dezembro 04, 2017

[CONTO] CAPÍTULO EXTRA DE O MATADOR NOTURNO

 

Pensando em transformar O Matador Noturno em e-book para a Amazon, eu escrevi, há algum tempo, um capítulo extra para a história. O conto tinha alguns furos e uma questão mal explicada, que eu só consegui desenvolver depois de finalizar a história no Wattpad. Eu escrevia os capítulos semanalmente e os postava quase imediatamente após escrever, fazendo só uma revisão simples. Foi uma experiência muito bacana, mas também desesperadora em partes. Histórias policiais são uma delícia de escrever, mas requerem o triplo de atenção para ficarem convincentes. Mesmo que o intuito, como o que eu tive ao escrever O Matador Noturno, seja apenas divertir e entreter.

O Matador Noturno passou pela revisão da Clara Taveira e do Raphael Pellegrini, do Capitu Já Leu, e ganhou algumas modificações sutis no enredo, além do capítulo extra. Eu resolvi não comercializá-lo, mantendo-o, assim, para leitura gratuita no Wattpad.

 

Para ler o primeiro capítulo postado aqui no blog, clique aqui.

Para ler a história completa no Wattpad, clique aqui.

 

Essa sou eu encarnando o Almeida.

 

Capítulo Extra – O Matador Noturno

 

Algumas semanas antes, na noite da morte de Bicalho…

 

Deise sabia que não era uma boa ideia ir até a delegacia. Mas ela precisava falar com Bicalho. Falar a sós. Desde o rompimento deles e desde a morte de Evangeline, ela não teve sequer um minuto em que pudesse conversar com ele às claras. Ainda guardava a chave do escritório do delegado em sua bolsa e sabia que ele costumava passar as horas que não queria ficar em casa com Patrícia na própria delegacia. Bicalho era um garotão privilegiado. Sempre conseguiu o que queria, na hora que precisava. Tinha dinheiro sem precisar batalhar por ele e poder sem merecê-lo. Qualquer investigador que precisasse fazer hora extra sabia que o delegado fazia do escritório o quintal de sua casa. Ironicamente, ou não, a delegacia era o lugar mais seguro para conversas, encontros e falcatruas. Mas apenas suas mulheres tinham a chave da porta.

Inspiração. Respiração. O cérebro de Deise sofreria uma pane assim que os olhos dela cruzassem com os de Bicalho. Não conseguia pensar direito perto dele. Duas batidas de leve na porta. Discretamente enfiar a chave na fechadura e entrar no escritório. Todos os passos de Deise haviam sido ensaiados.

— Boa noite – Deise falou com sua voz aveludada. Bicalho demorou a levantar o olhar da gaveta. Olhou para Deise um tanto surpreso. A barba estava por fazer e a roupa levemente desalinhada. Ouvia música clássica, como sempre fazia.

— O que você quer aqui? Não lembrava de que ainda tinha a chave do meu escritório – Bicalho respondeu, tentando não ser muito rude e falhando neste propósito.

— Quero conversar com você. Faz tanto tempo que não conversamos a sós – Ela disse docemente, aproximando-se da mesa.

— Que conversa é essa, Deise? Não tenho mais paciência para charminho seu, não… e você não deveria mais vir até aqui em horários impróprios ou usar essa chave – Bicalho disse, apontando distraidamente para a mão de Deise, que guardava a chave como um bem valioso.

— O que é isso, Bicalho? Esqueceu de tudo, esqueceu quem eu sou? Não lembra mais de nós dois? – Deise sussurrou e tocou levemente as mãos do delegado, a grande e imponente mesa do escritório os separando – Quero saber como você está. Sinto sua falta. Estou disposta a esquecer o seu deslize com a modelo. Poderíamos continuar de onde paramos.

Deise pronunciou cada frase como se estivesse fazendo uma prece. Não lhe agradava nem um pouco a ideia de se humilhar, mas por Bicalho… pelo delegado, ela faria coisas inexplicáveis sem ao menos pestanejar. Deu a volta na mesa e sentou nela, bem em frente a Bicalho, esperando que eles voltassem a ser os amantes que sempre foram.

Bicalho deu um sorrisinho irônico, acariciou o rosto de Deise, trazendo-a até si para beijá-la. A mulher estava ali, praticamente entregue a ele, que não resistiu e falou ao pé do ouvido:

— Você não vale um real velho e furado.

Respirou e se recostou em sua cadeira, os olhos brilhando em deboche da cena patética protagonizada pela antiga amante.

— Você não tem o direito de falar assim comigo. Eu não sou um chiclete que você pode jogar fora quando bem entender. Nós tínhamos uma relação, e você jogou tudo fora por uma vagabunda de biquíni – respondeu Deise, ainda sentada no mesmo lugar.

— Deise, querida, não venha bancar a mulher traída e ofendida. Preciso te lembrar de que você também é casada? Que a sacanagenzinha que a gente fazia ocasionalmente já deu o que tinha que dar? Você frequenta a minha casa e eu frequento a sua, mas parece que eu sou mais amigo do seu marido que você é da minha esposa. Você fantasia demais! Pinte um quadro, faça um curso de culinária ou escreva um romancezinho fuleiro desses que você gosta de ler.

Deise olhou para o lado, a gaveta aberta tinha uma foto de Evangeline.

— Nem morta essa mulher vai sair do meu caminho? Quantas mais você vai ter até perceber que sou eu a certa para você? – perguntou Deise.

— Não seja patética, Deise. É isso o que você é: patética – disse Bicalho, rindo. – Não me crie problemas. Você sabe, sou um fotógrafo e um saudosista. Tenho lembranças nossas lá em casa.

— Você é um nojento. A pessoa mais repugnante que eu já tive o desprazer de conhecer – disse Deise, entredentes. – Eu também tenho lembranças suas, de momentos que eu não participei, mas que você e o Vitório parecem ter se divertido muito.

Todo o bom humor que Bicalho ostentara até então se esvaiu com a fala de Deise.

— É bom ter cuidado com o que diz, Deise. Você pode não ver o nascer do sol se achar que sabe demais.

— E seria bom se você soubesse escolher as suas mulheres, Bicalho. Nem todas são como a Patrícia. Ou essa defunta aí da gaveta – disse Deise, fazendo menção de se retirar do escritório.

— Nossa conversa ainda não terminou, Deise.

— Não mesmo, delegado. Não mesmo.

 

***

 

Deise saíra arrasada da delegacia, não pensava que poderia chegar tão longe por causa de Bicalho. Tudo de ruim em sua vida era por causa dele! Ele era a razão de todos os seus problemas, de todas as suas confusões. Procuraria Patrícia para conversarem e dormiria na casa dela. Precisava estar na companhia de alguém, e a amiga era a sua melhor opção no momento.

— Deise! O que você faz aqui tão tarde? – perguntou Patrícia.

— Preciso de um lugar para dormir, briguei com o Vitório — respondeu Deise.

— Tudo bem, entre. Preciso mesmo falar com você – Patrícia disse, olhando no fundo dos olhos da amiga.

A casa de Patrícia e Bicalho era lindíssima. Eles eram um casal peculiar, embora fizessem questão de manter as aparências. Havia bastante tempo que dormiam em quartos separados. As duas foram até o quarto onde dormia o delegado.

— O que você está querendo, Patrícia? – Deise perguntou, tentando parecer interessada.

— Quero te mostrar uma coisa – respondeu Patrícia.

Patrícia pegou uma bela caixa de madeira, trancada com um cadeado. As duas sentaram na cama, com o objeto entre elas.

— O que tem nesta caixa? – Deise perguntou, embora temesse a resposta.

— Preciosidades do nosso bem mais precioso – Patrícia disse, sorrindo. Não tendo uma resposta de Deise, emendou – Bicalho.

— Não estou entendendo, Patrícia. Acho melhor dormirmos, já está tarde – Deise tentou se esquivar.

— Bicalho troca ocasionalmente o cadeado desta caixa. É um baú de carvalho, o famoso pau de dar em doido, já ouviu falar? É uma madeira muito resistente. Não é inquebrável, mas é muito resistente.

— Você já viu o conteúdo dessa caixa? – perguntou Deise.

— Sim.

— E o que tem nela? – Deise precisava saber.

— Fotos. Sabe, desde que o Bicalho fez um curso de fotografia, ele adora registrar tudo. Mas aqui, nessa caixa, ele guarda as fotos mais delicadas e raras para ele. Você é uma das musas, achei que gostaria de saber. Está no hall das exclusivas, junto a mim e a modelo que morreu – disse Patrícia, calmamente.

— Há quanto tempo você sabe? – perguntou Deise.

— Eu vou te dizer. Mas antes receba os meus parabéns por não tentar justificar o injustificável. Bicalho faria isso, se estivesse em seu lugar. Os homens são assim.

— Há quanto tempo você sabe? – insistiu Deise.

— O que eu posso dizer? Eu sei os segredos do meu marido. Acaso você sabe os do seu?

Deise não respondeu. Colocou sua bolsa em cima da cama e a abriu.

— Já que estamos compartilhando segredos, e tendo a pensar que já compartilhamos segredos demais, quero te mostrar duas coisas – disse Deise.

— Sim, o que é? – perguntou Patrícia.

Deise mostrou a cópia da chave do escritório de Bicalho a Patrícia e a colocou ao lado da caixa. Depois, fez o mesmo movimento, mas com uma pistola e um silenciador.

outubro 11, 2017

[RESENHA] ED MORT, DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Sinopse: “Um dos personagens mais populares de Luis Fernando Verissimo, o detetive Ed Mort apareceu pela primeira vez em 1979, no conto “A armadilha”, para nunca mais sair de cena. De língua afiada, coração mole e sempre sem um tostão no bolso, saiu das páginas dos livros, virou filme e, mais recentemente, minissérie para a televisão no canal Multishow, com Fernando Caruso no papel do detetive trapalhão.”

 

Mort. Ed Mort. Detetive Particular criado por Luis Fernando Veríssimo. Suas histórias são curtas, mas deliciosamente envolventes e bem humoradas. É uma caricatura de outros detetives, sobretudo Philip Marlowe, de Raymond Chandler. Seu escri (o tório foi sublocado) tem a presença constante de baratas e de um rato albino, o Voltaire. O nome, é porque ele some, mas sempre volta. Tem tudo o que Agnaldo Timóteo já gravou. Suas frases são curtas como o cano do seu .38, cujo talão do penhor ele carrega no coldre para qualquer eventualidade. Fez o curso de detetive por correspondência, mas há relatos (do próprio Ed) de que o carteiro foi subornado. Ainda assim, nunca entregou a aula sobre como ganhar dinheiro nesta profissão. Mort. Ed. Mort. Detetive Particular. Tá na capa do livro. Leia, eu recomendo.

 

“— Qual foi o motivo do crime?

— Não sabemos.

— Vocês não sabem nada. Eu resolveria esse caso em três minutos. Dois, se tivesse verba do Estado. Encontraria o assassino e o motivo do crime.

— Você não encontraria o próprio nariz com as duas mãos.

Levei a mão ao nariz e o segurei com força.

— Olhe. E com uma mão.

Ninguém me ganha em diálogo inteligente.”

 

Trecho de Ed Mort, de Luis Fernando Veríssimo.

 

 

Abaixo, um trecho da adaptação mais recente, a minissérie do canal Multishow, tendo Fernando Caruso no papel de Ed Mort.

 

Essa resenha pode ter ficado um pouco estranha, mas eu desafio você, leitor, a ler esse livro e não falar usando a mesma estrutura narrativa de Luis Fernando Veríssimo e seu hilário detetive particular, que é uma caricatura não só de detetives ilustres da ficção, mas de um Brasil não muito distante de nós. É uma leitura rápida, leve e divertida. O livro reúne todas as histórias do personagem em contos bem curtinhos. Uma ótima pedida para o feriado ou qualquer dia em que a palavra de ordem seja relaxar.

 

 

 

Título: Ed Mort
Autor: Luis Fernando Veríssimo
Editora: Objetiva
Páginas: 80

 

Compre na Amazon: Ed Mort.

Janeiro 06, 2016

[CONTO] O DIA EM QUE CONHECI MEU PAI PELA SEGUNDA VEZ

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Decidi conhecer meu pai. Já havia o conhecido muitos anos antes, mas agora será diferente. Não sou mais um menino assustado, tampouco sua figura me deixará sem palavras. Sei o que ele foi e quem ele é. Agora é a minha vez de mostrar quem sou eu.

Perguntando aqui e ali, numas férias em que passei na casa dos meus avós, descobri onde ele se esconde. Ainda é policial militar do estado do Piauí, mas também é sócio de um bar. Foi lá que escolhi aparecer. Não sei se aguentaria ficar com ele a sós.

Fui conhecê-lo pela primeira vez quando tinha oito anos. Ele mal havia me visto nascer e já nos abandonara. Minha mãe decidiu que eu já estava virando um rapazinho e devia conhecer o homem que contribuiu para que eu viesse ao mundo. Ele foi embora, mas nunca esteve muito longe. Morava a poucos quilômetros de nós, numa cidade vizinha, e estava lotado em um batalhão desta mesma cidade. A família dele nunca nos procurou. Minha mãe achou melhor ir até o batalhão, onde o encontro seria breve e teria testemunhas. Era medo. Eu sabia.

Ele era o tipo de homem que não esquentava a cama de mulher nenhuma, mas gostou da minha mãe. Ela, moça caseira, filha de pessoas honestas, jamais se envolveria com um homem como ele, mas se apaixonou. Casaram-se. Pouco tempo depois, esperavam por mim. Desde então, ele resolveu que não queria mais filhos, pois já tinha vários, em várias cidades… Também não queria ter uma família conosco. Na verdade, já tinha passado da hora de ele ir embora dali.

Eu nasci e tive uma ótima família. Meus avós, minha mãe, minha tia… Todos estavam lá nos momentos em que precisei. Mas nunca tive o meu pai.

Certa vez, perguntei para minha mãe por que eu não tinha pai. Ele havia morrido? Não sabia nada dele, só que o chamavam de nomes indizíveis e o desprezavam. Mesmo assim, minha mãe disse que, se eu quisesse, ela me levaria para conhecê-lo. Fomos.

O dia estava quente, e o batalhão era no fim de um longo caminho. Minha mãe segurava a minha mão com muita força. Eu também estava com medo. Ia conhecer o meu pai.

No batalhão, já éramos esperados. Fomos anunciados, e um homem veio caminhando lentamente até nós. Era ele, eu tinha certeza. Aproximou-se, mas não falou nada. Olhou rapidamente para mim. Seus olhos logo encontraram os da minha mãe e lá repousaram. Olharam-se por um instante, que pareceu uma eternidade. Havia anos que ela não o encontrava. Desconfio que ela também não o conhecia, nunca deve tê-lo conhecido de fato. Mas há muito tempo perdera a vontade de conhecê-lo. Um simples e tímido cumprimento foi o breve diálogo entre eles. Mas aquele olhar, aquele, sim, disse muito mais do que qualquer palavra poderia dizer.

Não me lembro de nada que ele disse, e a minha mãe não esteve junto a nós para ouvir a conversa. Ela me esperou na porta do batalhão, enquanto eu era apresentado aos colegas de farda do meu pai, lá dentro. Achei aquele lugar incrível! Meu pai estava para ser promovido a Sargento, e muitos já o respeitavam como tal. Muita gente quis me conhecer e falar comigo. Senti-me importante porque meu pai o era.

 

***

 

Depois daquele dia, nunca mais o vi. Pensei até que havia sonhado com esse encontro, mas a minha mãe garante que não foi sonho. Nós realmente estivemos lá.

 

***

 

Eu precisava vê-lo de novo. Não sei por que, mas precisava. Fui ao bar. Entrei, sentei, pedi uma cerveja. Já era adulto, mas estava nervoso. Ele estava no balcão, não me viu. Confirmei com o cara que me trouxe a cerveja. Era realmente o meu pai no balcão. Tive vontade de ir embora. Nesta altura da vida, o que eu esperava ter dele? Pensei muito, os segundos pareciam horas. Eu estava ali. Não podia ir embora antes de falar com ele.

Também sou policial agora. Não sei se aquela visita ao batalhão me influenciou (ou se foi uma inclinação natural e, neste caso, trágica de seguir a profissão do meu pai), mas entrei para a corporação, no Rio de Janeiro, há pouco tempo. Sou Soldado. Ele, pela idade, já deve ser Primeiro Tenente. Arranjei uma arma emprestada só para ir vê-lo.

Foi tudo muito rápido. Ainda hoje, parece que, nas duas vezes, eu sonhei ter conhecido o meu pai. Levantei-me da cadeira e fui caminhando lentamente até o balcão. Parei de frente para ele. Olhou-me e não me reconheceu. Confirmei uma vez mais se realmente era meu pai. Disse o meu nome. Então as coisas passaram a fazer sentido para ele. Em um movimento repentino, ele pulou o balcão e me abraçou. Não sei se eu consegui abraçá-lo de volta, mas ele ficou ali, me abraçando.

Voltei para a mesa, agora com o meu pai. Conversamos sobre várias coisas. Falei para ele que eu também era policial, Cabo, quase Sargento; que tudo tinha dado certo para mim e que eu vivia muito bem. Ele me falou da família, dos muitos filhos e do arrependimento de não ter me procurado depois daquele dia no batalhão.

Perguntou-me pela minha mãe. Menti que ela havia se casado novamente, que era muito feliz e tinha mais três filhos. Ele não pareceu acreditar. Ele devia conhecer mais do que eu supunha a mulher com quem se casara há muito tempo.

Apresentou-me para todos como o seu filho, que também era policial. Simplesmente um orgulho! Aquilo me irritou. Esforcei-me para não deixar transparecer. Ele em nada havia contribuído para que eu estivesse ali, homem feito, pessoa de bem. Por ele, eu nem teria nascido!

Prometi voltar sempre nas férias para também para visitá-lo, agora que nós tínhamos nos conhecido de verdade, e ele morava tão perto dos meus avós. Quinze anos depois, soube de seu falecimento.

 

 

*** Este conto participou do Concurso de Contos DEZCONTOS (2015), do curso de Letras do Polo Cederj Itaperuna, ficando na oitava colocação. Ele narra uma história real; foi o meu pai quem decidiu conhecer o pai dele pela segunda vez. O que eu fiz foi unir as versões dele e da minha avó sobre o ocorrido, com uma pitada de imaginação.

 

[ATUALIZAÇÃO 30-11-2017]: O Dia virou livro e está disponível em e-book na Amazon neste link.

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