agosto 07, 2018

[RESENHA] ENTRE IRMÃS, DE FRANCES DE PONTES PEEBLES

Sinopse: Nos anos 1920, as órfãs Emília e Luzia são as melhores costureiras de Taquaritinga do Norte, uma pequena cidade de Pernambuco. Fora isso, não podiam ser mais diferentes.

Morena e bonita, Emília é uma sonhadora que quer escapar da vida no interior e ter um casamento honrado. Já Luzia, depois de um acidente na infância que a deixou com o braço deformado, passou a ser tratada pelos vizinhos como uma mulher que não serve para se casar e, portanto, inútil.

Um dia, chega a Taquaritinga um bando de cangaceiros liderados por Carcará, um homem brutal que, como a ave da caatinga, arranca os olhos de suas presas. Impressionado com a franqueza e a inteligência de Luzia, ele a leva para ser a costureira de seu bando.

Após perder a irmã, a pessoa mais importante de sua vida, Emília se casa e vai para o Recife. Ali, em meio à revolução que leva Getúlio Vargas ao poder, ela descobre que Luzia ainda está viva e é agora uma das líderes do bando de Carcará.

Sem saber em que Luzia se transformou após tantos anos vagando por aquela terra escaldante e tão impiedosa quanto os cangaceiros, Emília precisa aprender algo que nunca lhe foi ensinado nas aulas de costura: como alinhavar o fio capaz de uni-las novamente.”

 

Às vezes, tenho a impressão de que gastamos o nome heroína com personagens que são, simplesmente, protagonistas. Tal dispêndio, entretanto, não ocorre em Entre Irmãs (Arqueiro, 2017). Frances de Pontes Peebles nos presenteia com duas protagonistas que são verdadeiramente heroínas, cada uma a seu modo: Luzia, a Vitrola — alcunha que ganhou após sofrer um acidente que deixou um de seus braços defeituoso, torto como uma vitrola, — E Emília, uma jovem inconformada com sua condição social, uma matuta nas palavras da irmã, que deseja a todo custo ir para a cidade e ser como as mulheres que ela vê impressas nas páginas de sua revista favorita, a Fonfon.

A forma como o livro foi estruturado foi brilhante no sentido de fazer com que o leitor se afeiçoasse as duas irmãs quase não sendo possível ter uma preferência entre elas. Cada capítulo (e suas subdivisões) é centrado em uma das personagens, intercalando Emília e Luzia como uma colcha de retalhos em terceira pessoa. Apesar da prosa bastante descritiva da autora, Entre Irmãs é uma leitura saborosa e, em pouco tempo, o leitor devora as mais de quinhentas páginas quase sem pestanejar.

 

 

Uma curiosidade sobre Entre Irmãs é que o livro foi escrito originalmente em inglês. Embora a autora seja brasileira, a tradução do romance foi feita por Maria Helena Rouanet. Esse é um detalhe, entretanto, que não fica perceptível nem incomoda, acredito que pelo ótimo trabalho da tradutora e também pela obra em si, que tem uma temática bem brasileira. O romance foi publicado no Brasil com outro título, antes da adaptação em filme e série, com o nome de A Costureira e o Cangaceiro.

Entre Irmãs é o tipo de livro que fica na memória. É marcante, dá um nó na garganta. Por vezes tive vontade de que Emília e Luzia fossem reais, para que eu pudesse abraçá-las. Lembrei que mulheres fortes como elas existiram e ainda existem aos montes no nosso país.

As três personagens mais queridas por mim neste livro me ensinaram coisas valiosas que eu vou guardar para a vida. Tia Sofia me ensinou que eu não devo desperdiçar as minhas lágrimas. Luzia mostrou que as mulheres são ainda mais fortes do que imaginam. Emília me fez perceber que é preciso ter muita determinação para não ser levada pela maré das coisas tidas como fáceis, previsíveis.

 

 

Eu poderia ficar horas e horas falando sobre Entre Irmãs, mas esse é um livro bom demais para ser simplesmente resumido. Você precisa ler para fazer parte daquelas histórias, tornar-se íntima das irmãs Dos Santos. Ir embora de Taguaritinga e enfrentar uma sociedade implacável ou percorrer o sertão a ponto de ser parte dele.

Entre Irmãs me remeteu fortemente aO Quinze, de Rachel de Queiroz, quando, lá pelo capítulo 9, mostrou um dos campos de concentração criados pelo governo para tentar remediar a seca no sertão. Frances foi além ao mostrar, mais que a miséria, um pouco da corrupção que envolvia a distribuição de comida nos tempos mais severos dos períodos de seca.

Não foi somente uma das melhores leituras que fiz em 2018. Entre Irmãs foi um dos melhores livros que eu li na vida. É um monumento em forma de livro. Obrigada, Frances de Pontes Peebles.

 

 

 

Título: Entre Irmãs

Autora: Frances de Pontes Peebles

Tradução: Maria Helena Rouanet

Editora: Arqueiro

Páginas: 576

 

Compre na Amazon: Entre Irmãs.

 

agosto 03, 2018

[LANÇAMENTO] COMO UM ROMANCE DE ÉPOCA E OUTROS CONTOS

Uma coletânea de amores desse e de outros tempos

Que atire o primeiro livro aquele que nunca suspirou por uma história de amor… É simplesmente mágico e extraordinário o poder que essas histórias têm! De época, clássicas, históricas, contemporâneas… Não importa: queremos chegar às últimas páginas, quando um beijo, um pedido de casamento ou uma declaração de amor faz tudo ficar perfeito!

Essa coletânea é uma singela homenagem a essas histórias capazes de nos transportar para outra realidade, arrancando de nós muitos suspiros (e algumas risadas também, por que não?).

Aqui tudo será como em um romance de época: o final feliz é requisito fundamental e indispensável. No início de cada conto, há a indicação da música que inspirou a história. Caso você queira ouvir as mesmas versões que eu ouvi, além da “faixa bônus” Te amo, da cantora Vanessa da Mata, que resume bem a ideia dessa coletânea, sugiro, para acompanhar a leitura, a playlist no Spotify: “Como um romance de época”.

As mulheres desse livro têm muito da ficção, com os pés cravados na realidade, no entanto. Minha mãe, tias, avós estão nessas páginas — eu também! Obviamente também há a influência das mocinhas da literatura e cinema. Emma, aqui uma jovem sitiante do interior de Minas Gerais, é uma espécie de prima distante (e modesta) da criação homônima (brilhante) de Jane Austen.

A você, leitor, que ao iniciar a leitura desse e-book aceitou embarcar comigo nessa viagem, meu muitíssimo obrigada! Espero que você encontre aqui alguns minutos de diversão e também matéria-prima para os seus próprios sonhos e devaneios românticos.

 

Um forte abraço,

Tamires.

 

O trecho acima é a introdução/sinopse da coletânea Como um romance de época e outros contos, que eu estou lançando na Amazon em e-book. São seis contos fofinhos bem água com açúcar para suspirar e se apaixonar! Quem leu Anne e estava esperando pela releitura de Emma, de Jane Austen, pode correr para o Kindle: minha mocinha linda, inteligente e… trabalhadeira está nesta coletânea. Ah, e é claro: tem playlist!

 

 

Leia o primeiro conto logo abaixo. Críticas e comentários (e também compartilhamentos, é claro) são muito bem-vindos!

 

Como um romance de época

 

Para ouvir: Bourn to touch your feelings, Scorpions.

 

 

Bianca saiu do salão de beleza com um sorriso de orelha a orelha. O cabeleireiro não entendeu muito bem a proposta do corte, mas para ela estava tudo perfeito. Bianca agora tinha o cabelo igualzinho ao de Lady Mary Crawley, de Downton Abbey.

Bibi, como era conhecida, vivia mais entre os livros do que em qualquer outra coisa, lugar ou pessoa. Carregava seus personagens favoritos na bolsa ou no celular. Todo minutinho de intervalo no trabalho era usado para ler um ou dois parágrafos. Sua autora favorita naquele momento era Julia Quinn, com seus deliciosamente açucarados romances.

— Quem me dera ser uma personagem de romance de época! — suspirava.

No século XXI seria muito difícil achar um duque, conde ou barão que fizesse dela uma senhora. Pensamento antiquado? Muitíssimo! No entanto, tudo o que Bianca queria era viver um romance como os que lia. Não se importava com títulos, desde que o cavalheiro fosse um… cavalheiro. Mas onde é que ela encontraria um homem assim?

 

***

 

Romeu estava atrasado para o trabalho. Era funcionário de uma oficina de motos há tempo suficiente para se sentir confortável como mecânico.

Nas horas vagas, era um orgulhoso colecionador de livros antigos. Tinha algumas edições de livros esgotados há anos nas livrarias. Perseguia os grandes escritores e também aqueles que descobria em sebos. Gostava de comparar as mudanças na ortografia e as traduções. Também gostava de livros com dedicatória. Esses tinham um lugar especial em sua estante, pela dupla história que continham. Era um mecânico bibliófilo, apaixonado por motos e livros. Mas lhe faltava algo…

O atraso, naquele dia, se devia às horas que havia passado em um sebo, se esquecendo do mundo além dos livros. Achou um exemplar de A Casa Soturna, versão em português de Bleak House, de Charles Dickens.

— Há anos esse livro não é reeditado! — exclamou Romeu, percebendo também que estava atrasado. — Preciso correr! — exclamou, despedindo-se do livreiro, não sem antes comprar aquele exemplar precioso.

 

***

 

Bianca estava lendo Simplesmente o Paraíso, de Julia Quinn, no caminho de volta do salão, depois do trabalho. Era confeiteira, portanto começava o dia no silêncio da madrugada e terminava quando muitos estavam ainda começando o trabalhar. Caminhava lentamente com os olhos grudados no romance entre duas pessoas que se conheciam a vida inteira.

— Seria mágico… — Bibi comentou e suspirou.

Não soube muito bem o que aconteceu em seguida, pois quando deu por si estava no chão, sua bolsa, caída, e seu cotovelo, dolorido e ralado. Ouviu Romeu se desculpar repetidamente.

— Desculpa, desculpa, desculpa… Bibi? — Ele parou de se desculpar ao perceber o novo corte de cabelo de Bianca. — Eu estava distraído com o meu A Casa Soturna.

— E eu com a Julia Quinn. Não tem problema — ela respondeu. — Pera aí, você disse A Casa Soturna? Uau, esse livro não é reeditado há anos! Vou querer emprestado, com certeza!

— De repente eu lhe empresto, Lady Mary — Romeu debochou, mas logo completou. — Ficou linda. Ainda mais, se é que isso é possível.

Bianca ficou levemente corada, como as mocinhas dos romances de época. Só que Bibi nunca ficava corada.

Um silêncio levemente constrangedor indicava que alguma coisa havia acontecido naquele encontro tão desastrado. Algo poderoso, como uma rocha que se move das profundezas ou uma folha que cai de uma árvore aparentemente sem motivo algum.

Algo mágico, como um reencontro.

Bianca percebeu isso.

Romeu, também.

 

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julho 05, 2018

[RESENHA] SONETOS DE AMOR, DE LUÍS DE CAMÕES

Sinopse: “”Os amantes da melhor literatura têm um motivo a mais para celebrar: esta belíssima edição, em capa dura, com uma seleção dos melhores sonetos camonianos sobre o amor. Líricos, eletrizantes e insuperáveis, textos do autor de Os Lusíadas auscultam, a partir da forma poética difundida por Francesco Petrarca (o italiano reputado como o inventor do soneto), o coração de leitores apaixonados. ‘Luís de Camões amou muito, sofreu muito, teve gozo no seu sofrimento e escreveu dezenas de sonetos (e canções, elegias, odes etc.) numa repetida tentativa de entender o que era essa coisa simultaneamente terrível e sublime’, escreve Richard Zenith na esclarecedora introdução ao volume.”

 

Vou confessar uma coisa: embora as disciplinas de literatura portuguesa do meu curso de Letras estejam programadas, por assim dizer, para serem estudadas no quarto e quinto períodos, eu, já indo para o oitavo (2018-2), ainda não as cursei. Cinco disciplinas de literatura brasileira, duas de africanas e outras tantas de teoria literária depois, creio eu que estou preparada para enfrentar o grande poeta da língua portuguesa: Luís de Camões.

Se você, como eu, foi aluno de escola pública, talvez só conheça Camões basicamente pelo “amor é um fogo que arde sem ver…” e por mais algumas informações sobre Os Lusíadas, considerada a epopeia portuguesa por excelência, fundadora da nossa língua etc. Você há de convir que, por mais que o professor tente e se esforce, no geral, adolescentes não vão se interessar  muito por Os Lusíadas. Com sorte, apenas pelo soneto de amor mais conhecido da nossa língua. Os livros didáticos nem sempre são de grande ajuda na empreitada em favor do bardo português.

Resolvi conhecer Camões justamente por seus sonetos de amor. Afinal, é mais fácil e agradável ler sobre esse que é dos mais sublimes sentimentos humanos a começar com a aventura de Vasco da Gama pelos mares, desbravando territórios em nome da Coroa portuguesa.

Essa edição de Sonetos de Amor: Luís de Camões (Penguin-Companhia, 2016) é uma gracinha. A que eu comprei não é de capa dura, e sim um cartonado mais durinho, no mesmo estilo das edições da Penguin-Companhia. A capa lembra muito aqueles cartões românticos que as pessoas costumavam trocar antigamente. Tem alguns relevos, você percebe o carinho e o cuidado com a edição logo de cara. É um livro curto, você lê em algumas horas (poesia, não é recomendado ler tão rápido, guarde essa dica.) e também é uma ótima opção para presentear um apaixonado por literatura, por quem você também seja apaixonado (ou queira bem, mas não no sentido romântico).

Como toda a edição da Penguin-Companhia, o livro vem enriquecido com um magnífico texto de apoio. Nesta edição, o prefácio é de Richard Zenith, um dos maiores especialistas contemporâneos em literatura portuguesa e tradutor de Carlos Drummond de Andrade para a língua inglesa. O texto é uma espécie de minibiografia de Camões, que traz várias curiosidades sobre a vida do autor, inclusive sobre seus amores e desventuras.

Sendo assim, o meu convite de hoje é que você, caso não conheça profundamente a obra de Camões, comece por esses sonetos românticos. Se já conhece, a edição é uma ótima oportunidade para espalhar a palavra da literatura clássica portuguesa aos quatro ventos. O amor é universal e atemporal. E lendo textos tão antigos que dialogam tão perfeitamente com o nosso século a gente é capaz de entender a força que tem a literatura, o quão eterna ela pode ser.

 

 

268.

Este amor que vos tenho, limpo e puro,

De pensamento vil nunca tocado,

Em minha tenra idade começado,

Tê-lo dentro nesta alma só procuro.

 

De haver nele mudança estou seguro,

Sem temer nenhum caso ou duro Fado,

Nem o supremo bem ou ba[i]xo estado.

Nem o tempo presente nem futuro.

 

A bonina e a flor asinha passa;

Tudo por terra o Inverno e Estio deita;

Só pera meu amor é sempre Maio.

 

Mas ver-vos pera mi[m], Senhora, escassa,

E que essa ingratidão tudo me enjeita,

Traz este meu amor sempre em desmaio.”

 

 

Título: Sonetos de amor: Luís de Camões

Autor: Luís de Camões

Prefácio: Richard Zenith

Editora: Penguin-Companhia

Páginas: 96

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