Março 09, 2018

[RESENHA] ALÉTHEIA, DE SORAYA COELHO

Sinopse: “Quantas histórias cabem em um dia? O mendigo choroso segurando um fitilho vermelho. Irmãos malabaristas tirando seu troco no semáforo. Uma senhora dolorosamente comum sentada ao seu lado no metrô, repetindo um tique no cantinho dos lábios. Coisas fantásticas cabem na normalidade das nossas 24 horas. Eis aí uma Alétheia.”

 

Leia também: Duas histórias de Soraya Coelho para ler ainda hoje.

 

Primeiramente Fora Temer, vamos ao significado de Alétheia:

Alétheia (em grego antigo: λήθεια, «verdade», no sentido de desvelamento: de a-, negação; e lethe, «esquecimento»), para os antigos gregos, designava a verdade e a realidade, simultaneamente.

Em Sein und ZeitMartin Heidegger retomou o termo para definir a tentativa de compreensão da verdade. Realizou uma análise etimológica do termo a-letheia, atribuindo-lhe a significação de «desvelamento». Portanto, para Heidegger, alethéia é distinta do conceito comum de “verdade” – esta considerada como um estado descritivo objetivo.

Alétheia (em grego Ἀλήθεια), era uma Daemon que personificava a verdade, a honestidade e a sinceridade. Seus Daemones opostos eram Dolos, a trapaça, Apate, o engano, e Pseudea, a mentira, sua equivalente na mitologia romana era Veritas. Segundo uma fábula de Esopo foi criada por Prometeu em sua forja, com a ajuda de seu servo Dolos, a artimanha e as más artes:

“Dolus (trapaça) foi um dos aprendizes do astuto Prometheus, o Titan artífice. Quando este pretendia criar Veritas (Alétheia) para que regesse o comportamento dos homens, uma chamada de Iuppiter lhe obrigou a ausentar-se. Deixou Dolus custodiando a inacabada obra e este, inflamado de ambição, aproveitou a saída de seu mestre para fazer com suas próprias mãos uma figura exata em aparência a que estava fazendo Prometheus. Só lhe faltava terminar os pés quando ficou sem argila, e quando regressou com ela, encontrou o Titan que já havia regressado e, se divertindo pela semelhança das estátuas, havia metido as duas no forno para que terminasse de fazê-las, apesar de que a feita por Dolus não tinha pés. Uma vez terminada a obra lhes insuflou vida, e é por isso que Veritas (Alétheia), a verdade, caminhava graciosamente enquanto sua irmã gêmea, Mendacium (Pseudos), a mentira, segue seus passos cambaleando e quase sem sustentar-se. Por isso se diz que ainda que uma empresa feita com mentiras pareça começar com bom pé, no entanto sempre prevalecerá a verdade.”– Esopo, Fábula 530.

 

Fontes: Wikipedia: Alétheia e Wikipédia: Alétheia (Mitologia).

 

Alétheia foi um dos melhores livros que eu li em 2017. Em uma época a qual eu estava com o tempo curto para embarcar em leituras mais longas, fui surpreendida por dois livros de contos que me marcaram profundamente: este, de Soraya Coelho e Olhos D’água, de Conceição Evaristo.

Em Alétheia temos, de forma geral, uma antologia de verdades. Sobre o mundo, sobre a nossa própria vida. Verdades mesmo. É daqueles livros que você lê e, quando termina, volta e lê mais um pouquinho. É desconfortável se reconhecer em alguns pontos das histórias, mas ao mesmo tempo, é reconfortante saber que não estamos sozinhos.

A antologia é formada por dez contos, alguns bem curtinhos, mas com a qualidade de serem “precisos como uma picada de agulha”, como diria o escritor Dalton Trevisan. São todos muito bons, mas metade deles, na minha opinião, são ótimos. Lição de casa, Trabalho, João e Maria, Diante do espelho (que eu quase confundi com um dos contos de Conceição Evaristo ao fazer a resenha de Olhos D’água) e Peito queimado, são sensíveis e de impacto ao mesmo tempo. Acredito que quem não tenha lido nada de Soraya Coelho até hoje vai se render ao talento da autora só de ler esses contos.

 

“Existe uma diferença básica entre palpitar e pulsar. (…)

Palpitar sugere a possibilidade de nada ser feito. (…)

Já pulsar é impetuoso. Zune como uma lâmina de uma espada ou como uma flecha cortando o ar. Acerta o alvo. Faz o seu trabalho. O coração das mocinhas palpita, mas os das velhas senhoras pulsa.”

 

Alétheia tem prefácio de Jana Bianchi e é um livro que, absolutamente, faz o coração do leitor pulsar. Se eu fosse você, leria o quanto antes.

 

 

P.s.: Desculpem-me por não falar tintim por tintim sobre cada um dos contos. Quero que vocês recebam a picada sem muito aviso prévio. Acreditem: se eu contar demais, vou estragar a experiência de leitura de vocês e esse nunca foi o meu objetivo por aqui.

 

 

Título: Alétheia
Autora: Soraya Coelho
Editora: Publicação Independente
Páginas: 49

Compre na Amazon (disponível para assinantes Kindle Unlimited): Alétheia.

dezembro 08, 2017

[RESENHA] OLHOS D’ÁGUA, DE CONCEIÇÃO EVARISTO

Sinopse: “Em Olhos d’água Conceição Evaristo ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. Sem sentimentalismos, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, seus contos apresentam uma significativa galeria de mulheres: Ana Davenga, a mendiga Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, a menina Zaíta. Ou serão todas a mesma mulher, captada e recriada no caleidoscópio da literatura em variados instantâneos da vida? Elas diferem em idade e em conjunturas de experiências, mas compartilham da mesma vida de ferro, equilibrando-se na “frágil vara” que, lemos no conto “O Cooper de Cida”, é a “corda bamba do tempo”. Em Olhos d’água estão presentes mães, muitas mães. E também filhas, avós, amantes, homens e mulheres – todos evocados em seus vínculos e dilemas sociais, sexuais, existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição. Sem quaisquer idealizações, são aqui recriadas com firmeza e talento as duras condições enfrentadas pela comunidade afro-brasileira.”

 

Conceição Evaristo foi uma grata descoberta que fiz neste ano de 2017. Tendo lido apenas (até o momento) o livro Olhos d’água, já me tornei fã da autora. Para escrever essa resenha, reli todos os contos. E não foi nenhum sacrifício, posso garantir.

Olhos d’água, antologia de contos de Conceição Evaristo, publicada pela primeira vez pela Pallas Editora em 2014 e sendo reimpresso várias vezes desde então, é o tipo de livro que incomoda. Faz chorar, ter medo, desperta empatia. Quando terminei a leitura, prometi a mim mesma que, se um dia eu for professora, todos os meus alunos conhecerão esse livro. Caso eu não seja, ele fica mais que recomendado aqui no blog. A autora da voz e vez a uma parcela da população que historicamente é silenciada. E os contos são de uma escrita tão precisa e tão poética que é impossível não se emocionar.

 

“Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.

(…)

Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira que os olhos de uma se tornam o espelho para os olhos da outra.” (ps. 18 e 19)

 

“Ela é que não ia ficar ali assentada. Se as pernas não andam, é preciso ter asas para voar.” (p. 32)

 

As mulheres criadas por Conceição Evaristo, e os homens também, embora em menor número, falam de temas sociais e existenciais de uma forma que os personagens poderiam ser qualquer pessoa. Poderia ser eu, ou você. A dureza da vida, a fome, a violência, os abusos e a linha tênue da permissão. A perda precoce da infância. O amor em várias formas, a morte e a condenação sem justiça. Todos esses temas e alguns outros estão presentes em Olhos dágua. Dentre tantas lágrimas, com a leitura desse livro eu também passei a me questionar qual era a cor dos olhos de minha mãe.

Olhos d’água  tem prefácio de Heloisa Toller Gomes e introdução de Jurema Werneck. São quinze contos que, se não conseguirem te fisgar por sua sensibilidade, pelo menos vão mostrar uma faceta realista e pela voz de quem sente na pele o que é ser negro em um país como o Brasil.

 

 

SOBRE A AUTORA: Conceição Evaristo nasceu em uma favela da zona sul de Belo Horizonte. Teve que conciliar os estudos com o trabalho como empregada doméstica, até concluir o curso Normal, em 1971, já aos 25 anos. Mudou-se então para o Rio de Janeiro, onde passou num concurso público para o magistério e estudou Letras na UFRJ.

Na década de 1980, entrou em contato com o grupo Quilombhoje. Estreou na literatura em 1990, com obras publicadas na série Cadernos Negros, publicada pela organização.

É Mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.

Suas obras, em especial o romance Ponciá Vicêncio, de 2003, abordam temas como a discriminação racial, de gênero e de classe. A obra foi traduzida para o inglês e publicada nos Estados Unidos em 2007.

 

 

Título: Olhos D’água
Autora: Conceição Evaristo
Editora: Pallas
Páginas: 116

 

Compre na Amazon: Olhos D’água.

novembro 20, 2017

[LETRAS] ÚRSULA, DE MARIA FIRMINA DOS REIS

O site Cadernos do Mundo Inteiro disponibiliza para download gratuito algumas obras importantíssimas do cânone da literatura brasileira, dentre elas o romance Úrsula, de Maria Firmino dos Reis. A obra foi o primeiro romance abolicionista da literatura nacional e também a primeira obra da literatura afro-brasileira. Saiba mais sobre o livro abaixo:

COLEÇÃO ACERVO BRASILEIRO

Volume 2,
Úrsula

Que histórias uma negra brasileira, em pleno séc. XIX, desejaria contar a respeito da escravidão? Parte da resposta encontra-se na obra da maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917), prosadora, poeta, compositora e professora, ninguém menos que a primeira escritora brasileira. Pois este livro, produzido em 1859 pela Tipografia do Progresso, de São Luís, foi o primeiro no Brasil a ser publicado por uma mulher, e também o primeiro a ter por autora uma pessoa afro-brasileira, e o nosso primeiro romance abolicionista. É o suficiente para afirmamos a sua importância perante as letras nacionais, e para fazermos questão de que conste do nosso acervo brasileiro.

O paraibano Horácio de Almeida (1896-1983), escritor, informa da curiosa trajetória deste livro, que ficou esquecido durante cem anos aproximadamente. Ele adquiriu, no Rio de Janeiro, o que julgou ser o único exemplar de Úrsula impresso pela Tipografia do Progresso, ou o único exemplar disponível, entre muitas brochuras antigas que comprara para sua biblioteca. Ao abri-lo, compreendeu estar diante de uma verdadeira raridade literária, umas dessas preciosidades que têm interesse histórico.

Firmina dos Reis esteve pouco conhecida do público em sua condição de primeira romancista, e da maioria dos escritores e jornalistas do Maranhão em sua época segundo a conclusão de Almeida, certamente por ser mulher, e em grande medida por não ter assinado o romance: pôs-lhe o pseudônimo Uma Maranhense, e coube a Almeida determinar a real identidade da autora, mediante consulta a literatos e dicionaristas com quem tinha contato. A autora foi conhecida por outras obras, inclusive prestigiada, mas não por este livro. Porém existe alguma controvérsia quanto a este ponto. Horácio de Almeida havia procurado referências jornalísticas a Úrsula e sua autora, sem encontrá-las, mas sabemos que existe pelo menos uma, em um número do jornal A Imprensa, de 19 de outubro de 1961. Este apontamento a respeito da pequena repercussão que Úrsula terá alcançado, restrita à província e sem a simpatia das pessoas “de bem”, consta do ensaio de Adriana Barbosa de Oliveira, Gênero e etnicidade no romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis.

A impressão fac-similada da publicação de 1859, a partir do qual damos a público a presente edição, com a devida atualização ortográfica, foi preparada por Almeida, sob encomenda do então governador do Maranhão, Nunes Freire, em celebração dos 150 anos de Firmina dos Reis. Destarte, o grande maranhense Nascimento Morais Filho (1922-2009) dedicou-se a procurar e reunir o que pudesse ser encontrado da obra de Firmina dos Reis, a serviço da Academia de Letras do seu estado embora não se interessasse por Maria Firmina somente como um acadêmico, mas como brasileiro, entusiasta da realização brasileira. É de Morais Filho a primeira biografia da autora, Maria Firmina, fragmentos de uma vida, pela Imprensa do Governo do Maranhão, de 1975.

Maria Firmina dos Reis foi uma mulher negra, a quem chamariam “parda” na atualidade, ou “mulata”, embora muitos negros nossos contemporâneos rejeitem esses termos, por considerá-los falsificantes, ou pejorativos. Todos concordarão que era uma afro-brasileira. Diferentemente do que afirma no prólogo de Úrsula, é bastante notório que possuía amplo cabedal de literatura e cultura geral, muito afeito ao referencial europeu em termos humanísticos, como era normal naquele tempo embora os escritores quisessem criar uma verdadeira literatura brasileira, e tivessem disto uma consciência bastante aguçada. Tinha formação clássica e era uma leitora do seu tempo, com os seus costumes e tendências. Prima do escritor e gramático Francisco Sotero dos Reis (1800-1871), por quem nutria a maior admiração, e que exerceu uma grande influência sobre ela. Não era uma mulher de posses, nem realmente pobre. Autodidata, prestou concurso em 1847 para a Instrução Primária, e foi aprovada. Lecionou língua portuguesa (primeiras letras) entre 1847 e 1881, sempre no Maranhão.

Em 1881, fundou o que seria a primeira escola gratuita e mista do Brasil, no povoado de Maçaricó, na cidade de Guimarães, onde meninas e meninos partilharam as mesmas salas e materiais, e onde os filhos dos senhores de engelho e dos paupérrimos lavradores estiveram juntos ocupando as mesmas carteiras, como iguais. Maria Firmina era nesse momento uma figura popular em Guimarães, que discursava, em sua modesta varanda, para o ajuntamento de lavradores e demais pessoas do povo que acorria sempre à sua porta, pelo prazer de ouvi-la. O escândalo foi tão grande, foram tantas as pressões, e tão atrevidas as ameaças, que a escola de Maria Firmina teve de fechar as portas, com apenas dois anos de funcionamento. Portanto, se o baiano Anísio Teixeira é o pai da escola pública brasileira, Firmina é a mãe, e como tal deve ser homenageada.

Maria Firmina publicou outras obras literárias além de Úrsula, em jornais, já a partir de 1860, assinando os seus poemas com as iniciais M. F. R. Em 1861, o poeta Gentil Homem de Almeida Braga (1835-1876) convida-a a participar da antologia Parnaso maranhense, e entre 1861 e 1865 publica o conto Gupeva, de temática indígena, com reimpressões em alguns jornais. O seu livro de poemas Cantos à beira-mar foi publicado em 1871, pela Tipografia do País. Em 1887, novamente para circular na imprensa, publicou o conto A escrava, obra literária com o objetivo da agitação e da propaganda para as campanhas abolicionistas que se seguiram até 1888. Também compôs letras para diversas valsas, e para o Hino da libertação dos escravos, de que também compôs a melodia.

Úrsula, obra do romantismo brasileiro, sem aquele nacionalismo idílico, um tanto infantil que os românticos cultivavam, é um livro marcadamente cristão. Porque a autora tinha um lado místico até bem pronunciado, era cristã, e porque sabia o que estava fazendo: havia a necessidade de apontar a absurda contradição de toda uma sociedade que se considera seguidora do Cristo, e permite a escravidão. Os cristãos tinham de ser chamados à consciência, e o foram, pela obra pouco lida de Firmina e por outras, se considerarmos a grande expressão popular que o movimento abolicionista no Brasil teve em dado momento — o que muita gente na atualidade ignora. O escravo Túlio e a escrava Susana falam em primeira pessoa para atingir a consciência cristã que se pretende a consciência brasileira, e assim também a mulher comum, nas pessoas da menina Úrsula e de sua mãe Luíza, que não são escravas, mas brancas destituídas de posses, e que estão por este modo à mercê dos abusos e crimes do senhor, que preside a perdição e o desmando, o senhor de escravos que é também o senhor das terras, e portanto o senhor da lei. O comendador Fernando P., desgraça em forma humana, aparece como a personificação, genérica e previsível conforme aquilo que comumente encontramos no romantismo, não somente da maldade, mas da loucura, de maneira que a loucura das suas abominações cresça a ponto de desmoronar sobre si mesma.

E há o jovem Tancredo, um branco rico, “bacharel cheio de bacharelices que morto não faria falta”, no engraçado comentário de Horácio de Almeida, o amado de Úrsula, o mocinho, que vive com o escravo Túlio a grande experiência do encontro entre pessoas, quando o negro salva-lhe a vida após um acidente de montaria. Os dois se olham, falam-se e se tocam, como dois seres humanos que se comunicam de verdade, que se comunicam com aquilo que são, chegando ao extremo de se compreenderem! Talvez, o encontro entre o rico Tancredo e o escravo Túlio tenha sido semelhante àquele que se fez entre os filhos dos senhores de engelho e os filhos dos lavradores pobres, na sala de aula que Firmina construiu, e que os escravocratas do Maranhão destruíram.

 

A escritora maranhense Maria Firmina dos Reis (1825-1917).

 

Leia o romance Úrsula clicando aqui.

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