Fevereiro 27, 2018

[LETRAS] AS LÍNGUAS DOS HOMENS

 

Há quem pense que só existe uma única língua portuguesa. Bela, perfeita e… quase inatingível.  Esta é norma culta, ou variante padrão de prestígio: a língua escrita, que usamos para entender e sermos entendidos, portanto, segue uma série de normas de padronização.

Existe outra língua, a da comunicação rápida, instantânea, adornada pelos regionalismos e pelas vivências (ou falta delas) de seus usuários. Esta é a língua falada, que, mesmo que alguns teimem em dizer que não, é tão linda quanto aquela que sai da ponta do lápis.

Uma não pode viver sem a outra, isso é fato. A língua falada ajuda a escrita a continuar viva. E a escrita permite que um maior número de pessoas possível consiga entender a língua falada. Assim são as línguas dos homens: interligadas, seguem interligando.

 

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Esse pequeno texto foi uma proposta de atividade realizada para a disciplina de Português VIII (Sociolinguística), do curso de Licenciatura em Letras da UFF/CEDERJ. Saiba mais sobre Sociolinguística no blog da Parábola Editorial.

Janeiro 31, 2018

[LETRAS] PRECONCEITO LINGUÍSTICO, LIVRO DE MARCOS BAGNO, COMPLETA 19 ANOS

Pouco depois da minha aprovação no vestibular para o curso de Letras da UFF/CEDERJ, meu marido, que é formado também em Letras, me presenteou com uma edição de Preconceito Linguístico, de Marcos Bagno. Achei o livro interessante e a recomendação que recebi junto ao presente foi expressa: ninguém pode cursar Letras sem ler esse livro.

É impossível não se reconhecer, tanto como vítima quanto como algoz, nas páginas de Preconceito Linguístico. O livro desnuda essa face preconceituosa que o brasileiro tem e que é encoberta pela fama que temos de povo bonzinho, gente boa. Há quem reduza a obra de Marcos Bagno há mero esquerdismo, tentando desqualificar o trabalho dele que é um dos maiores linguistas do nosso país. Não vou sequer pôr em discussão o caráter de quem desqualifica uma obra ou, como no caso do autor, várias obras, sem ao menos conhecer o trabalho e, ainda, usando os termos esquerdista, petralha, mortadela etc. Não vale a pena.

Neste mês, o livro completa 19 anos desde a sua primeira publicação. E a reflexão do autor sobre o aniversário de um dos seus livros mais famosos é a que estamos longe de abandonar esse caráter preconceituoso, especialmente no que tange à língua falada. Veja o comentário de Bagno sobre o aniversário do livro, publicado em seu perfil no facebook:

“Em 1999, por instigação amorosa de Marcos Marcionilo, publiquei “Preconceito linguístico”. Em 2015 o livro mudou de editora, se transferiu para a Parábola, sempre pelas mãos generosas e competentes do mesmo Marcionilo. O livro completa, agora em janeiro, 19 anos. Desde sua primeira aparição, já foi reimpresso mais de 50 vezes e o número de exemplares vendidos supera os 300 mil. Isso poderia ser motivo de alegria, e é, mas também provoca uma inevitável reflexão sobre a realidade social monstruosa que é a do Brasil, essa imensa Bastilha continental que há séculos resiste a ser derrubada. Passados 19 anos, o preconceito linguístico continua a ser o que sempre tem sido: mais um dos diversos elementos que constituem um amplo e largo preconceito social, dirigido a todas e a todos que não fazem parte da ínfima camada dominante, essencialmente branca e masculina, e de seus micos amestrados, uma classe média que, por ser reduzida, acredita fazer parte da oligarquia, sem se dar conta de que é manipulada por ela das formas mais vis e repugnantes. Mulheres, pessoas não-brancas, homossexuais, transgêneros, indígenas, camponesas e camponeses, pobres e miseráveis, toda essa gigantesca legião de gente perseguida e humilhada, vítimas de assassinato sistemático e ininterrupto, como se não bastasse toda essa injustiça social, ainda tem que suportar o escárnio dirigido às suas línguas e aos seus modos de falar. Eu sinceramente gostaria muito que esse meu livro fosse tido como datado, que as coisas que nele vêm denunciadas descrevessem um momento histórico já distante, mas não é assim. Diante da tragédia social, política e ética que estamos vivendo, a discriminação pela linguagem continua firme e forte em sua função de aprofundar o abismo das exclusões que é constitutivo desse país triste e infeliz. Pouco a comemorar, portanto, nesse aniversário.”

 

A nova edição de Preconceito Linguístico, publicada pela Editora Parábola em 2015, é praticamente um novo livro. O texto foi radicalmente revisto, ampliado e atualizado, conforme informa o autor logo nas primeiras páginas. Além da luta por um ensino mais democrático da língua materna, Marcos Bagno abriu espaço também para questões atuais, como a nova classe média, o polêmico presidenta, O Exame Nacional do Ensino Médio, dentre outros. Além disso, alguns pontos da edição anterior, tratados superficialmente, foram melhor explicados.

Existe um mito de que a Sociolinguística quer fazer todo mundo falar errado. O conservadorismo aliado à falta de informação produz e espalha esse tipo de falácia. Recomendo que você que ainda não conhece o que é de fato a sociolinguística, passe a pesquisar mais sobre o assunto. Preconceito Linguístico é um ótimo começo.

 

“O preconceito, seja ele de que natureza for, é uma crença pessoal, uma postura individual diante do outro. Qualquer pessoa pode achar que um modo de falar é mais bonito, mais feio, mais elegante, mais rude do que outro. No entanto, quando essa postura se transforma em atitude, ela se torna discriminação e esta tem de ser alvo de denúncia e de combate. No caso da língua, é imprescindível que toda cidadã e todo cidadão que frequenta a escola (pública ou privada) receba uma educação linguística crítica e bem informada, na qual se mostre que todos os seres humanos são dotados das mesmíssimas capacidades cognitivas e que todas as línguas e variedades linguísticas são instrumentos perfeitos para dar conta de expressar e construir a experiência humana neste mundo.” (Preconceito Linguístico, Editora Parábola, 2015)

 

SOBRE O AUTOR: Marcos Bagno é professor da Universidade de Brasília. Pesquisa e atua em políticas linguísticas, na descrição do português brasileiro e em seu ensino, tanto no Brasil quanto no exterior. Publicou, entre outras obras, Gramática pedagógica do português brasileiro (Parábola Editorial, 2012). É o tradutor de alguns dos textos fundadores da sociolinguística: Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística, de U. Weinreich, W. Labov e M. Herzog (Parábola, 2006), e Padrões sociolinguísticos, de W. Labov (Parábola, 2008).

 

 

Título: Preconceito Linguístico
Autor: Marcos Bagno
Editora: Parábola
Páginas: 352

 

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Janeiro 22, 2018

[LETRAS] EU, ESTAGIÁRIA (PARTE I)

Colégio Estadual Rotary. Itaperuna-RJ

 

No semestre passado (2017-2) eu resolvi — e a matriz curricular apontava que já estava mais do que na hora de — começar o Estágio Supervisionado do meu curso de Letras. O CEDERJ, a instituição que promove a logística (grosso modo) dos cursos de graduação a distância das Universidades públicas do estado do Rio de Janeiro, oferece quatro disciplinas obrigatórias para as licenciaturas, sob a supervisão da UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense) na maioria dos polos regionais (o meu é o de Itaperuna-RJ). Sendo assim, mesmo eu sendo aluna da UFF (Universidade Federal Fluminense), meus estágios serão regidos e avaliados pela UENF. Parece complicado, não? E é um pouco, pois o sistema é todo altamente burocrático.

Confesso que, no início do semestre, fiquei muito (muito mesmo!) confusa. O ambiente do Estágio Supervisionado I na Plataforma CEDERJ tinha tanto documento, tanta informação e tanta desinformação também… Situação normal de todo início de aprendizagem, mas para quem é aluno, o desespero toma conta! Foi só a partir das tutorias presenciais que foi possível entender um pouco melhor a proposta dessa etapa do estágio e também como visualizar as informações da Plataforma voltadas para o meu curso e Universidade. Embora as atividades sejam basicamente as mesmas, algumas Universidades têm particularidades que outras não têm. E alguns modelos de atividades precisam ter o logotipo ou o nome da universidade que o aluno está cursando.

 

A Plataforma CEDERJ.

 

Bem no comecinho assinamos, junto ao diretor da escola parceira (a que escolhemos fazer o estágio) e também da coordenadora do curso da nossa Universidade, um Termo de compromisso de estágio. Esse termo é um contrato que estabelece quais serão as atividades, carga horárias e outras informações relevantes para o estágio. O termo assinado e algumas outras documentações passam, ainda, pela Secretaria de Estado de Educação, a chamada Regional de Ensino, para que o estágio seja liberado. Afinal, o aluno da Universidade Pública investigará (obrigatoriamente) a rede pública de ensino, para que os conhecimentos gerados por ele possam ajudar a sociedade de uma forma geral. Desenvolver nossos trabalhos nas escolas públicas é uma forma de conhecer e também devolver uma parte dos recursos gastos conosco na graduação.

 

Minha carteira de estagiária, com uma foto super atual minha, #SQN

 

Com os documentos liberados pela Regional e de posse da carta de apresentação assinada pela diretora do Polo Regional UAB, no meu caso o polo CEDERJ Itaperuna, as atividades podem ser desenvolvidas diretamente na escola, conforme manda a lei.

Escolhi estagiar no Colégio Estadual Rotary, escola em que me formei (2006) e estudei muitos anos. Fiquei ligeiramente emocionada em voltar para o lugar onde fiz tantos amigos e que foi fundamental para o meu desenvolvimento como pessoa. A diretora ainda é a mesma dos meus tempos de aluna e muitos dos meus antigos professores ainda lecionam no colégio. Tirei algumas fotos, que compuseram o meu relatório final e que estão distribuídas ao longo desta postagem, como vocês podem ver. O Rotary é uma escola de bairro, de porte médio e muito aconchegante. Para uma escola estadual, do estado falido mal gerido do Rio de Janeiro, ela é muito bem cuidada e conservada. A escola passou por uma grande restauração na década de oitenta e em 2008 foram feitas outras melhorias, conforme pode ser visto abaixo.

 

 

De agosto a novembro, período em que o meu Estágio Supervisionado I foi realizado, muito material foi produzido. Meu Relatório Final de Estágio, em sua versão final final mesmo pelo amor de Jesus, ficou com cinquenta e duas páginas! Há boatos que o meu nem foi o maior de todos os relatórios, e que nos semestres seguintes outros relatórios maiores ou mais complexos virão. Mas a jornada valeu muito a pena e, eu sei, está apenas começando. O Estágio, que a grande maioria — incluindo eu — achava ser apenas uma enrolação burocrática para fazer gastar papel e gasolina, contribui e muito para que o aluno tenha certeza de sua profissão futura. Muitas pessoas dizem que a prática docente não tem nada dessa quantidade de papel absurda dos estágios e eu acredito nisso. Mas, se o processo fosse fácil, qual seria a qualidade dos professores em sala de aula? Se não desenvolvermos a capacidade de investigação e pensamento crítico durante o curso, quando isso será possível? Os alunos, especialmente os da rede pública, merecem o melhor, tendo em vista as limitações sociais que têm. Sem contar que, nós alunos, que temos o privilégio de cursar uma Universidade Federal sem nos deslocarmos diariamente e nem sair das nossas cidades no interior, precisamos sim, provar que somos aptos e capazes assim como nossos colegas da modalidade presencial. A burocracia irrita e eu me estressei bastante nesse semestre, assim como nos anteriores, e como eu sei que vou me estressar até o final. Mas, sem a danada da burocracia, como seria possível? Com ela ainda temos tanta corrupção…

 

Sala de leitura do C. E. Rotary.

 

No semestre passado fizemos duas resenhas, destaque para o texto sobre o livro A Alegria de Ensinar, que eu postei aqui no blog, pois foi uma leitura muito prazerosa. Também fizemos um clipping educacional, como uma espécie de termômetro das notícias atuais sobre a educação no Brasil; uma entrevista com um professor que esteja atuando no momento, que eu fiz via internet com a professora Julia Cecilia Neri de Assis (obrigada de novo!) e algumas atividades de observação do ambiente escolar e sobre os profissionais da escola, com o intuito de nos mostrar um panorama do que é uma organização educacional, tendo agora o olhar de futuros professores. Todas as atividades foram carimbadas, assinadas, rubricadas etc. até formarem as tais cinquenta e duas (!) páginas do Relatório Final de Estágio. Ao longo do semestre postamos essas atividades de forma individual na Plataforma, para a verificação da tutora a distância e da coordenadora de estágio.

Eu pensei que ao final do semestre eu só teria do que reclamar, mas é muito gratificante perceber que agora tenho um outro olhar sobre o Estágio Supervisionado. O processo não é perfeito, talvez ainda esteja um pouco longe do ideal. Mas é o melhor possível e nos proporciona uma bagagem incrível. No mais, deu tudo certo, fui aprovada com uma ótima nota e já estou preparada para a parte dois, que a propósito, começa já no final deste mês. Até lá!

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