosa Montero nos dois capítulos lembraram-me bastante do livro Um Teto Todo Seu, de Virginia Woolf, que eu recomendo muitíssimo a leitura.

 

 

“Considero-me feminista, ou, para dizer melhor, anti-sexista, porque a palavra feminista tem um conteúdo semântico equívoco: parece contrapor-se ao machismo e sugerir, portanto, uma supremacia da mulher sobre o homem, quando o grosso das correntes feministas não somente não aspiram a isso, mas reivindicam exatamente o contrário: que ninguém se subordine a ninguém por causa de seu sexo, que o fato de termos nascido homens ou mulheres não nos encerre num estereótipo. Mas minha preferência pelo termo anti-sexista não significa que eu renegue a palavra feminista, que pode ser pouco precisa, mas é cheia de história e resume séculos e séculos de esforços de milhares de homens e mulheres que lutaram para mudar uma situação social aberrante. Hoje somos todos herdeiros dessa palavra: ela fez o mundo se mexer e eu continuo a empregá-la com orgulho.” (p. 109)

 

A Louca da Casa é uma leitura rápida, fácil e bastante agradável. Este seria mais um título que eu não compraria se visse em uma livraria, mas que agora também recomendo a leitura.

 

 

Título: A Louca da Casa
Autora: Rosa Montero
Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman
Editora: Harper Collins
Páginas: 176

 

 

Compre na Amazon: A Louca da Casa.

novembro 07, 2016

[RESENHA] O CASAMENTO, DE NELSON RODRIGUES

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Certa vez resolvi ler A vida como ela é, de Nelson Rodrigues (1912-1980), mas a leitura não rendeu muita coisa. Mal cheguei à página 100. O autor pareceu muito politicamente incorreto para mim, e por politicamente incorreto entenda extremamente machista e um pouco homofóbico. Mal sabia eu que, pouco tempo depois, ficaria vidrada, presa até a última página, em seu romance O Casamento.

 

O Casamento foi o livro do mês de agosto/2016 enviado pela TAG- Experiências Literárias, indicação da Heloísa Seixas. Resolvi, como recomendado pela curadora, deixar o preconceito de lado e embarcar na leitura. Fiquei surpresa por ter gostado tanto do livro! Tanto que agora vou pensar um pouco mais antes de dizer que não leio de jeito nenhum determinado autor.

 

 

“Leia sem preconceito. Todo gênero é único. É criador, é inventor, não segue padrões existentes e por isso não se enquadra em escaninhos. Nelson é livre. E é preciso ser livre para lê-lo.” (Heloísa Seixas, para os associados da TAG)

 

O romance conta a história de Sabino Uchoa Maranhão e sua família. Ele é um bem sucedido empresário carioca e está às vésperas de casar a sua filha mais nova (e favorita), Glorinha. Tudo seguia conforme o planejado quando o ginecologista de Glorinha, Dr. Camarinha, faz uma revelação bombástica ao pai da moça: o médico teria surpreendido o genro de Sabino, Teófilo, aos beijos com o seu assistente, Zé Honório, chegando ao seu consultório. A partir daí, Sabino precisa descobrir o que fazer com essa informação, mas uma coisa era certa: cancelar o casamento estaria fora de questão.

 

 

“Afinal de contas, o casamento já é indissolúvel na véspera.” (p. 26)

 

Pensamos que o grande problema da história é a pederastia (sim, o autor usa esse termo) de Teófilo, mas há muito mais sujeira debaixo do tapete de Sabino e sua família.

 

Polêmico e publicado na década de sessenta, O Casamento foi censurado pela ditadura militar menos de dois meses depois de seu lançamento. O romance é uma leitura ágil, crua e totalmente despudorada. Nelson Rodrigues não usa de meias palavras em sua história. Aqui são expostos temas como machismo, incesto e homofobia de forma bastante escrachada. Escrito em capítulos curtos, dificilmente alguém demora mais de três dias para terminar essa leitura, a não ser os leitores que se incomodem em demasia com a trama.

 

O kit de agosto da TAG - Experiências Literárias: a trufa de chocolate foi apreciada antes da leitura!

O kit de agosto da TAG – Experiências Literárias: a trufa de chocolate foi apreciada antes da leitura!

 

Durante a leitura senti uma incômoda semelhança entre a sociedade da década de 1960 e a nossa. Obviamente o texto de Nelson Rodrigues faria muito barulho se fosse publicado hoje, pois ele não é do tipo que se esconde atrás da cortina do politicamente correto. A família de Sabino, a sociedade a qual ela pertence, lembra muito certa camada da sociedade brasileira que impõe regras, modos de conduta, mas que esconde, ao mesmo tempo, bastante sujeira debaixo de seus tapetes também. Sabino era um homem de bem. Quem fizer a leitura poderá tirar as próprias conclusões.

 

Outro ponto interessante relacionado ao tempo que estamos vivendo é o fato de o jornal O Globo e a Marcha da Família com Deus pela Liberdade apoiarem a ditadura na censura do livro, ainda que o autor fosse, na época, colunista do jornal. Um suplemento no final da história, na edição da Nova Fronteira, fala bastante sobre o caso.

 

O Casamento foi uma grata surpresa para mim: eu jamais compraria esse livro se o visse em uma livraria. Conhecendo previamente o autor, me incomodava demais o machismo em sua escrita, mas aqui, muitas passagens encarei com humor. É ficção. Claro que com boas e generosas pitadas da realidade da nossa sociedade. Mas, ainda assim, é ficção, não verdades absolutas. Afinal, qual o melhor lugar para explorar certos assuntos senão em um livro? O Casamento é uma leitura que pode ser perturbadora, mas que merece ser feita, especialmente por aqueles que admiram uma história bem escrita.

 

 

 

Título: O Casamento
Autor: Nelson Rodrigues
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 272

 

Compre na Amazon: O Casamento.

 

Falei sobre a minha primeira caixinha da TAG aqui.

julho 30, 2016

[ETC.] MINHA PRIMEIRA CAIXINHA DA TAG – EXPERIÊNCIAS LITERÁRIAS

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Já tem um bocado de tempo que eu venho namorando uma assinatura da TAG – Experiências Literárias. Como neste mês de julho, para comemorar o aniversário dois anos, eles resolveram fazer uma edição especial e com desconto para os novos associados, resolvi me render e experimentar. E, olha, é mais legal do que eu imaginava!

 

Como funciona

A TAG funciona como uma espécie de clube do livro. Todo mês o associado recebe um livro surpresa, indicado por intelectuais de diversas áreas. Junto ao livro, recebemos também um marcador de páginas personalizado, uma revista falando sobre a obra enviada e algum “mimo” super especial. Aqui, o foco é na experiência proporcionada ao associado. Veja mais sobre na página da TAG Experiências Literárias.

 

Minha primeira caixinha, edição especial julho/2016

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 Confesso que sou do tipo que fica toda animada quando ouve o carteiro chamar. Na maioria das vezes, a encomenda é livro, o que me deixa mega feliz, mas a caixinha da TAG é especial, é como receber um presente! Não é exagero e este não é um publipost. É realmente muito legal receber um produto idealizado e organizado com tanto carinho! Recebi, inclusive, uma carta de boas-vindas!

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Custo x Benefício

Como já disse anteriormente, aproveitei a promoção de aniversário de dois anos da empresa para me associar, desta forma, minha primeira caixinha saiu com desconto. Atualmente o custo mensal é de R$ 69,90 com frete incluso. Em um primeiro momento o preço pode não parecer muito convidativo, mas a TAG não exige tempo mínimo de associação, ou seja, você pode cancelar a assinatura a qualquer momento, e caso desconfie que o livro do mês é algum que você já tenha, pode entrar em contato com eles que a situação é resolvida.

 

O livro de julho: O Vermelho e o Negro, de Stendhal

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Acima, vocês podem perceber que esta é uma edição que não é encontrada nas livrarias. É uma edição exclusiva (lindíssima) e comemorativa. Segundo a TAG, outras edições exclusivas virão. Neste mês, acredito que em razão do livro ser exclusivo e tudo o mais, não veio o “mimo”. Mas tudo bem, estarei aguardando ansiosa a próxima caixinha!

 

Sobre O Vermelho e o Negro

“Publicado na França pós-napoleônica, O Vermelho e o Negro é um clássico da literatura mundial. A obra narra a trajetória de Julien Sorel, um ambicioso filho de carpinteiro que faz de tudo para ascender socialmente. Inferior de berço, precisa revestir a sua revolta com polidez, seus interesses com paixão, sua hipocrisia com inocência e assim lutar contra a opressão e os preconceitos da exclusivista sociedade francesa do início do século XIX.

Stendhal apresentou neste romance realista um narrador revolucionário para a época. Ao inserir o leitor na mente do protagonista, o escritor criou um estilo que mais tarde influenciou nomes como Flaubert e Dostoiévski. Ao unir profundidade psicológica à análise social, este livro firmou-se como um dos pilares do cânone ocidental, ainda sempre atual e inesgotável.” (Fonte: contracapa)

 

A revista da TAG é muito bem elaborada e bastante interessante. No meu caso, que ainda não pude ler o livro, deu para me ambientar na história e no contexto a qual ela pertence, além de conhecer o curador do mês, e saber sobre a próxima indicação. Para finalizar, compartilho aqui a Lista de Hemingway, que eu li na revista da TAG, em que o autor elenca dezessete livros essenciais para todos aqueles que desejam escrever bem. Dois desses livros foram escritos por Stendhal.

 

A Lista de Hemingway

Anna Kariênina, de Liev Tolstói

Longe e há muito tempo, de W. H. Hudson

Os Buddenbrook, de Thomas Mann

O morro dos ventos uivantes, de Emily Brontë

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Guerra e Paz, de Liev Tolstói 

A sportsman’s sketches, de Ivan Turguêniev

Os irmãos Karamázov, de Fiódor Dostoiévski

Hail and farewell, de George Moore

As aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain

Winesburg Ohio, de Sherwood Anderson

A Rainha Margot, de Alexandre Dumas

A casa Tellier, de Guy de Maupassant

Dublinenses, de James Joyce

Autobiografias, de William Butler Yeats

O vermelho e o negro, de Stendhal

A cartuxa de parma, de Stendhal

 

Bom, preciso colocar as minhas leituras em dia, pois só li dois dos dezessete livros citados acima…

 

No mês de agosto, a curadora será Heloisa Seixas, que indicou um clássico nacional! Conheço um pouco o trabalho da curadora pois ela traduziu uma das edições que eu tenho do maravilhoso romance Jane Eyre! Não sei qual será o livro de agosto e também não pesquisei, para manter o suspense até o último segundo. Você saberia dizer qual é o livro com base no texto abaixo?

 

“Publicado na década de sessenta, a polêmica obra tem como protagonista um rico empresário carioca que, às vésperas do casamento da filha, desespera-se com o rumor de que o seu genro seja homossexual. Página a página, adentramos na intimidade deste homem e de sua família aparentemente comum, mas que esconde a sexualidade reprimida, o preconceito, o adultério, o incesto, a perversão e a hipocrisia.

Em uma narrativa ágil e viciante, percorremos conhecidos cenários cariocas e encontramos personagens comuns do nosso cotidiano, enquanto nos deparamos com grandes tabus da nossa sociedade; o leitor acompanha, cena após cena, essa despudorada literatura, que ousa falar de homossexualidade, incesto e traição em plena década de sessenta. Não é a toa que, poucos meses após a sua publicação, a obra foi censurada pela ditadura.”

 

ATUALIZAÇÃO: Veja a resenha do livro indicado pela Heloisa Seixas aqui.

 

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