Maio 16, 2017

[RESENHA] O RETORNO A CRANFORD, BBC 2009

 

Para ver a resenha de Cranford, primeira parte da adaptação do romance homônimo de Elizabeth Gaskell, clique aqui.

 

O Retorno a Cranford é uma série produzida pela BBC no ano de 2009, em continuação a Cranford. São dois episódios com roteiro adaptado de três romances de Elizabeth Gaskel: Cranford, O Chalé de Moorland e The Cage at Cranford. Também utilizou os enredos de Minha Lady LudlowMr Harrison’s Confessions e o artigo de não-ficção The Last Generation in England, para dar continuidade às histórias dos personagens da série anterior.

A ferrovia continua sendo uma grande preocupação para as conservadoras habitantes de Cranford. Porém, a esta altura o projeto começa a sair do papel. O desafio de abrir a cidade para o progresso é grande, mas a maior preocupação é em manter as tradições.

 

A apresentação do projeto da linha férrea.

 

Nessa continuação temos a bela história de amor de Peggy Bell e William Buxton, adaptada do romance O Chalé de Moorland, publicado no Brasil pela Pedrazul Editora. Quem já leu, mas não assistiu a série, pode estranhar a mudança dos nomes: no livro o casal é Maggie Browne e Frank Buxton. Frank torna-se William, pois outro personagem, Dr. Harrison, tinha Frank como prenome. Maggie Browne virou Peggy Bell na série porque seu sobrenome poderia ser confundido com o de outro personagem, Capitão Brown.

 

Peggy Bell e William Buxton.

 

A essência da história original permanece na série, mas foram necessárias algumas mudanças e cortes para que o casal pudesse se encaixar no contexto de Cranford. Peggy é uma doce jovem que é preterida pela mãe em favor de seu irmão Edward, um rapaz egoísta e de caráter duvidoso. William retorna a Cranford  após a morte de sua mãe.

O jovem se encanta com a beleza de Peggy e eles logo se apaixonam. Em uma viagem experimental da linha de trem para a sociedade de Cranford, ele a pede em casamento e ela aceita. Quando o Sr. Buxton, pai de William, descobre os planos do casal, se opõe veementemente ao matrimônio por causa da origem humilde da moça. Ele tinha em vista um vantajoso casamento entre William e Ermínia, sua sobrinha e herdeira de uma grande fortuna. Além disso, o Sr. Buxton almeja um futuro político para seu filho, embora este queira seguir carreira como engenheiro. William, decidido em manter o seu compromisso com Peggy, sai de casa e passa a trabalhar com Capitão Brown na construção da linha de trem. É uma grande mudança na vida do personagem, tendo em vista que o trabalho na linha férrea é bastante árduo.

 

“Sempre fomos iguais no coração.”

 

Um dos momentos mais românticos desta adaptação é um breve diálogo entre Peggy e William quando ela observa que as mãos do rapaz, que eram tão delicadas, ficaram grossas e com tantos calos quanto às mãos dela. Então, diz: Somos iguais, no fim das contas”. E ele responde: “Nós sempre fomos iguais no coração”.

 

(um clipe romântico dos personagens porque… sim!)

 

Enquanto William trabalha na construção da linha férrea, Edward se torna agente dos negócios de Mr. Buxton. Contudo, age de forma corrupta. Aqui nossa mocinha também tem de escolher entre o amor e a família e o faz com toda a coerência e retidão de pensamento que testemunhamos em O Chalé de Moorland.

O Retorno a Cranford foi uma série tão boa quanto sua antecessora. Com um roteiro muito bem feito, todas as histórias e todos os personagens são importantes e inesquecíveis. Esta é mais uma obra fantástica da querida BBC, com a participação de atores consagrados como Judi Dench, Francesca Annis, Michelle Dockery, Jim Carter, Tom Hiddleston, dentre outros. Vale muito a pena assistir e ter na coleção!

 

 

 

 

REFERÊNCIA

https://en.wikipedia.org/wiki/Return_to_Cranford

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

 

Veja o trailer da adaptação abaixo (em inglês):

 

 

Abril 07, 2017

[RESENHA] UMA NOITE ESCURA, DE ELIZABETH GASKELL

Sinopse: “Ellinor Wilkins, a filha única de um rico advogado de Hamley, interior da Inglaterra, era ainda adolescente quando conheceu e se apaixonou pelo pupilo de Mr. Ness, Ralph Corbet, filho de uma família aristocrata. Alguns anos se passaram e Mr. Corbet, que tinha ido estudar em Londres, retorna e nota a diferença na menina magricela e tímida: ela tinha se tornado uma moça adorável. O noivado, embora contra a família do rapaz, foi inevitável. Miss Ellinor era tão feliz, que às vezes temia tanta felicidade! Contudo, numa noite escura, algo aconteceu e mudou a sua vida, e a de todos que a cercavam, para sempre.”

 

Quando Charles Dickens colocou a alcunha de pequena Sherazade em Elizabeth Gaskell ele não estava sendo apenas elogioso com a autora de quem foi editor. Certamente, tinha a visão de que as histórias dela venceriam as barreiras do tempo e ganhariam leitores mundo afora. E foi bem isso que aconteceu! Desde que li Margareth Hale (Norte e Sul), O Chalé de Moorland, Lizzie Leigh e Esposas e Filhas tenho comprovado a qualidade de Gaskell em nos envolver em suas narrativas. E com Uma Noite Escura não foi diferente.

 

Publicado originalmente em 1863, Uma Noite Escura inicia-se com a história de Mr. Wilkins, advogado e membro de uma família abastada, mas que não pertencia a uma linhagem nobre, o que era muito importante em seu meio, especialmente tratando-se da Inglaterra Vitoriana. Era sempre depreciado, embora circulasse nas mais altas rodas. Casa-se então com Lettice, uma moça de linhagem nobre, mas isso pouco muda a forma como as pessoas o veem. A esposa é modesta e caseira, não era amante da vida em sociedade, mas Edward Wilkins era um homem soberbo, sempre gastando mais do que deveria em extravagâncias que em nada acrescentavam ao seu intelecto.

 

Alguns anos depois de casados, Lettice morre deixando o marido e duas filhas, uma bebê e uma criança de seis anos. Certo tempo depois, a mais nova falece, restando da família Wilkins apenas Ellinor e seu pai.

 

Os dois tornam-se muito apegados e extremamente profundo era o afeto entre eles. A vida era pacata em Hamley, e os Wilkins tinham poucos amigos. Dentre eles estava Mr. Corbet, o qual viria a ser noivo de Ellinor assim que ela começara a transparecer a beleza da mocidade. Ellinor apaixona-se por ele ainda bem jovem, já o rapaz percebe a beleza e as virtudes dela após passar uma temporada afastado de Hamley, em Londres.

 

As páginas vão passando e, confesso, fui achando a história meio morna. Ellinor mostrava ter um caráter parecido ao de sua mãe, uma mulher simples e sensata. Já Mr. Corbet até parecia nutrir sentimentos verdadeiros pela moça, mas sua real paixão era a advocacia e o desejo de tornar-se juiz. Sendo o filho mais novo de sua família, ele reflete e chega à conclusão de que Ellinor não seria tão ruim assim para esposa, tendo em vista que era a única filha de um rico advogado. A família Corbet era de linhagem nobre e tinha em seu círculo pessoas que conheciam e ridicularizavam Mr. Wilkins. O homem era tido como vulgar em toda a parte, mas sua filha poderia vir a se tornar uma boa Mrs. Corbet. Pelo menos assim pensava o rapaz e, portanto, planejava conseguir a benção de sua família.

“As pessoas da vila neste condado imbecil caçoam de mim porque meu pai vai até os Plantagenetas em busca de sua árvore genealógica, e negligenciam Ellinor. Só aturam o pai porque o velho Wilkins era filho de sei lá quem. Muito pior para eles, mas melhor para mim neste caso. Estou acima desses preconceitos bobos e antiquados e ficarei feliz quando o momento apropriado chegar de fazer Ellinor minha mulher. Afinal, a filha de um advogado próspero não deve ser considerada um par inadequado para mim, filho caçula que sou. Ellinor será uma mulher estonteante dentro de três ou quatro anos, exatamente o tipo que meu pai admira. Que corpo, que braços torneados. Serei paciente, darei tempo ao tempo, e atentarei para as oportunidades e tudo vai dar certo.” (p. 39 e 40)

 

Em meio aos planos do matrimônio algo acontece. Sim, o tal acontecimento que remete ao título (principalmente ao original, A Dark Night’s Work, “o trabalho de uma noite escura”, em tradução literal para o português). Fique tranquilo, pois o acontecimento não será revelado nesta resenha! Apenas digo que foi uma grande surpresa, pois eu imaginei que seria algo diferente. Felizmente não procurei nem tropecei em spoilers sobre o livro, garantindo o meu susto com o acontecimento nesta primeira leitura.

 

Nem todos percebem ou sabem a verdadeira razão, mas a vida da família Wilkins e de um de seus empregados mais próximos, Dixon, muda completamente. Existe algo importante e sério pairando no ar e isso acaba despertando a atenção de Ralph Corbet. Ellinor se divide entre guardar um segredo ou revelá-lo àquele que será seu esposo a ponto de estremecer sua vitalidade. Com medo de que possa haver algo na família de sua noiva que prejudique seu futuro profissional, Mr. Corbet começa a dar sinais de que não está mais tão interessado em manter seu compromisso com Ellinor.

“Em resumo, o contraste com a outra arrumação perfeita e com um frescor admirável abateu impetuosamente sobre as percepções de Ralph, que eram mais críticas que compreensivas. E como seu amor sempre foi submetido ao intelecto, o rosto admirável de Ellinor e sua figura graciosa correndo ao seu encontro não recebeu sua aprovação, porque seu cabelo estava com um penteado cafona, seu corpete estava muito longo ou muito curto, as mangas largas ou apertadas demais para o padrão de moda ao qual seus olhos tinham sido acostumados ao esquadrinhar as damas de honra e as várias mulheres de alta estirpe no castelo de Stokely.” (p. 110)

 

“Ellinor, com o fino tato propiciado pelo amor, tinha descoberto a irritação do seu amado nas várias e pequenas impropriedades com a família à época de sua segunda visita no outono anterior, e se empenhou em tornar tudo tão perfeito quanto possível antes que retornasse. Mas ela passava por maus bocados. Pela primeira vez na vida havia uma escassez de dinheiro.” (p. 111)

 

“Que proveito teria em manter o noivado com Ellinor? Teria uma esposa frágil para cuidar, além das despesas comuns da vida matrimonial. Um sogro, cujo caráter, na melhor das hipóteses, era respeitado apenas localmente e até isso estava se perdendo dia após dia em razão de hábitos sensuais e vulgares; um homem também, que transitava de forma esquisita da viva jovialidade ao enfado mal-humorado. Ademais, duvidava se, no caso de evidente variação na prosperidade da família, a fortuna a ser paga na ocasião do casamento com Ellinor seria acessível. Sobretudo, e ao redor de tudo, pairava a sombra de uma desgraça não revelada, que poderia vir à tona a qualquer momento e emaranhá-lo.” (p. 114)

 

A partir daí, a história que eu achava ser morna toma contornos muito interessantes. Todo o suspense em torno do acontecimento torna a leitura rápida e a ansiedade por saber como tudo vai acabar fez com que eu terminasse o livro rapidinho! Uma Noite Escura é mais uma grande história de Elizabeth Gaskell que nós, leitores brasileiros, agora temos o prazer e a oportunidade de ler em nossa língua.

 

Tenho na fila de leitura Cranford e todo e qualquer outro título de Gaskell a ser publicado em português, certamente pela Pedrazul Editora, que tem se colocado como a casa dos clássicos ingleses no Brasil.

 

 

Título: Uma Noite Escura
Autora: Elizabeth Gaskell
Tradutora: Thaynée Mendes Vieira
Editora: Pedrazul
Páginas: 212

 

Compre no site da Pedrazul Editora e ganhe lindos marcadores.

Fevereiro 28, 2017

[RESENHA] CRANFORD, ADAPTAÇÃO DA BBC

Cranford é uma série em cinco episódios feita pela BBC no ano de 2007. Foram adaptados três romances de Elisabeth Gaskell para a produção: Cranford, My Lady Ludlow e Mr. Harrison’s Confessions; além de um artigo de não-ficção chamado The Last Generation in England, também da autora, como fonte de pesquisa.

A história começa em junho de 1842: Miss Matty e sua irmã Deborah aguardam a chegada de Mary Smith, vinda de Manchester para uma temporada em Cranford. As duas irmãs são personagens centrais da cidade. Miss Deborah é tida como uma espécie de guardiã da moral, dos bons costumes e das tradições de Cranford.

Miss Matty, Mary Smith e Deborah Jenkyns

 

Cranford é a típica cidade pequena em que todo mundo sabe da vida de todo mundo. É uma localidade em que todos têm muito orgulho de suas tradições e fazem o possível para mantê-las. As mulheres têm um papel de destaque na sociedade local, em sua maioria são viúvas ou solteiras.

Logo no começo do primeiro episódio, Miss Matty diz: “Em Cranford, tudo pode acontecer…”. Você duvida que alguma coisa de relevante possa realmente acontecer em um lugar tão pacato, mas depois acaba percebendo que Miss Matty sabe muito bem o que está dizendo.

A chegada de um novo médico, Dr. Harrison, movimenta a cidade. Jovem, bonito e solteiro, ele tem tudo para abalar o coração das mulheres da cidade, o que pode causar muita confusão. Para completar, a iminência de uma linha de trem cortar a cidade preocupa as Sras. de Cranford, pois com isso viriam forasteiros que poderiam pôr em risco o equilíbrio do lugarejo.

Dr. Harrison

 

“Tudo ao nosso redor, a Inglaterra muda… Mas Cranford permanece igual. Suas mulheres são como Amazonas…” (Mary Smith)

Mulheres de Cranford.

 

Também conhecemos o jovem Harry, membro de uma família numerosa, com um pai omisso, que vê sua vida mudar quando Mr. Carter, administrador das propriedades de Lady Ludlow, lhe oferece trabalho e o ensina a ler.

Harry e Mr. Carter

 

Lady Ludlow é uma senhora rica e solitária que passa os seus dias a espera do retorno de seu filho Septimus, que há muito tempo está fora de casa. Não fica satisfeita ao ver que Harry pode ascender socialmente por meio do estudo e vai fazer o possível para impedi-lo. Ela é a típica personagem que você começa detestando, mas depois sente certa empatia por sua história. Foi uma das personagens que mais me surpreendeu, quando assisti pela primeira vez.

Lady Ludlow

 

Muitas histórias são contadas em Cranford, todas igualmente belas. Quem mora em cidade pequena se reconhece e reconhece alguns vizinhos nela. A BBC (como sempre) fez um belo trabalho nesta simpática adaptação que tem no elenco nomes consagrados como Judi Dench, Michael Gambon, Eileen Atkins, Jim Carter dentre outros. Vale muito a pena assistir e ter na coleção!

 

 

 

 

REFERÊNCIA:

https://en.wikipedia.org/wiki/Cranford_(TV_series)

 

Resenha em colaboração com o blog Escritoras Inglesas.

 

Cranford é uma história para assistir e também para ler. Sim, temos o livro de Elizabeth Gaskel publicado em português pela Pedrazul Editora! Confira aqui: Cranford.

Em breve falarei mais sobre o livro e também sobre a segunda parte da adaptação da BBC, O Retorno a Cranford.

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