outubro 18, 2017

[LETRAS] Só dez por cento é mentira: a verdade na poesia de Manoel de Barros

O poeta Manoel de Barros

 

Manoel de Barros (1916-2014) foi e sempre será um poeta da verdade. Da verdade da vida que teimamos em esquecer. Ele enchergava e respirava poesia em todo o lugar, em todo o momento, e talvez por isso sempre dissesse que só teve infância. A poesia não floresce em corações amargos e amargurados de jovens e adultos sempre tão ocupados.

O premiado documentário Só dez por cento é mentira (2008) mostra as várias infâncias do poeta, inclusive daquela que ele vivia no momento, a terceira infância, com pouco mais de setenta anos, até mais de oitenta. Nele, vemos alguns poemas de Barros entremeados com entrevistas de alguns leitores profundamente tocados e modificados pela poesia quase pueril do autor, além de depoimentos do próprio. A esposa de Barros diz, em entrevista, e é completamente compreensível, que mesmo àquela altura da vida, ela sentia muito ciúme do marido. Ela sabia, assim como sabem os leitores do poeta das verdades, que ele era um homem profundamente inteligente. Um tesouro que habitou a terra. Afinal, só as pessoas inteligentes conseguem ver as preciosidades da vida sem se contaminarem pelos dissabores da sociedade.

O poema  Sou um sujeito de recantos / Os desvãos me constam / Tem hora leio avencas / Tem hora, Proust / Ouço aves e beetovens / Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin / O dia vai morrer aberto em mim., relaciona-se com a vida de Manuel de Barros em resumo, conforme mostrado no belo documentário. Se é verdade que todo poema é autobiográfico, este não poderia ser menos o retrato de seu autor. Ele foi um sujeito que conseguia ler avencas e também um autor de peso, como Proust. Ouvia aves e a música clássica das abelhas. Estava aberto a tudo que era belo no universo. Só dez por cento do que escrevia era mentira. Os outros noventa, dizia ser invenção. Mas sua obra é cem por cento verdadeira, no que concerne a vida e o ser realmente humano.

 

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Esse texto foi escrito para a Avaliação a Distância (AD2) da disciplina Literatura Brasileira IV, do curso de Letras da UFF/CEDERJ. Gostei tanto do poeta que já li um de seus livros, Meu quintal é maior do que o mundoe recomendo muitíssimo  que vocês assistam o documentário abaixo. É impossível não se apaixonar pelo autor. Sua poesia e a maneira como ele enxergava a vida são contagiantes!

 

 

outubro 11, 2017

[RESENHA] ED MORT, DE LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

Sinopse: “Um dos personagens mais populares de Luis Fernando Verissimo, o detetive Ed Mort apareceu pela primeira vez em 1979, no conto “A armadilha”, para nunca mais sair de cena. De língua afiada, coração mole e sempre sem um tostão no bolso, saiu das páginas dos livros, virou filme e, mais recentemente, minissérie para a televisão no canal Multishow, com Fernando Caruso no papel do detetive trapalhão.”

 

Mort. Ed Mort. Detetive Particular criado por Luis Fernando Veríssimo. Suas histórias são curtas, mas deliciosamente envolventes e bem humoradas. É uma caricatura de outros detetives, sobretudo Philip Marlowe, de Raymond Chandler. Seu escri (o tório foi sublocado) tem a presença constante de baratas e de um rato albino, o Voltaire. O nome, é porque ele some, mas sempre volta. Tem tudo o que Agnaldo Timóteo já gravou. Suas frases são curtas como o cano do seu .38, cujo talão do penhor ele carrega no coldre para qualquer eventualidade. Fez o curso de detetive por correspondência, mas há relatos (do próprio Ed) de que o carteiro foi subornado. Ainda assim, nunca entregou a aula sobre como ganhar dinheiro nesta profissão. Mort. Ed. Mort. Detetive Particular. Tá na capa do livro. Leia, eu recomendo.

 

“— Qual foi o motivo do crime?

— Não sabemos.

— Vocês não sabem nada. Eu resolveria esse caso em três minutos. Dois, se tivesse verba do Estado. Encontraria o assassino e o motivo do crime.

— Você não encontraria o próprio nariz com as duas mãos.

Levei a mão ao nariz e o segurei com força.

— Olhe. E com uma mão.

Ninguém me ganha em diálogo inteligente.”

 

Trecho de Ed Mort, de Luis Fernando Veríssimo.

 

 

Abaixo, um trecho da adaptação mais recente, a minissérie do canal Multishow, tendo Fernando Caruso no papel de Ed Mort.

 

Essa resenha pode ter ficado um pouco estranha, mas eu desafio você, leitor, a ler esse livro e não falar usando a mesma estrutura narrativa de Luis Fernando Veríssimo e seu hilário detetive particular, que é uma caricatura não só de detetives ilustres da ficção, mas de um Brasil não muito distante de nós. É uma leitura rápida, leve e divertida. O livro reúne todas as histórias do personagem em contos bem curtinhos. Uma ótima pedida para o feriado ou qualquer dia em que a palavra de ordem seja relaxar.

 

 

 

Título: Ed Mort
Autor: Luis Fernando Veríssimo
Editora: Objetiva
Páginas: 80

 

Compre na Amazon: Ed Mort.

setembro 22, 2017

[RESENHA] BRANCA DE CARVÃO, DE KATHERINE SALLES

Sinopse: “Branca é herdeira da fábrica que exporta carvão para todo o país desde a Revolução Industrial. Porém, sua madrasta tem planos para o futuro da menina. Em um ato de rebeldia, ela foge da mansão onde era prisioneira, e encontra em seu caminho uma tenda onde moram sete pequenos escravos. Ao ir se banhar em uma noite quente, avista um belo jovem se deleitando nas águas do Rio da Inconfidência, iluminado pela lua cheia. Branca mal sabe que ele é o contratado de Lady Mag, sua madrasta, para matá-la.” 

 

Branca de Carvão é uma releitura de Katherine Salles do conto de fadas Branca de Neve, publicada em e-book na Amazon de forma independente. Trata-se de uma história curta e envolvente, além de nada óbvia: a Branca aqui é negra e vive no Brasil colonial de 1898.

A jovem Branca é herdeira de uma fábrica de carvão, mas vive sob os maus tratos da madrasta, que deseja vê-la morta. Paralela à história de Branca, conhecemos também a história de sua mãe, Dinah, que casou-se em um ato impulsivo — e apaixonado — com um homem branco e rico. As diferenças sociais entre Dinah e seu noivo João Guimarães acabaram minando o amor que outrora havia entre os dois, tendo em vista, ainda, o contexto da época: um Brasil que havia abolido de vez a escravatura há pouco tempo.

Apesar de ser uma releitura de Branca de Neve, a história de Katherine Salles surpreende por ser bem realista em seu contexto histórico. Os anões, aqui, são crianças negras vivendo em regime análogo a escravidão, como funcionários da carvoaria. E o caçador pode não ser bem o tipo de pessoa que a madrasta pensa, para o bem de Branca e nosso deleite.

A autora tem organizado antologias de sucesso, como Querida Jane Austen, uma homenagem e Forte como uma garota. Além disso, é sucesso no Wattpad e têm outros dois livros publicados em e-book na Amazon até o momento. Veja as sinopses abaixo:

O Contorno Azul Índigo

“Meu nome é Leandra G. Sou uma Cidadã do novo mundo.
Foi no dia do cadastro que vi Samuel pela primeira vez. Não pude deixar de observar a tatuagem de círculo azul em seu braço. Eu ainda não sabia que aquele seria nosso símbolo: o contorno azul índigo. Mas não foi só através do teclado do amor que foi escrita nossa história. Apesar disso, ela merece ser contada.”
Assim começa a narrativa de Lea, uma garota que doa armas em forma de palavras. Após a Grande Crise financeira causada pela construção do Muro do presidente Ronald Dumb que separou nações e a venda da Amazônia, o mundo foi tomado por uma seita chamada República Nova, que prega o narcisismo, seduzindo jovens a seguir o seu estilo de vida. Ela então começa a escrever um livro para tirar o véu da ilusão dos olhos das pessoas e transforma isso em sua missão de vida. Para sua surpresa, a história a torna uma celebridade virtual e uma pedra no sapato da República Nova. Em uma data importante para a seita, ela encontra Samuel, um misterioso integrante de uma banda de rock que sonha se tornar um médico sem fronteiras.”

Compre na Amazon (gratuito para assinantes Kindle Unlimited): O Contorno Azul Índigo.

 

TOCados: Uma história de amor entre o iceberg e o Titanic

“É em meio a surtos, Post-its e consultas na psicóloga, que Kate e Benjamin se conhecem. Ela é o caos, ele, a ordem.
Kate tem um momento de surto,  ela larga o emprego e faculdade. Sua chefe, com pena dela, deixa algumas consultas pagas na doutora Frida. Depois de um pouco de relutância, ela se rende e decide ir até o consultório. Lá ela conhece Benjamin.
Benjamin é um ruivinho cheio de manias. Ele é portador de TOC – transtorno obsessivo compulsivo e se consulta com a doutora Frida há cinco anos. É lá que ele conhece sua maior mania, Kate.
Ben, fica em choque quando vê aquela garota diferente na sala de espera. E então acontece algo pelo que ele luta há anos: Sua mente para.
Porém ele chega na vida de Kate no momento em que mais odeia, o caos. O irmão dela está desaparecido e sua família aos pedaços, mas Benjamin não desiste fácil. Porém há um pequeno detalhe nisso tudo: Kate também é portadora de TOC, mas o dela é diferente do dele, ela é uma acumuladora de marca maior.
É no meio desse caos que ele lutará para que ela sinta o mesmo que ele sentiu ao vê-la.”

Compre na Amazon (gratuito para assinantes Kindle Unlimited): TOCados.

 

 

 

Título: Branca de Carvão
Autora: Katherine Salles
Editora: Publicação Independente / Amazon
Páginas: 94

 

Compre na Amazon (gratuito para assinantes Kindle Unlimited): Branca de Carvão.

 

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