outubro 30, 2018

[ETC.] CARAMBAIA LANÇA “CONTOS COMPLETOS, FÁBULAS & CRÔNICAS DECORATIVAS”, DE FERNANDO PESSOA

 

A Editora Carambaia está lançando (com 10% de desconto!) o livro Contos completos, fábulas & crônicas decorativas, de Fernando Pessoa, em uma edição linda, que inaugura o Selo Ilimitada, para obras que não estão em domínio público e que podem ser reimpressas de acordo com a demanda. Saiba mais sobre o livro de Fernando Pessoa abaixo:

Fernando Pessoa (1888-1935) publicou apenas um livro de poemas em português durante sua vida, além de alguns folhetos de versos em inglês. No entanto, deixou uma imensa produção esparsa ou inédita, parte inacabada – como seria de esperar de um escritor que não só se exercitou em vários gêneros, mas encarnou múltiplos autores. Por isso, mais de 80 anos após sua morte, ainda será possível encontrar inéditos. Prova disso é a coletânea que a CARAMBAIA lança agora, Contos completos, fábulas & crônicas decorativas, reunindo 14 textos que Pessoa deixou concluídos e revisados, três deles antes inéditos em livro. O volume traz também três contos do escritor norte-americano O. Henry traduzidos por Pessoa. A organização ficou a cargo do poeta e tradutor angolano Zetho Cunha Gonçalves, um dos principais escritores de seu país. Nascido em 1960 e hoje vivendo em Portugal, Gonçalves foi indicado este ano pela Universidade de Lisboa ao prêmio Nobel da literatura, e é um dos principais especialistas na obra de Pessoa.

O maior poeta modernista português se apresenta nesse livro em algumas de suas facetas menos conhecidas, como as de contista e dramaturgo – foi também autor de ensaios filosóficos e crítica literária (este talvez o veio mais frequente de sua obra lançada em vida), prosa memorialística e se lançou a esboços de vários gêneros, incluindo tentativas de ficção policial.  Em comum entre os textos do livro está o fato de terem sido escritos e publicados em periódicos sob o nome real (ortônimo) de Fernando Pessoa e não atribuídos a algum de seus mais de 70 heterônimos. Outra constante – com a exceção do angustiante “drama estático” O marinheiro, que fecha a coletânea com a gravidade de um fado – é a presença de um humor provocativo, que oscila entre o absurdo e a ironia.

É esse o veio explorado no conto de abertura, intitulado Crônica decorativa I, em que o narrador, ao ser apresentado a um professor-doutor da Universidade de Tóquio, especula sobre a existência do Japão e dos japoneses, cuja realidade para ele se resume às representações decorativas de bules e chávenas de chá. Um pouco mais à frente se lê o genial O banqueiro anarquista, que consiste de um diálogo ao estilo socrático no qual um homem idealista prova com absoluta frieza lógica que não só é possível ser banqueiro e anarquista ao mesmo tempo, como é o único modo de exercer o anarquismo coerentemente.  Entre os textos curtos da primeira parte do livro inclui-se ainda um conto que originalmente foi pedido a Pessoa como peça de publicidade de uma marca de tintas para carros.

A segunda parte é dedicada às breves narrativas a que Pessoa deu o título de Fábulas para as nações jovens. Seguindo a tradição do gênero, essas fábulas concluem com uma moral, embora nunca seja a mais evidente nem a mais construtiva. Corrosivamente, o autor mira, entre outros valores convencionais, os mitos da superioridade da inteligência (em O Saraiva ou O Saraiva e as meninas) e da cordialidade (O Santos e o Pereira) ou os dogmas religiosos (O cristão e o católico). A terceira parte do livro reúne os três contos de O. Henry que Pessoa traduziu com atenção especial ao ritmo e ao movimento do texto – lembrando que o inglês foi a língua em que o poeta português fez seus primeiros estudos e na qual, ainda criança, desenvolveu suas primeiras tentativas literárias. Os contos de O. Henry são muito diferentes da obra própria de Pessoa, com narrativas densas marcadas por idas e vindas e finalizadas por elementos de surpresa. Finalmente, o drama em um ato O marinheiro, em que três mulheres conversam num velório, antecipa, segundo Zetho Gonçalves, o teatro do absurdo de Samuel Beckett.

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, numa família semiaristocrática. Aos 7 anos mudou-se para a África do Sul, quando seu padrasto, um militar, foi nomeado cônsul português em Durban, capital da ex-colônia britânica de Natal. Nesse período ganhou fluência na leitura e escrita do inglês, dando seus primeiros passos na poesia e usando eventualmente heterônimos para assinar seus livros. Já nessa época os heterônimos não eram pseudônimos, mas autores imaginários com voz e biografia próprias. Em 1905 o poeta voltou a Lisboa. Depois de abrir uma tipografia que durou menos de um ano, Pessoa começou a trabalhar como correspondente internacional em empresas de comércio marítimo, enquanto escrevia textos sobre a vanguarda literária para revistas como Orpheu, porta-voz do movimento modernista português. Em 1918, publicou seu primeiro livro em inglês e apenas em 1934 conseguiu levar a público o primeiro em português, Mensagem, inspirado na era de expansão marítima de Portugal.  Pessoa morreu no ano seguinte, pouco conhecido além dos meios literários em que atuava.

O reconhecimento chegou ao longo da década de 1940, quando veio à luz grande parte de sua obra. A publicação em livro deixou clara a diferenciação entre seus principais heterônimos, os poetas Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, além de Bernardo Soares, o semi-heterônimo memorialista de O livro do desassossego, que só saiu em versão completa em 1982. O próprio ortônimo Fernando Pessoa se apresenta como um autor distinto dos demais. Ao mesmo tempo conservador e libertário, materialista e ocultista, o poeta fez do inconformismo o norte de sua vida. Na comemoração do centenário de seu nascimento, em 1988, o corpo de Pessoa foi transferido para o Mosteiro dos Jerónimos, consolidando sua posição de expoente incontestável da literatura mundial.

 

Organização, prefácio e notas: Zetho Cunha Gonçalves

Projeto gráfico: Bloco Gráfico

 

 

Leia as primeiras páginas do livro Contos Completos: Fernando Pessoa, clicando aqui.

julho 05, 2018

[RESENHA] SONETOS DE AMOR, DE LUÍS DE CAMÕES

Sinopse: “”Os amantes da melhor literatura têm um motivo a mais para celebrar: esta belíssima edição, em capa dura, com uma seleção dos melhores sonetos camonianos sobre o amor. Líricos, eletrizantes e insuperáveis, textos do autor de Os Lusíadas auscultam, a partir da forma poética difundida por Francesco Petrarca (o italiano reputado como o inventor do soneto), o coração de leitores apaixonados. ‘Luís de Camões amou muito, sofreu muito, teve gozo no seu sofrimento e escreveu dezenas de sonetos (e canções, elegias, odes etc.) numa repetida tentativa de entender o que era essa coisa simultaneamente terrível e sublime’, escreve Richard Zenith na esclarecedora introdução ao volume.”

 

Vou confessar uma coisa: embora as disciplinas de literatura portuguesa do meu curso de Letras estejam programadas, por assim dizer, para serem estudadas no quarto e quinto períodos, eu, já indo para o oitavo (2018-2), ainda não as cursei. Cinco disciplinas de literatura brasileira, duas de africanas e outras tantas de teoria literária depois, creio eu que estou preparada para enfrentar o grande poeta da língua portuguesa: Luís de Camões.

Se você, como eu, foi aluno de escola pública, talvez só conheça Camões basicamente pelo “amor é um fogo que arde sem ver…” e por mais algumas informações sobre Os Lusíadas, considerada a epopeia portuguesa por excelência, fundadora da nossa língua etc. Você há de convir que, por mais que o professor tente e se esforce, no geral, adolescentes não vão se interessar  muito por Os Lusíadas. Com sorte, apenas pelo soneto de amor mais conhecido da nossa língua. Os livros didáticos nem sempre são de grande ajuda na empreitada em favor do bardo português.

Resolvi conhecer Camões justamente por seus sonetos de amor. Afinal, é mais fácil e agradável ler sobre esse que é dos mais sublimes sentimentos humanos a começar com a aventura de Vasco da Gama pelos mares, desbravando territórios em nome da Coroa portuguesa.

Essa edição de Sonetos de Amor: Luís de Camões (Penguin-Companhia, 2016) é uma gracinha. A que eu comprei não é de capa dura, e sim um cartonado mais durinho, no mesmo estilo das edições da Penguin-Companhia. A capa lembra muito aqueles cartões românticos que as pessoas costumavam trocar antigamente. Tem alguns relevos, você percebe o carinho e o cuidado com a edição logo de cara. É um livro curto, você lê em algumas horas (poesia, não é recomendado ler tão rápido, guarde essa dica.) e também é uma ótima opção para presentear um apaixonado por literatura, por quem você também seja apaixonado (ou queira bem, mas não no sentido romântico).

Como toda a edição da Penguin-Companhia, o livro vem enriquecido com um magnífico texto de apoio. Nesta edição, o prefácio é de Richard Zenith, um dos maiores especialistas contemporâneos em literatura portuguesa e tradutor de Carlos Drummond de Andrade para a língua inglesa. O texto é uma espécie de minibiografia de Camões, que traz várias curiosidades sobre a vida do autor, inclusive sobre seus amores e desventuras.

Sendo assim, o meu convite de hoje é que você, caso não conheça profundamente a obra de Camões, comece por esses sonetos românticos. Se já conhece, a edição é uma ótima oportunidade para espalhar a palavra da literatura clássica portuguesa aos quatro ventos. O amor é universal e atemporal. E lendo textos tão antigos que dialogam tão perfeitamente com o nosso século a gente é capaz de entender a força que tem a literatura, o quão eterna ela pode ser.

 

 

268.

Este amor que vos tenho, limpo e puro,

De pensamento vil nunca tocado,

Em minha tenra idade começado,

Tê-lo dentro nesta alma só procuro.

 

De haver nele mudança estou seguro,

Sem temer nenhum caso ou duro Fado,

Nem o supremo bem ou ba[i]xo estado.

Nem o tempo presente nem futuro.

 

A bonina e a flor asinha passa;

Tudo por terra o Inverno e Estio deita;

Só pera meu amor é sempre Maio.

 

Mas ver-vos pera mi[m], Senhora, escassa,

E que essa ingratidão tudo me enjeita,

Traz este meu amor sempre em desmaio.”

 

 

Título: Sonetos de amor: Luís de Camões

Autor: Luís de Camões

Prefácio: Richard Zenith

Editora: Penguin-Companhia

Páginas: 96

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novembro 28, 2016

[RESENHA] FLORBELA ESPANCA, ANTOLOGIA POÉTICA

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É difícil conceber uma resenha literária de um livro de poesias quando não há a intenção de fazer uma análise aprofundada, destrinchando cada verso, cada rima. Entretanto, ainda assim, chamarei esse texto de resenha e tentarei fazer algumas considerações sobre o livro em questão, desde já recomendando, obviamente, que ele seja lido.

Florbela Espanca (1894/1930) é uma figura que despertou a minha atenção e admiração desde o primeiro momento em que tive conhecimento de sua existência. Ela deve ser reconhecida e venerada pelo talento que tinha em colocar no papel da forma mais intensa os seus sentimentos.

A Editora Martin Claret lançou em edição especial, capa dura, esta antologia da autora, contendo toda a sua obra poética antes publicada separadamente nos volumes Livro de Mágoas; Livro Sóror Saudade; Charneca em Flor, Reliquiae; Trocando Olhares e O Livro D’ele. A edição conta, ainda, com uma introdução de Renata Soares Junqueira, que fala rapidamente sobre a vida e a obra de Florbela Espanca, a autora que é poesia até no nome.

 

 

“Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

 

Os meus gestos são ondas de sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

 

Dou-te o que tenho; o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é de oiro, a onda que palpita.

 

Dou-te comigo, o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A princesa do conto: ‘Era uma vez…’”

 

(Conto de Fadas, do livro Charneca em Flor, p. 97)

 

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Florbela Espanca

 

Uma curiosidade para nós, brasileiros, é que o cantor Fagner transformou vários sonetos da poetisa portuguesa em música! Deixo abaixo um vídeo em que ele canta com Zeca Baleiro o soneto Fanatismo, presente no Livro Sóror Saudade, página 56 da Antologia publicada pela Martin Claret. A edição é lindíssima e deixo aqui o convite para que vocês conheçam a obra de Florbela Espanca.

 

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida!
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

‘Tudo no mundo é frágil, tudo passa…’
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
‘Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…’”

(Fanatismo, do Livro Sóror Saudade, p. 56)

 

 

 

 

Título: Florbela Espanca, Antologia Poética
Autora: Florbela Espanca
Editora: Martin Claret
Páginas: 298

 

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