maio 13, 2017

[RESENHA] VIVA A LÍNGUA BRASILEIRA, DE SÉRGIO RODRIGUES

Sinopse: “Este livro é uma declaração de amor à língua portuguesa falada no Brasil. Em forma de verbetes rápidos e instrutivos, dá dicas e tira dúvidas que você sempre teve sobre o uso do idioma. Contra aqueles que defendem que só os irmãos de Portugal sabem tratar a gramática como ela merece, aqui está um antídoto. Contra aqueles que adoram corrigir o que nunca esteve errado e defendem bobagens, aqui está a resposta perfeita. Contra o analfabetismo funcional, o pedantismo do juridiquês, a barbaridade do corporativês, a importação servil de estrangeirismos e o chiclete viciante do clichê, este é um manual perfeito para usar nossa língua em toda sua riqueza e sem nenhum preconceito.”

 

Esta é mais uma recomendação urgente de leitura que uma resenha. Digo isso logo de cara e abaixo reproduzirei os meus trechos favoritos dos favoritos. Sim, pois foi extremamente difícil escolher o que esse livro tem de melhor, visto que todo ele é incrível.

Em Viva a Língua Brasileira, Sérgio Rodrigues, que eu descobri com muita alegria ser natural da cidade de Muriaé-MG, onde passo minhas laboriosas oito horas diárias de trabalho no Conselho Regional de Odontologia, fez algo incrível: expôs as dúvidas mais frequentes da nossa língua, sem a arrogância e o pedantismo que muitas publicações do gênero (infelizmente) reproduzem. Confesso que, em muitas páginas, eu fechava o livro e suspirava um agradecimento ao autor, pois além de expor tais dúvidas, o fez em uma publicação de leitura leve e rápida, apesar das 384 páginas. Tudo isso com ilustrações lindíssimas de Francisco Horta Maranhão.

O livro possui treze categorias temáticas, nas quais são discutidos temas como dúvidas de escrita, de fala, os modismos, origens de expressões antigas (nem sempre verdadeiras), dentre outras coisas. O grande acerto desta publicação é que ela agradará a gregos e troianos, pois o autor posicionou-se neutro no embate entre os patrulheiros, que acham que tudo é erro, e os excessivamente liberais, que consideram tudo como correto.

 

“Sem caretice e sem vale-tudo, este livro entende os argumentos dos dois lados, mas reserva-se o direito de não morrer abraçado com nenhum deles. Aposta que é possível cultivar a variedade culta da língua e ao mesmo tempo compreender que regras são historicamente determinadas, que nenhuma delas caiu do céu, e que no fim das contas o idioma é sempre atualizado por quem o fala. A mesma aposta inclui o reconhecimento da grande beleza que existe nisso.” (p. 15)

 

“Estória ou História?

As duas palavras existem, mas são diferentes. Segundo o dicionário Houaiss, estória é um brasileirismo que significa apenas ‘narrativa de cunho popular e tradicional’, enquanto história pode querer dizer também isso – entre muitas outras coisas.

(…)

Nessa eu fico com o Aurélio, que não reconhece a palavra, e com os portugueses, que não a usam: para mim – e para a maioria dos escritores que conheço – é tudo história. É que a fronteira entre história real (história) e história fictícia (estória) me parece fluida demais para tornar funcional a adoção de dois vocábulos.

(…)”  (p. 37 e 38)

 

“Homossexualismo ou Homossexualidade?

A questão é uma daquelas em que a língua vira um campo de batalha. O combate pode envolver diversos tipos de argumento – linguísticos, históricos, etimológicos, científicos –, mas eles não passam de armas. O que está em jogo mesmo é uma questão política.

O movimento gay transformou em bandeira a condenação de homossexualismo, que em sua origem designava uma patologia, e sua substituição por homossexualidade.

Linguisticamente, a questão não é tão simples. O termo homossexualismo foi cunhado no ambiente infestado de ideias pseudocientíficas de fins de século XIX e vinha impregnado de conotações médicas. (Incrivelmente, só em 1990 a Organização Mundial de Saúde o excluiu de sua lista de distúrbios mentais.)

Ocorre que a palavra não ficou presa a essa primeira acepção. Além de ‘condição patológica’, usamos o sufixo de origem grega –ismo para indicar, entre outras coisas, ‘prática’, ‘peculiaridade’ e ‘qualidade característica’ (Aurélio).

(…)

Para mim, homossexualidade

Eu fiz minha opção: embora tenha dúvidas sobre a estratégia de criminalizar em nome da etimologia um vocábulo que a maioria da população emprega de forma inocente, adotei o termo homossexualidade. Não me custa muito mexer no vocabulário. Bem menos, sem dúvida, do que custa aos homossexuais conviver com uma palavra considerada insultuosa.

(…) (p. 45 e 46)

 

“Latente não quer dizer evidente

O emprego do adjetivo latente com o sentido de ‘evidente, claro, indiscutível’ é um erro tornado mais embaraçoso pelo fato de que a palavra significa… o contrário disso”

Quando afirmamos que alguma coisa está latente, queremos dizer que ela ainda não se manifestou: permanece oculta, adormecida, em estado potencial. Pode vir à tona a qualquer momento, mas ainda não veio. Trata-se de um termo ligado ao verbo latino latere, ‘estar escondido’.

É provável que o erro se deva a uma confusão entre latente e patente – este, sim, um adjetivo que significa ‘claro, evidente, manifesto’. (p. 165 e 166)

 

Destaque para o capítulo 7, intitulado A Guerra dos Sexos, que expõe a questão da briga político-ideológica entre os gêneros na língua. Não tendo nós, falantes de português, herdado do latim o gênero neutro, surgiu, sobretudo na internet, quem fale “amigue, amigues, amig@s ou mesmo amigx”. Não sou adepta dessa prática e acho que quem a emprega sistematicamente não percebe o quanto essa escrita dificulta a leitura para deficientes visuais e disléxicos. O problema é que o hábito tem saído da internet e chegado ao ambiente acadêmico, como proposta de intervenção gramatical, nas palavras de Sérgio Rodrigues. Neste capítulo, ainda, vemos a questão do Obrigado, Obrigada; Personagem; Poeta ou Poetisa; e, talvez um dos mais polêmicos assuntos em questão de gênero: Presidente ou Presidenta?

Em Viva a Língua Brasileira, vemos, ainda, a origem do termo sebo, para designar loja de livros usados, e das expressões outros quinhentos e para inglês ver. E, antes que eu me esqueça, “Aluno” não quer dizer “sem luz”. Este é um livro que não se esgota em uma única leitura. Viva a Língua Brasileira é uma rica fonte de informação, um livro para ser consultado eventualmente. Um deleite para os amantes da nossa língua.

 

“Como se escreve: Antártida ou Antártica? Expresso ou Espresso? E qual a pronúncia correta: Rorãima ou Roráima? Subssídio ou Subzídio? Está certo escrever ‘em anexo’? Está errado falar em ‘risco de vida’? De onde veio a expressão ‘chorar pitanga’? E ‘acabar em pizza’? Este livro não apenas resolve essas dúvidas de forma instrutiva e bem-humorada, aqui você ainda encontra antídoto contra os sabichões sempre dispostos a corrigir o que não precisa ser corrigido, aprende a se vacinar contra modismos bobos, aceita que a influência estrangeira é inevitável, desde que não descambe para o ridículo, foge de armadilhas populares (forró não tem nada a ver com ‘for all’!) e ganha um mapa privilegiado para navegar com segurança e estilo em nosso idioma vivo, complexo e fascinante.” (contracapa)

 

 

SOBRE O AUTOR: Sérgio Rodrigues é escritor, crítico literário e jornalista. Mineiro que adotou o Rio de Janeiro, é autor, entre outros, do romance O drible, vencedor do prêmio Portugal Telecom (atual Oceanos) e publicado em seis países. Desde 2001 mantém na imprensa colunas sobre o universo linguístico, etimológico e gramatical com grande audiência, do extinto Jornal do Brasil ao site da revista Veja. Em 2011, ganhou o prêmio Cultura do governo do estado do Rio de Janeiro pelo conjunto de sua obra.

 

 

Título: Viva a Língua Brasileira
Autor: Sérgio Rodrigues
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 384

 

Compre na Amazon: Viva a Língua Brasileira.

 

abril 24, 2017

[ETC.] CHAMADA PARA PUBLICAÇÃO DE CONTOS: ANDROSS EDITORA

 

Se você tem um conto bacana, mas está escondendo-o no fundo da gaveta, com medo ou sem saber como publicar, a Andross Editora ainda está com edital aberto para publicação em suas antologias até o dia 30/04/2017  31/05/2017 (prorrogado)! No site da editora você encontra maiores informações e os temas das antologias. Os autores selecionados concorrerão a um prêmio literário, o Strix! Na imagem abaixo vocês podem conferir as capas dos livros, que serão publicados no segundo semestre deste ano, e logo abaixo transcrevi do site da editora uma espécie de passo a passo da publicação, para os escritores que nunca publicaram com a Andross ou qualquer outra casa editorial, saberem como funciona o processo desde a seleção do conto até a confecção do livro.

 

 

Como Publicar

Abaixo você encontrará todas as etapas pelas quais seu texto passará até que seja publicado. 

  • Na página principal do site, você escolhe pelo tema e pela capa a coletânea da qual gostaria de participar.
  • Clique no botão “+ detalhes” para ler a sinopse e o regulamento.
  • Então você preenche os dados solicitados e anexa o seu texto em formato “.doc”.
  • Ele será enviado imediatamente para o organizador avaliar se a temática da obra se adequa à coletânea, se a estrutura da trama está bem desenvolvida, se possui personagens convincentes…
  • O organizador entra em contato com você por e­mail e, se precisar, sugere melhorias.
  • Você e o organizador trocam e­mails ajustando o texto até que ambos estejam satisfeitos com o resultado.
  • Nesse momento, a editora redige um contrato de edição e você o assina.
  • O texto, então, é remetido para o preparador de originais, que propõe melhorias como clareza, paragrafação mais limpa, eliminação de palavras repetidas em um período curto…
  • Você e o preparador de originais trocam e­mails ajustando o texto até que ambos estejam satisfeitos com o resultado.
  • O texto vai para a diagramação, que é o formato digital do livro.
  • A diagramação em pdf vai para todos os autores do livro, que leem seu próprio texto e, muitas vezes, do colega também e avisa a editora sobre possíveis erros que passaram pelos processos anteriores. O diagramador corrige os apontamentos e envia novamente o arquivo em pdf até que não haja mais erros.
  • Por último, o arquivo passa por um revisor antes de ir para a gráfica.

Esse processo minucioso que envolve vários profissionais e os próprios autores garante um resultado primoroso, sem erros. Confira o DEPOIMENTO de vários autores que já publicaram conosco.

 

Sobre a Andross Editora:

Em agosto de 2004, a Andross Editora nasceu no campus da Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo, para abrir espaço no mercado editorial aos alunos que não tinham condições de publicar seus primeiros textos. Iniciou as atividades com obras acadêmicas, mas cresceu e se mantém no mercado graças a um modelo de negócio diferenciado: a publicação de antologias.

 

Eu enviei dois contos, uma para a antologia Sem mais, o amor e outro para a Miríade. Estou na torcida!

 

[ATUALIZAÇÃO 02/05/2017] O prazo para o envio dos contos foi prorrogado até 31/05/2017. Saiba mais aqui.

janeiro 18, 2017

[CONTO] O MATADOR NOTURNO, PARTE 1

Sinopse: “Mulheres sendo assassinadas de forma dramática e dois policiais que precisam resolver suas diferenças para solucionar o mistério do assassino que só age sob a luz da lua: o matador noturno.”

O sangue escorria ladeira abaixo, como se o ser humano inerte a beira da calçada fosse uma fonte inesgotável do líquido escuro. Uma mulher, por volta dos trinta anos, pele levemente bronzeada e corpo voluptuoso jazia enquanto a noite ainda estava longe de terminar. Na estreita rua em que ocorrera o assassinato, janelas fechadas e nenhuma movimentação. O único barulho que se ouvia era de uma goteira, vinda de uma das marquises, denunciando uma chuva que caíra horas atrás.

Evangeline era apenas mais uma das vítimas do matador noturno. Desconfiava-se de que era um homem, ainda que não houvesse provas cabais do fato. Simplesmente corpos de mulheres do mesmo padrão estético de Evangeline eram encontrados em vielas silenciosas, no alto da madrugada. Elas sempre eram encontradas pouco depois do crime, a tempo suficiente de seu sangue pintar a rua e dar um ar dramático ao acontecimento.

– Se eu pudesse dar um palpite, – Rony disse timidamente – diria que trata-se de algo mais que um crime serial. Em todos os corpos haviam sinais de que existe uma mensagem que está prestes a ser desvendada. O matador noturno quer nos dizer algo, tenho certeza. Se não descobrirmos, mais mulheres serão mortas.

– Perdoe-me meu caro Rony, – o detetive Almeida disse sorrindo – mas você não disse nada além do que qualquer pessoa habituada a assistir filmes de suspense policial diria. Caso queira realmente ajudar, terá de decifrar o suposto enigma do matador noturno.

Rony assentiu, mesmo contrariado. Trabalhava com o detetive Almeida há poucos meses e não havia conseguido dar nenhuma pista importante ou concluir algum caso sem que o detetive tivesse de ajudá-lo. Na verdade, Almeida fazia quase todo o trabalho do jovem investigador.  Não gostava de ter Rony como parceiro, um jovem inexperiente e trapalhão. Nunca teve vocação para professor, gostava de trabalhar com quem sabia ou fazer tudo sozinho. No caso das mulheres assassinadas pelo matador noturno, ele sabia que pegaria o homem, se é que tratava-se de um. Rony não tinha a menor condição de resolver esse caso.

A perícia não dera nenhuma informação que acrescentasse algo de substancial à investigação. A morte de Evangeline fora como a das outras mulheres: cortes em artérias que proporcionassem todo o sangue que compunha o cenário favorito do matador, falta de sinais de violência sexual, falta de evidências de roubo e um souvenir colocado delicadamente sobre o peito da vítima, seguro pela mão do cadáver. Em Evangeline, o matador deixou uma rosa vermelha. Já foram encontradas outras flores, um cartão romântico, um chaveiro de coração e uma pequena garrafa com um barquinho de papel dentro dela. O melhor palpite até então era de que o matador poderia ter um interesse romântico pelas vítimas ou por alguém que guardasse semelhança com elas. Sua motivação poderia ser acabar com a vida de qualquer mulher que o lembrasse de sua amada. Mas era apenas um palpite, dentre muitos que a investigação já teve.

– Por onde continuamos, detetive? – quis saber Rony.

– Continuar? Essas mortes quase não deixam rastros que nos levem ao matador. Na verdade, acho que a pergunta mais correta seria por onde vamos começar.

Evangeline, diferente das outras vítimas, era uma conhecida modelo fotográfica, garota propaganda de uma famosa loja de biquínis da cidade. Seu rosto e, sobretudo, seu corpo, estampavam os catálogos de moda praia da região e decoravam as paredes da grife oceano. Uma pequena mudança no perfil social das mulheres assassinadas, que anteriormente era composto apenas por estudantes, vendedoras, uma costureira e uma professora de primário. Evangeline era a décima vítima. Sua morte, obviamente, causou comoção nas redes sociais. O caso foi ficando conhecido em todo o país, o que dificultava ainda mais a investigação.

– Almeida, eu quero esse matador preso o mais rápido possível! – disse o delegado. – Até o governador já ligou para mim querendo saber sobre o andamento da investigação.

– O governador? – perguntou Almeida, empalidecendo. – Ele não pode pensar que pressionando-nos será mais rápido encontrar o matador. Esse é o caso mais difícil em que já trabalhei, e o Rony bonitão ali não é de grande ajuda.

Rony, que ouvia atentamente o diálogo, baixou a cabeça, levemente constrangido pela humilhação. Havia se acostumado com o tratamento pouco cortês de Almeida, mas envergonhava-se com frequência com os comentários que o detetive fazia publicamente sobre sua aparência ou falta de talento para a profissão. Almeida fazia questão de que todos soubessem da incompetência do jovem rapaz.

– Na verdade, – disse o delegado – o governador ligou para o prefeito e o prefeito passou lá em casa ontem à noite e comentou sobre a urgência que o governador quer na resolução deste caso, enquanto jogávamos pôquer.

– Delegado, se me permite, – arriscou Rony, sob o olhar impaciente de Almeida – creio que estamos mais perto do matador noturno do que imaginamos. É só uma questão de observar os detalhes dos crimes, sobretudo o de Evangeline.

– Obrigado, Rony. Fico feliz que esteja se esforçando neste caso. – disse o delegado, mas a simpatia em sua voz não chegara aos seus olhos. Era o tipo de pessoa que sabia ser simpaticamente falsa.

– É, Rony, belo esforço, parabéns! – ironizou Almeida.

Com as falsas congratulações, terminaram mais um expediente sem que soubessem por onde procurar pelo matador noturno.

 

 

 

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