março 02, 2017

[RESENHA] BRIDE AND PREJUDICE: ORGULHO E PRECONCEITO EM VERSÃO INDIANA

Bride and Prejudice, ou Noiva e Preconceito, em português, é a versão bollywoodiana de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. O filme é de 2004, mas só tive a oportunidade de assisti-lo nos últimos dias e foi uma grata surpresa.

Não é de hoje, contudo, que ouço falarem da versão indiana do clássico de Jane Austen. Preconceituosamente, achei, sem nem assistir, que seria um filme ruim, uma história forçada, com muita coreografia e maquiagem. Teve tudo isso, mas foi lindo.

Alguns personagens mantiveram os mesmos nomes do livro de Austen, outros, como Elizabeth Bennet, ganharam uma versão indiana. No caso de nossa protagonista, ela tornou-se Lalita Bakshi.

A história se passa em Amritsar, Índia, onde será realizado um casamento em que Mr. Bingley, no filme, Mr. Balraj, participa como padrinho do noivo. Willian Darcy, no filme um americano, e Kiran Balraj (Caroline Bingley), estão com ele na cerimônia. Balraj é de Nova Deli, mas mora na Inglaterra, onde conheceu Darcy quando este estudou em Oxford. É no casamento que os amigos conhecem a família Bakshi e começam a fazer conexões.

Deixando de lado a velha e maravilhosa fórmula que Jane Austen criou em seu romance mais famoso, em que o casal inicialmente se detesta, mas depois se apaixona, tendo que vencer os desafios causados pelo orgulho e pelo preconceito para ficarem juntos, este filme tem algo a mais. A questão cultural foi muito bem abordada, dentro do que era possível em uma adaptação curta como um filme.

“ – Você devia ter visto o rosto da Sra. Lamba! Balraj não dançou com nenhuma outra garota a noite toda. Sabia que ele não resistiria ao charme da minha linda Jaya.

 – Ou o seu, é claro.

 – Imagine, se Jaya fosse morar no Reino Unido, poderíamos visitá-la a qualquer hora.

 – Não gostaria de ver minhas filhas tão longe.

 – Mas temos tantas. Uma ou duas podem morar no exterior. Elas vão ganhar mais, e Deus sabe que elas vão precisar. Porque não temos recursos para dar à todas um dote decente.

 – Talvez devêssemos ter afogado uma ou duas quando nasceram.”

 

Na Índia, ainda hoje, infelizmente, é comum que as meninas sejam abortadas ou mortas após o nascimento, para evitar a despesa com dote e casamento. É mais vantajoso, dentro da tradição, ter um filho homem. Em um diálogo descontraído do filme, a fala do Mr. Bakshi, Mr. Bennet, no original, evidencia essa parte triste da cultura indiana.

A Sra. Bennet continua um espetáculo a parte. Nesta adaptação, Mrs. Bakshi procura maridos para as filhas até em site de relacionamentos indianos. Sim, porque a família não quer apenas um bom partido, ele também deve compartilhar de sua cultura.

Darcy, como esperado, acha tudo muito primitivo. Casamento arranjado, coreografias, um trânsito louco, internet ruim em seu hotel. Mas desde o primeiro momento Lalita mostra que a Índia é muito mais do que supõem pessoas preconceituosas como ele.

“ – Esse é o seu primeiro casamento indiano?

– Sim, Está sendo uma experiência e tanto.

– Você não está se divertindo?

– Não, estou sim. Acho esse negócio de casamento arranjado um pouco estranho. Não sei como as pessoas podem se casar sem terem conhecido um ao outro. Acho isso um pouco atrasado, você não acha?

– Isso é tão clichê. É diferente hoje em dia. É mais parecido com um serviço de namoro global. O noivo parece feliz. Os pais o forçaram a casar?

– Não, foi ele quem pediu aos pais que achassem uma noiva para ele. Ele estava ocupado gerenciando sua empresa. Ele só queria algo simples.

– Entendo. Então ele veio aqui. É isso que você acha também? Que a Índia é um lugar para encontrar uma mulher simples?

– Espere, não. Não foi isso o que eu quis dizer.

– É engraçado, os americanos pensam que têm respostas para tudo, incluindo casamentos. Bastante arrogantes, considerando que têm a maior taxa de divórcio do mundo.

(…) Mr. Balraj chama para dançar

– Escute, sou um péssimo dançarino, mas… bem, isso parece que você coloca uma lâmpada com uma das mãos e faz carinho num cachorro com a outra. Você me ensina?

– Sabe o que eu acho? Acho que você deveria achar alguém simples e tradicional para lhe ensinar a dançar como os nativos.”

 

A questão do imperialismo norte americano é mencionado rapidamente no casamento e novamente discutido na fala que, no livro, é sobre o padrão de mulher ideal para Darcy. Um fato interessante, que eu não vi até o momento em nenhuma outra adaptação moderna de Orgulho e Preconceito é que aqui, Lalita questiona se o alto padrão que Darcy buscava em uma parceira faria dele um homem ideal. Ponto positivo para Noiva e Preconceito, que outras adaptações que transportaram a história de Jane Austen para os tempos atuais deixaram passar.

“ – Certamente você teria problemas para encontrar sua mulher ideal na Índia. Não ouvi ‘simples’, ‘tradicional’, ‘subserviente’ na sua lista.

– Ora, vamos, me dê um tempo! Agora você está distorcendo minhas palavras.

– Você mesmo disse estar acostumado ao melhor. Tenho certeza de que acha que a Índia está abaixo de você.

– Se eu realmente pensasse assim, por que eu estaria pensando em comprar esse lugar? – disse referindo-se a um hotel de luxo.

– Você acha que isso é a Índia?

– Bem, você não quer ver mais investimentos, mais empregos?

– Sim, mas quem realmente se beneficiaria disso? Você quer que as pessoas venham para a Índia sem ter que lidar com os indianos.

– Ah, isso é bom. Lembre-me de colocar isso no folheto  de turismo. – diz olhando para Kiran (Caroline Bingley)

– Não é isso que todos os turistas querem aqui? Conforto cinco estrelas com um pouco de cultura no meio? Eu não quero que você transforme a Índia em um parque temático. Achei que estávamos livres de imperialistas como você.

– Não sou inglês, sou americano.

– Exatamente!”

 

Mr. Collins, nesta adaptação, Mr. Kholi, é um canastrão de marca maior. Engraçadíssimo, faz o perfil do indiano que foi para os Estados Unidos e acaba reproduzindo os preconceitos de quem é de lá. Após ganhar o Green card, considera-se superior aos seus compatriotas e à cultura de seu país natal. Lalita recusa a oferta maravilhosa de casar-se com ele e ir morar próximo a Hollywood, destino este aceito prontamente por sua amiga Chandra Lamba (Charlotte Lucas). O Collins mais legal que eu já vi, só perde para o original do livro.

 

Mrs. Catherine de Bourgh e Giogiana Darcy, aqui Catherine Darcy e Georgina “Georgie” Darcy, respectivamente, com a diferença que a primeira é a mãe de Darcy, e não tia, tiveram pouco destaque no filme. Interpretadas por Marsha Mason e Alexis Bledel (Gilmore Girls), suas aparições foram participações especiais. Tiveram certa importância na trama, mas foram muito rápidas. Até me surpreendi ao ver a Alexis Bledel entrar em cena. Gostaria de uma série em alguns episódios para poder ver mais das duas personagens, e também, claro, do Mr. Kholi.

 

Um ditado que eu achei muito lindinho, e que foi colocado de maneira muito sutil na trama é de que quando você espirra, alguém estaria pensando em você. Darcy e Lalita espirram diversas vezes no filme. Momentos singelos de puro romance.

As coreografias são perfeitas, e as músicas bem legais. Depois de assistir, duvido que você também não deseje viver em um filme indiano, em que tudo vira festa! O roteiro acertou em misturar a magia e a cor dos filmes indianos com a questão cultural, uma transição natural da obra de Austen, que abordou o social em Orgulho e Preconceito.

 

 

Confira o trailer abaixo (em inglês):

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

dezembro 30, 2016

[RESENHA] A JOVEM RAINHA VITÓRIA, FILME 2009

“1819. Uma criança nasceu em um palácio de Londres. Disputada por dois tios reais – o Rei da Inglaterra e o Rei dos Belgas – está destinada a ser Rainha e a governar um grande império. A menos que seja forçada a renunciar a seus poderes e assinar uma ‘Ordem de Regência’. Um regente é nomeado para governar no lugar de um monarca quando esse se ausenta, adoece ou quando é muito jovem.”

 

Assim começa o filme que retrata a história de uma das Rainhas mais icônicas do Reino Unido, Alexandrina Vitória Regina, a Rainha Vitória, coroada em 28 de junho de 1838, aos 18 anos. A Jovem Rainha Vitória (The Young Victoria, no original), é uma produção britânica de 2009, dirigida por Jean-Marc Vallée e ganhadora do Oscar de melhor figurino, além de ter sido indicada em outras duas categorias.

Ser herdeira do império britânico não é pouca coisa. Imagine, então, ter essa responsabilidade sem estar devidamente preparada para o seu destino? A Jovem Rainha Vitória retrata como foi a infância e a adolescência de Vitória (Emily Blunt), criada como uma boneca de porcelana por sua mãe, a Duquesa de Kent (Miranda Richardson) e pelo conselheiro Sir John Conroy (Mark Strong). O maior desejo de ambos, sobretudo de Sir John, era que Vitória assinasse uma Ordem de Regência, para que eles pudessem governar a Inglaterra enquanto a futura Rainha fosse muito jovem. Vitória obviamente resiste e passa a sua adolescência desejando ser livre, para assim cumprir com o seu destino.

 

“Algumas pessoas nascem com mais sorte que outras. Esse é o meu caso. Mas, quando criança, fui convencida do contrário. Que garotinha não sonha em crescer como uma princesa? Mas alguns palácios não são do modo que pensamos. Até mesmo um palácio pode ser uma prisão. Mamãe nunca explicou porque alguém provava a minha comida. Por que eu não podia ir para a escola com outras crianças ou ler livros populares. Quando meu pai morreu, mamãe e seu conselheiro, Sir John Conroy, criaram regras. Ele disse que eram para minha proteção. E as chamou de ‘Sistema Kensington’. Não podia dormir num quarto sem mamãe, nem descer as escadas sem segurar a mão de um adulto. Descobri as razões para isso tudo quando tinha 11 anos. Meu tio Willian era o Rei da Inglaterra, mas ele e os seus três irmãos só podiam ostentar uma criança. Essa criança era eu. O sonho de Sir John era que, caso o Rei morresse, houvesse uma regência. Minha mãe assim governaria a Inglaterra e ele governaria através dela. Então comecei a sonhar com o dia em que a minha vida mudaria e eu pudesse ser livre. E rezava com todas as forças para esse meu destino.”

 

Longe de ser um filme educativo sobre o início da Era Vitoriana, A Jovem Rainha Vitória está mais para um conto de fadas com personagens reais da monarquia britânica. Nele acompanhamos a dificuldade que Vitória teve ao exercer um cargo tão importante sendo extremamente inexperiente e tendo muitos manipuladores a sua volta. Seu romance com Príncipe Albert (Rupert Friend), foi retratado com uma delicadeza ímpar: embora estivessem destinados a ficarem juntos, o roteiro de Julian Fellowes (Downton Abbey) foi estruturado para que ficasse claro que houve sentimento entre os dois. O mais importante, levando em consideração os fatos históricos, foi ver que ela pôde, ainda que com as cartas marcadas, escolher o seu marido e quando se casar. Foi uma decisão política, mas que tinha afeto. Talvez por isso a parceria entre os dois tenha dado tão certo e refletido em seu império.

O filme é basicamente romântico, mas é interessante ressaltar que até pouco tempo a Rainha Vitória era a monarca há mais tempo no trono inglês (63 anos e 7 meses), tendo sido ultrapassada por sua tataraneta, a Rainha Elisabeth II, no ano passado. Sua importância, contudo, vai muito além do tempo de seu reinado: a Era Vitoriana foi marcada pelo ápice da política industrial colonialista inglesa, além da abolição da escravidão no império britânico (1838), redução da jornada de trabalho dos trabalhadores da indústria têxtil (1847) e o direito de voto aos trabalhadores (1884). Tendo grande influência no reinado da esposa, Príncipe Albert foi um grande incentivador da ciência e da arte, além de contribuir para o crescimento e o fortalecimento do exército britânico.

A Jovem Rainha Vitória é uma ótima pedida para um fim de tarde, tomando um chazinho, bem a moda britânica mesmo. Um filme delicado e com grande elenco. Recomendo!

 

 

Referências:

Vitória do Reino Unido

Brasil Escola: Rainha Vitória

The Young Victoria

Elizabeth II completa 63 anos de reinado e está perto de recorde.

 

 

Trailer legendado:

 

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

dezembro 08, 2016

[LANÇAMENTO] O CLUBE DE LEITURA DE JANE AUSTEN

A Editora Rocco lançará, em janeiro próximo, o livro O Clube de Leitura de Jane Austen, da autora norte-americana Karen Joy Fowler! A capa, como vocês podem ver acima, é lindinha, já estou encantada! O livro foi adaptado para o cinema em 2007 tendo no elenco nomes como Emily Blunt, Hugh Dancy, Amy Brenneman, dentre outros. Veja, abaixo, o release da Rocco, informando sobre o lançamento:

Uma das autoras mais queridas em todo o mundo, cujo bicentenário de morte ocorre em 2017, Jane Austen (1775-1817) segue arrebanhando uma legião de fãs em pleno século XXI com romances nos quais retrata a sociedade inglesa de sua época com precisão e ironia, especialmente a condição da mulher, que tinha no casamento a única forma de existir e ascender socialmente. É claro que o cinema deu uma ajudinha na popularização da obra da escritora, haja vista o sucesso de adaptações como Orgulho e preconceito e Razão e sensibilidade para as telonas. Mas o que explica o fato de, em vários países, nos dias de hoje, milhares de adolescentes e jovens continuarem devorando as histórias da escritora setecentista protagonizadas por mocinhas em busca de um bom casamento?

 

Em O clube de leitura de Jane Austen, romance da norte-americana Karen Joy Fowler que a Rocco lança em janeiro, cinco mulheres e um homem se reúnem para debater as obras de Jane Austen na Califórnia do início dos anos 2000. O livro, que também virou um filme de sucesso, é uma comédia de costumes contemporânea que mostra que, dois séculos depois, os relacionamentos afetivos e sociais continuam ocupando o centro de nossas vidas. Ou seja: mudam os códigos que regem as
relações, mudam as regras de comportamento, mas na essência continuamos lidando com o sonho de encontrar o par perfeito (ou pelo menos de viver um amor “que seja infinito enquanto dure”) e de sermos aceitos – e com as consequências de nossas escolhas. O que talvez justifique a atualidade da autora inglesa.

No livro, ao longo dos seis meses em que o eclético grupo se encontra para ler e discutir os romances de Jane Austen, casamentos são testados, novos romances vêm à tona, arranjos sociais e afetivos se fazem e desfazem, e os personagens acabam se dando conta de que suas vivências não são assim tão diferentes das experimentadas por Emma ou outras de suas protagonistas. E aprendendo com elas.

Com um olhar apurado e sensível para as fragilidades do comportamento humano e o quê de absurdo das convenções sociais, Karen Joy Fowler disseca as relações contemporâneas com acuidade, humor e ironia dignos da autora britânica. Uma homenagem a uma das maiores escritoras da língua inglesa e uma deliciosa comédia de costumes dos nossos tempos. Entre para O clube de leitura de Jane Austen, leitura perfeita para começar 2017.

 

 

Veja o trailer do filme abaixo:

 

12

Tamires de Carvalho • todos os direitos reservados © 2017 • powered by WordPressDesenvolvido por