dezembro 11, 2018

[RESENHA] NADA, DE CARMEN LAFORET

Sinopse: “Nada é um romance inesquecível. Escrito em 1944, quando a autora tinha apenas vinte e três anos, e vencedor da primeira edição do prêmio Nadal, é considerado uma das obras espanholas mais importantes do século XX. Sefundo Mario Vargas Llosa, é um romance composto com maestria, e, para o New York Times, ainda hoje ‘o charme peculiar do livro continua inalterado’.

A história é narrada por Andrea, uma jovem órfã que se muda para a casa da avó, em Barcelona, para cursar Letras na universidade local. Mas o cenário que encontra, logo depois da Guerra Civil Espanhola, é desolador. Os familiares, empobrecidos, amontoam-se em um casarão decadente, onde discutem ferozmente pelos motivos mais mesquinhos. E a vida universitária esconde segredos e falsas amizades. Em Nada, esses dois mundos convergem em um diálogo dramático, num texto que renovou a literatura espanhola pós-guerra.”

 

Nada, de Carmen Laforet, é um livro que fica ecoando na mente da gente por vários dias depois que fechamos a última página. Foi uma leitura tão peculiar, que no final eu não consegui saber com certeza se o livro era bom o ruim. Apenas que a temporada na Rua Aribau me marcaria para a vida inteira.

Andrea é uma jovem e humilde órfã que está de mudança para Barcelona para estudar Letras, por volta dos anos de 1940 (pós Guerra Civil Espanhola). Seria o começo de uma nova vida, na casa de sua avó, lugar de onde ela guarda boas lembranças. Todas as expectativas sobre seu novo lar, no entanto, são quebradas quando ela chega ao casarão situado na Rua Aribau: sua família está longe de ser composta por pessoas normais, o lugar é sujo e sombrio e de imediato ela percebe que não terá uma vida fácil naquele lugar. A única pessoa mais amigável da casa é a sua avó, mas Andrea não consegue estabelecer uma relação muito próxima a ela.

O romance é dividido em três partes. Na primeira, o foco é a relação de Andrea com sua tia Angústias, uma beata solteirona disposta a cuidar da sobrinha com rédeas curtas no que tange a moral e os bons costumes. Já na segunda, temos a amizade de Andrea e Ena, uma amiga de família abastada da faculdade, como plano principal. E na terceira parte, temos uma Andrea quase sendo parte das loucuras da casa da Rua Aribau, tendo completado um ano morando naquele lugar.

 

Livro “Nada”, de Carmen Laforet, Revista TAG Curadoria Novembro-2018 e Coletânea de Poesias “Rua Aribau”, organizada por Alice Sant’Ana.

 

Andrea é uma personagem muito real. Não é boa, mas também não consigo vê-la como uma pessoa ruim. Ela é como um passarinho que mesmo depois de ter a porta de sua gaiola aberta, não tem recursos suficientes para alçar voo. Em meio à loucura de seus tios e a senilidade de sua avó, ela é firme na certeza de não fazer parte daquilo, de ser lúcida e maior que aquelas pessoas que, na verdade, são apenas um reflexo em alta resolução dela própria.

A pobreza e a fome são personagens importantes neste romance, de uma forma bastante tangível, especialmente na família de Andrea. A protagonista, que recebe uma modesta pensão, decide não ajudar nas despesas da casa — portanto fica impedida de fazer suas refeições nela — mas gasta todo o dinheiro em três dias, comendo em lugares caros e, eventualmente, presenteando com flores a mãe de sua amiga Ena. Nos outros dias, Andrea sofre com uma fome angustiante, aliviada pelas refeições feitas em visitas à Ena, e pelos restos deixados por sua avó.

“Ela me fez sentir tudo o que eu não era: rica e feliz. E nunca me esqueci disso.” (p. 71)

 

“O fato é que eu me sentia mais feliz desde que me desvencilhara daquele nó das refeições familiares. Pouco importava que naquele mês eu tivesse gastado demais e o orçamento de uma peseta diária mal desse para comer: no inverno, o meio-dia é a hora mais bonita. A melhor hora para tomar sol num parque ou na praça de Catalunha. Às vezes pensava, com prazer, no que estaria acontecendo em casa. Meus ouvidos se enchiam dos gritos do papagaio e dos palavrões de Juan. Preferia flanar livremente.” (ps. 121 e 122)

 

 

Nada foi lançado em 1944 e logo recebeu o prêmio Nadal. É uma das obras mais traduzidas em língua espanhola e ganhou uma edição especial para a TAG Curadoria, sob indicação da escritora Alice Sant’Ana. A autora tinha apenas 23 anos quando concluiu esse livro, mas não teve uma produção literária muito grande apesar do estrondoso sucesso de seu romance de estreia. Carmen Laforet, pelo que consta na Revista TAG Curadoria (Novembro, 2018), vinha de um ambiente familiar tóxico e era de uma constituição psicológica frágil. Somado a isso, era extremamente insegura e autocrítica, características reforçada e alimentada por seus familiares.

“Ao vencer a primeira edição do Prêmio Nadal com ‘Nada’, Laforet ganhou a atenção do país inteiro. O sucesso, no entanto, teve um custo muito alto: sua família paterna reconheceu-se nos personagens do livro e não perdoou a exposição de suas intimidades. Seu marido, o jornalista e crítico literário Manuel Cerezales, com quem se casou em 1946, também se manteve vigilante à produção da escritora, provocando um bloqueio criativo e uma crescente insegurança e autocensura.” (Revista TAG Curadoria — Novembro, 2018 — p. 15)

 

Nada é um romance limpo, cru e ao mesmo tempo de muita sensibilidade. Depois de conhecer um pouco sobre a autora, fiquei ainda mais apegada a este livro, como se eu também tivesse uma casa da Rua Aribau a qual guardo lembranças que talvez nunca tenham existido. Aquelas pessoas, empobrecidas e enlouquecidas pela Guerra Civil guardam muito de nós mesmos, das nossas angústias, decepções e amarguras. Foi uma leitura inesquecível e o mimo do mês de novembro é o que eu mais gosto de ganhar na TAG: um segundo livro, porque livro nunca é demais! Alice Sant’Ana organizou uma coletânea de poesias chamada Rua Aribau, composta por quinze poemas e ilustrações de escritoras e artistas contemporâneas. Os versos falam sobre adaptação, viagem, decadência, solidão e inadequação. Porque a Rua Aribau também é aqui. Em qualquer lugar.

 

 

 

Título: Nada

Autora: Carmen Laforet

Tradução: Rubia Prates Goldoni

Prefácio: Mario Vargas Llosa

Editora: TAG em parceria com Alfaguara

Páginas: 280

 

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outubro 26, 2018

[RESENHA] LAZARILLO DE TORMES E O ROMANCE PICARESCO

 

Sinopse: “Narrativa anônima do século XVI, Lazarillo de Tormes é um marco no panorama da literatura universal, sendo considerado o fundador do romance picaresco. Divertida e por vezes comovente, a história do garoto Lázaro e de sua luta pela sobrevivência possui também um alto teor de crítica social, o que faria com que o livro fosse proibido pela Inquisição.”

 

Lazarillo de Tormes é uma narrativa curta, clássico da literatura espanhola e mundial, que inaugurou o tipo de romance chamado de picaresco. De autoria desconhecida, tendo suas edições mais antigas datadas de 1554, a história de Lázaro é uma narrativa de leitura rápida e bem humorada.

O romance é estruturado em tratados — precedidos de um prólogo, — onde o próprio Lazarillo conta suas desventuras. Nascido no rio Tormes, motivo que, segundo ele, explica o seu sobrenome, ainda bem jovem perde o pai, precisa deixar a mãe e, de início, cai nas mãos de um cego, assumindo o ofício de ser os seus olhos. Em pouco tempo, o trabalho que parecia ser nobre torna-se bastante penoso: Lázaro passa fome e sofre maus tratos diversos com esse seu primeiro amo. A partir daí o personagem desenvolve a capacidade de se virar, de tirar proveito das situações mais extremas. O que pode parecer malandragem — e é, obviamente — também pode ser interpretado como pura questão de sobrevivência, com pitadas de vingança, em alguns casos.

Larazillo de Tormes foi uma leitura que eu não teria feito (pelo menos não neste ano de 2018) se eu não tivesse cursado a disciplina de Matrizes de Cultura e Literaturas Hispânicas, nesse semestre do curso de Letras (2018-2 UFF/CEDERJ). A leitura surgiu como uma proposta diferenciada de avaliação presencial: a coordenação da disciplina divulgou a questão única da prova, que seria a leitura de Lazarillo de Tormes (ou de A Celestina) e pediu para que fizéssemos uma comparação com outro produto cultural de livre escolha. No dia marcado para a prova presencial nós teríamos de dissertar sobre a nossa leitura e pesquisa, mas sem consulta.

A proposta, que a primeira vista me assustou, foi muito positiva. A leitura de Larazillo de Tormes foi muito agradável — por isso estou recomendando o livro aqui — e ter de pesquisar sobre o tema e pensar sobre algo semelhante tornou o estudo menos maçante e a aprendizagem mais efetiva. Foi uma prova de exposição de conhecimento, não de decoreba.

Lazarillo de Tormes, como já dito, inaugurou o romance picaresco, que é definido como uma pseudo-autobiografia de um anti-herói, em que ele narra suas aventuras, que por sua vez, são a síntese crítica de um processo de ascensão social pela trapaça. O romance picaresco é uma sátira da sociedade do pícaro, o protagonista.

Vários personagens da literatura e do cinema se enquadram nas características do pícaro. Em minha breve pesquisa, percebi semelhanças em Leléu, personagem de Lisbela e o Prisioneiro, filme de Guel Arraes (2003). Assim como Lazarilho, Leléu percorre cidades fazendo o possível (leia-se usando de artimanhas) para garantir o seu sustento, com a diferença de que, no caso do brasileiro, suas malandragens também incluem conquistas amorosas. Lisbela e o Prisioneiro funciona muito bem como crítica de uma sociedade baseada em classes, além de outros temas que a adaptação trata de forma perfeita: metalinguagem, resposta ao ideal cavalheiresco — que também é uma característica do romance picaresco — dentre outros.

 

Leléu, do filme “Lisbela e o Prisioneiro” (2003), interpretado por Selton Mello.

 

Comparações e pesquisas à parte, sugiro que você inclua em sua lista a leitura de Lazarillo de Tormes. O livro é um tesouro facilmente encontrado em livrarias e pela internet. Dificilmente você vai fechar o livro sem ter dado uma risada ou sem se surpreender com situações e pessoas que são facilmente identificáveis ainda nos dias atuais.

 

“Quantos devem existir no mundo que fogem dos outros porque não se veem a si mesmos!”

 

“Mas, segundo me parece, esta é uma regra já usada e observada entre eles. Embora não tenham um vintém, fazem questão do barrete no seu lugar. Que o Senhor os ajude, já que com esta doença morrerão.”

 

“Apesar de rapaz ainda, achei tudo uma graça e disse para mim mesmo: ‘quantas destas devem fazer estes enganadores às pessoas inocentes!’”

 

 

 

Título: Lazarillo de Tormes

Autor: Anônimo

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