julho 05, 2018

[RESENHA] SONETOS DE AMOR, DE LUÍS DE CAMÕES

Sinopse: “”Os amantes da melhor literatura têm um motivo a mais para celebrar: esta belíssima edição, em capa dura, com uma seleção dos melhores sonetos camonianos sobre o amor. Líricos, eletrizantes e insuperáveis, textos do autor de Os Lusíadas auscultam, a partir da forma poética difundida por Francesco Petrarca (o italiano reputado como o inventor do soneto), o coração de leitores apaixonados. ‘Luís de Camões amou muito, sofreu muito, teve gozo no seu sofrimento e escreveu dezenas de sonetos (e canções, elegias, odes etc.) numa repetida tentativa de entender o que era essa coisa simultaneamente terrível e sublime’, escreve Richard Zenith na esclarecedora introdução ao volume.”

 

Vou confessar uma coisa: embora as disciplinas de literatura portuguesa do meu curso de Letras estejam programadas, por assim dizer, para serem estudadas no quarto e quinto períodos, eu, já indo para o oitavo (2018-2), ainda não as cursei. Cinco disciplinas de literatura brasileira, duas de africanas e outras tantas de teoria literária depois, creio eu que estou preparada para enfrentar o grande poeta da língua portuguesa: Luís de Camões.

Se você, como eu, foi aluno de escola pública, talvez só conheça Camões basicamente pelo “amor é um fogo que arde sem ver…” e por mais algumas informações sobre Os Lusíadas, considerada a epopeia portuguesa por excelência, fundadora da nossa língua etc. Você há de convir que, por mais que o professor tente e se esforce, no geral, adolescentes não vão se interessar  muito por Os Lusíadas. Com sorte, apenas pelo soneto de amor mais conhecido da nossa língua. Os livros didáticos nem sempre são de grande ajuda na empreitada em favor do bardo português.

Resolvi conhecer Camões justamente por seus sonetos de amor. Afinal, é mais fácil e agradável ler sobre esse que é dos mais sublimes sentimentos humanos a começar com a aventura de Vasco da Gama pelos mares, desbravando territórios em nome da Coroa portuguesa.

Essa edição de Sonetos de Amor: Luís de Camões (Penguin-Companhia, 2016) é uma gracinha. A que eu comprei não é de capa dura, e sim um cartonado mais durinho, no mesmo estilo das edições da Penguin-Companhia. A capa lembra muito aqueles cartões românticos que as pessoas costumavam trocar antigamente. Tem alguns relevos, você percebe o carinho e o cuidado com a edição logo de cara. É um livro curto, você lê em algumas horas (poesia, não é recomendado ler tão rápido, guarde essa dica.) e também é uma ótima opção para presentear um apaixonado por literatura, por quem você também seja apaixonado (ou queira bem, mas não no sentido romântico).

Como toda a edição da Penguin-Companhia, o livro vem enriquecido com um magnífico texto de apoio. Nesta edição, o prefácio é de Richard Zenith, um dos maiores especialistas contemporâneos em literatura portuguesa e tradutor de Carlos Drummond de Andrade para a língua inglesa. O texto é uma espécie de minibiografia de Camões, que traz várias curiosidades sobre a vida do autor, inclusive sobre seus amores e desventuras.

Sendo assim, o meu convite de hoje é que você, caso não conheça profundamente a obra de Camões, comece por esses sonetos românticos. Se já conhece, a edição é uma ótima oportunidade para espalhar a palavra da literatura clássica portuguesa aos quatro ventos. O amor é universal e atemporal. E lendo textos tão antigos que dialogam tão perfeitamente com o nosso século a gente é capaz de entender a força que tem a literatura, o quão eterna ela pode ser.

 

 

268.

Este amor que vos tenho, limpo e puro,

De pensamento vil nunca tocado,

Em minha tenra idade começado,

Tê-lo dentro nesta alma só procuro.

 

De haver nele mudança estou seguro,

Sem temer nenhum caso ou duro Fado,

Nem o supremo bem ou ba[i]xo estado.

Nem o tempo presente nem futuro.

 

A bonina e a flor asinha passa;

Tudo por terra o Inverno e Estio deita;

Só pera meu amor é sempre Maio.

 

Mas ver-vos pera mi[m], Senhora, escassa,

E que essa ingratidão tudo me enjeita,

Traz este meu amor sempre em desmaio.”

 

 

Título: Sonetos de amor: Luís de Camões

Autor: Luís de Camões

Prefácio: Richard Zenith

Editora: Penguin-Companhia

Páginas: 96

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novembro 28, 2016

[RESENHA] FLORBELA ESPANCA, ANTOLOGIA POÉTICA

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É difícil conceber uma resenha literária de um livro de poesias quando não há a intenção de fazer uma análise aprofundada, destrinchando cada verso, cada rima. Entretanto, ainda assim, chamarei esse texto de resenha e tentarei fazer algumas considerações sobre o livro em questão, desde já recomendando, obviamente, que ele seja lido.

Florbela Espanca (1894/1930) é uma figura que despertou a minha atenção e admiração desde o primeiro momento em que tive conhecimento de sua existência. Ela deve ser reconhecida e venerada pelo talento que tinha em colocar no papel da forma mais intensa os seus sentimentos.

A Editora Martin Claret lançou em edição especial, capa dura, esta antologia da autora, contendo toda a sua obra poética antes publicada separadamente nos volumes Livro de Mágoas; Livro Sóror Saudade; Charneca em Flor, Reliquiae; Trocando Olhares e O Livro D’ele. A edição conta, ainda, com uma introdução de Renata Soares Junqueira, que fala rapidamente sobre a vida e a obra de Florbela Espanca, a autora que é poesia até no nome.

 

 

“Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

E para as tuas chagas o unguento

Com que sarei a minha própria dor.

 

Os meus gestos são ondas de sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

 

Dou-te o que tenho; o astro que dormita,

O manto dos crepúsculos da tarde,

O sol que é de oiro, a onda que palpita.

 

Dou-te comigo, o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

A princesa do conto: ‘Era uma vez…’”

 

(Conto de Fadas, do livro Charneca em Flor, p. 97)

 

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Florbela Espanca

 

Uma curiosidade para nós, brasileiros, é que o cantor Fagner transformou vários sonetos da poetisa portuguesa em música! Deixo abaixo um vídeo em que ele canta com Zeca Baleiro o soneto Fanatismo, presente no Livro Sóror Saudade, página 56 da Antologia publicada pela Martin Claret. A edição é lindíssima e deixo aqui o convite para que vocês conheçam a obra de Florbela Espanca.

 

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida!
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

‘Tudo no mundo é frágil, tudo passa…’
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
‘Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!…’”

(Fanatismo, do Livro Sóror Saudade, p. 56)

 

 

 

 

Título: Florbela Espanca, Antologia Poética
Autora: Florbela Espanca
Editora: Martin Claret
Páginas: 298

 

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