dezembro 17, 2018

[DIÁRIO] FOLHAS DE UMA VELHA CARTEIRA: O LIVRO DAS DONAS E DONZELAS, DE JÚLIA LOPES DE ALMEIDA

 

Não se deixe enganar pelo título: Livro das donas e donzelas (1906), de Júlia Lopes de Almeida, é um apanhado de textos da autora que falam de temas variados, alguns deles ligados ao feminismo. Estou cada vez mais apaixonada pela inteligência e intelectualidade da autora, que foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras, no entanto preterida a ocupar uma das cadeiras simplesmente por ser mulher. Compartilho abaixo um dos textos que mais gostei do Livro das donas e donzelas. O melhor de tudo: você pode ler o livro na íntegra clicando aqui ou baixando o e-book (também gratuito) na Amazon. 

 

“Vi em uma revista francesa o retrato de uma velhinha que aprendeu a ler depois dos setenta anos. Olhando-lhe para a cabecinha e para o rostinho todo sulcado de rugas, tive vontade de beijá-la.

A história dela: Todas as manhãs costurava a septuagenária junto à janela da sua choupana, à sombra de um castanheiro que lhe dava perfumes na primavera, sombras no verão, frutos no outono e ouriços para o foguinho do inverno.

Que mais seria preciso para a vida? O alfabeto não foi feito por Deus; e para amá-lo e servi-lo bastaria adorar a natureza. Entretanto eis que depois de longos anos lhe cortam a frente da casa por um caminho novo, atalho para a vila, por onde o rapazio de uma aldeia próxima passava para a escola.

A doce velhinha, ouvindo todos os dias a tagarelice das crianças levantou os olhos da costura e voltou-os para o horizonte infinito.

Saber ler seria tão útil, que os pobres pais, cavadores sem vintém, se abalançassem a mandar os filhos todos os dias à escola, com prejuízo do seu trabalho?

Alguns desses pequenos já sabiam lidar nos campos, e tinham força para mover a enxada ou guiar os bois… Com que duros sacrifícios a mãe lhes compraria os sapatos e as roupas de ir ao mestre!

Esse exemplo fê-la pensar que vivera toda a sua longa vida de setenta anos, como um animal inferior, em que o pensamento mal animava a matéria. A vida teria outros intuitos mais elevados que os de servir a carne com o alimento e o agasalho?

Dos seus dedos encarquilhados e trêmulos a costura caiu, e no dia seguinte ela se incorporou ao bando das crianças, a caminho da escola.

Foi uma alegria. Os pequenos não riram. Emprestou-lhe, um, uma cartilha; outro ofereceu-lhe uma tabuada; e todos se sentiram muito honrados com aquela condiscípula de rosto franzido e cabelo nevado.

No fim de três meses de uma aplicação teimosa, a velha aldeã, escrevia a sua primeira carta à neta mais velha, que vivia numa colônia francesa da África. Nas suas garatujas aconselhava ela a moça a ir à escola, para aprender a mandar-lhe notícias com a sua própria letra.

As cartas escritas pelos outros não são inteiramente nossas; nas letras como nas palavras vai alguma coisa do ente amado e ausente…”

novembro 29, 2018

[RESENHA] DE UM GRANDE AMOR E DE UMA PERDIÇÃO MAIOR AINDA, DE LETÍCIA WIERZCHOWSKI

Sinopse: “De um grande amor e de uma perdição maior ainda apresenta uma inovação de Leticia Wierzchowiski diferente do que os leitores estão acostumados. A trama, protagonizada por um malandro tipicamente brasileiro, lembra muito mais o universo de Jorge Amado do que o dos heróis de guerra das obras anteriores. Com muito humor, a autora conta as incríveis aventuras amorosas de Bibico Nunes, um mulato de inesquecíveis olhos azuis que coleciona mulheres por onde passa, até o dia em que se apaixona por Cecília Antônia de Alfierez, a rica viúva de um deputado. Cecília, percebendo que está prestes a cair num despenhadeiro de amores, cria um sistema de regras para sua paixão: um calendário com dias e horas para amar. Como na mitologia grega, quando as deusas do Olimpo disputam o belo Páris, filho do rei de Troia, Bibico Nunes é ambicionado não apenas pelas mulheres de carne e osso, mas também pelas deusas de areia, vento e mar, senhoras do Candomblé, Iansã, Oxum, Obá e Iemanjá. De um grande amor e de uma perdição maior ainda traz sexo, pimenta, magia, cenários cintilantes e intrigas amorosas.”

 

Há alguns anos, quando eu era uma auxiliar administrativa recém-contratada, precisei viajar até a cidade de Manhuaçu, pois havia uma palestra do CRO-MG para acontecer naquela cidade, organizada pela regional a qual eu faço parte, Muriaé. Uma das minhas atribuições na época era prestar assistência na organização desses eventos. Nessa viagem, que foi a primeira que eu fiz a trabalho (sem contar o treinamento em Belo Horizonte), eu encontrei o livro De um grande amor e de uma perdição maior ainda, da Letícia Wierzchowski. De imediato a capa de conquistou e eu, que estava fazendo uma baldeação no distrito de Realeza, aguardando um ônibus para o meu destino, comprei o livro e fiquei com ele nas mãos até chegar ao hotel.

Não tive muito tempo para ler, pois não conhecia a cidade e estava a trabalho. Dei uma olhada nas primeiras páginas, mas tive meu encontro com Bibico Nunes só à noite. Fui fisgada pela leitura e, na manhã seguinte, quando eu estava novamente em Realeza, esperando um ônibus para Muriaé, já havia acabado de ler. Há pouco tempo trabalhando no Conselho, eu tinha o hábito de carregar um caderno com várias anotações sobre procedimentos burocráticos diversos e foi nesse caderno que eu fiz um esboço de resenha, porque terminada a leitura, eu precisava colocar algumas palavras para fora, precisava recomendar o livro para alguém. Mas quem?

De um grande amor e de uma perdição maior ainda foi o primeiro livro que me fez ter vontade de ter um blog literário. Nesta última semana eu reli o romance de Letícia Wierzchowski e não só me apaixonar novamente por seu protagonista, mas também por esse ofício irresistível de indicar livros para pessoas que, na maioria dos casos, eu nem conheço (mas considero pacas, como dizíamos no finado Orkut)!

A antiga resenha, das primeiras que eu postei no Skoob, você pode ler abaixo:

“De um grande amor e de uma perdição maior ainda” é um romance de Letícia Wierzchowski, autora do aclamado “A casa das sete mulheres”, que retrata o amor e a paixão que o mulato Bibico Nunes tem pelas mulheres.

É uma história para quem, pelo menos, respeita a magia dos orixás. Se você se sente incomodado (a) com esse tipo de assunto, talvez possa não gostar tanto do livro, pois paralelamente às confusões e amores de Bibico Nunes, vemos um pouco sobre os orixás e sua disputa pelo mulato.

Bibico Nunes, como todo malandro, seduz até quem lê a sua história. Mulato dos olhos azuis, de cabelo europeu, asseado no terno branco e na água de colônia, é a perdição das mulheres de Rio Partido. Apaixona-se pela viúva de um deputado, engravida (de gêmeos) a filha de um general, e também a prima dela, além de despertar a paixão de Iemanjá.

Letícia Wierzchowski nos presenteia com a vida, os amores e as confusões do malandro Bibico, numa história envolvente e muito gostosa de ler. Recomendo!

 

 

Veja bem: o que eu disse na resenha não é (tanto) spoiler: o romance de Wierzchowski não é linear, tipo início, meio e fim. Ela usa muito o recurso do flashback, então desde o começo já sabemos que a história não trata de um romance tradicional porque além das mulheres, Bibico Nunes, o irresistível malando, é cobiçado desde o nascimento pelos orixás. A escrita da autora é de um lirismo belíssimo, encantará até mesmo quem não tem muito conhecimento sobre religiões de matriz africana, como o Candomblé. Além disso, a forma como foi estruturado o romance não faz com que a gente desista da história. Mesmo sabendo o que acontece, queremos saber o porquê e como. Nisso a autora foi perfeita!

O romance é ambientado no Brasil de 1965 e, embora não se aprofunde na questão da ditadura, temos algumas pinceladas críticas sobre a política da época (Bibico se envolve com a viúva de um deputado e com a filha de um general — torturador — do exército). Esse é um detalhe que eu percebi apenas agora, mais calejada nesse ofício de ler e escrever sobre as minhas leituras e, claro, por ter lido novamente a obra.

 

“Bibico Nunes era um homem do mundo, não de uma ou outra mulher. Querê-lo só para si era como querer engarrafar o mar.” (p. 117)

 

Essa pode não ser uma leitura fácil ou agradável para quem segue religiões que não acreditam em orixás. No entanto, mais uma vez digo que recomendo essa leitura! Para quem não é do axé, creio que será mais simples se você encarar os personagens simplesmente como literatura. Sem dúvidas, a leitura é uma boa forma de sairmos da zona de conforto e de se abrir a culturas diferentes da nossa.

 

 

Título: De um grande amor e de uma perdição maior ainda

Autora: Letícia Wierzchowski

Editora: Record

Páginas: 266

Compre na Amazon: De um grande amor e de uma perdição maior ainda.

julho 12, 2018

[RESENHA] A LEITORA INCOMUM, DE VIRGINIA WOOLF

Sinopse: “Os cinco ensaios reunidos neste livro foram escritos entre 1919 e 1929 e publicados em suplementos e revistas literárias. Os textos mostram que além de ser uma ficcionista, Woolf era uma leitora muito atenta, com perspicaz senso crítico. A compreensão que ela tem do leitor, da leitura e do ofício de escrever explicam o porquê ela ser uma das escritoras mais importantes do século XX, responsável por técnicas como a do fluxo de consciência, por cenas cinemáticas e as digressões que adentram as camadas da narrativa. Além do profundo conhecimento da Virginia sobre o tema é preciso falar do cuidado com a tradução, que opta por manter o ritmo da escrita tão peculiar da Woolf. Como explicitado no famoso ensaio Um teto todo seu, mesmo sendo de uma família aristocrata, Virginia Woolf não teve permissão de frequentar a universidade, dessa forma fazendo de sua escrita não apenas uma escolha estética, mas acima de tudo de autonomia e política, de forma que não se parecesse em quase nada com a escrita de outros autores e ainda assim fosse profundamente certeira e bem escrita. Todos os textos desta coletânea fazem parte do livro Granite and Rainbow organizado por Leonard Woolf e publicado em 1958. Sobre o título, A Leitora Incomum, ele remete ao livro de ensaios que a própria Virginia organizou e publicou chamado O Leitor Comum. O livro faz parte da Coleção Alfaiate, costurados a mão e com capa em serigrafia sobre tecido montados um a um.”

 

Em se tratando de Virginia Woolf, sou do tipo leitora mineira: estou lendo pelas beiradas. Há quem se surpreenda quando eu digo, mas, até o momento, não li nenhum dos romances da autora (nem Mrs. Dalloway!). Woolf me conquistou e continua me conquistando, sobretudo, por seus magníficos ensaios. Um dia desses eu mergulho nos romances, certamente o farei, mas tenho certeza de que já li o suficiente da escritora inglesa para admirar a sua inteligência e virar sua fã de carteirinha.

 

Leia também: Cenas londrinas, Profissões para mulheres e outros artigos feministas, Um teto todo seu O sol e o peixe.

 

O livro A Leitora Incomum (Arte e Letra, 2017), reunião de ensaios de Virginia Woolf traduzidos por Emanuela Siqueira, é um livro especial como não se vê com tanta frequência quanto seria incrível na lista de lançamento das editoras brasileiras. Explico: somos inundados quase mensalmente por lançamentos de luxo, com ilustrações, planejamento gráfico que parecem de outro mundo de tão perfeitos etc. (e graças a Deus por isso), mas poucas vezes vi um livro pelo qual as pessoas, inclusive não leitoras, ficassem admiradas com o delicado trabalho visivelmente aplicado no material ali impresso. A edição da Arte e Letra, além do ótimo conteúdo, nos presenteia com aquele gostinho de livro artesanal, um verdadeiro deleite para nós, leitores. A capa é de pano e, mesmo sabendo disso no ato da compra, fiquei admirada ao sentir o livro em minhas mãos. É uma capa dura revestida com um pano no qual a capa foi impressa! Os livros são costurados a mão, montados um a um e os exemplares, numerados. O meu é o 204.

Artesanato tem algo de especial que é difícil de definir. Cada produto é único, embora sejam produzidos vários exemplares, pois carrega um pouco da essência de quem o produziu. Se o produto livro já é algo especial, imagina uma tiragem em que todos os livros, além do processo coletivo e trabalhoso que envolve uma publicação, têm a mão de uma pessoa que não pode ser outra coisa, senão um apaixonado por literatura?

 

Copa do mundo? Neste dia só tive olhos para o meu “A Leitora Incomum”!

 

Sobre os ensaios, são cinco os presentes nesta edição: Horas na biblioteca, A anatomia da ficção, A vida e o romancista, Uma mente implacavelmente sensível e Fases da ficção. Cada um deles mostra a faceta leitora e crítica literária de Virginia Woolf, mas da forma apaixonada de quem teve a literatura como mais que uma profissão, um compromisso. Destaque para Fases da ficção, que aumentou consideravelmente a minha lista de leitura de romances clássicos e Uma mente implacavelmente sensível, que fala sobre Katherine Mansfield, outra escritora maravilhosa, a qual vale muito a pena conhecer e ler.

“Os contistas mais notáveis da Inglaterra estão de acordo, diz o Sr. Murry, que como escritora, Katherine Mansfield era ‘hours concours’. Ninguém a sucedeu e nenhum crítico esteve apto a definir suas qualidades. Mas o leitor de seu diário está bastante satisfeito em deixar tais questões de lado. Não é a qualidade de sua escrita ou o grau de sua fama que nos interessa no diário, mas o espetáculo de uma mente — uma mente implacavelmente sensível — recebendo, uma atrás da outra, impressões aleatórias de oito anos de vida.” (p. 39)

 

A Arte e Letra é uma editora, que também é cafeteria e livraria, não necessariamente nesta ordem. Mesmo sem conhecer diretamente, mas como apaixonada por livros e literatura, só posso agradecer por um lugar como esse existir no nosso país. E por produzirem livros tão maravilhosos, que podem ser enviados pelos correios para quem não está em Curitiba para comprar na livraria, tomando um cafezinho.

 

Conheça a Arte e Letra: https://www.arteeletra.com.br/

 

 

Título: A leitora incomum

Autora: Virginia Woolf

Tradução: Emanuela Siqueira

Editora: Arte e Letra

Páginas: 136

 

 

Compre no site da editora: A leitora incomum.

Ou, se preferir, na Amazon: A leitora incomum.

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