julho 27, 2018

[RESENHA] BELINDA, DE MARIA EDGEWORTH

Sinopse: “Mrs. Stanhope fez de tudo até conseguir que a dama mais elegante e influente de Londres, a notória viscondessa lady Delacour, convidasse sua última sobrinha solteira para passar uma temporada com ela. A esperança de Mrs. Stanhope era de que Belinda conseguisse, como suas demais primas, um bom e rico marido. A jovem, então, é jogada num intenso tumulto social e acaba se envolvendo nos conflitos familiares da aristocrática família Delacour. Enquanto a belíssima lady Delacour tenta chamar para si a atenção de Mr. Clarence Hervey e de outros cavalheiros, com artimanhas e coquetismo, vivendo uma rotina de glamour e dissipação, ela enfurece o marido, lorde Delacour, causando uma tragédia.

Em meio à agitada vida social de bailes e recepções, o coração da jovem Belinda é tocado por Mr. Hervey, mas ele está comprometido. Resta a Belinda se casar com Mr. Vincent, o protegido da sóbria família Percival. Belinda é a envolvente história de uma jovem forte e sensata, que luta para manter sua integridade, mesmo estando sob a tutela de uma dama fútil e inconsequente.”

 

“E enquanto o talento do nongentésimo compilador da História da Inglaterra ou do homem que reúne e publica num livro algumas dúzias de linhas de Milton, Pope e Prior, com um artigo do Spectator, e um capítulo de Sterne, é elogiado por mil plumas, há um desejo quase universal de vilipendiar e desvalorizar o trabalho do romancista, e rebaixar obras que têm apenas o gênio, a inteligência e o bom gosto para recomendá-las. ‘Não sou um leitor de romances… Raramente folheio romances… Não vá imaginar que leio muitos romances… Para um romance está muito bom.’ Esta é a cantilena de sempre. ‘E o que anda lendo, senhorita?’ ‘Ah! É só um romance!’, responde a mocinha, enquanto larga o livro com afetada indiferença ou momentânea vergonha. ‘É só Cecilia ou Camila ou Belinda’; ou, em suma, só alguma obra em que se exibem as maiores faculdades do espírito, em que o mais completo conhecimento da natureza humana, o mais feliz traçado de suas variedades, as mais vivas efusões de inteligência e humor são oferecidos ao mundo na linguagem mais seleta.”

 “Aquele que, homem ou mulher, não sente prazer na leitura de um bom romance deve ser insuportavelmente estúpido.”

AUSTEN, Jane. A Abadia de Northanger. Trad. Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martin Claret, 2012. p. 42 e 129.

 

O fragmento acima foi responsável por me apresentar o título Belinda, de Maria Edgeworth, publicado há algum tempo pela Pedrazul Editora. Em A Abadia de Northanger (1818), Jane Austen nos presenteou com uma de suas mais adoráveis protagonistas, a ingênua Catherine Morland: uma leitora voraz, especialmente de romances góticos como Os Mistérios de Udolpho. Com sua ironia característica, Austen faz uma espécie de paródia dos romances góticos, sobretudo os de Ann Radcliffe, e defende a leitura de romances, conforme visto acima. E a autora estava certa: o que pode ser melhor que a leitura de um bom romance? Livro técnico algum é capaz de elevar o nosso espírito da mesma forma que as páginas de uma boa ficção.

Ao terminar a leitura de A Abadia de Northanger, o leitor curioso vai logo em busca de Udolpho, que eu, inclusive, recomendo muitíssimo. Entretanto, depois das aventuras de Emily, temos a necessidade de prosseguir com a lista de recomendação de Jane Austen. E o próximo livro da lista disponível em português, é Belinda.

 

 

Publicado originalmente em 1801, Belinda é o tipo de livro que, embora retrate uma época há muito tempo ultrapassada, ainda pode nos ensinar muita coisa sobre como é a vida em sociedade. A mocinha, uma jovem ingênua — porém bastante sensata — que é posta junto a uma experiente dama da sociedade, a fim de aprender algumas coisas com ela e, com sorte, conseguir um valioso casamento, é uma pessoa capaz de nos mostrar sutilezas de uma vida não tão diferente da nossa, no século XXI. As afetações, amizades falsas, pessoas inconsequentes e levianas presentes em Belinda poderiam muito bem estar entre nós, neste mundo louco em que vivemos. E precisaríamos ser tão firmes e determinados como a protagonista para não cair nas armadilhas dos joguetes sociais.

O enredo de Belinda é muito rico: ao colocar uma protagonista iniciante na alta sociedade, Maria Edgeworth mostra mais que os dilemas da mocinha em relação aos seus pretendentes em contraponto aos seus valores morais. Há aqui, em como todo bom clássico, sobretudo inglês, aquela crítica à futilidade dessa camada abastada da sociedade e seus costumes mesquinhos e, porque não, bastante tóxicos. A sociedade de aparências é um ponto marcante em Belinda desde o início. São muitas as sutilezas que formam a trama principal, tornando o livro uma leitura bastante enriquecedora.

 

 

Confesso que as personagens femininas e suas tramas foram o que mais me chamaram atenção em Belinda. Tirei muitas lições dos diálogos e situações vividas pela protagonista e também pelas personagens secundárias.

“Que tesouro é encarar tudo com um coração novo! Todos os corações, hoje em dia, são de segunda mão, na melhor das hipóteses.” (p. 16)

 

“Nunca é tarde demais para as mulheres mudarem de ideia, de roupa, ou de amantes.” (p. 19)

 

“Siga o meu exemplo, Belinda: encontre seu caminho através de cotoveladas na multidão. Se você parar para ser civilizada e pedir desculpas, e ‘espero não tê-lo machucado’, será pisoteada.” (p. 27)

 

“O que eu sofro em privado é conhecido apenas pelo meu coração.” (p. 64)

 

Belinda não é uma leitura exatamente fácil: aqui temos alguns períodos longos de um texto delicioso, porém um pouco rebuscado. No entanto, vale a pena cada página! Percebemos o belo trabalho realizado com a edição, bem traduzida e enriquecida com as ilustrações originais, além de termos acesso pela primeira vez em português a um texto adorado por ninguém menos que Jane Austen. Recomendação melhor não há!

 

 

 

Título: Belinda

Autora: Maria Edgeworth

Tradução: Bianca Costa Sales

Páginas: 452

Editora: Pedrazul

 

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julho 12, 2018

[RESENHA] A LEITORA INCOMUM, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “Os cinco ensaios reunidos neste livro foram escritos entre 1919 e 1929 e publicados em suplementos e revistas literárias. Os textos mostram que além de ser uma ficcionista, Woolf era uma leitora muito atenta, com perspicaz senso crítico. A compreensão que ela tem do leitor, da leitura e do ofício de escrever explicam o porquê ela ser uma das escritoras mais importantes do século XX, responsável por técnicas como a do fluxo de consciência, por cenas cinemáticas e as digressões que adentram as camadas da narrativa. Além do profundo conhecimento da Virginia sobre o tema é preciso falar do cuidado com a tradução, que opta por manter o ritmo da escrita tão peculiar da Woolf. Como explicitado no famoso ensaio Um teto todo seu, mesmo sendo de uma família aristocrata, Virginia Woolf não teve permissão de frequentar a universidade, dessa forma fazendo de sua escrita não apenas uma escolha estética, mas acima de tudo de autonomia e política, de forma que não se parecesse em quase nada com a escrita de outros autores e ainda assim fosse profundamente certeira e bem escrita. Todos os textos desta coletânea fazem parte do livro Granite and Rainbow organizado por Leonard Woolf e publicado em 1958. Sobre o título, A Leitora Incomum, ele remete ao livro de ensaios que a própria Virginia organizou e publicou chamado O Leitor Comum. O livro faz parte da Coleção Alfaiate, costurados a mão e com capa em serigrafia sobre tecido montados um a um.”

 

Em se tratando de Virginia Woolf, sou do tipo leitora mineira: estou lendo pelas beiradas. Há quem se surpreenda quando eu digo, mas, até o momento, não li nenhum dos romances da autora (nem Mrs. Dalloway!). Woolf me conquistou e continua me conquistando, sobretudo, por seus magníficos ensaios. Um dia desses eu mergulho nos romances, certamente o farei, mas tenho certeza de que já li o suficiente da escritora inglesa para admirar a sua inteligência e virar sua fã de carteirinha.

 

Leia também: Cenas londrinas, Profissões para mulheres e outros artigos feministas, Um teto todo seu O sol e o peixe.

 

O livro A Leitora Incomum (Arte e Letra, 2017), reunião de ensaios de Virginia Woolf traduzidos por Emanuela Siqueira, é um livro especial como não se vê com tanta frequência quanto seria incrível na lista de lançamento das editoras brasileiras. Explico: somos inundados quase mensalmente por lançamentos de luxo, com ilustrações, planejamento gráfico que parecem de outro mundo de tão perfeitos etc. (e graças a Deus por isso), mas poucas vezes vi um livro pelo qual as pessoas, inclusive não leitoras, ficassem admiradas com o delicado trabalho visivelmente aplicado no material ali impresso. A edição da Arte e Letra, além do ótimo conteúdo, nos presenteia com aquele gostinho de livro artesanal, um verdadeiro deleite para nós, leitores. A capa é de pano e, mesmo sabendo disso no ato da compra, fiquei admirada ao sentir o livro em minhas mãos. É uma capa dura revestida com um pano no qual a capa foi impressa! Os livros são costurados a mão, montados um a um e os exemplares, numerados. O meu é o 204.

Artesanato tem algo de especial que é difícil de definir. Cada produto é único, embora sejam produzidos vários exemplares, pois carrega um pouco da essência de quem o produziu. Se o produto livro já é algo especial, imagina uma tiragem em que todos os livros, além do processo coletivo e trabalhoso que envolve uma publicação, têm a mão de uma pessoa que não pode ser outra coisa, senão um apaixonado por literatura?

 

Copa do mundo? Neste dia só tive olhos para o meu “A Leitora Incomum”!

 

Sobre os ensaios, são cinco os presentes nesta edição: Horas na biblioteca, A anatomia da ficção, A vida e o romancista, Uma mente implacavelmente sensível e Fases da ficção. Cada um deles mostra a faceta leitora e crítica literária de Virginia Woolf, mas da forma apaixonada de quem teve a literatura como mais que uma profissão, um compromisso. Destaque para Fases da ficção, que aumentou consideravelmente a minha lista de leitura de romances clássicos e Uma mente implacavelmente sensível, que fala sobre Katherine Mansfield, outra escritora maravilhosa, a qual vale muito a pena conhecer e ler.

“Os contistas mais notáveis da Inglaterra estão de acordo, diz o Sr. Murry, que como escritora, Katherine Mansfield era ‘hours concours’. Ninguém a sucedeu e nenhum crítico esteve apto a definir suas qualidades. Mas o leitor de seu diário está bastante satisfeito em deixar tais questões de lado. Não é a qualidade de sua escrita ou o grau de sua fama que nos interessa no diário, mas o espetáculo de uma mente — uma mente implacavelmente sensível — recebendo, uma atrás da outra, impressões aleatórias de oito anos de vida.” (p. 39)

 

A Arte e Letra é uma editora, que também é cafeteria e livraria, não necessariamente nesta ordem. Mesmo sem conhecer diretamente, mas como apaixonada por livros e literatura, só posso agradecer por um lugar como esse existir no nosso país. E por produzirem livros tão maravilhosos, que podem ser enviados pelos correios para quem não está em Curitiba para comprar na livraria, tomando um cafezinho.

 

Conheça a Arte e Letra: https://www.arteeletra.com.br/

 

 

Título: A leitora incomum

Autora: Virginia Woolf

Tradução: Emanuela Siqueira

Editora: Arte e Letra

Páginas: 136

 

 

Compre no site da editora: A leitora incomum.

Ou, se preferir, na Amazon: A leitora incomum.

janeiro 05, 2018

[ETC.] JASBRA PUBLICA SEGUNDA EDIÇÃO DA REVISTA LITERAUSTEN

Uma ótima notícia para os fãs de Jane Austen: a JASBRA, Jane Austen Sociedade do Brasil, publicou a segunda edição da Revista LiterAusten! Veja a proposta da revista abaixo:

A Revista LiterAusten(ISSN 2526-9739) é uma publicação da Jane Austen Sociedade do Brasil (JASBRA). É publicada semestralmente e tem objetivo divulgar os artigos dos Encontros Nacionais da JASBRA e publicações de pesquisadores nacionais e internacionais a respeito da escritora inglesa Jane Austen. A LiterAusten é um periódico de acesso aberto, com publicação em língua portuguesa e aceita artigos em outras línguas, sendo exclusivamente online.

Esta revista oferece acesso livre imediato ao seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento. (Fonte: JASBRA)

 

A segunda edição da LiterAusten conta com os seguintes artigos:

  • Amor e mito (Lúcia Helena Galvão Maya)
  • Jane Austen circulando no Brasil no século XIX (Adriana dos Santos Sales)
  • Quem ri por último, ri melhor: a paródia póstuma de Jane Austen (Kathia Brienza Badini Marulli)
  • O poder do casting (Moira Biachi, Schirlei Rickli, Luciana Araújo)
  • Estética da recepção em sala de aula: Jane Austen, filme e obras em análise (Rosiane Maria Gusberti Franke)

 

 

Baixe gratuitamente a segunda edição clicando aqui. Para baixar a primeira edição, clique aqui. Saiba mais sobre a LiterAusten no site da Jane Austen Sociedade do Brasil.

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