junho 15, 2017

[LANÇAMENTO] FRONTEIRA DA PAZ, SÉRIE O QUARTETO DO NORTE, LIVRO 4, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Lady Leanah sempre fora a boa moça. Fazia tudo o que se esperava de uma dama. Manteve-se pura à espera de seu príncipe, o cavalheiro que ela sempre amara, lorde Robert Percy, o irmão mais novo do conde de Northumberland, Edward Percy. Quando, finalmente, já com 23 anos, está prestes a realizar o seu sonho e casar-se por amor, Robert se casa às pressas com sua antiga prometida, Charlotte Mortimer, uma prima por parte de mãe, e a abandona. Decidida a se vingar, lady Leanah se aproxima de Elizabeth Douglas, uma cortesã regenerada, e implora para que a ensine a deixar todos os homens aos seus pés.

Quando o bom moço lorde Robert Percy, finalmente, recebera a aprovação do conde seu irmão, Edward Percy, para se casar com a linda lady Leanah, a irmã do conde de Douglas, da ancestral família inimiga dos Percy Northumberland, ele cai numa armadilha preparada por lorde Mortimer e tem, por honra, que se casar com sua prima Charlotte. Entretanto, jurou jamais tocar um só dedo nela. Afinal, como dissera o tio, ele já não a tinha deflorado? Cansado de ser o bom homem, o lorde se torna um dos maiores pervertidos da Europa e, para sair de Londres, a exemplo de seu pai, ele parte para a Índia. Quando na guerra de Folly de Auckland, ao lado de lorde Palmerston, ele entra em combate, a única pessoa que não esperava encontrar naquele lugar e, ainda por cima num bordel, era Leanah. O que, por Deus, ela estaria fazendo ali?!

Obrigada a se casar com o primo lorde Robert Percy, Charlotte Mortimer foge logo após o casamento. Seu próprio pai, por causa de dinheiro, conspirara para que aquela união acontecesse. Embarcada num navio com destino à América do Sul, com um nome falso, ela sofre um naufrágio fraudulento e é resgatada por um desconhecido. Sem se recordar quem é, apaixona-se pelo capitão do navio, um homem enigmático, com aparência celta, que a toma como mulher.

Um histórico romance sobre a vida das cortesãs inglesas e o império britânico e seus laços pelo mundo.”

 

Já estão disponíveis na Amazon todos os e-books da série O Quarteto do Norte, de Chirlei Wandekoken. O primeiro volume, A Estrangeiraé o único que pode ser comprado também na forma impressa, no site da Pedrazul Editora.

 

Leia um trechinho de Fronteira da Paz, quarto livro da série O Quarteto do Norte, a seguir:

Prólogo

 

Inglaterra, Londres, ano de 1837.

 

Montado ODoherty, um enorme alazão de pelo liso, lorde Robert Percy era a fusão perfeita com o animal, cujo nome gaélico Ó Dochartaigh significava ‘o destruidor’. Ele não lhe dera esse nome por acaso. O animal era mesmo feroz, o mais ágil entre todos os cavalos dos estábulos das muitas propriedades do clã Percy, uma nobre família ancestral do Norte da Inglaterra.

Naquele dia, o estado de espírito do lorde era tão avassalador quanto ODoherty. Tinha saído de Northumberland House, a mansão da família em Londres, havia duas horas e não tinha reduzido a marcha um só instante. O cavalo já espumava, dava sinais de extremo cansaço, mas sua revolta não tinha arrefecido nenhum milímetro. Seus olhos verdes estavam escuros, quase como uma floresta fechada em um país tropical, uma fenda de ódio, e seu corpo jogado para frente, numa posição de ataque, demonstrava toda a fúria que carregava na alma.

Seu destino era o Sul, Hampshire, a vila de Otterbourne, mais especificamente Border Peace Park, um lugar de profundo simbolismo para ele e para toda sua família, pois o nome fora dado por um parente medieval, Sir Henry Percy Hotspur, o segundo conde de Northumberland.

A propriedade, uma “fronteira da paz” como dizia seu nome, depois de ter passado para as mãos de terceiros, tinha sido recomprada por lorde Robert séculos após a medieval Batalha de Otterbourne, travada por aquele seu ancestral. Tal conflito, extremamente sangrento, ocorrera em agosto de 1388, no Norte da Inglaterra, entre o exército de Sir Henry Percy e as tropas escocesas do conde de Douglas, lorde James, que o atacara após interpretar uma caçada liderada pelo nobre inglês na fronteira como uma invasão às suas terras na Escócia. A verdade, entretanto, era outra. Haviam guerreado em disputa do amor de uma mulher, com quem ambos queriam se casar. Vencedor, Sir Henry Percy construíra Border Peace Park, onde passara a viver com sua amada.  Mas essa era uma história do passado.

No presente, Border Peace Park era a moradia de lorde Robert e o lugar especial para onde ele sempre planejara viver com a dama que escolheria como esposa. Mas tudo dera errado. Muito errado. O que o deixava tão furioso quanto era comum ao seu folclórico e temido ancestral.

Lorde Robert era o único irmão de Edward Percy, o nono conde de Northumberland, que, assim como o segundo conde, era conhecido por todos como “conde Hotspur”. Todavia, essa característica imperiosa parecia permear todos os homens do clã. Naquele momento, também lorde Robert estava totalmente tomado pelo ímpeto da destruição.

Os clãs Percy Northumberland, Neville e Mortimer havia gerações casavam entre si, uma tradição medieval para fortalecer as famílias que chegara ao século dezenove. Seu irmão Edward também fora ‘prometido’ pelo pai a uma Neville, lady Harriet, mas conseguira fugir dessa obrigação, isso porque a prima apaixonou-se e logrou se casar com outro. Robert, contudo, não tivera a mesma sorte.

O pai, antes de morrer, havia negociado o seu casamento com Charlotte Mortimer, lady cuja mãe fora sua tia, uma Neville. Pessoalmente, nunca pretendera cumprir tal promessa. Seu pai, afinal, fora um nobre cuja palavra não merecia ser cumprida.

– Preciso parar, senão vou matar O‘Doherty – disse para si mesmo, pensativamente. – Não é meu animal que desejo matar.

Com 28 anos, lorde Robert sonhava se casar com lady Leanah Douglas, a irmã do conde de Douglas, o clã inimigo histórico dos Percy Northumberland. Sir Edward Percy e lorde Davy Douglas, eternos desafetos, finalmente haviam concordado com a união, na esteira de um processo de extinção da rixa secular entre as duas famílias em curso.

Lorde Robert não se perdoava pelo que lhe tinha acontecido. Por que eu não imaginei coisa semelhante? A notícia de que eu e Leanah íamos ficar noivos estava de boca em boca em Londres. Era previsível que eles fizessem algo.

Tudo acontecera de repente. Ele havia recebido uma carta do tio, na qual lorde Mortimer o convidava para um encontro na sua casa para tratar de negócios envolvendo a Rapallini Maritime Trade, empresa da qual ele detinha ações, juntamente com o irmão Edward e os duques de Prudhoe e de Belvoir, cuja frota de navios fazia diversas rotas em toda a Europa e até a Índia.

Entretanto, ao chegar à casa, no horário combinado, não encontrara o tio. Já estava indo embora quando uma ama começara a gritar dizendo que Charlotte, a maldita prometida, estava tendo um ataque qualquer. Não entendeu bem do que se tratava, pois a mulher gritava de forma histérica. Ele nem pensou duas vezes. Subiu as escadas de três em três degraus e entrou no quarto da prima. Encontrou-a completamente nua deitada na cama. Nesse exato instante, lorde Mortimer, o maldito tio, surgiu às suas costas. Não lhe restara saída senão aceitar se casar imediatamente com uma dama que desprezava.

***

LADY Leanah Douglas nascera em Dalkeith Castle, na Escócia, e era a única filha de Thomas Douglas. Sua mãe morrera quando ela nascera e seu pai também falecera anos mais tarde. Assim, sempre morara com o irmão Davy, o conde de Douglas. Mas logo descobrira que ele não era quem ela sempre imaginara. Havia pouco tempo ele tinha-se envolvido em jogatina e perdido toda a fortuna da família. Vivia da herança que usurpara de uma prima, Eliza, neta do único irmão de seu pai, Sir Hugh Douglas, que fora expulso da família por se ter casado com uma dama pobre. Quando o duque de Pudhoe descobriu toda a trapaça, lorde Davy fugiu deixando-a sem nada. Ficou cheia de credores e socialmente desmoralizada.

Lady Leanah sempre fora a boa moça. Fazia tudo o que se esperava de uma dama. Desde muito jovem, ainda com 15 anos, era apaixonada por lorde Robert Percy, o irmão mais moço do conde de Northumberland, Edward Percy, maior inimigo de seu irmão Davy. Mas, por muitos anos, lorde Robert a tratara como se ela fosse invisível. Embora ela já fosse considerada bela, ele não lhe demonstrava qualquer interesse. Quando completara 18 anos, porém, passara a enxergá-la e se tornara extremamente gentil com ela. Mas Leanah achava que ele não a via como mulher, pois suas ações indicavam apenas cordialidade. Nos bailes, nos jantares dançantes, às vezes ele a tirava para dançar. Mas enquanto ela ardia de paixão por dentro, lorde Robert demonstrava que, por ser ela uma Douglas, jamais poderiam ter qualquer envolvimento amoroso.

Certa ocasião, na casa do duque de Pudhoe, época em que ela já tinha 23 anos e já havia dito ‘não’ a muitos pretendentes, mantendo-se à espera do seu grande amor, lorde Edward Percy dissera para quem quisesse ouvir que um Percy Northumberland jamais de casaria com uma Douglas. Perto deles, ouvira tudo. Uma situação extremamente constrangedora, pois todos os presentes olharam em sua direção, inclusive lorde Robert. Mas, pela primeira vez, Leanah sentira os olhos dele presos aos dela. O que ele vira além de todo o seu constrangimento? Amor. Daquele dia em diante tudo mudaria entre eles.

Preparava-se, então, após ser considerada por todos como uma solteirona, para realizar seu grande sonho. Repentinamente, porém, lorde Robert Percy se casava às pressas com sua antiga ‘prometida’, prima por parte de mãe.

Sentia-se totalmente perdida. Não tinha mais dinheiro e nem casa. Por causa das dívidas, em um mês ela teria que entregar Douglas House para seu novo dono. O que faria? Nunca trabalhara na vida, não sabia fazer nada. Na mente angustiada de Leanah o lorde tinha feito aquilo para fugir da promessa de se casar com uma dama cuja vergonha alcançara. Ele não podia ter feito isso comigo. Por que me beijou e me acariciou daquela forma, então? Disse que se casaria comigo e agora… E que culpa tenho eu das ações de Davy?

Lady Elizabeth Douglas, a filha do tio que fora exilado por sua família, era a sua única esperança. Se tivesse sorte, a cortesã regenerada lhe ensinaria a se vingar. E ela teria como sobreviver.

 

 

***

CHARLOTTE Mortimer acordara bem cedo com a sensação de que fora espancada. A última coisa da qual se lembrava era que sua ama havia-lhe dado um chá muito amargo, que, segundo dissera, afinaria sua cintura. Sua cintura continuava a mesma, mas sua cabeça parecia ter aumentado cinquenta vezes de tamanho.

Ao chegar à sala para o desjejum, o pai lhe comunicara que ela fora desonrada pelo seu primo, lorde Robert Percy, e que eles tinham que se casar.

– Desonrada? Como? Não vejo lorde Robert há meses. Não acha que se eu tivesse sido desonrada eu não me lembraria? – ela reagiu. Charlotte se lembrou da esplêndida aparência do alto primo de olhos tão verdes que mais pareciam uma floresta fechada. O jovem tinha puxado à mãe, era o que diziam. Tinha a pele morena, porém clara, fartos cabelos negros e conseguia ser tão ou mais belo que o irmão conde. Ela levou um susto quando seu pai bradou:

– Você é uma desavergonhada. Eu o peguei em seu quarto ontem à noite e você estava nua na cama.

– Eu?! Nua?! Impossível! – ela estranhou. Lembrou-se, então, do chá. – Onde está a Mary? – gritou enfurecida.

– Demitiu-se – gritou o pai em resposta. E emendou: – Não era para menos. Que ama vai querer trabalhar para uma devassa como você?

Pela primeira vez na vida, Charlotte, aos 22 anos, não sabia o que dizer. Sempre fora uma pessoa comunicativa, e que gostava de dar a última palavra. Mas ali, naquele momento, emudeceu. Compreendia tudo. O próprio pai criara uma armadilha para ela e o primo. Coitado do Robert!

Os desdobramentos da ‘violação’ de lorde Robert se precipitaram como uma grossa enxurrada de lama morro abaixo. Um clérigo foi trazido às pressas a Casa Mortimer. Robert chegou e sequer olhou para Charlotte. Balbuciaram os votos, ambos de cabeça baixa, ela cheia de hematomas, olhos inchados de tanto chorar, pois o pai havia-lhe dado uma surra quando se rebelara dizendo que não se casaria à força.

Enfim, era uma legalmente dama casada. Mas sabia que continuaria virgem. E, além disso, sozinha.

Logo após a breve cerimônia, quando lorde Robert fez menção de ir embora, o tio sogro indagou se ele não subiria ao quarto da esposa. A resposta que Charlotte ouvira dele, naquele momento, continuava latente em sua memória:

– Juro pela minha vida jamais tocar um só dedo nela. Afinal, já não a deflorei?

E assim, sem mais nada dizer, ele se fora.

 

 

SOBRE A AUTORA: Chirlei Wandekoken é jornalista e coordena a área editorial da Pedrazul Editora, da qual foi idealizadora, juntamente com seus sócios. É apaixonada pelos livros desde criança e, atualmente, a sua preferência literária, além dos clássicos ingleses, são os romances de época e os históricos. Além de A Estrangeira, o primeiro livro da série independente O Quarteto do Norte, é dela também os demais livros da série: A Ama Inglesa, Um Cocheiro em Paris e Fronteira da Paz. A autora possui mais dois romances publicados, ambos contemporâneos, cujos enredos se passam no Brasil: Por Trás da Escuridão e O Vento de Piedade.

 

Links para comprar a série O Quarteto do Norte:

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junho 13, 2017

[LANÇAMENTO] UM COCHEIRO EM PARIS, SÉRIE O QUARTETO DO NORTE, LIVRO 3, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Quando o duque de Belvoir teve que sair às pressas da casa de Juliette Drouet, a amante de Victor Hugo, para não ser pego em flagrante pelo próprio escritor, sua única alternativa foi dirigir a própria carruagem pelas vielas de Paris. O que ele não esperava, contudo, era que tivesse que socorrer uma dama que acabara de chegar à cidade. A carruagem do Hôtel de Ville, que fora buscá-la no porto, havia quebrado um eixo e ele passava no exato momento do acidente. Não teve alternativa senão esconder a sua identidade, pois a jovem estava acompanhada justamente da ordinária baronesa viúva de Patchetts, uma antiga vizinha do duque seu pai, no Norte da Inglaterra. Tudo o que ele — o duque inglês bastardo — não podia, naquele momento, era ser reconhecido. Assim, apresentou-se como o cocheiro do conde Filippo Raspail e prestou socorro às damas.

Fruto da relação de um poderoso duque inglês, que não tivera filhos no casamento, com uma cortesã francesa, Belvoir — assumido pelo pai — vivia uma vida desregrada em Paris. Embora na juventude tivesse tido certa proteção moral por parte dos amigos, o duque de Prudhoe e o conde de Northumberland, sofrera muita rejeição da aristocracia britânica, sendo chamado de ‘lorde bastardo’. Por isso, tinha convicção absoluta de que nunca se casaria com a filha de nenhum deles. Belvoir só não contava que Harriet Neville, a lady que socorrera, se apaixonaria de verdade por ele, mesmo achando que fosse um humilde cocheiro.”

 

Já estão disponíveis na Amazon todos os e-books da série O Quarteto do Norte, de Chirlei Wandekoken. O primeiro volume, A Estrangeiraé o único que pode ser comprado também na forma impressa, no site da Pedrazul Editora.

 

Leia um trechinho de Um Cocheiro em Paris, terceiro livro da série O Quarteto do Norte, a seguir:

Prólogo

 

Paris, 1830.

 

Oliver Ashlie Stanhope, o duque de Belvoir, saltou pela janela da mansão de Juliette Drouet e caiu na escuridão da noite. Até mesmo para a cidade mais moderna da Europa aquela não era uma situação comum. A não ser que se tratasse de um incêndio. Não era o caso.

No meio da noite — e ainda por cima nu — Belvoir fazia bela figura. De cima de seus quase dois metros de altura, sua pele clara e seus cabelos loiro-escuros reluziam sob a luz da lua. Seus olhos de um azul-acinzentado estavam turvos de raiva de si mesmo.

Praguejava baixinho sua loucura em dormir com a mulher alheia. Mas Juliette o provocara durante toda a noite. E no que havia dado? Depois de terem se ‘conhecido’ sob os lençóis parisienses, cerca de uma hora antes, tivera de juntar suas roupas atabalhoadamente e arremessar-se no vão escuro da janela, pois os passos do próprio escritor na escada já eram audíveis no quarto da dama.

Andando às pressas vestiu-se parcialmente e alcançou sua carruagem. Mas o cocheiro tinha desaparecido. Não tinha alternativa a não ser conduzi-la ele mesmo. Se fosse pego seria um escândalo e ele estava cheio dos rumores. Não que aquele seu pecado recente fosse uma injúria. Daquilo ele era culpado. Mas que culpa tinha de ser filho de uma cortesã francesa e de um duque inglês?

Na margem direita do rio Sena, no Quartiers du Châtelet, esquina com as ruas Rosiers e La Place Forte, ele se deparou com uma carruagem que acabara de se envolver num grave acidente.

– Maldição! Mais essa, agora! – murmurou, enquanto jogava sua carruagem na direção da rue La Place Forte, pois a carruagem quebrada interceptava justamente a que ele tinha que passar. Os cavalos estavam agitados e pareceu-lhe que havia feridos.

Correu até lá. Seus cabelos desalinhados pelo sexo selvagem de pouco antes, sua calça meio aberta e a camisa solta davam-lhe um ar de desleixo. Ajudou o ferido cocheiro a desamarrar e soltar os cavalos, pois estes estavam arrastando o veículo tombado, e depois a se sentar à margem da rua. Abaixou-se, então, para socorrer as vítimas. Ouviu duas mulheres, uma proferindo gritos histéricos e outra tentando acalmá-la.

– Já vão nos tirar daqui, tia. Acalme-se! Assim a senhora está assustando ainda mais os cavalos — disse a voz calma e consoladora.

– Para o inferno esses malditos animais. Têm que ser sacrificados. Como se atreveram a jogar a baronesa de Patchetts de cabeça para baixo? Aquele maldito cocheiro vai me pagar! — retrucou a histérica, aos gritos.

– Tenho absoluta certeza, tia, que o coitado não teve culpa alguma. Tente se acalmar, por favor.

– Acalmar? Eu sou a baronesa de Patchetts, exijo respeito…

Belvoir deu um passo para trás. Céus! O que essa maldita baronesa está fazendo na França?

– Por favor. Pode nos tirar daqui? – uma voz doce se sobressaiu à gritaria e aos insultos da baronesa. Ele não podia deixar de socorrer.

– Onde está o maldito cocheiro? – gritou a baronesa.

– Ele se feriu, madame. Quebrou a perna. Se ficar calma eu a tirarei logo daí – respondeu Belvoir, abaixando-se ao lado da portinhola.

– E quem é você? Outro cocheiro, certamente! Tire-me daqui, seu bastardo – ela protestou. A mulher não poderia ter escolhido uma palavra mais adequada se quisesse atingir Belvoir em cheio. Ele teve vontade de dizer quem era e colocar aquela ‘maldita’ dama no devido lugar.

– Sim, madame, sou um simples e maldito cocheiro. Se permanecer calma sairá em segurança. Tenho que buscar ajuda. Se eu virar a carruagem sozinho é possível que se machuquem. Estão em quantas pessoas aí?

– Duas pessoas, monsieur. Muito obrigada – respondeu lady Harriet Neville, a dona da voz que tanto impressionara Belvoir. Mas a baronesa prosseguiu gritando, dizendo que estava sufocando, que jamais voltaria a andar e muito menos colocar seus pés em Paris.

Enquanto procurava ajuda nos arredores da La Place Forte, Belvoir lamentava-se. Com milhões de pessoas no mundo eu tinha logo que me deparar com a ordinária baronesa viúva de Patchetts? E qualquer mal que pudesse lhe ocorrer, por que tinha de ser logo aquele, no pior momento possível? Encontrar a antiga vizinha do duque, seu pai, do Norte da Inglaterra! Logo a maior mexeriqueira do reino, que havia espalhado para toda a sociedade o segredo de sua paternidade? Sim, ele pecara, saíra com a amante de outro homem, mas não era um pecado tão grande assim, pois o próprio escritor era um adúltero, tentava se justificar diante da Providência divina.

Filho bastardo de duque inglês com Justine Oldoini Rapallini Bienfait, ou simplesmente “condessa di Bienfait”, ele fora o escândalo da Inglaterra havia alguns anos. Tinha fugido para Paris para ter um pouco de paz. E agora ele teria que salvar exatamente a causadora de sua desgraça… Belvoir conjecturava. E se a deixasse de cabeça para baixo? Quanto tempo ela levaria para morrer sufocada por suas próprias papadas? Não podia fazer aquilo. A despeito de dormir com as amantes de outros homens, ele era honrado. E tinha a outra moça, a dona da voz suave. Ele avistou um coche e acenou. Logo, mais pessoas se juntaram a ele para virar a carruagem avariada. Para sua surpresa, a carruagem a serviço da baronesa era a do Hôtel de Ville, o mesmo hotel onde ele sempre ficava hospedado em Paris. Em meio aos brados da baronesa, ele se dirigiu à dama mais jovem:

– Está machucada, mademoiselle? Segure em mim, vou carregá-la até a outra carruagem – disse.

Lady Neville colocou sua mão de leve no braço dele. Ele levantou-a e a carregou até sua carruagem. Ela estava com alguns arranhões no braço esquerdo e sua testa sangrava. Mas mesmo ferida, Harriet não deixou de notar que o seu salvador era muito atraente e corou.

– Está ferida? – Belvoir assustou-se quando viu o sangue. Imediatamente retirou sua camisa e levou-a suavemente ao rosto da jovem.

– Desculpe-me, mademoiselle – disse ele assim que percebeu que ela olhava assustada para seu peitoral nu. Porém, quando ele acompanhou o olhar da moça viu que suas calças estavam abertas e que ela tinha visto algo que a fez enrubescer até a raiz dos loiros cabelos.

Pardon, mademoiselle, não foi intencional – ele desculpou-se.

– Tudo bem… – lady Neville conseguiu pronunciar. – Obrigada por ajudar-nos.

– Sabe como ocorreu o acidente? – ele perguntou.

– Não sei, monsieur. Senti só o solavanco e fomos jogadas no chão.

– Deve ter quebrado o eixo da roda – disse ele.

Nesse momento, a baronesa chegou auxiliada por outras pessoas, entrou na carruagem de Belvoir, e gritou:

– Vamos logo com isso, rapaz. Para quem você trabalha? Como ousa ficar nu na frente de duas damas?

– Acalme-se, tia. Ele me deu a camisa para estancar meu ferimento, fez-me um favor…

– Sou o cocheiro do conde Filippo Raspail, madame, ao seu dispor – disse Belvoir.

– Espere aí, eu o conheço… – disse a baronesa. Belvoir sobressaltou-se. Havia anos não encontrava aquela víbora. Será que ela ainda o reconheceria?

– Não, não pode ser. É apenas parecido com ele… Também, aquele lá! Não duvido que tenha feito centenas de bastardos pelo mundo – resmungou a baronesa.

– O que disse, madame? – perguntou Belvoir.

– Nada, nada, nada de seu mundinho. Vamos logo, rapaz! Suba aí e nos leve para o Hôtel de Ville.

– E o cocheiro do hotel? – perguntou Belvoir olhando em volta à procura do homem ferido.

– Deixe-o morrer por aí! – ordenou a baronesa, com irritação.

– De forma alguma, madame. É meu colega de profissão e prestarei o devido socorro — Belvoir retrucou na hora. Foi até o homem sentado na margem da rua, pegou-o no colo e o colocou em outra carruagem que parara ali perto para também ajudar. Deu um dinheiro ao condutor, pediu-lhe que prestasse socorro e que depois o procurasse no Hôtel de Ville se houvesse outras despesas. Voltou, subiu no seu assento e rumou com as duas para o hotel.

 

 

SOBRE A AUTORA: Chirlei Wandekoken é jornalista e coordena a área editorial da Pedrazul Editora, da qual foi idealizadora, juntamente com seus sócios. É apaixonada pelos livros desde criança e, atualmente, a sua preferência literária, além dos clássicos ingleses, são os romances de época e os históricos. Além de A Estrangeira, o primeiro livro da série independente O Quarteto do Norte, é dela também os demais livros da série: A Ama Inglesa, Um Cocheiro em Paris e Fronteira da Paz. A autora possui mais dois romances publicados, ambos contemporâneos, cujos enredos se passam no Brasil: Por Trás da Escuridão e O Vento de Piedade.

 

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junho 02, 2017

[LANÇAMENTO] A ESTRANGEIRA, DE CHIRLEI WANDEKOKEN

Sinopse: “Casamentos entre primos eram tradicionais entre duas nobres famílias inglesas. A aliança, que havia começado há muitos séculos a fim de fortalecer a família inglesa contra um clã escocês, agora incomodava o atual conde de Northumberland. Quando ele achava que este era seu maior problema, chega à casa do Lago Green, em Alnwick, a sobrinha de um falecido escudeiro de seu pai.

Na primeira metade do século XIX, na Prússia cheia de guerrilhas, uma jovem sem meios aceita se casar sem amor. Mas no dia do casamento algo terrível acontece. Forçada a viver em cativeiro, ela foge para a Inglaterra à procura de seus parentes. Porém, nada é como ela esperava. Não havia tia, nem tio e nem primos à sua espera. O encontro entre Eliza e o cavalheiro que herdara de seu antepassado, além do apelido, o ímpeto e a beleza, vai desenterrar antigos segredos, pois fala-se no condado que os membros do clã inglês, além de terem a estranha tradição de se casarem com primos, no passado casavam-se com seus próprios irmãos. Inspirado na Batalha real de Otterbourne, A Estrangeira, 340 páginas, narra duas histórias de amor que, embora separadas por 442 anos, se entrelaçam num verdadeiro turbilhão de emoção e mistério.”

 

Já está disponível no site da Pedrazul Editora o livro A Estrangeira, de Chirlei Wandekoken, sucesso entre os e-books de romances históricos na Amazon! Este livro é o primeiro da série independente O Quarteto do Norte e será o único a ser vendido em versão impressa. Adianto que é uma leitura riquíssima; em breve falarei mais sobre a história aqui no blog!

 

Confira abaixo um trecho de A Estrangeira:

Prólogo

O herdeiro Northumberland

 

“O caráter não é esculpido em mármore, não é algo sólido e inalterável. É vivo e mutável, pode adoecer como adoece o nosso corpo; da mesma forma pode regenerar-se.” [1]

 

Londres, Inglaterra, outubro de 1830.

 

O dia amanheceu enevoado. A paisagem normalmente acinzentada de Londres, ainda mais densa, estava coberta por uma nuvem espessa de poeira que se elevava do trepidar dos cascos dos cavalos; ou seria neblina, ou mera ausência de luz tão comum à cidade negra? O chilrear dos pássaros, normalmente tão constante ao longo do Temple Gardens, estava retraído; as árvores, embora um vento débil soprasse em suas folhagens, teimavam em sua rigidez, como se congeladas. Ou, talvez, o espírito do passante estivesse sombrio a tal ponto que nada via, senão um reflexo de si mesmo em cada olhar cabisbaixo, cada cumprimento sisudo, cada cor lúgubre. Tão diferente dos dias ensolarados de outrora, quando, apesar da chuva que caía em rajadas, deixando tudo encharcado, seus olhos haviam estado tão acesos por uma luz vinda de algum lugar, não sabia exatamente de onde.

A carruagem do nono conde de Northumberland, conhecido em Londres por lorde Hotspur, puxada por quatro parelhas de Norfolk Trotter, cruzava a Trafalgar Square velozmente rumo ao extremo norte da Inglaterra. O retorno apressado para Alnwick, um vilarejo situado quase na divisa com a Escócia, dava-se por conta de uma mensagem de Mr. Dornford, o administrador de suas terras, na qual ele se dizia preocupado com uma situação constrangedora e inesperada que fugia de seu controle e de sua alçada.

O conde, após retirar a carta do bolso de sua casaca, pôs-se a relê-la:

 

Alnwick, 3 de outubro de 1830.

Sua Senhoria,

Sinto informar que John Baker morreu há quatro dias, como o médico havia previsto, já que seu estado de saúde era grave, e a idade avançada não ajudava. Eu não o incomodaria apenas por esse fato, pois Sua Senhoria, mesmo não tendo nenhum parentesco com o velho rendeiro, fez tudo o que estava ao seu alcance para tratar de sua doença. Mas, o que me preocupou foi a chegada, há dois dias, de uma dama estrangeira que se diz sobrinha dele, uma jovem bonita demais para viver sozinha, sem acompanhante, sem meios, naquela cottage à beira do lago Green, totalmente à mercê dos perigos que, o conde sabe, ela está correndo. Ela virou o assunto do condado e como o oitavo conde, seu pai, tinha alguma ligação afetiva com John Baker, talvez o lorde queira tomar alguma providência.

Cordialmente, Mr. Dornford.

 

Lorde Hotspur chegara à cidade havia uma semana e pretendia passar todo o inverno em Londres para se afastar de Alnwick Castle, impregnado de uma mórbida tristeza depois da morte de sua mãe, a lady que nascera Margaret Neville e se tornara a condessa de Northumberland pelo casamento.

Ninguém esperava que ela morresse tão precocemente, tendo em vista sua aparência saudável. Era uma mulher que estava o tempo todo fazendo alguma coisa pelo povo do condado, sempre disposta a ajudar, fosse a um rendeiro, fosse à esposa de algum fazendeiro, talvez para suprir a negligência de seu próprio marido para com seus vassalos. O fato é que, embora uma nuvem de tristeza sempre perpassasse seus olhos, a condessa estava lá, à disposição de alguém cuja tristeza fosse menos profunda que a dela, aquele tipo de dor que reside na subsistência humana, na falta de carvão e agasalho para suportar o rigoroso inverno do Norte; ou na carência de assepsia, o que a levava às moradias mais simples para orientar e ajudar a manter a doença longe de seus chalés; e até na assistência financeira, socorrendo todos que tinham, conforme sua rede de informantes, algum tipo de necessidade. Assim, o condado era permanentemente assistido por ela ou pelo próprio lorde Hotspur. Sua morte inesperada, por isso mesmo, tinha sido uma verdadeira tragédia, sentida não somente pela nobre família Percy Northumberland, mas pelos mais humildes habitantes de Alnwick.

Nem bem tinham assimilado a perda da condessa, outro trágico acontecimento, dois meses depois, marcaria a família Percy: o oitavo conde também falecia durante uma de suas inúmeras viagens. Hotspur nem sabia onde seu pai se encontrava na ocasião, pois esse costume era comum ao velho conde. Dizia que ia para Londres e de lá partia para o continente e para outros países. Assim, passava meses em seu ostracismo voluntário. Havia tempo deixara por conta de Hotspur, filho mais velho e herdeiro do título, a incumbência de administrar as propriedades da família. Dessa vez, para a surpresa de todos, o desregrado conde tinha ido parar na Índia. Segundo um amigo que o acompanhava na comitiva, ele contraíra uma febre e morrera de repente. Curiosamente, sem saber que havia ficado viúvo, pois a família não soubera para onde enviar a carta informando-lhe a respeito.

Com tantas perdas – embora a da condessa fosse a mais sentida –, lorde Hotspur sentia-se muito abatido.

Seus planos, quando chegara a Londres naquele período mais agitado da cidade, tinham sido o de permanecer ali por algum tempo, pois pretendia ver lady Neville. Precisava voltar a conhecer a prima — sua prometida noiva —, pois, afinal, já que se casaria com ela, deveria haver pelo menos uma simpatia entre os dois. Sua intenção era aproveitar os bailes da temporada para tentar criar essa ligação. Quem sabe ela tenha ficado menos magra e menos aborrecida, tinha pensado. Uma coisa era certa: não podia mais adiar o casamento, algo que vinha fazendo havia anos, e isso o exasperava, pois odiava ter que fazer aquilo que não desejava, sobretudo algo que tinha de fazer por obrigação. E, decididamente, ele não queria se casar. Contudo, a prima, com 23 anos, estava ficando velha, segundo lorde Neville, o barão, pai da moça e seu tio por parte de mãe. O futuro sogro tinha-lhe mandado uma carta, logo após a morte de seu pai, chamando-o à responsabilidade de gerar o próximo conde de Northumberland. Mas ele conhecia a real intenção do barão: fazer cumprir o acordo de casamento selado com o oitavo conde.

Havia séculos os Percy casavam com primos. Assim, a aliança entre eles e a família Neville era muito antiga. Sua mãe fora uma Neville antes de se tornar condessa de Northumberland e, em honra à palavra do seu pai, ele teria que desposar a prima. Era uma situação estranha, já que havia passado toda a sua infância com ela – ele um jovenzinho e ela uma criança – pois o clã Neville morava próximo a Alnwick Castle. Quando ela se tornou uma jovem dama, o barão se mudara com a família para Londres, época em que ele estava na guerra e depois em Oxford. Dessa forma, ainda não conhecia a lady Neville adulta, embora a figura da feia e enfadonha menina sardenta de outrora estivesse impregnada, repulsivamente, em sua mente. A imagem que ele tinha dela não podia ser pior: monótona, estreita, fina, achatada e desinteressante. Só de pensar em ter de sentar-se à mesa todos os dias com uma insossa criatura, como a que imaginava, deixava-o de mau humor.

Fizera a cansativa viagem de quatro dias do Norte a Londres para atender a um convite de seu amigo de infância, o duque de Prudhoe. Não viera apenas para uma festa em Prudhoe House, como nos velhos tempos. Havia-se agarrado a esse pretexto para se afastar por alguns meses do ambiente fúnebre de Alnwick. Perder os pais, quase ao mesmo tempo, havia sido um golpe bastante duro, até mesmo para o forte e impetuoso lorde Hotspur. Embora estivesse aborrecido com o tio barão, pois este havia mexido com sua honra quando o chamara a cumprir a palavra, mesmo que essa não fosse sua e sim uma maldita tradição da família da qual ele agora era o senhor, Hotspur estava curioso para reencontrar o amigo. Prudhoe havia voltado recentemente de uma longa lua de mel, que durara um ano. Sim, tinha que admitir, a despeito do tio, que existia alguma curiosidade em rever o duque e a duquesa, ouvir o que o amigo tinha a lhe dizer sobre o casamento, já que em breve ele mesmo seria um respeitável homem casado. Praguejou.

Hotspur e Prudhoe eram amigos desde bem pequenos. O conde não conseguia se lembrar de nenhuma parte de sua existência, pouco mais de trinta anos, da qual o duque não fizesse parte. Contudo, de todas as épocas, a fase, cujas recordações eram mais vívidas, era a dos seus 18 anos, exatamente o período que compreendia os momentos vividos na guerra. Depois disso, Prudhoe tinha ganhado mais um irmão. Mas, como acontecia entre os irmãos, o duque, às vezes, voltava a ser o dandy irresponsável da juventude, e extrapolava a paciência até de um santo. E ele, certamente, não podia ser chamado de imaculado.

Vociferou ao recordar-se da festa promovida pelo amigo. Aquela última troça não tivera graça nenhuma! Convidar mademoiselle Duplessis para cantar em Prudhoe House fora de um terrível mau gosto. Madame Marie Duplessis! Já se haviam passado dez anos do envolvimento dos dois em Paris, assim como da briga que ele tivera com lorde Davy, o conde de Douglas. Não que a cantora francesa tivesse a mínima importância para ele agora, mas se lembrar do maldito conde escocês sempre o enfurecia, pois as duas famílias eram inimigas ancestrais. Lorde Davy tinha-lhe tomado a moça para se vingar dele, pois sabia do affair entre eles. Mas, vindo de um Douglas, ele já esperava por aquilo. O pior fora Marie Duplessis achar que ele estava disposto, dez anos depois, a tomá-la como amante novamente! Com certo ar de desdém, ele se recordou do que ela havia-lhe dito, quando o encontrou em Prudhoe House.

– Lorde Northumberland! Os anos apenas lhe beneficiaram. Está ainda mais atraente agora que é um homem feito! Quando encontrei o duque de Prudhoe, em Paris, e ele me convidou para cantar em sua casa, eu tinha muita expectativa de revê-lo. Desmarquei vários compromissos para estar aqui, pois ainda sinto que ficou um mal-entendido entre nós…

– Como vai, madame? – Hotspur respondeu, beijando-lhe a mão. O frio cumprimento não foi o que ela esperava. O que ela queria? Na época ele era apenas um moleque recém-saído de Oxford numa viagem pelo continente com seus amigos, e com seu inimigo.

– O duque me disse que agora é o nono conde de Northumberland, portanto, mais cobiçado ainda – ela disse, pousando a mão direita no largo peito do conde.

– Sua Graça, o duque, fala demais – ele retrucou, rispidamente.

Marie Duplessis tinha lhe arrastado para um escritório, colocado as duas mãos em seu pescoço, e encostava seu voluptuoso corpo ao dele. Todavia, quando ele olhava para ela, lembrava-se de lorde Davy, e isso era um problema, porque sentia uma estranha repulsa visível nos seus expectantes olhos verdes. Não que ela não fosse atraente, ainda era e muito, mas por causa daquela mulher ele nunca mais confiara em nenhuma outra. Quando ela levou a mão às suas calças, ele afastou-a educadamente.

– Onde está o famoso lorde Hotspur, aquele fogoso jovem que eu conheci em Paris? – ela perguntou, com sua sensual voz soprano. Era a mesma que ela usara com o jovem lorde no passado, mas não funcionava mais. Marie Duplessis olhou-o com seus olhos verdes suplicantes e ergueu os lábios cheios e rosados. Ele, contudo, se esquivou.

– Madame, creio que na época eu não lhe expliquei que herdei esse apelido de um parente medieval, por alguma proeza idiota que eu fiz na guerra. Naquela idade, o imbecil jovem até gostava de ostentá-lo, a fim de atrair jovens mademoiselles para a cama, mas hoje, confesso, dei-o ao meu cachorro. Portanto, já deve imaginar que ser chamado de lorde Hotspur não me anima mais.

Ele suspirou, soltando uma imprecação. Sua atitude fora rude demais, mas tinha ficado enfurecido com a brincadeira de Prudhoe e do duque de Belvoir, como ele ficou sabendo depois. Talvez, em outra época, isso não o tivesse incomodado, com certeza, não, mas naquele momento ele estava destroçado pelas perdas familiares, pressionado para casar pelo tio e, agora, por um terceiro aborrecimento. Reagira, assim, como o indomável Hotspur.

O duque de Prudhoe, que havia pouco mais de um ano tinha caído de paixão por uma pobre ama e quebrado todas as regras da sociedade inglesa ao se casar com ela e fazê-la duquesa, parecia decidido a fazer dele, o conde Hotspur, o próximo escândalo de Londres. Isso estava deixando o seu tio, lorde Neville, desesperado. Afinal, se o grande duque de Prudhoe tinha enfrentado a família, a sociedade e seguido seu fraco coração, o implacável conde poderia ser influenciado a também fazer uma asneirada daquela. O duque, mesmo ciente da pressão que o amigo sofria, decidira armar aquela brincadeira, juntamente com Belvoir, como se eles fossem os antigos jovens irresponsáveis estudantes de Oxford. Lorde Hotspur deixaria Prudhoe House sem ao menos se despedir do velho amigo.

Desde que chegara a Northumberland House tinha tido um aborrecimento atrás do outro e estava em seus piores humores, algo não muito difícil de acontecer, pois era imperioso por natureza. Além da pressão férrea por parte do tio, uma carta de uma antiga protegida tinha lhe deixado exasperado. A dama alegava ser ele o pai do bastardo que esperava, o que sabia ser impossível, pois havia mais de um ano que ele ordenara a Kaufmann, seu secretário, que enviasse a ela uma joia de despedida. Perdera o interesse por ela desde que a encontrara nos jardins de Vauxhall com o conde de Douglas, o qual estava, novamente, seguindo o seu rastro. Ele se perguntava quando se veria livre dele, mesmo tendo-lhe presenteado com um enorme favor, pois a jovem, Lillie Langtry, já não o prendia mais. Suspirou novamente. Estava cansado das Lillies e das Maries. Jamais admitiria isso para Prudhoe, aquele grande falastrão, mas o invejava. O duque tinha enfrentado tudo e se casado com quem quis. Já ele tinha que se casar com lady Neville, que agora o atraía tanto quanto Marie Duplessis.

Odiava aqueles pensamentos. A culpa era de Sir Percy que havia introduzido no sangue da família aquele ímpeto romanesco. O guerreiro tinha que morrer por causa de uma mulher?! Tanto motivo mais nobre, mas não, o cavalheiro tinha que estragar todo o restante da raça Percy Northumberland!

Recostou-se no assento e olhou para a janela da carruagem. Dias e mais dias de viagem! Hospedagens frias, camas bolorentas e solidão. O dia, de fato, estava frio e cinzento como o seu humor. Ainda levaria horas para chegar a Alnwick e nenhum estímulo, apenas mais problemas. De onde tinha saído a tal estrangeira que Mr. Dornford havia falado? O que faria com ela? Levá-la para Alnwick Castle sem acompanhante? Isso só geraria mais mexericos, afinal, ele não era nenhum modelo de comportamento. Ia devolvê-la ao seu reino e pronto. Cada nação com seus problemas e ele já tinha os dele.

As rodas da carruagem já tocavam o solo do Norte, cada vez mais frio, cada vez mais escuro, e uma irritação tomava conta dele, deixando-o sombrio. Seus pensamentos eram profundos e consternados.

É angustiante perceber que a vida não passa de alianças, de obrigações com o clã, e, se decidir quebrar isso, esse sentimento de culpa me acompanhará para sempre. O sentimento da desonra. Quando observo os estreitos limites em que me encontro, encerrado entre o dever e os vãs prazeres das amantes, que já não mais me satisfazem; quando vejo que o objetivo de todos os meus esforços é prover a honra do nome da família, a palavra dada por meu pai, que por si mesma não tem outro fim senão prolongar uma aliança de interesses e vaidades, e que por consequência rouba toda a minha paz… Se aceito sem lutar, o que não faz parte de meu ímpeto de guerreiro – por isso essa tortura – serei um resignado homem casado em poucos meses. Mas, o que estou querendo? Afinal, tudo não passa de uma resignação pela honra que, aliás, não é nem minha, pois, se fosse, não seria tão questionada. Sinto-me um prisioneiro de uma ancestral imbecilidade e tudo isso me reduz a um silêncio irado. Olho para dentro de mim mesmo e vejo um homem, cheio de mitos, pressentimentos e vagos desejos de que a realidade fosse luminosa e cheia de algo que eu não sei bem o que é, mas queria apenas que tivesse cor. Pelo amor de Deus, que tivesse cor! Acho que o Norte está congelando a minha limitada existência; vou me arrastando dia após dia, de inverno a inverno, olhando as folhas caírem, inebriado pela bebida, sob a falsa alegação de conforto. Algo precisa mudar, essa revolta tem que ser subjugada. Vou me casar com lady Neville e parar de lutar com o que não pode ser evitado.

Foi quando lorde Hotspur a viu atravessando a rua. Ela e o cão. Os cabelos mal trançados, desgrenhados, caíam sobre os ombros e eram jogados no rosto pelo vento. Ela sacudia a cabeça para tirá-los da sua visão. Trazia uma cesta na mão, uma simplicidade desconcertante, coloridamente intrigante, diferente de tudo que ele já vira.

Ele gritou com o cocheiro para que parasse. Quem seria aquela moça? Que vestido estranho, mas que encanto! O andar! Ela não tem noção do poder que possui!

[1] ELIOT, George, Middlemarch.

 

 

SOBRE A AUTORA: Chirlei Wandekoken é jornalista e coordena a área editorial da Pedrazul Editora, da qual foi idealizadora, juntamente com seus sócios. É apaixonada pelos livros desde criança e, atualmente, a sua preferência literária, além dos clássicos ingleses, são os romances de época e os históricos. Além de A Estrangeira, o primeiro livro da série independente O Quarteto do Norte, é dela também os demais livros da série: A Ama Inglesa, Um Cocheiro em Paris e Fronteira da Paz. A autora possui mais dois romances publicados, ambos contemporâneos, cujos enredos se passam no Brasil: Por Trás da Escuridão e O Vento de Piedade.

 

Na próxima semana falarei sobre os outros títulos da série O Quarteto do Norte, não perca!

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