junho 29, 2017

[RESENHA] OUTROS JEITOS DE USAR A BOCA, DE RUPI KAUR

Sinopse: “Maior fenômeno de poesia dos EUA na última década, há mais de 40 semanas no topo das listas de best-sellers.
Outros jeitos de usar a boca é um livro de poemas sobre a sobrevivência. Sobre a experiência de violência, o abuso, o amor, a perda e a feminilidade. O volume – publicado nos EUA como “milk and honey” – é dividido em quatro partes, e cada uma delas serve a um propósito diferente. Lida com um tipo diferente de dor. Cura uma mágoa diferente. Outros jeitos de usar a boca transporta o leitor por uma jornada pelos momentos mais amargos da vida e encontra uma maneira de tirar delicadeza deles. Publicado inicialmente de forma independente por Rupi Kaur, poeta, artista plástica e performer canadense nascida na Índia – e que também assina as ilustrações presentes neste volume –, o livro se tornou o maior fenômeno do gênero nos últimos anos nos Estados Unidos, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos.”

 

Esse livro desnudou a minha alma. Se eu pudesse voltar no tempo, daria ele de presente para a minha versão de 13 ou 14 anos, que sonhava com um príncipe que ainda demoraria a chegar. Alguns anos à frente eu o reconheceria, mas não sem antes ter passado por tantas lágrimas e desilusões.

Minha adolescência foi marcada por muitas idas ao hospital. Meu pai teve insuficiência renal quando eu tinha 11 anos; minha mãe, câncer, quando eu estava com 13. Tinha duas irmãs mais novas e muitas obrigações domésticas, precisava dar conta de ter as responsabilidades dos dois adultos que em breve viriam a faltar. Neste ínterim, descobria-me como pessoa e como mulher. E não foi fácil entender a vida praticamente sozinha.

Ainda que eu tivesse tido uma adolescência diferente, normal, isso não seria garantia que eu teria o apoio integral da minha mãe, que nós teríamos conversas francas sobre relacionamentos. As gerações anteriores a ela não estavam acostumadas a conversar sobre sexo. Em muitos casos, mesmo tendo muitos e muitos filhos, as mulheres de antigamente passavam a vida inteira, em muitos casos, sem saber como é fazer amor.

Em Outros Jeitos de Usar a Boca, Rupi Kaur toca naqueles pontos sensíveis do que é ser mulher. Desde a infância, desde o primeiro contato físico. Fala de abusos, que eu felizmente não vivi, mas fala também do amor materno, do conhecimento do nosso corpo, da consciência de quando o sexo é verdadeiramente satisfatório para ambas as partes, sobre as dores da alma de ser mulher. Das belezas, mas, sobretudo, das amarras que diariamente lutamos para romper e sermos livres.

Com esse livro revivi relacionamentos fracassados, revivi a perda da minha mãe, seu amor maternal, e também as falhas do relacionamento dela e do meu pai, as concessões que ela fez e não devia. As concessões que eu também fiz, apesar do exemplo dela.  Vi minha alma de mãe e de mulher exposta de uma forma tão bela e tão dolorida ao mesmo tempo. Também revivi relacionamentos que tive com outras mulheres, pois a amizade também pode ser tóxica. É incrível como podemos ser muitas e sermos apenas uma. Rupi Kaur é uma mulher que soube escrever sobre as mulheres. Sem censuras, sem críticas além daquelas que são necessárias para a nossa saúde mental, para nossa felicidade. Onde eu não consegui me enxergar, consegui ter empatia por aquelas mulheres que eu talvez nunca conheça, mas que eu tenho certeza que já passaram ou vão passar por algo parecido. É uma leitura até rápida, por sua densidade, que eu recomendo fortemente se você que está lendo agora for mulher. Recomendo para os homens também, para que saibam pelo menos um pouquinho sobre nós, sobre a nossa alma.

Cada homem que eu beijei está aqui nesse livro. Meu pai está nesse livro, minha mãe também. As mulheres da minha família estão aqui. Minha filha está aqui, assim como o pai dela. Mas o melhor de tudo é que eu também estou nesse livro. Acho que você também pode estar.

 

 

 

Título: Outros Jeitos de Usar a Boca
Autora: Rupi Kaur
Tradução: Ana Guadalupe
Editora: Planeta
Páginas: 208

 

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novembro 28, 2016

[RESENHA] FLORBELA ESPANCA, ANTOLOGIA POÉTICA

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É difícil conceber uma resenha literária de um livro de poesias quando não há a intenção de fazer uma análise aprofundada, destrinchando cada verso, cada rima. Entretanto, ainda assim, chamarei esse texto de resenha e tentarei fazer algumas considerações sobre o livro em questão, desde já recomendando, obviamente, que ele seja lido.

Florbela Espanca (1894/1930) é uma figura que despertou a minha atenção e admiração desde o primeiro momento em que tive conhecimento de sua existência. Ela deve ser reconhecida e venerada pelo talento que tinha em colocar no papel da forma mais intensa os seus sentimentos.

A Editora Martin Claret lançou em edição especial, capa dura, esta antologia da autora, contendo toda a sua obra poética antes publicada separadamente nos volumes Livro de Mágoas; Livro Sóror Saudade; Charneca em Flor, Reliquiae; Trocando Olhares e O Livro D’ele. A edição conta, ainda, com uma introdução de Renata Soares Junqueira, que fala rapidamente sobre a vida e a obra de Florbela Espanca, a autora que é poesia até no nome.

 

 

“Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

 

Os meus gestos são ondas de sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

 

Dou-te o que tenho; o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é de oiro, a onda que palpita.

 

Dou-te comigo, o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A princesa do conto: ‘Era uma vez…’”

 

(Conto de Fadas, do livro Charneca em Flor, p. 97)

 

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Florbela Espanca

 

Uma curiosidade para nós, brasileiros, é que o cantor Fagner transformou vários sonetos da poetisa portuguesa em música! Deixo abaixo um vídeo em que ele canta com Zeca Baleiro o soneto Fanatismo, presente no Livro Sóror Saudade, página 56 da Antologia publicada pela Martin Claret. A edição é lindíssima e deixo aqui o convite para que vocês conheçam a obra de Florbela Espanca.

 

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida!
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

‘Tudo no mundo é frágil, tudo passa…’
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
‘Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…’”

(Fanatismo, do Livro Sóror Saudade, p. 56)

 

 

 

 

Título: Florbela Espanca, Antologia Poética
Autora: Florbela Espanca
Editora: Martin Claret
Páginas: 298

 

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março 10, 2016

[RESENHA] A BRANCA VOZ DA SOLIDÃO

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Emily Dickinson. Fonte: Tumblr

 

“É tudo que hoje tenho para dar-te –  
Isto – e meu coração – 
Isto, e meu coração, e mais os campos 
E prados na amplidão – 
Não te percas na conta – se eu esqueço 
Alguém tem de lembrar –  
Isto, e meu coração, e cada Abelha 
Que no Trevo morar.” 
 
Emily Dickinson, A Branca Voz da Solidão. Tradução de José Lira. 

 

Emily Dickinson (1830-1886) foi e ainda é um grande mistério. Sabe-se que ela tinha uma vida reclusa, não se casou e mantinha nos bolsos de seu avental, ou do vestido branco que costumava usar, lápis e papel onde escrevia seus poemas. Sua obra passou a ser de conhecimento do grande público após o seu falecimento e o sucesso e o reconhecimento vieram bastante tempo depois disso. Hoje, a autora é considerada uma das maiores expressões da literatura universal.

 

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A Branca Voz da Solidão, publicado pela Editora Iluminuras, é uma ótima edição para ter na estante e ler ocasionalmente. Os poemas de Dickinson foram traduzidos por José Lira, grande conhecedor da biografia da autora e de sua obra, tendo publicado, também pela Iluminuras, o título Emily Dickinson: Alguns poemas, finalista do Prêmio Jabuti de 2007.

 

A Branca Voz da Solidão é uma edição bilíngue e acompanha um belo marcador de páginas em sua orelha, o qual não tive (e certamente não terei) coragem de destacar. 

 

Título: A Branca Voz da Solidão
Autora: Emily Dickinson
Tradução: José Lira
Editora: Iluminuras
Páginas: 352

 

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